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Cicatriz
Prólogo
Abri os olhos lentamente. Tentei me mexer, mas meus braços não me obedeceram. Todo o meu corpo doía.
-Ela acordou - ouvi uma voz familiar dizer.
Meus pais entraram no meu campo de visão e vieram para o meu lado. Minha mãe estava chorando e soluçando alto enquanto que meu pai tinha os olhos vermelhos e cansados.
-Mãe, pai... - comecei a dizer, percebendo minha voz sumir aos poucos - o que aconteceu? Cadê todo mundo?
Eles desviaram o olhar.
-O que aconteceu? - perguntei novamente já sentindo um terror apavorante se espalhar dentro de mim.
-Gabi! - uma nova voz exclamou.
Passos largos aproximaram-se de onde eu estava.
Era a Laís. Ela não me olhou nos olhos, só pegou a minha mão e a apertou, como se quisesse me dizer algo. Tentei sorrir para ela, porém, não consegui.
-Laís...o que aconteceu? Por favor, me diga.
Ela não falou nada, mas vi em seus olhos uma expressão de medo e angústia.
Algo estava errado. Muito errado. Por que ninguém queria me contar!?
Senti Laís apertar novamente a minha mão.
-Não adianta ficar escondendo isso. Ela precisa saber.
Capítulo 1
Fevereiro. Exatamente na primeira semana desse mês, minhas aulas começaram.
Felizmente, minha escola seria a mesma em que eu fizera o 1º ao 9º ano, só o colégio que seria em outro bairro.
Tomei meu café da manhã às pressas e quando faltava 15 minutos para as sete horas, meu pai me levou ao colégio. No caminho, eu não reparei em nada à minha volta, já que só tinha espaço na minha mente para pensar em como seria o ensino médio.
Próxima de uma praça com um imenso campo de futebol, estava minha escola. O lugar possuía dois andares e estava pintado de branco e azul, como se houvesse uma harmonia entre as cores, o que, estranhamente, me deixou contente. Me despedi de meu pai rapidamente e segui para a entrada.
Havia um painel gigante mostrando os anos e os alunos de cada turma. Assim que encontrei meu nome, no 1º A, segui por um corredor à esquerda e entrei no terceiro cômodo. Finalmente, minha sala.
-Gabi!!
Eu olhei na direção de onde viera o som e vi minhas duas melhores amigas, Isabela e Bruna, olhando sorridentes para mim. Corri até elas e as abracei. Algumas vezes eu tenho esses ataques de alegria, mas fazer o quê!? Eu sou assim mesmo.
Reparei novamente na Isabela e quase arregalei os olhos.
-Bel, você cresceu quanto nessas férias!? Eu era mais alta que você no ano passado!
-Era, Gabi - ela respondeu rindo - Sabe qual a minha altura agora?
-Fala logo Bel...
-Um e setenta e cinco!
-É...parece que eu continuo sendo a mais baixa - Bruna retrucou - Um metro e sessenta e oito. Três centímetros mais baixa que você Gabi. Isso não é justo! Se continuar assim, vou acabar virando um emo em crise.
Nós três rimos. A Bruna sempre falava essas besteiras...
-Mas é sério! Lembram da festa de halloween que fomos ano passado? Eu fiquei muito bem de emo.
-Bruna, você é impossível mesmo - eu disse não conseguindo contêr o riso.
Nesse momento, um homem alto e magro, que segurava uma pasta azul, entrou na sala, fechou a porta e pediu para todos se sentarem.
Eu escolhi uma carteira perto de uma janela que mostrava o pátio e, radiante, olhei rapidamente para o professor e os alunos. Finalmente a aula iria começar.
Primeiro ano, lá vamos nós!
Capítulo 2
Enquanto todos buscavam uma carteira e mais alguns alunos chegavam, eu continuei conversando com as duas.
-Isabela, Gabi, esse ano vai ter dois novos alunos na nossa sala. Só que pelo que vi, eles ainda não chegaram...
-E como você sabe disso Bruna? - Isabela perguntou revirando os olhos.
Ela pigarreou e respondeu com um olhar confiante:
-Como futura representante de sala, hoje eu cheguei meia hora antes de começar as aulas e fiquei analisando o painel com a lista de nomes de todos da nossa turma. Aí, vi o nome de um menino e uma menina que não eram da nossa sala no 9º ano. Ah, e o sobrenome deles são iguais, o que quer dizer são irmãos e gêmeos!
-Você não cansou de ser representante de sala não, Bruna? - eu perguntei suspirando - pelo que me lembro, você se candidata desde o sétimo ano.
-E me elegeram todas as vezes - ela disse com um sorriso triunfante.
Eu e Isabela sorrimos também.
Sinceramente, eu não consigo entender o que a Bruna via de bom em ser representante de sala. Desde que eu a conhecera, no 5º ano, a Bruna sempre fora competitiva e adorava ganhar, não importava se fosse em uma prova, um simples jogo ou uma longa competição. E como o cabelo dela é preto e liso, ela sempre me lembrava uma ganhadora invencível; exceto nas ocasiões que ela resolvia pintar o cabelo de outra cor, como no 9º ano, quando ela pintou o cabelo - e até a sombrancelha! - de vermelho. Lembro-me que até alguns professores não conseguiram dar aula direito quando a viram.
A Isabela é a única de nós 3 que tem os olhos verdes, o que combina com o seu cabelo castanho e o que ela mais ama, acho que desde o primeiro ano, são jogos de computador e roupas coloridas cheias de frases estranhas. Eu, que tenho o cabelo castanho também, mas os olhos azuis, como os da Bruna, prefiro cantar e não vivo sem mangás shojos e animes de aventura e ação. Enfim, uma cantora otaku assumida.
O professor pediu silêncio à sala e se apresentou. Seu nome era Hugo e ele daria aula para nós de matemática. Essa era uma das minhas matérias preferidas, pois bastava encontrar o "x" da questão. Bom, desde que não tivesse um "y" ou "z" para atrapalhar minha vida.
Nesse instante, houve duas batidas inesperadas na porta, a maçaneta girou e minha vida mudou por completo.
Capítulo 3
Os dois entaram e foram diretamente falar com o Hugo. De onde eu estava, era impossível entender o que eles conversavam. Imaginei que deveria ser sobre a entrada deles depois do horário, para perguntar se podiam participar da primeira aula ou não.
-Esses são os novatos - escutei a Bruna sussurrando atrás de mim.
O professor levantou-se, foi para o lado dos dois garotos e pediu a atenção de todos.
-Pessoal, quero que deem boas vindas aos seus novos colegas de sala.
A garota olhou rapidamente para o menino ao seu lado e depois se apresentou sorrindo:
-Meu nome é Laís e esse é meu irmão...
-Eric - o garoto a interrompeu sorrindo também.
Em seguida, eles foram sentar-se em duas carteiras próximas à porta. Eu não consegui tirar os olhos deles por um momento, como se eles tivessem uma aura hipnotizante, porém, aconchegante.
A garota, Laís, usava uma calça jeans e uma blusa preta que combinava com a cor de seu cabelo. Ela era alta, mas só um pouco mais baixa que o irmão. O garoto, que usava uma calça jeans escura, tinha o cabelo castanho como se fosse bronze reluzente. Ele havia dito apenas uma palavra, no entanto, sua voz soou tão explêndida para mim que eu não consegui tirar seu nome da minha mente. Eric, Eric, Eric...
O sinal tocou tão de repente que, quando eu voltei minha atenção à aula, a nova matéria já estava toda no quadro. Copiei como uma louca o que havia ali escrito e por isso, nem escutei a Isabela me chamando até que ela veio ao meu lado e me encarou.
-Alôô, Terra para Gabi. Eu sei que tem várias árvores no pátio, mas não precisava ficar contando elas durante toda a aula e ainda me ignorar depois.
-Eu não estava contando as árvores!
-As folhas delas então - Bruna disse rindo da própria piada.
Eu ri também. Acho que elas ainda esperavam uma resposta minha, porém, eu não sabia mesmo o que dizer. Felizmente, para minha sorte, uma mulher morena e de cabelos cacheados entrou na sala e logo escreveu no quadro o nome da matéria que ela ensinaria.
Acabei sendo salva pela física!
Capítulo 4
A professora de física, Alice, iniciou a aula com uma revisão da matéria do 9º ano. Ela era muito divertida e sua aula passou tão depressa que nem acreditei quando o sinal para o intervalo tocou.
No recreio, eu, Bruna e Isabela exploramos o imenso pátio e sentamos em um banco próximo a um alto e antigo pinheiro para ver um jogo de vôlei entre quatro alunos do 2º ano. Quem não estava nos deixando em paz era a Bruna, a cada ponto que um dos times fazia, ela quase delirava de emoção, como se fosse ela que estivesse jogando.
Nós três pretendíamos jogar vôlei ou peteca também, mas o intervalo durava apenas quinze minutos e só deu tempo de lanchar. Eu não havia visto a Laís ou o Eric durante esse tempo, mesmo assim, pretendia falar com eles, para ver se eram realmente legais ou não. O problema é que eu não queria ser só mais uma que apenas quer falar com os novatos bem... por eles serem novatos. Eu precisava de algum assunto a mais.
As outras três aulas seguintes, duas de geografia e outra de matemática, foram normais e até um pouco entendiantes. Eu ainda queria conversar com o Eric e sua irmã, só não tinha ideia sobre o que. Porém, sempre há o próximo dia!
As aulas acabaram meio-dia e quinze; eu guardei meus objetos, peguei meu fichário e fui com minhas amigas para a saída.
A manhã estava quente e o céu possuía apenas algumas nuvens brancas como algodão. Enquanto esperava meu pai ou minha mãe, conversei com a Isabela e a Bruna sobre tudo - ou quase tudo - que ocorrera durante o dia.
Depois de alguns minutos, Bruna foi embora e, em seguida, a Isabela. Ainda havia vários alunos ali, mas eu não vi nenhum da minha sala. Sentei-me em um banco na sombra e, para me distrair, fiquei olhando os estudantes e carros que passavam.
Após algum tempo, um carro prata parou perto de onde eu estava e uma pessoa desceu de dentro dele. Eu olhei para ela e não consegui acreditar em quem vi.
Capítulo 5
-Á sama! - eu gritei surpresa e eufórica.
Sem pensar duas vezes, deixei meu fichário no banco e corri até ele.
-A quanto tempo Gabi - ele disse sorrindo e vindo na minha direção.
Nós nos abraçamos e depois eu perguntei à ele:
-Á sama, o que você está fazendo aqui? Você não tinha ido morar em São Paulo?
-Tinha, mas aquele lugar estava me irritando. Tem gente que não acaba mais. Parece um formigueiro humano!
Eu continuei sorrindo. Fazia tanto tempo que eu não o via e ele não havia mudado quase nada...
