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Bem vindos! ;

Bem vindos, corações! Pois bem, essa é uma pp com a finalidade de que todos tenhamos um pouco de diversão. Eu escrevendo, vocês lendo. Meu nome é Andressa, e tenho 14 anos, e uso a conta "dessa_inthesky", sem contas secundárias por enquanto. Bem, finalmente me comprometi em escrever uma história na internet mesmo e não no meu ex-caderno escolar. Espero que gostem da história sobre Luna, uma garota que perdeu o pai e mudou totalmente de vida ao ir morar com seus tios, e desde então algumas coisas extraordinárias - ou mesmo estranhas - passaram a acontecer. E aí está! Divirta-se!


Regras ;

Bom, todo mundo sabe que nem é legal ficar colocando um monte de regras aqui. Mas de qualquer maneira, gostaria de esclarecer algumas coisas, para evitar confusões mais tarde.

- Copycat é crime. Todo o conteúdo desta página pertence a mim, e se eu ver alguém usando-o sem a minha autorização, pode estar ciente de que denunciarei sem prévio neomail. Por favor, sejam sensatos.
- Estarei criando tópicos no Fórum de Escritores de no Fórum de Petpages a cada atualização. Lá são dadas críticas e opiniões construtivas. Por favor, se for xingar ou qualquer coisa do gênero, envie por neomail.

E acho que é só, ué.


Awards ;

Recebidos



Que dou

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* Para pedir awards, envie neomail para dessa_inthesky.
* O código da caixinha de texto está dando erro, então enviarei por neomail se você quiser. Beijos : D

Link me e parcerias ;

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obs: o código do link ta dando defeito! Por favor, avise-me se quiser e eu te passo por neomail!

* Para pedir parcerias, envie um neomail para dessa_inthesky.

Amor Fantasmagórico


Atualizações ;

desde 24/03

24/03: Postei o capítulo 8 ;
26/03: Novo layout, codificação feita pela Laura ;
algum dia/do mês 03 ou do mês 04: postei o capítulo 9;
20/05: Postei o capítulo dez. Desculpem-me pela demora!
23/08: Postei os capítulos onze e doze. SEJAM FELIZES, WEE
28/08: Postei o capítulo 13 : D
29/08: Postei o capítulo 14!
Dia desconhecido: Coloquei layout novo e postei capítulo novo!
20/09: Postei o capítulo 17!


Créditos ;

Um obrigada a Isakimiisa, pelo desenho da Luna!
Um obrigada a Lauradrcb por codificar co layout!


História

* Prólogo
* Capítulo 1
* Capítulo 2
* Capítulo 3
* Capítulo 4
* Capítulo 5
* Capítulo 6
* Capítulo 7
* Capítulo 8
* Capítulo 9
* Capítulo 10
* Capítulo 11
* Capítulo 12
* Capítulo 13
* Capítulo 14
* Capítulo 15
* Capítulo 16
* Capítulo 17


Prólogo

Segurei a mão de Lucy, enquanto ela choramingava baixinho, daquele jeito que só crianças sabem fazer. Minhas mãos tremiam, tanto quanto as dela. Mas eu não chorava, e esta era a diferença. Ele me ensinara a ser forte; Ensinara-me a ser orgulhosa do jeito que sou, a jamais ceder quando estou certa de que certas coisas darão certo; E, por mais que ele não soubesse exatamente como cuidar de duas meninas sem o apoio de sua mulher, eu o perdoava. Na verdade, não tinha do que reclamar. Porque sabia que ele amara a mim e a minha irmã incondicionalmente. Ele nunca desistira de nós, mesmo que a sua carreira policial exigisse demais os seus esforços. E com certeza não gostaria de me ver chorando, porque sabia que eu crescera forte, igual a ele. Mas não culpava a minha irmã. Tinha apenas seis anos, o que mais poderíamos esperar? Não chegou a conhecer a mãe, e o pai acabara de falecer em um acidente de carro. Não. Chorar era uma das coisas que qualquer criança faria. Puxei-a para o meu colo. Havia crescido, estava mais pesada do que a última vez em que eu a segurara.

- Tudo vai ficar bem – Sussurrei ao seu ouvido, enquanto ela fungava no casaco de lã e me abraçava com toda a força. Agora éramos somente nós duas. E eu jurei, naquele momento, que iria protegê-la pelo meu pai. De qualquer problema que pudesse surgir, até que ela tivesse idade o suficiente para entender.

Um mês. Um mês desde a morte de papai, e lá estávamos nós. Aprontando-nos para o nosso primeiro dia em um lugar novo. Fiz duas trancinhas nos seus cabelos arruivados, prendendo-as com tantos frufrus quanto pudessem caber. Ela colocou o suéter que mais gostava, e pegou na minha mão. Eu tinha os cabelos igualmente amarrados em trança, mas apenas uma, e sem os frufrus. Não precisava parecer muito alegre, eu sabia de que qualquer maneira não seria notada por ninguém. Coloquei a minha blusa de lã preta e o casaco de couro por cima. Desta vez, desisti dos jeans rasgados, colocando jeans novos e os meus antigos tênis Converse pretos. Eu pouco estava me importando com a aparência, mas tentei não parecer tão moribunda no meu primeiro dia de aulas.

- Vamos, Luluzinha! – Chamou Lucy, com seu sorrisinho já sem um dos dentinhos da frente. Sorri, não pude evitar. E não que eu estivesse evitando sorrir naqueles últimos dias. Era só que se tornara algo difícil desde... Desde que papai morreu.


Capítulo 1

Tio Clinton deixou Lucy em frente à nova escolinha, juntamente à tia Jessica, e então arrancou o carro rapidamente, levando-me diretamente ao meu primeiro dia de aula. Eu sabia que seria um pesadelo, de verdade. Mas ele me desejou sorte antes que eu saísse do carro.

- Vai com Deus, Menina – Falou, sorridente. Tio Clinton e a sua imagem rechonchuda sempre me alegravam. Sorri de volta, acenando e jogando a mochila nas costas. Encarei a enorme construção. A Academia de São Paulo era mesmo bonita como ele havia dito. De tijolos à vista, um gramado bem grande na frente, onde rodas de estudantes se espalhavam. Alguns deitados, outros simplesmente à sombra de uma árvore conversando. Outros sozinhos também, grudados em celulares ou computadores. Não pude deixar de me entusiasmar, ao menos um pouquinho. O sol nascera feliz naquela manhã, embora o frio ainda fizesse as minhas mãos tremerem. E de certa forma eu sabia que não era somente o frio, mas de qualquer maneira... Joguei a longa trança sobre o ombro esquerdo, segurando com mais confiança os livros novos e erguendo o queixo.

Por sorte eu chegara meia hora adiantada, e depois de passar na sala do diretor e ser direcionada para a sala de aulas do primeiro ano do Ensino Médio, ainda restavam quinze minutos. Sentei-me em uma das carteiras do fundo da classe, deixando a mochila bem à mão, caso tivesse de liberar o lugar. E assim aconteceu, quando uma garota de saltos parou à minha frente.

- Querida, desculpe-me, mas este lugar é meu – O olhar que ela me lançou me deixou bastante desconfortável, mas eu não deixei que aquilo transparecesse. Resisti ao impulso de erguer uma das sobrancelhas e falar alguma coisa malcriada, e levantei-me, segurando a mochila em um dos ombros. Algo me dizia que o tom que ela usara não era de quem queria ser a minha melhor amiga.

- Ah, desculpe, não sabia que os lugares eram marcados aqui – Rebati. Não quis soar tão arisca como soara, mas saiu, de qualquer maneira. E então me levantei, notando que todas as carteiras já estavam ocupadas, exceto por uma. Dirigi-me até ela. Terceira carteira, segunda fileira. Bem no meio da sala. Tudo o que eu queria naquele momento, participar de toda santa aula e ter de fazer cara de quem estava entendendo para o professor. Certo.

Notei que alguns olhares só desprenderam de mim quando o professor entrou na sala, com um grande mapa na mão. Geografia. Teoria. Detestava teoria. Matemática, Português, ou que quer que fosse me atrairia mais. Mas não havia nada a fazer, de modo que apenas enrolei a ponta da minha trança no cabelo e preparei-me para esperar a aula acabar.

Quando finalmente o sinal tocou, a maioria dos alunos se levantou, e mesmo assim notei que alguns olhavam para mim, como se eu fosse ter um ataque epilético ali no meio, ou algo assim. Desconfiei que a grande maioria já soubesse dos últimos acontecimentos que acabaram com o meu ano. Bem, mas alguém resolveu tomar coragem e vir logo falar comigo. Aleluia. A garota de cachos aloirados que pulavam de sua cabeça fazendo-a parecer uma árvore sentou-se na carteira à minha frente, que vagara.

- E aí, garota, tudo certo? – Ela falou. Olhei para cima, notando seus olhos esverdeados.

- Tudo certo, e com você? – Respondi, soando animada.

- Tudo certo. Escuta, não vou fingir que não sei de nada e só ficar encarando como todo mundo aí. Espero que não se importe. De qualquer maneira, sinto muito, de verdade. – Sorri. De verdade. Agradeci-lhe com a cabeça, imaginando que ela já sairia. Mas ela continuou ali, me olhando com os olhos alegres. – Olhe. Estou nesse colégio há cinco anos. Tudo bem para mim se quiser passar o recreio comigo, Todd e Ana, para que não se sinta perdida. – Fiquei imaginando se ela estaria fazendo isso por pena. Estando ou não estando, era uma opção melhor do que passar o recreio no banheiro.

- OK, obrigada. – Falei, sorrindo novamente, desta vez tendo de forçar um pouco. Estava vendo que para ganhar a simpatia das pessoas ali teria de sorrir bastante.

Aula dupla de Português, e em seguida, o recreio, para o qual parti sem hesitar. A menina dos cabelos cacheados acabou me encontrando, ela e mais duas figuras que me pareceram bastante simpáticas. Apresentou-se como Mariana. A menina de cabelos muito escuros ao seu lado era Ana, e o garoto que restou - alto e de óculos - só poderia ser Todd. Notei, enquanto andava para a cantina, que algumas pessoas ainda me encaravam com se eu fosse problemática, ou algo do tipo. Não sabia se era engraçado para elas, mas para mim era incômodo. Extremamente incômodo. Porque só me lembrava da razão de eu estar ali e de elas estarem me lançando todos aqueles olhares. Mas agüentei firme, até o almoço. Almocei meu sanduíche de pepinos com os três também. Depois disso, uma aula de história e uma aula de educação física. Eu estava justamente agradecendo por nenhum dos professores ter-me chamado para frente da classe, mas foi justamente a de História quem me chamou. Acho que todos os outros ficaram com pena e evitaram me chamar ou olhar para mim durante as aulas. Mas não me salvei.

Levantei tremendo nas bases quando ela me chamou. – Pode se apresentar, querida. – Falou, por trás dos oclinhos quadrados.

- Hã... Oi. – Falei, e a turma toda respondeu. Uau. Comecei a ficar mais confiante, de certa forma. – Meu nome é Luna Valente, tenho, hã, quinze anos e... – Parei, pensando seriamente em acabar com um "e... só! Tchau!" mas agora eu já começara. Bem, pensei por alguns segundos no que poderia falar, a turma olhando para mim. Alguns, com olhares curiosos, outros com aqueles olhares que eu conhecera muito bem no último mês. Sorri amarelo, mas logo retomei a minha fala. Notei que até a professora esperava que eu continuasse. Talvez devesse falar logo o que todos pareciam querer ouvir de mim. – Bom, é verdade, meu pai faleceu no mês passado, num acidente de carro. E se me permitem, agora que já sabem eu gostaria que tentassem parar com esses olhares estranhos com que eu sei que a maioria está me encarando desde o momento em que eu pisei nessa sala de aula. Ou pelo menos que tentassem ser mais discretos, porque isso não me faz sentir nem um pouco melhor. – Fechei a boca brutalmente, antes que começasse uma série de xingamentos e apontasse para cada garoto e garota cujas faces eu gravara de tanto eles ficarem olhando. A maioria enrijeceu na cadeira, enquanto outros lançavam "úúuuus" e assoviavam baixinho. Pois é. Só esperava que me tivesse feito entender. Porque pagar todo aquele mi_co (neopets não aceitou o_o) lá na frente com certeza estava me fazendo ter vontade de que um buraco se abrisse e me sugasse para o nada. – Hã... Obrigada. – E voltei a me sentar.