-Cara, seu cabelo era mais curto ano passado. Você está quase parecendo um emo assim.
-E o que você tem contra eles?
-Eu!? Nada - respondi quase arregalando os olhos.
Ele riu.
-Pegue suas coisas que hoje sou eu que vou te levar para casa. Seu pai me disse que você iria adorar me ver assim de repente e ele estava certo.
-Ah, Á sama... eu sabia que você não ia conseguir ficar muito tempo longe de mim.
-Gabi, Gabi... foi você que veio correndo e me agarrou agora mesmo.
-Aquilo foi um abraço!
Ele só revirou os olhos e riu novamente.
Fui pegar minhas coisas e depois entrei no carro.
O Álvaro é meu vizinho desde que nasci e somos amigos há muito tempo. Ano passado, quando ele falou que ia se mudar para São Paulo, nem acreditei na hora que ouvi isso. Por isso, quando faltava apenas alguns dias para ele ir, nós acabamos ficando. E foi meu primeiro - e único! - beijo. Não foi exatamente por eu gostar (daquele jeito inexplicável) dele, porém, foi como se eu estivesse perdendo algo extremamente precioso e, em um ato desesperado, busquei no beijo uma maneira de recuperar aquela perda. Acabamos ficando só nisso mesmo. Somo amigos há tanto tempo que não combinaríamos como namorados.
Também, mesmo ele sendo três anos mais velho que eu, um dos gostos que temos em comum é a paixão por animes. Por isso, sempre o chamo de Á sama.
Conversamos sobre várias coisas no caminho à minha casa, principalmente sobre minha escola, São Paulo e animes, é claro. Depois de passarmos por uma sorveteria e um condomínio horizontal, eu avistei minha casa.
-Chegamos - eu disse.
Álvaro olhou para mim e falou com os olhos praticamente brilhando de entusiasmo:
-Ah Gabi, eu tenho uma suspresa para você. Você vai adorar.
-O que é?
-Espere e verá.
Capítulo 6
Assim que entramos na minha casa, o almoço já estava pronto e eu vi minha mãe, que ainda estava com a roupa do trabalho, ajudando a faxineira, Helena, a colocar os pratos na mesa. Álvaro as cumprimentou e minha mãe o chamou para almoçar conosco.
A comida estava ótima! Helena havia preparado um dos meus pratos preferidos: lasanha e também suco de bacaxi com hortelã.
Mais tarde, perguntei novamente ao Á sama sobre a suspresa e ele disse que estava em sua casa. Já que ele era meu vizinho, nós dois fomos até onde ele morava. Fazia muito tempo que eu não ia ali, no entanto, a casa estava com uma aparência simples e agradável, como sempre. Quando chegamos à sala, ele me disse para esperar ali. Enquanto ele foi para um dos cômodos, sentei-me em um dos sofás e esperei.
Em menos de dois minutos, Álvaro voltou com um embrulho prata nas mãos.
-Abra - ele falou sorrindo e entregando-me o presente.
Sem cerimônia e morrendo de curiosidade, desembrulhei o pacote às pressas e quase dei um grito de emoção quando vi o que era.
-Á sama! Não acredito que você comprou para mim um cosplay da Yuuki de Vampire Knight! Eu adorei!
Eu o abracei tão de repente que ele quase levou um susto. Mesmo assim, retribuiu o abraço.
Vampire Knight é um dos meus mangás preferidos e eu estava procurando o cosplay há tempos, porém, nunca achava o meu número (não que eu deteste, mas esse é um dos problemas em ser alta). E, para minha suspresa, meu melhor amigo, que eu não via há meses, achou o cosplay que eu tanto queria. Quase explodi de felicidade.
Fui ao banheiro para experimentá-lo. Ele me serviu perfeitamente. Álvaro também vestiu um cosplay que havia comprado do Itachi, da Akatsuki e tiramos fotos até acabar com a bateria da câmera. Era muito bom ter meu melhor amigo de volta e eu mal podia esperar para falar com a Bruna e a Isabela sobre o cosplay e a vinda do Á sama.
Na manhã seguinte, acordei mais cedo que de costume. Eu me sentia completamente disposta e até cantarolei uma música em inglês que ouvi - e viciei - na tarde anterior.
Fui mais cedo para a escola e assim que cheguei, olhei pasma em volta. Poucos alunos tinham chegado e a paz e o silêncio reinavam ali. Acho que nunca vi um colégio tão calmo como o meu naquele momento.
Quando cheguei na minha sala, vi o Diego dormindo em sua carteira no fim da terceira fila, a Camila e a Ana conversando e, para minha surpresa, a Laís estava sozinha sentada em seu lugar lendo um mangá que eu conhecia muito bem.
Sorri. É agora!
Capítulo 7
Aproximei-me. Assim que ela me viu, eu falei:
-Oi Laís! Meu nome é Gabriela, mas pode me chamar só de Gabi mesmo. Eu vi que você está lendo um dos meus mangás preferidos, Nana.
-Você gosta de mangás também!? - ela me interrompeu sorrindo - Em que volume você está?
Já tínhamos um gosto em comum, isso é um bom começo.
-No 12 e você?
-Comprei ontem o 13. Meu irmão também adora animes! Já assistiu ou leu Bleach?
-Não, esse eu nunca vi.
-É muito bom - ouvi uma voz dizer atrás de mim.
Eu quase levei um susto. Virei-me de repente e lá estava ele sorrindo. Não sei exatamente o que senti na hora, porém meu coração acelerou tão rápido que achei que fosse desmaiar. De perto, o Eric me lembrou um ser divino que você não consegue parar de admirar. E aquele sorriso... não encontrei palavras para descrevê-lo.
Continuei conversando com eles por mais alguns minutos. Assim que a Bruna chegou, ela me olhou confusa mas se juntou à conversa. Os dois eram muito animados e senti como se nos conhecessemos há muito tempo.
Quando a Isabela entrou na sala, não nos viu ali perto da porta e foi direto sentar-se em seu lugar. Ela suspirou e desabou de sono ali. Aqueles jogos online estavam acabando com ela.
Somente às sete horas, quando o professor de história chegou, todos foram para seus lugares. A Isabela ainda estava dormindo, no entanto eu consegui acordá-la a tempo, antes que ela fosse expulsa da sala.
O dia passou calmamente. No intervalo, eu e Bruna jogamos peteca contra o Eric e o Diego. Eles eram muito bons, mas nós ganhamos dos garotos.
Finalmente, depois de aproximadamente quatro horas, o sinal soou, anunciando o fim das aulas daquela manhã. Na saída, eu me surpreendi quando o Eric e a Laís chamaram eu e minhas amigas para irem ao shopping. Somente a Bruna disse que não podia ir. Eu disse sim na hora. Era impossível dizer não à ele com aquele sorriso.
Assim que cheguei em casa, pareci flutuar até a cozinha e um sentimento que eu nunca havia experimentado antes com tanta intensidade, se apoderou de mim. Só precisava descobrir, antes que algo de errado acontecesse à nossa amizade, se era realmente verdadeiro o que sentia por ele - não consigo nem dizer seu nome sem ficar repetindo inúmeras vezes.
Tínhamos combinado de nos encontrar na portaria central do shopping às três horas. Quando cheguei, vi a Laís e a Isabela olhando algumas blusas na vitrine de uma loja e fui até onde elas estavam. Perguntei sobre o Eric e a Laís falou que ele estava no Play Center, uma área de jogos próxima de onde estávamos. Então, fomos até lá.
Assim que o vimos, percebemos que ele estava cantando uma música no karaokê. Sua voz estava em uma sincronia tão perfeita com a letra da música que eu não consegui parar de ficar olhando fascinada para ele. Jamais havia visto uma pessoa cantar com tanta paixão assim! Era como se só houvesse o Eric no centro do mundo e a sua voz fosse o que gerava vida em tudo à sua volta. Nunca tinha me encantado assim por alguém em toda minha vida!
Mesmo com o coração aos pulos, eu tinha certeza de uma coisa: precisava ir até onde ele estava.
Capítulo 8
Ignorei a Laís e a Isabela ao meu lado e, como se estivesse hipnotiza, caminhei até o lugar em que o Eric estava. Eu o chamei e ele se virou sorrindo para mim. Com um ligeiro movimento nos lábios, tentei retribuir o sorriso mas eu ainda estava em um estado quase hipnótico e nem sei se consegui sorrir direito.
Me aproximei dele e, por um momento, não sabia o que dizer. Apenas quando vi a nota que ele tirou no karaokê, falei a primeira coisa que me veio à mente:
-Você canta muito bem mesmo Eric! E essa música era em inglês ainda.
-Valeu Gabi! Hum... vamos cantar uma música juntos, hoje na aula você disse que também adora cantar.
-Claro! - falei suspresa e quase gaguejando.
Eu escolhi uma música que ouvi no dia anterior e que não conseguia tirá-la da cabeça: Love is Here - Sonohra
Peguei um dos microfones e esperei a letra aparecer na tela. O som do piano do início da música começou e, em segundos, entramos finalmente em cena.
It is a rainy day and I
Give all my sunshine
Everything is gray but
I see You in my mind
I can light a
light and I know
I will soon be okay(...)
A melodia pareceu fluir na minha mente. Quando a música acabou, recebemos a nota 99 e, para meu espanto, um grupo de pessoas - incluindo Isabela e a Laís - estavam ao nosso redor nos parabenizando. Tenho certeza que fiquei vermelha enquanto olhava para todos.
Ficamos no shopping até as seis da tarde. Quando seguimos para a saída, a Laís e a Bel foram comprar sorvete enquanto eu e Eric esperávamos nossos pais. Eu ainda não tinha coragem de dizer aquilo ao Eric e ficávamos sempre conversando de mangás ou assuntos bobos; mas sozinha ali com ele, com poucas pessoas por perto eu... tinha que falar.
Capítulo 9
Estávamos sentados em silêncio em um dos bancos em frente ao estacionamento, eu estava tentando criar coragem para dizer, porém, quando abri a boca, Eric disse, me olhando apreensivo:
-Gabi, você tá muito quieta sabia? Foi a primeira vez que você cantou num karaokê assim?
Arregalei os olhos. Ele estava achando que era por isso que eu não falava nada!?
-Não Eric, não é por isso...
Suspirei. Ele ainda estava esperando eu dizer algo, então, engoli em seco e tentando controlar as batidas do meu coração, - só tentando mesmo porque ele estava a mil, ou melhor, a um milhão (certo, exagerei, eu sei) - falei olhando nos olhos dele:
-Eric, eu sei que a gente se conheceu ontem mas, sabe... eu te achei muito legal, como se a gente se conhecesse há vários anos...
-Valeu Gabi! - ele retrucou sorrindo radiante.