Capítulo 2

Se eu tivesse alguma esperança de ter chance de me enturmar depois daquele adorável discurso, realmente, eu deveria abandoná-la antes que me decepcionasse. De qualquer maneira, não estava muito preocupada com aquilo. Porque nunca tive muita facilidade em criar laços com outras pessoas, então, o que eu tivesse, estava de bom tamanho, nem que isso significasse necas, bulufas, nadinha, absolutamente nenhum amigo que me convidasse para ir ao cinema numa noite de sábado. Acreditei de verdade que Mariana não fosse mais olhar na minha cara depois daquilo, mas, por algum motivo desconhecido, continuou a conversar comigo, acolhendo-me entre os quarenta e cinco alunos da turma. Aquilo me fez sentir bem, é claro.

Sexta feira. Meu terceiro dia naquela escola. A aula passou tão rapidamente que quase não notei. O que acontecera no primeiro dia pareceu ter ficado para trás, já que agora muita gente resolvera me cumprimentar quando chegava à sala e tudo o mais, e na verdade até eu estava me tornando mais amigável. A última aula da tarde era educação física, como na quarta feira. Hoje treinamos vôlei, para a minha sorte. Acho que voleibol é a única coisa que eu sei jogar realmente, e que não me deixa rondando a quadra como um cego em tiroteio. Acredite, já tentei praticar basquete, ou qualquer outra coisa, mas não foram experiências muito boas. Meus uniformes já haviam ficado prontos, de modo que eu estava vestida para a aula de esportes como todas as outras garotas. A camiseta da escola, e o short que ia até pouco antes dos joelhos. Havia um tempo que nos era fornecido no início e no final da aula, para trocarmos de roupas. Havia acabado de colocar os jeans novamente, secando-me com uma toalha de rosto que eu havia levado dentro da bolsa. Quase todas as garotas já haviam ido, restaram apenas as que quiseram tomar uma ducha na escola, e não em casa. Joguei a mochila nas costas e atravessei o ginásio, passando pelo pátio e entrando novamente na ala onde ficavam as salas de aula.

Estava passando pelas salas em direção ao pátio da frente, quando ouvi o meu nome. Olhei pelo corredor, procurando por quem me chamara. Mas parecia mais um sussurro do que alguém realmente me chamando. Prestei atenção por alguns instantes e percebi que vinha de uma das salas vazias. Curiosa, aproximei-me da porta, tentando reconhecer quem estava lá dentro. Luís, eu acho que era o seu nome, que estudava comigo, e mais um cara, aparentemente do último ano, muito maior que ele. Escondi-me rapidamente quando Luís olhou em volta para ver se ninguém passava pelo corredor. E voltou a olhar para o outro rapaz.

- Sim, Júlio, a garota nova, Luna Valente. Eu vi dentro dela, ela tem o gene. É estranho que não tenha se manifestado ainda, mas você sabe que existem algumas pessoas que levam mais tempo a desenvolver. Mas precisamos acelerar o processo, antes que seja tarde demais, porque também pode levar anos. E precisamos de muito mais gente para enfrentá-lo. Ele é forte demais. Precisamos dar um jeito.
- E você tem alguma ideia do que virá para ela? Eu sei que é meio imprevisível, mas você já conseguiu antes. – Indagou o outro.
- Não. Está difícil de perceber na sua maneira de agir, já que está se contendo e tudo mais devido... Aos recentes acontecimentos. – Ele respondeu. Prendi a respiração. Do que estavam falando, afinal? Levantei-me, decidida a entrar na sala e perguntar o que estava acontecendo. Mas quando os vi, eles estavam andando em direção à porta. Amarelei. Fiz o que podia fazer: Andei o mais rápido que pude para longe. Antes que me alcançassem, virei no corredor que me levaria à saída. E saí, andando o mais rápido possível, avistando o carro de tio Clinton estacionado lá fora.


Capítulo 3

O que diabos aqueles garotos estavam falando, eu não sabia. A noite, acalmei-me. Respirei fundo, dizendo a mim mesma que não poderia ser nada de mais, que havia ouvido os nomes errados. E realmente cheguei a me convencer, adormecendo em baixo dos montes de coberta, mergulhando em um sono profundo, sem sonho algum. Só fui acordar no outro dia, com Lucy me chacoalhando com as mãozinhas pequenas.
- Vamos Luna, acorda! Nós vamos almoçar já já, e você disse ontem que ia me levar ao parque de diversões durante a tarde! – Falava animadamente.
- Ok... Lucy, eu já estou levantando. Só vou me trocar, espera um segundinho... – Saltei para fora das cobertas, trocando-me rapidamente para não ter de sentir o frio, colocando uma blusa, um moletom, e um casaco comprido por cima que me deixava muito parecida com um esquimó. Fiz uma trança que saía do topo da minha cabeça, embutida – como alguns dizem -, e coloquei um gorro vermelho por cima. Saímos todos para almoçar, Tia Jessica dirigindo o carro na direção do McDonalds mais próximo. Depois de um lanche generosamente grande e cheio de calorias, fomos passear na praça. E então, tia Jessica deixou a mim e a Lucy em frente ao parque de diversões, onde passaríamos a tarde inteira, eu acreditava. Entregou-me uma nota de cinqüenta reais, para comprarmos os bilhetes. Lucy agarrou a minha mão, entusiasmada. E o primeiro brinquedo em que fomos, foi roda gigante.

Cada cabine tinha espaço para quatro pessoas. Sentei em um dos lados, junto à Lucy. Mais duas pessoas entraram, um pequeno garotinho, de uns oito anos, e um mais velho, numa situação muito parecida com a minha e de Lucy, a mais velha cuidando da mais nova. Percebi que o conhecia. Notei os olhos verde-musgo e os cabelos muito escuros, que saltavam de sua cabeça em cachos desgrenhados. Sorriu quando me viu, embora eu não tenha retribuído. Minhas mãos começaram a tremer, e no momento em que eu considerei a ideia de sair da cabine a roda começou a se mover. Ótimo. Eu e minha irmãzinha estávamos presas numa cabine com um guri e seu irmão, e este guri por acaso tivera uma conversa estranha a meu respeito com um garoto mais velho no dia anterior.