Eu quase gritei para ele parar de sorrir, eu não consigo me concentrar direito assim!
-Calma, eu ainda não acabei de falar - agora tive que desviar os olhos mesmo e preferi ver as pessoas que saiam e entravam no shopping - Bom, é que eu... comecei a gostar mesmo de você.
O Eric aproximou-se de mim e virou o meu rosto na direção do dele. Encarei seus tranquilos olhos azuis e ouvi o que ele disse:
-Então era por isso que você estava tão preocupada assim? Eu também de acho demais Gabi e te juro que nunca me dei bem assim tão rápido com alguém.
Ele ainda não estava ententendo. Não é possível que ele queria que eu dissesse o que sentia com todas as palavras!? Eu não sou boa quando se trata de dizer coisas sentimentais. Na verdade, prefiro encarar dez provas em um único dia ao invés de passar por uma situação embaraçosa como essa - certo, dez é muito, quatro já é suficiente.
-Eric, você não entendeu - argumentei colocando as mãos nos seus ombros - eu... gosto mesmo de você (Pronto falei!). É, exatamente daquele jeito enlouquecedor mesmo, e eu não consegui parar de pensar em você hoje o dia inteiro, por isso, eu tinha que falar antes que eu ficasse maluca!
Depois disso eu fiz uma coisa errada. Tentei me controlar mas agi por impulso. Um segundo depois de dizer aquilo, o beijei tão apaixonadamente que senti como se estivesse no melhor sonho da minha vida.
Porém, a reação seguinte do Eric foi que comprovou realmente que eu fiz algo que não devia. O sonho se transformou em pesadelo.
Capítulo 10
Ele se afastou um pouco de mim e me olhou confuso e perplexo. Droga! Por que fui fazer aquilo!? Não consegui olhá-lo nos olhos e o Eric também tentava desviar sua atenção para outra coisa. Ficamos em um silêncio angustiante. Acho que nunca me senti tão mal em toda minha vida.
Eu precisava sair dali e esfriar a cabeça. Levantei-me e disse rapidamente à ele:
-Eu vou procurar as meninas. E bem... desculpe por agir desse jeito.
-Não! Espere Gabi - ele falou me segurando pelo braço e ficando de pé ao meu lado.
Só tive tempo de olhar pasma para ele.
-Desculpe também Gabi, é que você me pegou de suspresa. Escuta, me diz uma coisa, você está namorando? Por que ontem apareceu aquele cara com quem você foi embora na saída e ele parecia ser só um pouco mais velho que você.
-Ele é só meu amigo.
-Ah... bem, ontem os dois não pareceram só amigos.
-Eric! - eu exclamei surpresa e quase rindo.
Mais uma pessoa havia nos confundido como namorados, acho que vou começar a andar com uma blusa escrito: "somente amigos" quando for ir a algum lugar com o Á sama. Algumas vezes parecemos mesmo namorados mas só somos amigos. Por que certas pessoas não entendiam isso?
-E você, tem namorada? - perguntei engolindo em seco.
-Não, mas eu pensei que você tinha e por isso... Bom, você entendeu né?
Então foi só por isso!? Eu já ia dizer mais alguma coisa à ele porém a Laís e a Isabela chegaram com os sorvetes. Não sei se elas perceberam alguma coisa, mesmo assim, não queria falar nada para nenhuma delas, por enquanto.
Isabela foi a primeira a ir embora, em seguida, eu. Quando me despedi com um abraço da Laís e depois do Eric, ele falou sussurrando no meu ouvido:
-Amanhã a gente se fala viu? Eu não te respondi direito sobre aquilo.
Capítulo 11
Assim que ouvi o que ele disse, tenho certeza que fiquei rosa, ou melhor, vermelha, muito vermelha. Entrei no carro do meu pai e tentei parecer o mais natural possível. Minha mente estava uma confusão e um milhão de perguntas passavam por ela: o que o Eric irá me responder amanhã? E eu ainda o beijei de repente... porque não consigo ser pelo menos um pouco normal? Ele deve achar que sou uma estranha mesmo.
-Gabi, você vem ou não?
Olhei confusa para o meu pai e vi que já havíamos chegado em casa. Saí do carro e tentei ignorar o olhar suspeito dele. Acho que meu pai achou que eu estava querendo ir a algum lugar ou, sei lá, passar umas férias dentro do carro. Ri com esse pensamento. Agora sim eu devia estar parecendo uma maluca.
Um pouco antes de entrar em casa, ouvi uma voz atrás de mim dizendo apressadamente:
-Gabi, espere!
Me virei e vi minha vizinha, Amanda, correndo em minha direção.
-Finalmente te achei! Aqui - ela disse me entregando um papel roxo - é meu convite de aniversário de 15 anos.
Abri o envelope e li que a festa seria em menos de duas semanas.
-Não esqueça de chamar a Bruna e a Bel viu?
-Claro que chamo!
-Mas e aí Gabi, o que você estava fazendo hoje à tarde?
Eu revirei os olhos. Começou mais uma seção de interrogatório da Amanda. Sempre me questionei de onde ela tirava tanta imaginação para aquelas perguntas...
-No shopping.
-Com o Álvaro? Nossa Gabi, ele chegou ontem e você já está tendo um caso com ele.
-Eu o quê!? Eu não falei que fui com ele! Na verdade, eu fui com meus amigos.
Ela olhou tristonha para mim, acho que finalmente percebeu que não conseguiria uma fofoca minha para expalhar por toda a vizinhança. Antes que continuasse com mais perguntas, me despedi às pressas dela e entrei em casa.
Para me distrair, vi TV, naveguei na internet e ouvi música. Por mais que eu tentasse, não conseguia tirar da cabeça o que o Eric me disse na saída do shopping. E amanhã parecia estar muito longe mesmo.
Acabei dormindo com esse pensamento.
Quarta-feira. Assim que meu despertador tocou, abri os olhos e me levantei rapidamente. Finalmente, é hoje.
Não falei muita coisa durante o café da manhã e nem com minha mãe enquanto ela me levava para a escola. Quando cheguei, fui correndo até minha sala. Olhei para todos os alunos e vi que ele ainda não tinha chegado. Que decepção. Corri tanto à toa!
Sentei-me na minha carteira e fiquei olhando para o silêncio e a tranquilidade do pátio. Cada vez mais alunos entravam na sala e somente um pouco antes da professora de português entrar, Eric e Laís chegaram. Não consegui prestar atenção em nada que a Camila nos dizia e, como era a primeira aula da semana dela, nem liguei muito sobre o que seria a matéria. Eu olhava a cada minuto na direção do Eric mas até agora ele não havia olhado nenhuma vez para mim. Essa não! E se fosse isso que ele queria me dizer ou... mostar? Senti meu mundo desabar por completo.
Nesse momento, o sinal tocou e reparei que o Eric olhou finalmente para mim. Não consegui decifrar seu olhar mas o vi levantando-se e vindo decidido na minha direção.
Capítulo 12
Prendi a respiração por um momento e só consegui olhar hipnotizada para ele. Eric sentou-se em uma carteira vazia ao meu lado e falou olhando diretamente nos meus olhos:
-Gabi, aqui tem muita gente agora mas, no intervalo, me encontre perto daqueles pinheiros antigos ao lado da quadra de esportes. Pode ser?
-Claro - respondi sem pensar.
Ele sorriu e foi sentar-se em seu lugar.
Alguém me cutucou nas costas e vi Bruna me me encarando e atrás dela a Isabela olhando na minha direção também.
-Muito bem Gabi. Parece que você está escondendo alguma coisa de nós ou sou eu que estou imaginando coisas.
-Fala logo o que é Gabi! Eu odeio suspense!
Suspirei. Por que a curiosidade sempre está presente na essência humana? Isso é algo que nunca vou entender.
-Ele só veio falar comigo sobre uma coisa que nós conversamos ontem no shopping.
Achei melhor simplificar o máximo possível, no entanto, pelos olhares delas, isso não seria suficiente.
Assim que a professora de física entrou na sala, eu disse à elas por fim:
-Olha gente, eu estou falando sério, mas se quiserem eu explico direito depois.
No intervalo, disse às duas que tinha esquecido o lanche na sala e fui ao encontro do Eric. Havia apenas um jogo de basquete acontecendo na quadra e poucos alunos por perto. Olhei rapidamente em volta e o vi sentado em um banco às sombras de uma árvore.
Me aproximei e logo que o Eric me viu, ele levantou-se e veio ao meu encontro.
Estávamos embaixo de um Ipê amarelo e camuflados pela paisagem ao nosso redor. Não éramos mais importantes que os pássaros, o farfalhar das folhas ou o próprio vento. Todos nós parecíamos estavar unidos por uma força incompreencível, um laço de existência inquebrável.
-Sabe Gabi - ele começou - ontem você me pegou de surpresa mesmo. Eu pensei um pouco e senti até um alívio quando você me falou aquilo na saída.
Meu coração acelerou e minha pele praticamente gelou. Estávamos tão próximos um do outro que eu podia sentir o calor de sua pele me envolvendo, me chamando repentinamente. Ele deu um passo em minha direção - ficando a poucos centímetros de distância - e continuou:
-Eu gosto muito mesmo de você Gabi.
Então, me envolvendo com os braços, ele me beijou.
Foi tão de repente que quase esqueci de fechar os olhos. Eu estava me sentindo novamente no melhor sonho que já tivera. Não me importei se alguém estivesse nos vendo ou se já fosse o fim do intervalo. Estávamos juntos, e aquele momento era somente nosso.
Capítulo 13
Voltamos abraçados e sorrindo para a sala de aula. Assim que entramos, não pude deixar de perceber alguns olhares curiosos em nossa direção.
Estranhamente, nem a Bruna ou Isabela me perguntaram alguma coisa. Acho que elas já deviam ter percebido algo entre eu e o Eric...
Na saída, antes que me esquecesse, chamei a Isabela, Bruna, Eric e a Laís também para irem ao aniversário da Amanda. Eu estava tão feliz que parecia que absulamente nada poderia me abalar.
Os dias foram passando normalmente. Eu e Eric íamos sempre em algum lugar depois das aulas, começamos a frenquentar cada vez mais o karaokê do shopping e até planejávamos ensaiar algumas músicas em japônes de animes para apresentar em um evento que ocorreria na cidade no fm do ano.
Só havia um detalhe importante que eu queria resolver.
Em uma sexta-feira, aproveitando que era o aniversário de 40 anos do meu pai, decidi apresentar Eric aos meus pais. Parecia ser uma coisa simples, no entanto, porque eu estava me sentindo tão estranha quando a festa começou?
Assim que os convidados foram chegando, muitos deles sendo meus vizinhos e parentes, só sentia a ansiedade se expalhar por mim. Conversei com algumas pessoas que conhecia enquanto esperava Eric aparecer, mas não conseguia me concentrar em um assunto fixo.