- E aí, Luís? - Foi o que eu falei, apenas cruzando os braços e olhando para a paisagem cheia de neblina, enquanto sentia a roda gigante girando lentamente. Lucy me cutucava às vezes, mostrando algum elemento engraçado que encontrava na paisagem. Quando completamos a primeira volta, seu olhar começou a me incomodar. Era como se observasse além dos casacos, além da minha pele. Sentia o verde musgo de seus olhos fitando cada célula, cada poro, despindo-me de qualquer barreira. Virei em sua direção, fixando meus olhos nele também, para ver se ele percebia o quanto eu estava desconfortável. Perguntei-me se haveria alguma maneira de fazê-lo parar. Se haveria alguma maneira de expulsá-lo dali. Não da cabine, mas de dentro de mim. Porque era o que eu sentia, como se ele estivesse ali, junto ao meu sangue, enquanto o meu coração bombeava, e os meus dedos tremiam de frio. Até que eu senti aquela força estranho subindo para a minha cabeça, para o meu cérebro. Era como se os meus olhos estivessem voltados para dentro, como se eu pudesse vê-lo explorando cada neurônio, cada área desconhecida dali. Até que eu fechei os olhos e me concentrei em combatê-lo. Não sei exatamente o que estava fazendo. Acho que estava pirando de vez, porque eu não tinha a mínima ideia de como aquilo era possível. E de repente, uma barreira formou-se dentro de minha mente, expulsando o intruso com tanta brutalidade que meu estômago revirou quando abri os olhos. Ele parecia muito frustrado, mas respirou fundo, parando de me olhar, e desviando a atenção para longe. Franzi o cenho, notando que seus olhos pareciam mais escuros e fora do normal. E então ele piscou, e parecia que eu havia imaginado aquilo tudo. Segurei a mão de Lucy. A roda gigante parou, e eu a puxei imediatamente para fora da cabine, antes que meus olhos pudessem ter mais algum contato com os dele. Não, mesmo que ela pedisse, não voltaríamos a andar na roda gigante.

Carro-de-choque, Trem Fantasma, Chapeu Mexicano. Àquela altura, eu já havia esquecido o garoto, é claro. Lucy parecia feliz como nunca, sorria muito mais do que sorrira em qualquer um daqueles dias, desde um mês atrás. O que me fez sorrir mais ainda, é claro. Fiquei assistindo enquanto ela entrava num dos elefantinhos individuais que subiam e desciam levando crianças de até nove anos. Um dos caras que cuidavam dos brinquedos a instruiu sobre como lidar com os botões que fariam com que ela subisse e descesse. E então o brinquedo começou a se mover. Cruzei os braços e fiquei assistindo. Mudei o peso para o outro pé e quase pulei longe quando vi Luís ao meu lado, também assistindo o seu irmão, que se encontrava em outro elefante.

- Vamos lá Luna, eu não sou tão feio para você levar um susto tão grande. – Ele falou, sorrindo e olhando para mim. Ok, ele nem era tão feio assim, de verdade. Mas desviei a minha atenção para longe, evitando o seu olhar, com medo de que aquela sensação que eu tivera anteriormente voltasse. Mas não aconteceu, felizmente. Voltei a pensar que devia ser somente a minha imaginação brincando comigo. Desde a morte de meu pai eu estou apta a ver coisas na minha frente, a sentir coisas diferentes, que na verdade, não são nada. É o que a psicóloga tinha dito, pelo menos.


Capítulo 4

Não tinha certeza de que já havia acordado quando fui para a escola na manhã de segunda feira, bocejando de trinta em trinta segundos. Eu estava bastante desleixada, em comparação a todas as outras garotas. Tinha os cabelos presos em um rabo-de-cavalo no alto da cabeça, usava uma camiseta branca grande demais, estampada com alguns dizeres, os meus jeans rasgados e o Converse. Sempre me perguntei por que a maioria se arrumava para ir para a escola. Porque você estava indo ali para aprender, não para um desfile de moda, estava? Acordar mais cedo todo dia só para passar a chapinha no cabelo, maquiagem no rosto, sendo que ninguém estava ligando para a sua aparência e sim para o conteúdo de biologia no quadro, era algo que eu nunca, NUNCA faria.

Joguei-me na carteira que eu ocupara em todos os outros dias, bocejando novamente enquanto Todd passava e me cumprimentava. Mariana veio logo depois, parando em frente à minha carteira e contando que havia viajado para o Paraná com seu pai e sua mãe naquele fim de semana. Sorri, dizendo que levara Lucy ao parque de diversões e assistira toda a trilogia de Senhor dos Aneis no domingo. Ela riu e dirigiu-se para a sua carteira, deixando-me sozinha com os meus materiais e com os meus pensamentos. Por mais que estivesse sonolenta, fiz o que pude para prestar atenção na aula de história, já que o conteúdo já estava na metade quando eu cheguei durante a semana passada, procurando anotar tudo o que pudesse sobre o que o professor falava.

Nada de estranho naquele dia. Estava feliz, convencida de que não devia estar assim tão maluca. Recreio normal, as duas últimas aulas normais também. Quando o sinal bateu, todos correram para fora como se estivessem dando cheeseburgers de graça na frente da escola. Estava pronta para acompanhá-los, mas alguém me parou. – Oi Luna! – Falou Luís, parando à minha frente. Hesitei. – Hã... Oi. – Respondi. Ele sorriu, seus os olhos verde-musgo brilhando levemente. Enrolei uma mecha castanho-clara no indicador, perguntando-me se devia me despedir e ir embora ou esperar que ele falasse. – Então... Como está Lucy, a sua irmã? – Ele perguntou. Parecia nervoso, e olhava a todo o momento para a porta, como se esperasse ver alguém entrando por ela. E de fato alguém entrou, quando eu acabara de responder que Lucy estava bem. A sala estava vazia, a não ser por Luís, Júlio – o garoto mais velho, que chegara agora – e eu. Levantei as sobrancelhas. – Hã... Ok então, eu vejo você amanhã. – Falei, andando na direção da porta. Mas Júlio segurou o meu pulso. Era incrível como era forte. Porque eu era bem forte também, sabe, e sabia como me soltar de alguém que me segurava. Meu pai havia me ensinado. Mas não houve escapatória. Ele era uns sessenta centímetros mais alto que eu.