Eu não tinha falado nada ainda aos meus pais sobre meu namorado e como havia vários conhecidos meus na festa, eu iria apresentá-lo quando não houvesse ninguém por perto.
Assim que fui para a cozinha buscar um refrigerante, levei um susto quando alguém me cutucou subitamente no ombro.
-Finalmente achei você Gabi.
-Eric!? Quando você chegou aqui?
-Agora há pouco. Quem atendeu a campainha foi um tal de Álvaro e como não te achei, meus pais foram conversar com os seus enquanto eu te procurava.
-Eles o quê!? - falei sem acreditar - Mas eu ainda nem avisei a eles que vocês viriam! Era para ser uma surpresa!
Eric pareceu ficar sem graça, porém, sem falar nada, acabou pegando minha mão e me levou até onde nossos pais estavam. O que eu não conseguia imaginar era como meu pai e minha mãe reagiriam quando vissem os pais do meu namorado se apresentando. Caminhei junto ao Eric lutando contra pensamentos sombrios que não saíam da minha mente. Ao lado da mesa de salgadinhos, estavam os quatro conversando. Quando nos viram, olharam todos no mesmo instante para nós dois. Apertei mais intensamente a mão do Eric enquanto caminhávamos em direção a eles.
Capítulo 14
Minha pele começou a gelar à medida que nos aproximávamos. Tentei sorrir aos pais do Eric quando me cumprimentaram mas não consegui. Meu coração estava aos pulos.
-Gabi - começou meu pai - vejo que você trouxe algumas visitas inesperadas. E ainda no meu aniversário! Que nostalgia... me senti um velho agora, vendo minha menina me aprontar uma surpresa dessas.
-Você não está velho Edu - retrucou minha mãe rindo.
-Bom, vejo que vocês já se conheceram - eu disse olhando para todos.
-Sim - respondeu a mãe de Eric - Seus pais falaram muito bem de você Gabriela. Bom, mas ainda não nos apresentamos, meu nome é Vanessa e este é meu marido, Gabriel.
Os dois se pareciam muito com Eric e Laís e tinham o mesmo sorriso encantador e contagiante dos dois. Acabamos conversando por quase meia hora até que deixamos os quatro ali e fomos para a sala de TV.
Enquanto comíamos alguns salgdinhos, perguntei ao Eric uma dúvida que tinha desde que ele chegara com os pais: porque a Laís não veio junto com eles. Ele só me respondeu rindo que ela disse que não queria ficar sobrando na festa.
A ficha não caiu na hora, só depois de repassar mentalmente o que ele disse que ri também.
Depois de cortar o bolo, alguns convidados começaram a ir para suas casas. Me despedi com um beijo no Eric quando ele foi embora com os pais.
Em um canto do jardim, vi o Á sama sozinho e fui conversar com ele.
-Oi.
-Oi.
-Então... está gostando da festa? - perguntei por falta de assunto.
-Sim - ele respondeu encarando o vazio.
Fazia tempos que eu não via o Álvaro tão para baixo assim. Mas o que poderia ter o deixado desse jeito? Essa pergunta não saiu da minha cabeça enquanto falava com ele. Acabamos discutindo sobre animes mesmo até que ele mudou de assunto de repente:
-Ah, Gabi, seu namorado parece ser gente boa mas eu estou de olho nos dois viu.
-Á sama... - argumentei revirando os olhos - você sabe que sou um anjo.
-Quando!?
-Quando eu estou dormindo - respondi sem conseguir parar de rir.
A semana seguinte foi uma correria para eu, Bruna e Laís acharmos o vestido perfeito que usaríamos na festa da Amanda. Só a Isabela, que tinha uma coleção de vestidos, já sabia o que vestir. Felizmente, na quinta feira, encontramos uma loja em promoção no centro da cidade e achei um vestido preto que adorei.
Finalmente, sábado chegou. O aniversário seria às oito da noite em um salão de festas ao lado de um parque municipal. Marcamos de irmos todos juntos, por isso, nos encontramos na casa da Bruna e a mãe dela nos levou ao aniversário.
A festa estava explêndida! Havia na entrada um jardim de rosas todo decorado com enfeites roxos e rosas e, já no estacionamento, era possível ouvir a música ressoando dentro do salão.
Parabenizamos a Amanda e entregamos os presentes; depois, fomos nos sentar em uma mesa. Havia vários vizinhos meus ali, dentre eles, Á sama. Eu não tinha conversado com ele desde o aniversário de meu pai e parecia que ele andava cada vez mais distante de mim. Não sabia se falava com ele agora ou se esperava até amanhã. Preferi esperar até domingo, afinal, um dia não faz tanta diferença assim. Pelo menos era o que eu achava.
Conversamos, dançamos e aproveitamos a festa. Um pouco depois da meia noite, Bruna foi embora e depois a Isabela. Eu já estava me cansando daquela música então preferi ir ao jardim, onde parecia estar mais calmo. Ao lado de uma árvore baixa, vi Á sama bebendo e se despedindo de alguém que ia embora. Quando me viu, pareceu ficar surpreso mas se aproximou de mim mesmo assim.
Ele não estava sorrindo como se costume e parecia bastante preocupado.
Logo que me cumprimentou, ele acabou me levando para as sombras de umas árvores e disse:
-Gabi, eu tenho algo para te falar. Não quero que você saia mais com aquele cara.
Arregalei os olhos perplexa e só então percebi pela bebida que ele segurava que estava bêbado.
-Por quê!?
-Simples - argumentou enquanto dava um passo em minha direção - porque eu não quero te perder para ele. Eu te amo Gabi.
Gelei. Meu amigo, meu melhor amigo me dizendo aquilo! Não... não podia ser verdade. Só consegui olhar incrédula para ele, sem saber o que fazer. Porém, em seguida, com um movimento brusco, ele jogou a bebida no chão e me beijou. Tentei me libertar daquele abraço só que ele era mais forte que eu. Somente quando ouvi passos se aproximando que consegui me soltar e ver quem era. Para meu desespero, Eric estava parado perto de nós nos encarando. Assim que olhei entorpecida para ele, não consegui dizer nada; apenas fiquei ali vendo meu mundo desabar e sentindo sua mágoa me antingir enquanto ele ia caminhando furioso para a saída. Sem pensar duas vezes e não me preocupando com mais nada ao meu redor, corri para alcançá-lo, mas já era tarde demais.
Capítulo 15
Lágrimas não paravam de sair dos meus olhos enquanto eu encarava o vazio e a solidão da rua. Era tão frustrante! Eric tinha entendido tudo errado e agora não havia nada que eu pudesse fazer.
Não queria que ninguém dentro do salão me visse agora. Não porque eu estava chorando mas sim porque não estava a fim de ouvir alguém me perguntando o que tinha acontecido. Isso só iria piorar - e muito - o que eu estava sentindo.
Fiquei ali sentada na calçada chorando quando escutei passos aproximarem-se. Alguém sentou ao meu lado - nem quis ver quem era - e falou:
-Gabi... o que aconteceu? E cadê o Eric?
Pela voz só podia ser a Laís.
Enxuguei os olhos e tentei olhar para ela mas não consegui parar de encarar a escuridão da rua. Ela aproximou-se de mim e me abraçou.
-Vamos Gabi... - ela sussurrou - me conte o que houve.
Me afastei dela e a encarei nos olhos:
-Laís, é que naquela hora que eu vim dar uma volta no jardim, aquele amigo meu que te falei, o Álvaro, ele, ele...
Não consegui falar mais nada, e continuei soluçando e chorando. Ela esperou pacientemente ao meu lado e, por fim, falei tudo de uma vez, quase gritando de angústia:
-Ele disse que me ama Gabi e ainda me beijou! Eu tentei me soltar dele mas ele estava bêbado e não quis me largar! Então eu vi o Eric. Ele tinha nos visto e depois foi embora furioso. Laís... ele entendeu tudo errado e nem quis me ouvir. O quê... o quê eu faço agora!?
Ela desviou os olhos e pensou um pouco antes de responder.
-É melhor a gente ir embora e resolver isso amanhã. Vamos, eu chamo um táxi para nós.
Concordei com ela; afinal, ficar ali chorando nada não ia resolver nada.
Depois de desabafar, acho que esgotei meu estoque de lágrimas.
Quando o táxi chegou, olhei uma última vez para aquele jardim mas não vi ninguém. Por tudo que aconteceu ali, o lugar agora me lembrava um deserto vazio e sem vida.
Respirei fundo e entrei no táxi.
Combinei com a Laís que se tudo se acalmasse até o dia seguinte, eu iria explicar ao Eric o que realmente aconteceu.
Cheguei em casa e fui direto me trocar e dormir. Não sei como, mas, naquela noite, assim que fechei os olhos, desfrutei de um sonho sem sonhos.
Capítulo 16
Domingo amanheceu nublado e escuro, como se alguém tivesse tirado uma parte essencial do sol e ele deixasse de brilhar como antes. Era exatamente assim como eu estava me sentindo.
Liguei para a Laís e ela me avisou que seu irmão estava mais calmo e que poderia me ouvir agora. Então, falei que iria em sua casa à tarde para esclarecer tudo.
Depois que acabei de almoçar, disse aos meus pais que iria à casa da Laís. Como eles não moravam muito longe, fui a pé mesmo.
As ruas estavam tranquilas e silenciosas naquele domingo. Quando cheguei à rua Horizonte, Laís já estava me esperando ansiosa em frente a sua casa. Ela sorriu quando me viu e veio até mim.
-Pronta!?
-Claro - respondi um pouco tensa.
Eric estava jogando video-game quando o encontrei. Logo que me viu, ele pausou o jogo e eu me sentei ao seu lado.
-Eric... sobre ontem_ eu não tinha imaginado que aquilo iria acontecer - falei tentando parecer calma - O Álvaro estava bêbado e disse que não queria me perder pra você, por isso ele me beijou.
-Tem certeza que foi só por isso?
Agora ele tinha me pegado de surpresa.
-Bom... ele disse que me amava também. Mas ele estava bêbado e não deve ser verdade.
-Gabi - ele começou, depois de um angustiante suspiro - eu vi como ele olhava para você na festa do seu pai. Ele não te vê só como amiga.
Olhei incrédula para ele. Eu conhecia o Á sama há anos e nunca tinha percebido isso enquanto que, em
uma noite, Eric reparou nesse detalhe que agora poderia fazer toda a diferença. Eu simplesmente não conseguia acreditar que isso poderia ser verdade!
Acho que ele esperou eu argumentar algo, contudo, como não disse nada, ele continuou:
-Enfim, não importa, eu não vou desistir de você. Então, quem você realmente quer como namorado?