- Fique calma, menina. – Ele falou. Como é que eu podia ficar calma?! Estava prestes a gritar quando ele tapou a minha boca com a mão. Arrastou-me até Luís, que se aproximou. Olhei-o, assustada. Ele encostou a mão na minha nuca, e o verde musgo agora faiscava, enquanto aquela sensação chegou milhares de vezes mais forte do que a que eu sentira no sábado. Agora eu sentia-o se conectando aos meus neurônios, e o mesmo a cada célula. Ele parecia manipulá-las, parecia falar com elas. Perdi o equilíbrio, mas Júlio segurou-me, seus braços sendo o único motivo para eu ainda não ter desabado no chão. Minhas pálpebras fecharam, mas eu ainda estava acordada. Uma dor lancinante percorreu toda a minha espinha, e eu comecei e tremer. Luís tirou a mão de minha nuca, e apoiou-a em minha testa, e dessa vez eu desabei de joelhos. Não conseguia gritar; Mal conseguia sentir Júlio colocando as mãos em meus ombros, tentando me fazer levantar novamente. Eu tremia. Lágrimas escorriam pelo meu rosto, e a minha pele ardia, dos pés à cabeça. E de repente eu não senti mais nada. Apaguei.

Meus olhos se abriram, de súbito. Por um instante não consegui ver nada, absolutamente nada. E então a visão das carteiras da sala de aula apareceu diante de mim. Percebi que fazia apenas alguns minutos que eu desmaiara. Uns três ou quatro. Sentei-me vagarosamente. Não havia ninguém ali. Ouvia o eco de saltos vindo do fim do corredor, mas a coordenadora não me viu e passou diretamente pela sala. Respirei fundo. Apoiando-me em uma cadeira, consegui ficar em pé, enquanto uma dor de cabeça muito forte cegava-me parcialmente. Andei pesadamente, e vi o carro de tio Clinton parado lá na frente. Encaminhei-me para lá, entrando no carro. Ele parecia preocupado, olhando-me de pouco em pouco. Quando perguntou, disse apenas que estava com uma dor de cabeça insuportável. Não podia contar aquilo para ele. Eu sei que eu o adorava, e ele era meu tio, mas como eu ia dizer que dois caras quase me mataram no fim da aula, se eu não tinha prova alguma, a não ser a dor de cabeça lancinante?

Dormi a tarde inteira. Caí na cama e desmaiei como disse tia Jessica. Acordei às oito da noite, descendo para jantar. Meus tios haviam encontrado uma escola de dança onde matricularam Lucy. Ela estava extremamente entusiasmada com a ideia, e deixava aquilo muito claro. Fiquei encarregada de levá-la para a sua primeira aula no dia seguinte, às quatro da tarde. Subi para o meu quarto, e de repente senti-me abalada. Eu estava com medo. Eu não tinha certeza se deveria ir para a escola no dia seguinte, porque eles estariam lá, eu sabia disso. E se tentassem me machucar novamente, como fizeram hoje ao fim da aula? Percebi que lágrimas escorriam pelos meus olhos, como nunca. Parte da camisola, onde os pingos caíam, estava encharcada.

Fiquei pelo que pareciam ser horas encolhida na cama, chorando, esperando o sono vir. Todas as lágrimas que eu não chorara em frente ao caixão de meu pai há um mês, resolveram vir à tona agora. Eu estava com medo. Estava cansada, triste, desolada. E acima de tudo, eu queria o meu pai. Ali comigo, naquele momento, porque ele saberia o que fazer, saberia me consolar e não deixaria que eu me machucasse de novo. Segurei fortemente o porta-retratos que descansava sobre a mesinha de cabeceira. Abracei-o, mesmo sendo muito grande para o seu tamanho, e aquilo fez com que uma onde de calmaria me invadisse. Respirei fundo com as pálpebras já pesando. Eu sabia o que tinha que fazer.


Capítulo 5

Levantei-me da cama, bocejando rapidamente. Ainda estava escuro. O despertador sem dúvidas havia errado no horário, mas eu não queria voltar a dormir, não tinha o mínimo sono. Desliguei-o e calcei as pantufas e o roupão vermelho que eu costumava vestir ao acordar, já que estava frio. Acendi a luminária, e olhei pela janela, para a rua escura e vazia, exceto pelo cachorro sem dono que costumava passear por ali. Embora tendo nunca tentado fazer aquilo, abri a janela. Um pouco de ar fresco para os meus pensamentos seria bom. Passei uma perna por cima do parapeito da janela, e a outra também. Apoiei-me nos tijolos – o meu quarto era no segundo andar da casa de tio Clinton – e fui, com bastante cuidado, até uma parte mais reta, onde não haveria tanto perigo de eu cair. Ali, sentei-me, apoiando as costas. Olhei para o céu, de onde me observavam milhares de estrelas. A lua crescente também parecia sorrir para mim, toda alegre.

Permaneci daquele jeito por algum tempo, se muitos pensamentos à cabeça. Até que ouvi um estalido. Em circunstâncias normais, eu teria pensado que não era nada. Mas se até agora eu não tivesse ficado ao menos um pouco paranóica, não sei como é que eu estaria. Sentei-me rapidamente, olhando à minha volta. Olhei em direção ao jardim, e depois para o outro lado da rua. Duas pessoas estavam sentadas ali no meio-fio, capuz à cabeça e mãos nos bolsos. Por um momento pensei... Não, não podia ser. Era só a minha paranóia, é claro. Levantei-me desci um pouco mais do telhado, equilibrando-me e tentando ser silenciosa, para que não me reconhecessem. Mas então os dois se levantaram, preparando-se para atravessar a rua. Infelizmente, desviei a minha atenção. E o que acontece a seguir você já pode imaginar.

Desci rolando pelo telhado, caindo diretamente contra a grama em frente à minha casa. Novamente, dor. Sem dúvidas eu havia quebrado um braço, ou deslocado o ombro. Olhei para a minha perna. Inchava como um aparelho de medir pressão, assumindo um tom roxo-avermelhado. – Droga! – Praguejei. O que aconteceu a seguir foi totalmente esquisito. Estendi a mão direita, cujo braço não estava aparentemente quebrado, e encostei-a na perna machucada. Mantinha os olhos fechados, tentando não abrir o berreiro bem ali. Então, de repente, a dor passou. Senti um leve formigamento na região que inchava, e tive de abrir os olhos para ver. Minhas mãos brilhavam. Mas não era um brilho qualquer. Era um brilho que cegaria qualquer um que olhasse de fora por alguns instantes. Alguns segundos depois aquilo passou. Olhei para a minha perna. Estava normal novamente. E o meu braço? Perfeito. Dor nenhuma.