-O Álvaro é só meu amigo, bom, meu melhor amigo mas eu escolho com certeza você, Eric.
Ele sorriu e em seguida me beijou.
Não sei o quê, no entanto senti que alguma coisa estava errada com meus sentimentos.
Me afastei dele um pouco e tentando esquecer aquele sentimento, falei:
-Então Eric... em que nível você está no jogo?
-No cinco - ele respondeu com um olhar radiante.
-Mas é impossível passar da última parte do nível quatro!
-Quase impossível - Eric argumentou voltando ao nível anterior e parecendo agora estar mais despreocupado - É só ir na caverna vermelha e pegar uma chave dourada escondida. Aí, é só usar a chave para abrir a porta e chegar ao nível 5.
Quase anoitecendo, voltei finalmente para casa. A tarde tinha sido boa - não excelente, só... razoável - mas aquilo que Eric me dissera sobre o Álvaro tinha me abalado profundamente. Mesmo assim, eu e Eric estávamos nos entendendo muito bem e - felizmente - não foi um mal entendido que iria nos separar. Sorri aliviada.
Assim que cheguei em casa, abri o portão da garagem e entrei na sala. Foi quando parei, de repente, e me deparei com a maior surpresa que poderia me esperar.
-Á sama!? O que você está fazendo aqui?
Capítulo 17
Nem esperei a resposta dele e me virei para voltar à garagem. Eu estava furiosa. Odeio que brinquem com meus sentimentos assim, odeio.
-Gabi espere! Eu preciso me desculpar por ontem_ Espere... por favor.
Ainda de costas para ele, respirei fundo tentado me acalmar e, por fim, disse:
-Tudo bem...
Me virei encarando o chão até que ele veio até onde eu estava.
-Olha, aquilo ontem na festa não era para acontecer, mesmo. Droga, mas eu comecei a beber tanto e quando te vi...
-Não adianta culpar a bebiba agora - murmurei baixinho.
-Tem razão - ele suspirou e ficou pensativo por um instante antes de continuar:
-Lembra quando te falei que voltei para a cidade porque estava cansado de São Paulo?
-Lembro sim.
-Então, não foi só por isso que voltei.
Eu o encarei confusa e senti meu coração acelerar.
-Foi por você que voltei, Gabi.
O sangue fugiu do meu rosto. Olhei para ele em busca de uma explicação ou de uma simples resposta mas não encontrei nada. Álvaro me observava timidamente esperando uma resposta minha, no entanto, eu não tinha nada a dizer. Ou melhor,o quê eu poderia falar depois de ouvir isso!?
-Hum... mas, Álvaro - arrisquei perguntar - por que não me contou isto antes?
Ele suspirou e desviou os olhos de mim.
-Porque você não me via da mesma forma. Se eu tivesse falado antes, só iria atrapalhar nossa amizade.
-Acho que você tem razão - falei sem jeito.
Ele sorriu gentilmente para mim, só que o sorriso não alcançou seus olhos, que continuavam tristes e distantes.
-Bom, vou indo então - Álvaro murmurou passando rapidamente ao meu lado e indo para a garagem.
-Á sama, espere! - fiquei tão surpresa com aquilo que quase gritei implorando.
Ele se virou olhando-me, talvez, esperançoso. Eu sabia que havia algo martelando na minha cabeça, e precisava urgentemente da resposta.
-Só me diga uma coisa - comecei, engolindo em seco - Á sama... você realmente gosta de mim?
Ele pareceu sentir minhas palavras como um golpe inesperado, mesmo assim, continuou me encarando e respondeu:
-Sim, Gabi.
Capítulo 18
Meus joelhos quase cederam.
-Eu sei que devia ter dito isso antes, me desculpe Gabi.
-Por que está se desculpando? - argumentei inquieta cerrando os punhos.
-Por ter que ver você assim. Eu sabia que só era um amigo pra você, por isso, preferi não dizer nada.
-Mas... - falei, porém, acho que ele percebeu onde eu queria chegar.
-Não se preocupe, eu sei que agi errado na festa. Olha, é melhor você organizar sozinha o que sente agora viu? A gente se vê então...
Enquanto ele seguia para sua casa, tentei retribuir seu aceno de despedida, entretanto, meu braço - que parecia agora somente um acessório frio e pesado - não me obedeceu. Me senti como uma flor despedaçada enquanto via ele olhando, abatido, uma última vez na minha direção antes de entrar em casa.
Fui para meu quarto e me deitei em minha cama sentindo-me atordoada e confusa. Meus pais haviam saído e nem no silêncio da casa consegui encontrar uma ajuda para tudo aquilo.
É melhor você organizar sozinha o que sente agora viu? Eu repetia isso mentalmente embora não conseguisse concluir nada. Eric havia ouvido minha explicação - e me aceitado de volta - naquela mesma tarde. Eu não pude deixar de notar o quão contente e aliviado ele ficara ao perceber que o beijo na festa fora apenas um mal entendido.Eu não vou desistir de você, foram suas palavras. Sabia que Eric realmente me amava.
Mas tinha Á sama também. Meu melhor amigo acabava de revelar que não me via somente como uma amiga, e depois de todos esses anos, eu sequer fui capaz de perceber isso! Fechei os olhos de tanta aflição.
Não sei quanto tempo se passou. Fiquei ali deitada perdida em pensamentos. Eu tinha que encontrar uma resposta, no entanto, só havia uma dúvida que não conseguia solucionar: qual dos dois eu realmente amava? E não como um amigo ou irmão.
Passaram-se mais alguns minutos. Suspirei e, subitamente, abri os olhos. Eu sabia a resposta.
Capítulo 19
Saí do meu quarto às pressas e atravassei a sala em direção à garagem correndo. Mesmo que os dois me amassem, eu correspondia apenas um deles da mesma forma.
Sabia que minhas palavras iriam magoá-lo, mas o Á sama... ele é meu companheiro desde a infância. Foi ele que me disse sorrindo não chore quando eu não queria ir para minha primeira escola e depois segurou minha mão me levando até minha sala; foi ele que me visitou todos os dias no hospital quando fiquei doente e foi ele quem me apresentou ao mundo dos animes, me dando de aniversário um volume de Sakura Card Captors. Mesmo ele dizendo que me ama, eu não posso trair meus sentimentos. Desde que o vi, é o Eric que eu amo mas, acima de tudo, o Álvaro é meu melhor amigo e nada irá mudar isso.
Por favor, entenda isso, falei mentalmente comigo mesma tentando prever a reação dele.
Apertei o interfone da casa de Álvaro e esperei impaciente. Os minutos foram passando e nenhum sinal dele. Gritei por ele e, mesmo assim, nada.
Foi então que finalmente olhei a garagem de sua casa e, em seguida, para a rua. O carro do Á sama não estava ali. Isso só pode ser bricandeira! Dei meia-volta e fui - quase marchando de frustação - até minha casa.
A noite aproximou-se depressa e a casa vizinha à minha continuava silenciosa e escura. Mesmo sem entender porque ele tinha saído justo naquela hora, quando eu tinha algo tão urgente a lhe dizer, preferi não me preocupar e contar tudo na manhã seguinte.
Segunda amanheceu quente e poucas nuvens flutuavam no céu. Eu não estava com ânimo para ir à escola, entretanto, não iria faltar por causa de um motivo bobo.
Antes de ir para o colégio, fui rapidamente na casa do Á sama, mas, assim que parei em frente à sua residência, olhei em volta decepcionada e perplexa. Já havia amanhecido e a casa continuava do mesmo jeito.
Ele não tinha voltado.
Capítulo 20
-Gabi, você escutou o que eu disse?
Eu ainda estava mergulhada em pensamentos, principalmente sobre onde Á sama poderia estar, mas desviei os olhos da minha carteira vazia e me virei para encarar a Bruna atrás de mim.
-Desculpa... o que você tinha falado mesmo?
Ela me lançou um olhar de reprovação antes de continuar:
-Garota, em que mundo você vive!? Mas então, como você acha que a galera se saiu no teste surpresa de química?
-Eu achei fácil - intrometeu-se Laís, que tinha ouvindo a conversa toda na carteira ao meu lado.
Isabela, que, até aquele momento, estava com uma cara de derrota, fuzilou Laís com os olhos e retrucou:
-Não estava fácil não! Eu nem me lembrava o que era diagrama de Pauling.
Eu e Laís rimos. Nesse instante, o sinal tocou, o que distraiu e melhorou o humôr de grande parte dos alunos que sabiam que tinham ido mal no teste.
Eric parou de conversar com um dos alunos mais nerds da sala, Gustavo, e veio sorrindo ao meu encontro. Revirei os olhos. Acho que ele já percebeu que eu não resistia àquele sorriso dele.
Como era o intervalo, nós dois fomos para uma parte sossegada do pátio. Era uma sensação incrível sentir o calor de outra pessoa na nossa pele. Entre um beijo ou um abraço, me esquecia de tudo à minha volta e aquela alegria ajudou a levantar meu astral. Fiquei contente por não voltarmos a falar do incidente da festa. Tudo parecia estar voltando ao normal.
Na saída, minha mãe veio me buscar. Eu estava inquieta e só queria saber se o Á sama tinha voltado. Quando chegamos à rua da nossa casa, senti um tremendo alívio assim que vi o carro dele estacionado.
Desci do carro da minha mãe correndo e apertei o interfone da casa do Á sama. Não demorou muito até ele abrir a porta.
-Gabi - ele começou, me convidando a entrar - sabia que logo logo você iria aparecer.
-É... você tinha razão Á sama.
Nos sentamos um ao lado do outro no sofá e, antes de esclarecer tudo, perguntei à ele:
-Me diz uma coisa, onde você estava ontem anoite!?
-Fui visitar alguns amigos e acabei na casa dos meus pais. E você sabe como eles são... desde que se mudaram desta casa, eles sempre me pedem para ir fazer uma visita.
-Ah... - foi só o que disse.
Ficamos em silêncio por um instante até que eu o encarei nos olhos e falei:
-Á sama, sobre aquilo que você me disse, eu pensei muito e, para mim, você é só meu amigo e eu não...
-Tudo bem - ele me interrompeu - acho que eu já esperava isso.
Fiquei sem saber o que dizer. Tentei sorrir a ele, porém, só consegui encarar o chão. Nem queria imaginar a cor do meu rosto agora.
Subitamente, Álvaro levantou-se e se encostou na parede. Seu olhar parecia distante, como se ele só estivesse fisicamente presente enquanto que sua mente vagava há quilômetros de distância.
Me perguntei se ele ainda queria minha companhia ali e acabei me levantando, indo até onde ele estava.
-Hum... Á sama, já estou indo então.
Como ele não disse nada, fui até a porta e a abri.
-Gabi, espere... eu queria te pedir uma última coisa - ele falou vindo na minha direção e sem tirar os olhos dos meus.