Acordei de súbito, o despertador buzinando ao meu ouvido. Respirei fundo, era somente um sonho. Levantei-me rapidamente, indo para o banho e prendendo o cabelo em um rabo de cavalo alto. Em seguida, vesti a minha calça de esportes, os tênis, uma camiseta qualquer e um casaco por cima. Desci para o café da manhã. Tudo normal, Lucy com seu sorriso alegre no rosto, tio Clinton e tia Jessica com suas olheiras. Saí para a varanda e desci as escadas, esperando enquanto tio C. saía da garagem com o "carro da família". Notei algo estranho na paisagem. Meu coração disparou, os olhos arregalaram. Se havia sido um sonho, por que meu roupão vermelho estava pendurado ali, na beirada do telhado?


Capítulo 6

Ok. Vou ser bem sincera, e dizer que não surtei da maneira como esperava surtar, ao perceber milésimos antes o que de fato havia acontecido. Eu praticamente caí dura, é isso! Desequilibrei-me sobre os tênis, enquanto tremia feito uma vara verde. Respirei fundo, e levantei-me, ajeitando o casaco e enfiando as mãos no bolso. Subi as escadas da porta de entrada e atravessei a varanda, pulando para alcançar a ponta do roupão, que pendia úmido, balançando quando eu não o alcancei. Apoiei-me no cercado branco, e pulei novamente, esticando o braço o mais alto que pude. Agarrei o tecido vermelho firmemente, e puxei-o comigo para baixo. Provavelmente havia ficado preso em alguma telha ou prego. Mas espere. Se ele havia de fato ficado ali, isso significava que eu havia realmente caído. E se eu havia caído, deveria estar machucada, ou ao menos sentindo alguma dor nas costas. Então... Mas antes que pudesse tirar mais conclusões, tio Clinton buzinou, e eu corri até o carro, entrando e colocando o cinto de segurança, segurando toda a minha curiosidade ali dentro, amassando-a como um papel, para apenas mais tarde desamassá-lo e tentar entender o que realmente estava escrito.

A aula passou-se normalmente, embora tenha ficado bastante perdida sem Mariana, que faltara naquele dia. Ana e Todd dispersaram-se e eu acabei me perdendo também na hora do recreio, de modo que só me restava ficar andando por ali e procurar por eles. Mas logo algo me veio à mente. Algo que eu havia pensado ontem_   noite, logo antes de dormir, que eu planejara fazer ao fim da aula de hoje. É claro que não seria a mesma coisa se eu não fosse tão impaciente, mas também não seria eu se não tivesse aproveitado aqueles vinte minutos de folga para tirar algumas satisfações. Encontrei Julio novamente junto ao tal Luís, ambos de costas para mim. Estávamos muito perto do parque das crianças que estudavam ali no período da tarde, e não havia quase ninguém para presenciar. Juntei uma pedra bastante grande do chão, e coloquei-a no meu bolso. Só por precaução. Aproximei-me um pouco mais, e gritei: - EI, VOCÊS DOIS! – Os dois olharam para trás, e pararam onde estavam, olhando para mim e esperando que eu me aproximasse, pisando forte e com os nervos à flor da pele. Mas eu não deixava aquilo transparecer, é claro. Não muito.

- Ok. – Falei, puxando os dois pela manga, que não fizeram menção em dar meia volta. Paramos atrás do escorregador. Um deles sorriu, mas eu nem reconheci qual dos dois fora, tamanha a raiva que se alastrava por dentro do meu corpo. – É o seguinte: É melhor vocês falarem logo o que fizeram, ou eu juro que dou um soco bem dado na cara de cada um. E também, meu pai é policial, não faço questão em esconder o que vocês fizeram ontem para a polícia. – Desembuchei. Julio olhou-me, quase aos risos. – Mas o seu pai não morreu, Luna? – Foi como uma facada. É claro que eu não havia percebido o que estava falando, e é sério que se eu estivesse sem roupas também não perceberia. A vontade de esmurrar os dois crescia cada vez mais dentro de mim, e eu estava bastante apta a fazê-lo. Peguei a pedra do bolso, como se ela pudesse me ajudar em alguma coisa. Sentia-me ofendida. Minha respiração estava acelerada, e preparei-me para falar novamente quando Luís resolveu se aproximar, vagarosamente, para tentar tirar a pedra da minha mão. Apenas ergui-a, enquanto o empurrava com toda a força de volta para o escorregador. – Fique longe de mim! – Gritei. – Nem ao menos olhe, seu insano! – Gritei ainda mais alto, brandindo a pedra.

– Calma, Luna. Nós vamos explicar tudo. – Disse Júlio, num tom bastante pacífico. Encarei-o, perguntando-me se ele estaria falando a verdade. Deixei que a pedra caísse no chão, a respiração ainda ofegante. – Pois então explique logo! – Falei, como se pudesse apressá-lo. Mas o que ele fez foi rápido demais. Vi apenas duas coisas: Uma faca saindo de seu bolso, e essa mesma enterrando-se em minha barriga. Luís, às suas costas, veio correndo, como se não soubesse que aquilo aconteceria. Caí de joelhos no chão, sem ar, a dor invadindo-me, uma lágrima escorrendo pelo meu rosto. Com algum esforço, tirei a faca de minha barriga, desequilibrando-me. O sangue escorria pela minha camiseta branca, nova, enquanto o ar não mais existia em meus pulmões. Eu queria gritar, mas não conseguia. Pressionei as mãos sobre o corte, deixando os ombros caírem. – Seu louco! – Ouvi Luís gritar para Julio, embora não distinguisse as palavras exatamente. Ouvi seus passos. Minha boca estava escancarada. Não respirada. Nada dizia, não gemia ou gritava. Até que um novo sopro de ar encheu meus pulmões. Ínfimo, mas aos poucos e com certa dificuldade, voltei a respirar. E então o sangue parou de descer, e o corte acima de meu umbigo fechou. Tirei com dificuldade o casaco e olhei o branco manchado de minha camiseta. Ergui-a, olhando incrédula para acima de meu umbigo. Nenhuma marca. Nada, como se nunca tivesse acontecido, exceto pelo sangue. Olhei para cima. Luís estava parado, embasbacado. Julio me parecia indiferente.

- Como eu imaginei. Regeneração rápida. – Ele sorriu triunfante. Ergui as sobrancelhas, mal percebendo que estava com frio. – O quê, rápida? – Perguntei, como uma débil, sem tirar os olhos de onde o corte fechara. Baixei a blusa, pegando o casaco ao lado e vestindo-o, as mãos trêmulas. – Regeneração. Seu corpo sara rapidamente quando machucado, não importando a gravidade. Você não pode morrer também, se eu não estiver enganado. – Luís respondeu, como um robô, os olhos desviando rapidamente após piscarem. – É claro, Julio. Ela realmente se machucou ontem_ Agora tudo faz sentido. – Quer saber? Para mim não fazia o mínimo sentido. Não estava entendendo nada, necas, nadinha. Levantei-me rapidamente. Cambaleei, mas logo recuperei o equilíbrio e a compostura. – Olha, eu não sei o que vocês são ou o que vocês querem. – Comecei – Mas é melhor ficarem longe de mim. Ou eu juro que dou um jeito de acabar com vocês. Ah, se dou. – E então dei meia volta e corri para longe, mesmo sabendo que os dois me seguiam a passadas rápidas. Tremia feito uma condenada, e quase não consegui fechar o casaco antes de Todd me notar.

- Ei , Lu, onde você estava? – Ele perguntou, sorrindo e se aproximando. Tentei não avermelhar. Tentei não demonstrar absolutamente nada. Dei de ombros, ouvindo o sinal bater. Viramos para a esquerda, tomando o rumo da sala de aula. – Procurando por vocês. – Respondi, indiferente.


Capítulo 7

Durante o resto do dia pude sentir olhos me vigiando, embora quando resolvia olhar em volta para procurar a pessoa, ninguém estivesse lá. Tomei um banho, ciente de que ele acalmaria os meus nervos. Mas de nada adiantou. Preparei o almoço, e sentei-me com Lucy para almoçar, vestindo-a logo depois no tutu cor-de-rosa para levá-la a aula de balé mais tarde. Peguei minha bolsa, calcei os tênis e levei-a pela mão até a academia de dança. Estávamos adiantadas, de modo que paramos para tomar um sorvete. E então voltamos a andar, seguindo as placas que indicavam os nomes de cada rua, olhando de pouco em pouco no papel que eu carregava.

Assinei algumas coisas sobre a inscrição de Lucy, e finalmente ela adentrou a sala já cheia de pequenas alunas iniciantes no balé. Deu-me um tchauzinho, e eu esperei mais alguns segundos pra ir embora. Bem, você já deve imaginar que no caminho para casa algo teve que acontecer. Até mesmo eu pensei em como era uma situação perfeita para que algum dos malucos pulasse nas minhas costas. Bem, eu não sentia mais que alguém estava me seguindo, mas mesmo assim fiquei em alerta. Coloquei os fones de ouvido e a música no máximo, como se pudesse espantar o medo de ficar sozinha que aumentava a cada passo que eu dava. Tentava lembrar exatamente do caminho que fizera, olhando às vezes no papel. Mas a minha cabeça estava tão cheia de pensamentos que não teve exatamente uma grande preocupação em cuidar do local para onde eu estava andando. No fim, encontrei-me em um lugar não muito deserto, mas também não muito cheio de gente.

Era uma estação de trem, a ferrovia já antiga. Pude ver ao longe o trem que já se aproximava pelos trilhos. Tirei os fones de ouvido para perceber melhor o seu barulho. E então uma ideia me veio a mente. Insana, eu sei. Tentar suicídio daquela maneira com certeza era obra de um maluco. Mas digamos que a minha cabeça não esteja á na mais perfeita ordem de uns dias para cá. Hesitei, quando vi que o trem estava se aproximando. Esperei que andasse um pouco mais, e então corri para os trilhos, já notando algumas pessoas que observavam. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto quando parei, esperando que aquela máquina gigantesca me atingisse com toda força. Queria ver até onde a minha esquisitice ia. Se não fosse pelo menos um pouco mais avançada que isso, eu morreria na certa. Mas eu não morrera esta manhã, o que realmente me deixou um pouco mais reconfortada. Até que senti algo extremamente grande chocar-se contra o lado direito de me corpo.

Pensei que estivesse morta. De verdade. Por um instante, senti minha cabeça chocar-se contra as pedras do chão ao redor do trilho. Mas eu não sentia nada enroscando em cima de mim, ou dilacerando as minhas costas, como esperava. Senti uma dor aguda no braço esquerdo, e tentei me levantar mal conseguindo mexê-lo. Com o braço direito, segurei-o contra o meu corpo, concentrando-me no cotovelo, local onde as pontadas de dor quase me faziam chorar. E então elas passaram. Notei que podia mexer tranquilamente o braço, sem dor alguma. Sentei-me, notando as roupas sujas. Vi os vagões passando, apressados, bem na minha frente. Levantei uma sobrancelha. Como é que eu fora parar ali, e não debaixo do trem? Olhei para os lados. A resposta estava logo ali caída, gigantesca e vestida em um casaco de couro grande e jeans surrados. Ok, talvez não gigantesca, mas pelo menos meio metro maior que eu, e com alguns músculos que certamente jamais teria. Preocupei-me em não ficar olhando e babando, e sim prestando atenção. Ele estava morto?

Dei um jeito de virar aqueles setenta e oito quilos de massa muscular, para reconhecer a face do cara que me salvara. Não, não o conhecia. Levantei uma sobrancelha, percebendo que deveria ser uns três ou quatro anos mais velho que eu. Por que havia me salvado eu também não sabia. Cutuquei sei ombro, para ver se tinha alguma reação. Continuava meio molenga ali do meu lado. Cutuquei um pouco mais, falando – EI! – Em eu ouvido com a minha voz mais alta. E então houve alguma reação. Vi suas pálpebras começarem a abrir, e notei os olhos azuis que por baixo delas se escondiam. Quase corei. Quase. Mas não sou de corar na frente de todo mundo. – Sua louca! – O rapaz falou, sentando-se de súbito e quase caindo novamente. Uma leve expressão de dor fez com que franzisse as sobrancelhas. Agora eu corei, tentando considerar o que todas as pessoas de fora estariam pensando de mim. – Ahn... – Comecei – Obrigada?