-O que é?
-Um último beijo, Gabi. Você recusaria isso ao seu melhor amigo?
Capítulo 21
Seu olhar silenciou as palavras em minha garganta. Fiquei paralisada sem conseguir dizer nada. Minha pele formigava e eu nem podia afirmar se estava respirando direito.
Álvaro se colocou em minha frente e inclinou a cabeça para nossos olhares se encontrarem. Ele parecia tranquilo e concentrado enquanto eu mal conseguia continuar ali parada encarando-o.
Ele ergueu uma mão, colocando-a em minha cintura, me envolvendo, e, com a outra, afagou calmamente meu cabelo, meu pescoço e parou em meu queixo.
Não! Era tudo que minha mente repetia em desespero. Eu não tinha imaginado que isso poderia acontecer, mas não podia magoá-lo agora. Não depois do que eu disse e de tudo que aconteceu no fim de semana.
Ele inclinou mais ainda a cabeça na minha direção. Eu podia sentir o calor do corpo dele me envolvendo e seu coração batia tão descontrolado como o meu.
Só consegui fechar os olhos depressa e esperar.
Para meu espanto, ele afastou seu rosto do meu e me abraçou.
-Me desculpe Gabi - ele sussurrou no meu ouvido.
-Não... tudo bem - disse ainda em choque, retribuindo o abraço.
Nós não falamos nada mas eu podia perceber minha respiração começando a voltar ao normal. Aquele abraço eternizou o momento, preenchendo todo o espaço que parecia nos afastar, como se fossem duas mãos que finalmente se encontram na escuridão e não conseguem mais se separar. Ficamos assim até que eu escutei o portão de minha casa ser destrancado.
-É melhor eu ir - falei me afastando.
-Nos vemos então? - ele perguntou, tentando esconder a tristeza presente em seus olhos.
-Claro - retuquei um pouco sem jeito - Tchau, Á sama.
Logo que me despedi dele, encontrei minha mãe me esperando. Acho que ela disse algumas coisa, porém, eu estava tão aturdida que nem consegui prestar atenção.
Entrei em casa só esperando um amanhã melhor que agora.
Mesmo ainda existindo uma marca difícil de apagar, o tempo ajuda a curar as feridas. Eu e Eric já tínhamos completado cinco meses de namoro sem grandes problemas e minha amizade com Á sama continuava intacta.
Durante esses meses, Eric me ensinara a tocar guitarra e, depois de muito treino, consegui aprender algumas músicas de anime que antes eu achava impossível.
No fim de junho, Álvaro havia montado uma caravana, chamada Caravana Ryuu para ir a um evento de animes que aconteceria em São Paulo: Anime Friends. E, é claro, eu iria. Chamei mais algumas pessoas para ir, mas somente duas concordaram: Eric e Laís.
Em julho, tudo já estava praticamente resolvido. Quinze pessoas haviam confirmado a presença para ir ao AF, meu cosplay já estava pronto para ser usado e, a cada dia que se passava, a empolgação de todos só aumentava.
As férias chegaram, juntamente com o dia do evento. Como eram quatro horas de viagem, partimos no sábado às 7:30 da manhã. Entramos na van eufóricos e sem parar de falar sobre as atividades que teriam no Anime Friends. Parecíamos crianças que viajam sem a família pela primeira vez.
Em um certo momento, Túlio, o motorista, anunciou que faltavam apenas 20 minutos para chegarmos a São Paulo. Eu nunca tinha ido na capital do estado, e fiquei sem palavras quando olhei pela janela e vi ao longe a cidade começando a surgir.
Capítulo 22
A fila para entrar no evento estava imensa, entretando, para nossa sorte, a caravana estava cadastrada e não precisamos ficar na fila. O que foi uma grande vantagem.
A primeira coisa que era impossível não perceber é que havia cosplayers por todos os lados! Alguns eu sabia a qual anime pertenciam, mas outros estavam irreconhecíveis. Mesmo assim, tirei fotos com a maioria deles.
Laís, que tinha até cortado o cabelo para se parecer mesmo com a personagem, estava como Nana Osaki; o Eric como Kaname, de Vampire Knight (combinando com meu cosplay) e Á sama - impossível deixá-lo de fora depois de vê-lo com o cosplay - estava incrivelmente parecido com quem escolhêra: Sasuke. Acho que agora entendi porque ele deixara o cabelo crescer um pouco há alguns meses antes do evento...
Enquanto andava pelo lugar, encontrei duas garotas com o mesmo cosplay que o meu e acabei tirando fotos com elas também. Como havia várias stands - mais do que eu imaginei - fui apenas nas que pareciam ter os melhores produtos e, por fim, comprei cinco chaveiros, uma pulseira e alguns mangás que eu estava procurando há meses.
Depois que eu e Eric nos inscrevemos no concurso de Animekê, fomos dar uma olhada na banda que estava se apresentando agora. De longe, não reconheci os membros e não soube a qual anime a música pertencia. Falei ao Eric para irmos para mais perto do palco e comecei a abrir caminho por entre as pessoas.
A multidão estava aumentando cada vez mais. Quando encontrei um bom lugar e descobri que a música cantada era a abertura de Death Note, sorri alegremente. Me virei para falar com o Eric e meu sorriso desapareceu na hora. Olhei pasma ao meu redor e não o vi em lugar nenhum.
Tentei voltar pelo mesmo caminho que passei, mas o fluxo de pessoas estava cada vez mais sufocante. Não sei quanto tempo se passou até que finalmente consegui me esquivar da multidão e voltar para perto das stands.
Busquei com os olhos por algum conhecido, porém, não encontrei ninguém. Isso estava começando a me preocupar. Por impulso, olhei as horas rapidamente e arregalei os olhos, quase gritando. Já eram 5:15 da tarde, ou seja, o Animekê tinha começado e eu ainda estava ali!
Corri desesperada até onde seria o concurso e sorri de alívio assim que o vi. Perto do grupo que estava assistindo o concurso, Eric olhava de um lado pelo outro até que nossos olhares se encontraram.
Corri até ele e o abracei rapidamente.
-Ainda bem que você chegou, Gabi - a voz dele estava tensa - só falta dois grupos e é a nossa vez.
Assenti com a cabeça.
O trio que estava se apresentando terminou a música e uma garota, com o cosplay da Hinata, foi se apresentar. Ela posicionou o microfone para se ajustar à sua altura e a música começou.
Akaku Akaku Akaru yurete(...)
-Ah não... - murmurei perplexa.
Ela estava cantando a música de abertura de Vampire Knight, a que eu e Eric iríamos apresentar! E, de acordo com as regras, cada pessoa - ou grupo - deve escolher uma música diferente das demais. Se dois grupos diferentes cantassem a mesma música, isso é a eliminatória na certa.
Olhei atordoada para o Eric. Nós havíamos ensaiado tanto! A garota já estava na metade da apresentação. Tínhamos que escolher uma nova música, e rápido, já que nós éramos os próximos.
Capítulo 23
Só havia uma música que podíamos cantar. Acho que Eric pensou o mesmo que eu, pois dissemos juntos:
-Sign!
Sign é minha abertura favorita de Naruto Shippuden. Mesmo sendo de repente, fiquei feliz em cantar essa música com ele.
Agora era nossa vez. Repassei mentalmente a letra e, como ela era predominantemente em japônes - não posso afirmar que esse é um dos idiomas mais fáceis que existe -, eu esperava mesmo não errar nada.
Acabei me distraindo e o Eric começou a cantar sem mim. Droga! Para não estragar nossa apresentação, esperei ele cantar a parte em inglês para depois entrar em cena. Fora uma palavra que ele dissera errado e o meu começo atrasado, nossa apresentação tinha sido muito boa. Cantar é algo que sempre adorei. Emocionar as pessoas com uma simples melodia ou encantar a todos com uma música sempre me fizeram sentir-me mais alegre, mais viva. E cantar em um evento de animes, algo que eu amo, foi uma sensação inesplicável e de tirar o folêgo.
Houve outros sete grupos depois de nós. A maioria havia se saído bem, mas eu e Eric ainda tínhamos chance de ganhar o primeiro lugar. A última dupla se apresentou e, em seguida, os juízes se reuníram.
À medida que o tempo passava, a tensão só aumentava entre os concorrentes e nem um mupy de morango conseguiu me acalmar. Um dos juízes, o que estava com o cosplay do Inuyasha, subiu no palco para anunciar o resultado:
-Primeiramente, queremos agradecer a presença de todos aqui e parabenizá-los pelo excelente trabalho. O terceiro colocado é... - ele fez uma pequena pausa e eu segurei a mão do Eric enquanto percebia minha pulsação acelerando - Miki-chan, com a música Life!
Houve uma salva de palmas para a garota. Como prêmio, ela ganhou um broche branco escrito AF em dourado e no lado esquerdo, com uma letra um pouco menor, havia um pequeno número três.
-O segundo lugar - ele continuou - vai para a dupla Eric e Gabriela, com a música Sing!
Senti meu rosto corar quando subimos para pegar o prêmio. Mesmo decepcionada por não ganhar o primeiro lugar, fiquei realmente feliz pela segunda posição no concurso.
-E o primeiro lugar do Animekê deste ano vai para... - um silêncio angustiante se espalhou entre todos os participantes - André e Luís que cantaram e arrasaram na música Heroes come Back!
Tenho que admitir que fiquei com inveja dos prêmios que eles receberam. Além do broche, cada um ganhou uma certa quantia em dinheiro para gastar no evento.
Como já eram quase oito da noite, eu e Eric fomos nos encontrar com o restante do pessoal da caravana para irmos embora. O dia havia sido incrível, mas totalmente exaustivo.
Assim que entramos na van, me sentei perto da janela e, logo em seguida, Eric pediu para trocar de lugar comigo. Não entendi o porquê daquilo mas concordei mesmo assim.
Todos pareciam cansados, porém, não conseguíamos parar de falar sobre o evento. Estávamos tão felizes e despreocupados que nem vimos quando o caminhão nos atingiu.
Capítulo 24
Tudo aconteceu rápido, rápido demais. Em um instante estávamos alegres e sorridentes e no outro, eu já não conseguia assimilar quase nada. Havia cacos de vidro espalhados dentro da van, a porta tinha sido atingida por alguma coisa e agora parecia que ia se soltar a qualquer momento.
Olhei para o chão e vi que estávamos sobre o que restara das janelas. A van tinha tombado de lado e, mesmo com o cinto de segurança, muitos de nós - inclusive eu - tinham sido jogados para o lado pelo impacto do acidente.
Tentei me mexer para alcançar a Laís, que estava inconsciente há poucos centímetros de mim, mas meu braço esquerdo e principalmente meu ombro estavam com uma dor insuportável.
Eu queria gritar ou falar qualquer coisa, no entanto, meu corpo inteiro estava em colapso. Senti como se estivesse me desfazendo em pedaços. As imagens à minha volta começaram a ficar cada vez mais translúcidas até que, sem forças, fechei os olhos e mergulhei na escuridão.
Abri os olhos lentamente. Tentei me mexer, mas meus braços não me obedeceram. Todo o meu corpo doía.
-Ela acordou - ouvi uma voz familiar dizer.
Meus pais entraram no meu campo de visão e vieram para o meu lado. Minha mãe estava chorando e soluçando alto enquanto que meu pai tinha os olhos vermelhos e cansados.
-Mãe, pai... - comecei a dizer, percebendo minha voz sumir aos poucos - o que aconteceu? Cadê todo mundo?
Eles desviaram o olhar.
-O que aconteceu? - perguntei novamente já sentindo um terror apavorante se espalhar dentro de mim.
-Gabi! - uma nova voz exclamou.
Passos largos aproximaram-se de onde eu estava.
Era a Laís. Ela não me olhou nos olhos, só pegou a minha mão e a apertou, como se quisesse me dizer algo. Tentei sorrir para ela, porém, não consegui.
-Laís... o que aconteceu? Por favor, me diga.
Ela não falou nada, mas vi em seus olhos uma expressão de medo e angústia.
Algo estava errado. Muito errado. Por que ninguém queria me contar!?
Senti Laís apertar novamente a minha mão.
-Não adianta ficar escondendo isso. Ela precisa saber.
Capítulo 25
Prendi a respiração e olhei confusa para ela. Uma lágrima escapou de seus olhos. Estendi a mão para alcançar o seu rosto retorcido de dor, entretanto, algo me impediu. Só então reparei que um de meus braços estava todo enfaixado e o outro, no qual Laís segurava minha mão, havia um tubo intravenenoso impendindo meus movimentos.
-A van... - comecei a dizer, sem acreditar nas palavras que acabava de pronunciar.
-Houve um acidente - escutei meu pai falar com amargura.
-Mas eu estou bem, não estou? E olhe para você Laís, eu nem consigo me mexer direito enquanto que você está parecendo praticamente bem!
-Gabi... eu só sofri alguns arranhões, mas não estão todos bem.
-Como assim...? - minha voz saiu num sussurro.
Ela abriu a boca, porém, como se estivesse com medo de se arrepender, não disse nada. Ficamos todos em silêncio e o som de um bipe constante ressoou pelo quarto.
-Vamos começar por você, Gabi - minha mãe disse, por fim - não são problemas tão grandes,mas você está com um braço e duas costelas quebradas.
Isso explicava meu braço esquerdo enfaixado, pensei comigo mesma.
-Os outros estão sendo atendidos em outras alas do hospital, só se passaram algumas horas desde o acid...
-Hospital...? - murmurei sem entender.
Olhei rapidamente em volta. Foi quando finalmente vi as paredes brancas, as luzes ofuscantes e a estranha cama que me encontrava. Como não reparei nessas coisas antes!!?
-A quanto tempo eu estou aqui?
-Só algumas horas.
-E onde está o Álvaro? Ele estava do lado do motorista na hora do acidente!
-Ele continua desacordado, mas, pelo o que os médicos disseram, ele está bem e logo irá acordar.
Suspirei aliviada.
-E o Eric? Cadê ele?
Aquele nome causou um impacto em todos.
Pareceu que um tremor percorreu o corpo da Laís. Ela soltou minha mão, indo sentar-se em uma cadeira vazia ao lado da porta e cobriu o rosto com as mãos, que continuavam tremendo.
Meus pais se encolheram angustiados. Eu os encarei, no entanto, os dois desviaram o olhar.
O quê estava acontecendo ali!? Eu queria que me explicassem mas uma parte de mim estava com medo da resposta.
-Quando o caminhão bateu na van - minha mãe falou - houve um impacto muito grande e os paramédicos falaram que o lugar em que o Eric estava foi o mais... atingido.
-Como assim? - indaguei ainda sem entender direito.
Minha mãe sacudiu a cabeça e me olhou derrotada.
-Eles tentaram salvá-lo, só que o acidente foi muito grave e ele não resistiu. Gabi... o Eric morreu.
Capítulo 26
O bipe acelerou descontroladamente. Senti que aquelas palavras me atingiram como uma pancada. Encostei a cabeça no travesseiro e meus olhos ficaram sem foco.
Eric. Eric. Por quê...!? Eu repetia mentalmente. Não consigui tirar você da minha cabeça desde o primeiro dia de aula e, mesmo depois de todas as coisas que aconteceram, nós continuamos juntos. Tudo acaba assim!? Por quê?
Por quê!?
-Gabi! Gabi! - alguém disse desesperado.
Minha cabeça estava há mil e eu só percebi uma escuridão e um silêncio assombroso aproximarem-se. Não! Não desmaie agora Gabi, falei a mim mesma. Abri os olhos e vi três rostos preocupados me encarando.
Minha mãe me abraçou um pouco sem jeito e eu não consegui impedir as lágrimas de fugirem de meus olhos. Todo o meu corpo doía; não fisicamente, era pior - muito pior - do que isso. Uma dor mais profunda, como uma ferida sem cura, um abismo que surgia e se espalhava dentro de mim.
Não consiguia dizer que o Eric estava mort... doía demais! Um desespero sem fim me corroeu por dentro.
Com medo de me desmoronar naquele abraço gentil que só fazia lembrar cada vez mais dele, me afastei de minha mãe.
-Ele... ele está ainda aqui... no hospital? - perguntei, entre um soluço e outro.
-Sim.
-Eu quero vê-lo.
Minha mãe olhou em busca de uma resposta para meu pai e ele saiu rapidamente do quarto. Laís sentou-se ao meu lado e tirou uma lágrima de meu rosto enquanto eu continuava soluçando. Tentei me acalmar, afinal, eu tinha que vê-lo, mesmo que fosse pela última vez.
Meu pai entrou segurando uma cadeira de rodas e com um residente do hospital ao seu lado. Não reparei em seu rosto, porém, ele parecia tranquilo e concentrado no trabalho. O residente checou todos os tubos e fios e anotou alguma coisa em uma prancheta antes de me ajudar a ir para a cadeira de rodas.
Me senti sonza quando passamos por um corredor cheio de médicos e enfermeiras apressados. Eu podia estar fraca, mas me recusei a fechar os olhos. Não iria deixar que a escuridão me atingisse; não agora quando eu estava prestes e encontrá-lo.
Ninguém disse uma única palavra durante todo o caminho. Seguimos pelo elevador e depois passamos por um corredor frio e deserto antes de paramos - todos de uma vez - diante de uma porta.
-É aqui - o médico disse.
Ele abriu calmamente a porta e eu finalmente o vi.
Capítulo 27
Sob uma espécie de mesa metálica, envolto com um cobertor azul escuro, estava o Eric. Aproximei-me dele. Seu rosto estava frio e sua pele possuía uma aparência cinza e sem vida. Com ódio e amargura, reparei numa mancha escura de sangue que começava no alto de sua cabeça e se estendia até alcançar sua orelha esquerda.
Mais uma vez meus olhos se encheram de lágrimas. Eu não aguentava olhar para aquele corpo abandonado, mas também... eu não podia desviar o olhar. Isso era muito injusto! Ele não merecia esse fim!
Ficamos ali até eu sentir minha pele começar a esfriar e o bipe se tornar mais lento. Eu podia perceber meus batimentos diminuindo quando o residente puxou minha cadeira de rodas para sairmos da sala. Tentei protestar, mas minha voz saiu num sussurro rouco. Passamos novamente pelo elevador e o corredor repleto de médicos. Assim que entrei no meu quarto, vi os pais da Laís abraçando-a e chorando. Pensei que ela tivesse ido comigo e com meus pais ver o Eric, no entanto, eu estava sem forças demais para perguntar alguma coisa.
Me deitaram novamente na cama e eu senti uma agulha gélida encostar no meu braço.
-Você vai descansar um pouco agora, ok, Gabriela? - o médico disse calmamente.
Antes que pudesse impedi-lo, eu afundei na escuridão.
O enterro de Eric aconteceu na manhã seguinte.
Não consegui dizer nada durante toda o funeral e deixei outra vez que as lágrimas cobrissem meu rosto. Os melhores momentos da minha vida foram com ele, por isso, não consegui olhá-lo mais uma vez antes de fecharem o caixão. Preferi guardar em minha mente a imagem dele sorrindo, mesmo sabendo que uma parte de mim morreu naquele dia.
Assim que uma chuva fina invadiu o cemitério, todos foram retornando tristemente para seus carros e suas vidas. Continuei encarando o túmulo dele por mais alguns instantes antes de ir.
Adeus, Eric.
Passei dois dias no hospital antes de receber alta. Quando cheguei em casa, fui direto para meu quarto. Minha vida estava em ruínas. Deixei os chaveiros que comprei no evento em cima do criado-mudo e fiquei segurando a câmera fotográfica. As fotos do nosso último dia juntos ainda estavam ali. Não consegui ligar a câmera e ver as imagens. O medo de relembrar daqueles momento perfeitos tomaram conta de mim. Eu não suportaria se a ferida e a dor que eu sentia me corroessem ainda mais.
As horas se arrastavam como lesmas em câmera-lenta. Quando meus pais buscaram me animar com assuntos sem importância, só consegui responder com monólogos. Achei que não conseguiria dormir naquela noite, mas, após alguns minutos encarando o teto, fechei os olhos e as imagens de tudo que aconteceu durante os dias passados voltaram à minha mente.
Eu estava mais uma vez no hospital encarando Laís e meus pais. As mesmas palavras que eles disseram, repetiram-se idênticas em meu sonho. Escutei novamente minha mãe falando sobre o dia do acidente e, como se uma luz se acendesse em minha mente, reparei em um detalhe.
Um detalhe que faria toda a diferença.
Acordei aos gritos.
Capítulo 28
No escuro e no silêncio do meu quarto, busquei forças para encontrar uma explicação para aquilo. No dia em que fomos embora de São Paulo, Eric me pedira para trocar de lugar com ele na van, parecia algo tão sem importância que nem me lembrei no hospital quando minha mãe dissera que o lugar em que o Eric estava foi o mais... atingido.
Uma vez que começaram, as lágrimas não pararam de rolar. Era para eu ter morrido no lugar dele! Eu!
Eric... queria falar com você agora, ouvir sua voz me ajudando a achar uma solução para isso tudo. Não vou conseguir suportar viver sem você! Por quê você quis trocar de lugar comigo naquele dia? Você sentiu que algo iria acontecer e, mesmo assim, não me disse nada? Por quê!? Não importa se isso foi uma ironia do destino, sem você... tudo que planejamos juntos foi destruído.
Destruído e transformado em ruínas.
Com o passar dos dias, Álvaro e minhas amigas apareceram para tentar me tirar de meu estado de zumbi. Nenhum deles conseguiu. Não importava se eu estivesse sozinha ou com companhia, sempre havia alguma coisa que me fazia lembrar de Eric.
Quando as aulas começaram, me recusei a ir nos primeiros dias. Toda a minha vida estava em fragalhos. Que sentido tinha em continuar estudando!?
Numa quarta-feira, entretanto, meus pais me obrigaram a ir ao colégio pois haveria uma prova de física. Física não iria me ajudar em nada agora, só que fui mesmo assim. Logo que entrei na sala, minhas amigas me olharam surpresas. Reparei no olhar preocupado de todos durante a manhã; quando não estavam me observando, a maioria deles encarava Laís, que estava quieta em um canto.
No último horário, na aula de física, Alice entregou as provas. Alguns alunos soltaram murmúrios de lamento quando começaram a lê-la, mas eu nem cheguei a escrever o meu nome. Não encontrei uma boa razão para responder aquilo. Minha vida não tinha mais esperança.
Compareci às aulas durante o resto da semana. Mesmo copiando a matéria, minha mente não se lembrava de uma palavra dita pelos professores. No fim de semana, meu quarto era meu único refúgio e busquei na chuva, que aconteceu durante a maior parte do tempo, uma desculpa para recusar o convite de ir ao shopping e ao cinema com minhas amigas.
O céu amanheceu cinzento na segunda-feira. Assim que minha mãe me deixou na porta do colégio, foi que me lembrei que haveria um teste de inglês nesse dia. Eu não queria encarar todos novamente naquela manhã - não iria aguentar isso todos os dias - e, logo que vi o carro de minha mãe virando a esquina, deixei às pressas meu fichário e minha mochila perto da entrada da escola e saí em disparada pela rua. Eu tinha um lugar mais importante para ir.
Capítulo 29
Cheguei ao cemitério mais rápido do que imaginei. Mesmo arfando por ter corrindo tanto, não parei para descansar e fui logo procurar o túmulo de Eric. Assim que encontrei, bem ao lado de uma árvore baixa com flores vermelhas, o encarei. Toda a dor que parecia ter diminuído durante os outros dias, voltou com uma intensidade insuportável.
Havia novas flores no túmulo dele, não sabia quem as havia deixado ali, porém, tinha certeza de que haviam sido colocadas por alguém que sentia tanta falta dele como eu. Não sei quantos minutos - ou horas - fiquei ali parada. Mesmo quando começou a chover e a ventar repentinamente, me recusei a ir embora. O tempo foi passando e, de repente, escutei passos apressados vindos de algum lugar no cemitério. Olhei em volta e o lugar parecia continuar deserto.
-Gabi! - uma voz gritou subitamente.
Arregalei os olhos surpresa e olhando na direção do som, finalmente o vi.
-Te achei! Sabia que você só poderia estar aqui.
-Á sama... por que você está aqui!? - retruquei quase rosnando.
Ele me olhou confuso e preocupado antes de responder.
-Seus pais me ligaram porque descobriram que você não tinha ido à aula. Então, quando começou a chover, eu decidi que teria que procurar por você. Bom, e só teria um lugar que eu sabia que você estaria.
Ele me encarou com os olhos gentis e atenciosos. Não suportei encarar aquele olhar por muito tempo e acabei fitando o chão. Álvaro deu um passo na minha direção e colocou a mão em meu ombro.
-Vamos, é melhor a gente ir agora.
Furiosa, dei um passo para trás e, assim que ele tentou se aproximar novamente, gritei, não conseguindo conter as lágrimas:
-Não! Eu não vou embora. Me deixe em paz!
Tudo ao meu redor tornou-se rapidamente embaçado. Minhas pernas finalmente cederam e, com o impacto, senti o chão molhado gelando minha pele. Á sama agachou-se ao meu lado e percebi um contraste estranho quando ele colocou sua mão em minha testa.
-Você está queimando de febre! - ele disse assombrado.
Meu olhos fecharam-se contra minha vontade e antes que eu pudesse falar outra vez, a escuridão me silenciou.
Eric... eu não tenho medo de morrer.
Eu sei que você estará esperando por mim.
Capítulo 30
Assim que abri os olhos, vi que estava - mais uma vez - no hospital. Meus pais e Á sama estavam no corredor conversando com uma enfermeira. Pela fisionomia de todos, parecia que nada de grave havia ocorrido comigo. Não sei se me senti triste ou contente com isso.
Levantei-me da cama e, quando eles perceberam que eu tinha acordado, vieram ao meu encontro. Fiquei um pouco sem graça quando minha mãe me encarou com amargura e sem dizer nada. Por outro lado, meu pai afagou minhas costas e me perguntou:
-Como está se sentindo, Gabi?
-Estou bem... Ah, eu não vou ter que passar o resto do dia aqui não, né?
-Não. A enfermeira disse que você só estava com uma febre alta e com um pouco de desidratação.
-Nunca mais pense em fugir assim - minha mãe retrucou com raiva - você podia ter se perdido ou até estar morta!
Vi uma lágrima surgindo no canto de seu olho. Eu não falei nada; sabia que ela estava certa.
-Vamos para casa então - meu pai argumentou.
Me despedi rapidamente de Álvaro antes de entrar no carro do meu pai.
-Trate de não fazer outra loucura dessas viu, Gabi? - Á sama disse, tentando parecer descontraído.
Eu só ri baixinho. Não podia afirmar nem negar aquilo.
O caminho até minha casa foi estranhamente silencioso e, olhando em volta, percebi que já estava quase anoitecendo. Há quanto tempo eu fiquei no cemitério e no hospital!?
Ninguém tocou no assunto sobre minha fuga da escola pelo resto do dia. Acho que meus pais não queriam me ver ainda mais infeliz, pois sabiam que não conseguiriam acabar com minha ferida.
Na manhã seguinte, não tive escapatória a não ser ir à escola. Sentei-me em meu lugar de sempre e antes da primeira aula, um quarteto composto por duas mulheres e dois homens entrou na sala juntamente com o professor. Hugo pediu a atenção de todos e uma das mulheres, a mais alta, com o cabelo avermelhado, começou:
-Bom dia a todos! Viemos aqui para divulgar o concurso cultural em busca de novos talentos que começa na próxima semana. Aos que buscam uma carreira que tenha a ver com música, nós sugerimos que façam o teste!
-Serão 20 jovens escolhidos entre 14 e 17 anos, então, aos que quiserem, preecham este cartão azul que será entregue daqui a pouco e depois deixem com coordenador da escola ainda hoje.
-Esperamos que vocês participem e, se tiverem alguma dúvida, podem nos procurar no intervalo ou ligar para o telefone que está aí no cartão.
Em seguida, um dos homens passou de carteira em carteira entregando um papel azul e depois foram embora.
-Que incrível! - escutei Isabela exclamando - essa é sua chance, Gabi!
Olhei pasma para ela.
Como assim...?
-Não escutou o que eles falaram!? É um concurso para achar novos cantores! E nós já te ouvimos cantar. Você tem que participar garota!
Uma pontada de angústia me atingiu e novamente aquele rosto surgiu em minha mente.
-Não estou a fim de participar.
-Por quê!? - Bruna interveio - O que você tem a perder?
Nessa ela me pegou.
As duas sorriram vencedoras quando perceberam que eu não tinha nada a dizer.
-Vamos, preencha isso logo!
Mesmo indecisa, completei a ficha de inscrição e, no intervalo, quando vi o coordenador recolhendo os papéis azuis, senti meu coração acelerar.
Respirei fundo e caminhei em direção ao meu destino.
Epílogo
Tentei parecer o mais natural possível quando saí da sala. Todos olhavam ansiosos para mim enquanto eu me aproximava.
-E então?
Sorri.
-Eu consegui uma vaga para participar do concurso!
Meus pais e minha amigas me abraçaram todos ao mesmo tempo. Não me sentia feliz assim há muito tempo. Parecia um sonho o que estava acontecendo, mas fiquei alegre em saber que não precisava acordar. Agora, vamos ver o que o futuro me reserva.
Eu podia escutar o público me chamando, gritando meu nome. Caminhei até o palco sentindo como se minha alma fosse sair do meu corpo e alcançar cada um que ansiava pelo início do show.
De todos os shows que fiz pelo país, esse seria diferente. Não por ser o último da turnê, mas sim porque hoje faz dez anos desde aquele acidente de julho.
Olhei para a multidão à minha frente e quase me perdi em meio aos gritos e flashes. Reparei por um momento na imensidão da noite. O brilho da lua e das estrelas que enfeitavam o céu pareceram me envolver e me guiar.
-Boa noite galera! Espero que todas aproveitem o show! Então, vamos para a primeira música: Lembranças secas.
Eric, eu te amo e sinto muito a sua falta. Porém, hoje parecia que você estava ao meu lado em todas as músicas. Será que isso é mesmo verdade?
Mesmo agora, penso em como gostaria de voltar para aquela época. Em um canto do meu coração guardo eternamente esse desejo. Não importa quanto tempo passe, sempre que fecho os olhos, vejo você sorrindo em minha mente. Por isso, continuo seguindo em frente, mesmo com essa cicatriz.
Fim!

Awards ganhos:
Extras:
Essa parte é somente para esclarecer algumas partes da estória. Começando por...
- Cicatriz, que significa uma marca deixada por uma ferida e é o próprio título, mostra que mesmo com o passar dos anos, a ferida/a perda que Gabi sentia por causa da morte do Eric não podia ser esquecida e continuava ali. Mesmo que com o tempo ela foi diminuindo, ainda restou a cicatriz.
- No segundo cap, quando a Gabi diz que sua vida mudou por completo não foi apenas por ter conhecido Eric, mas sim por causa de tudo que aconteceu em sua vida depois disso.
- A última música que a Gabi e o Eric cantaram juntos no AF: Sign. Não foi uma escolha aleatória, a letra retrata o que esperava por eles naquele mesmo dia. E a letra inicia assim:
Eu percebi a dor gritante
Bem alto no meu cérebro
Mas eu estou indo em frente com essa cicatriz(...)
- Sobre a Caranava: Ryuu = dragão
- Á sama... muitos me perguntaram se a Gabi fica com ele no final. Por isso mesmo, decidi não deixar nenhuma pista sobre isso! Prefiro que cada um tire suas próprias conclusões (: Só não se esqueçam de um detalhe, a própria Gabi, depois de 10 anos diz que ainda ama o Eric e durante toda a história, ela só via o Álvaro como seu melhor amigo. Então... será que os 2 ficam juntos no final? Cabe a você descobrir!
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