Ajudei-o a se levantar, oferecendo um obro e o braço algumas vezes menos forte para que ele se apoiasse, sendo que um dos pés mal podia encostar-se ao chão. Uma leve felicidade assomou-se ao meu interior. Afinal, quem não ficaria feliz, quando o seu braço trêmulo está em volta de alguém cujo tórax devia-se resumir a um tanquinho muito bem malhado? Andamos até a calçada e sentamo-nos em um dos bancos. – Por que você estava tentando se matar? – Ele perguntou, numa voz bastante irritada. Ponderei por um momento, decidindo qual seria a melhor resposta. É claro que eu teria que mentir, já que "Ah, eu só estava querendo testar meus superpoderes, ou seja lá o que forem, e ver se eu morreria se me jogasse na frente de um trem..." não era lá a melhor escolha. – E-eu... Não sei direito... – Falei, como uma afetada. – Na verdade, eu não lembro... Acho que bati a cabeça quando caí... Caímos... Sei lá. – Eu não se qual era a minha cara naquele momento. Deveria parecer uma completa ridícula ali, tentando encontrar uma explicação plausível.

- Ah. – Ele respondeu. – Pois é, mas você teve a sorte de nem se machucar. – Terminou, olhando para o meu rosto, que provavelmente estava com alguma quantidade de sujeira. – É... – Comecei, mas fiquei quieta. Encostei as costas no banco, sem saber o que fazer. – A sua perna já está melhor? – Perguntei alguns segundos depois. – Não. – Ele respondeu, soando ainda mais irritado. Baixei a cabeça, encabulada. – Ahn... Não sei exatamente como agradecer... De qualquer maneira, preciso ir para casa, então... – Levantei-me rapidamente, e o rapaz não disse nada. – Tchau... – Murmurei, virando-me para ir embora. Mas... êpa. Eu nem sabia direito onde estava! Nem sei lhe dizer o quanto meu rosto ardeu ao ter de virar-me de novo. – Bom... Ahn... Sabe, eu me mudei para cá faz pouco tempo, - comecei, gesticulando freneticamente – E... Bom, você sabe onde fica... – Procurei o papel em meu bolso, onde estava escrito o nome da rua onde minha tia morava. Ele me fitou quando falei ainda hesitante. – Esquece. Acho melhor acompanhá-la, antes que tente se matar de novo.

Não olhei por onde íamos, apenas o segui, olhando para os pés e evitando o seu olhar. Eu me lembrava de uma loja pela qual passara antes, mas não me lembrava do lado da rua pelo qual passávamos. Na verdade, a loja era a única coisa de que me lembrava. – Tristan – Ele respondeu, ao ouvir a minha pergunta. – E o seu? – Perguntou novamente. Fitando-me com aqueles dois pedacinhos de céu. Tentei não me distrair. – Ahn... Luna.

Ele me distraía. É sério. Era o cara mais bonito que eu já tinha visto. Sem perceber, distraída ao olhar para os seus tríceps sob o couro e descendo o olhar para o tornozelo que parecia inchado e mancava, segui-o por um beco. Ele disse ser um atalho quando perguntei, mas logo notei que a única saída ali era a porta dos fundos de um restaurante que dava para o lixão. Logo, também notei que estava presa contra a parede, e que o ar esvaia-se aos poucos dos pulmões enquanto a mão gigantesca do rapaz apertava meu pescoço. – Ok bonitinha, é melhor você ficar bem quieta para que a transferência dos poderes não te mate, tudo bem? – Notei que uma de suas mãos direcionava-se para a minha cabeça. Com um dos pés pendentes chutei com a maior força possível a sua barriga. Ele recuou, e consegui respirar novamente. Até perceber que novamente tinha o pescoço envolvido por uma das mãos do tal Tristan. Uma dor lancinante começou a subir-me pela espinha, não muito diferente da que eu sentira no dia em que Luís e Julio resolveram pirar na sala de aula. Mas ela parou de repente, e eu caí no chão, assistindo com os olhos turvos alguém chutar Tristan longe. Senti certa pena, já que aqueles cabelos cor de cobre eram lindos demais, até uma mão aparentemente menor segurar meu braço com toda a força e arrastar-me para longe dali. Ai.


Capítulo 8

Certo. Ahn... Não vou dizer que sou mal educada, mas para ser bem sincera, nem eu sabia que conhecia tantos palavrões assim. Não me lembro de ter reconhecido o rosto de quem me puxara para longe do psicopata ou fosse o que fosse. Mas lembro de todos os xingamentos que vieram à minha cabeça, e sim, foram MUITOS. Pois bem. Acompanhando meio cegamente os passos de quem não cansava de me puxar, só parei de pisar fortemente dentro de o que parecia ser uma hora e pouco depois. Fui puxada para dentro de um café, e levada a sentar em um dos bancos estofados. Não sei por que estava sentindo vertigens. Parecia que eu estava prestes a vomitar, a explodir, ou qualquer coisa que possa estar entre esses dois. Vi uma xícara de chá parar à minha frente, e bebi sem demora pelo menos metade do que estava ali, sentindo o calor e o sabor de camomila descer agradavelmente. Minha visão clareou dentro de alguns instantes.

E eu até que já imaginava, afinal, tudo estava relacionado a algum dos dois. Não demonstrei medo ao olhar fixamente nos olhos verde-musgo de Luís, que pareceu um pouco desconfortável. – Desculpe garoto, mas eu acho que não é tão fácil assim me matar. Pelo menos aquele outro de agora a pouco não conseguiu, e nem o seu amiguinho Julio. – Beberiquei mais um pouco do líquido quente – É, já estou até me acostumando a isso, se quer saber a verdade. – Soei indiferente. – O único incômodo é a dor, no fim das contas. Mas ela passa rápido. – Dei de ombros. Terminei o chá, e parei a garçonete, pedindo mais uma xícara. Após beber mais um pouco do líquido recém esquentado, ajeitei uma mecha de cabelo atrás da orelha e recostei-me no banco estofado, olhando para o guri que sentava no banco à minha frente. Confesso que estava com uma boa quantidade de raiva resguardada fazia algum tempo. – E agora? Se quiser, eu posso me jogar da ponte, ou da torre de alguma igreja. Até mesmo da cobertura de um prédio, se você conhecer alguém que me permita entrar em uma. – Soltei uma risada sarcástica. Realmente, eu estava cansada. Luís simplesmente não falou nada. Voltei a falar no mesmo tom. – E Julio? Ele está lá na...

- CALE A BOCA! – Ele gritou, e eu pude ver eu algumas pessoas direcionaram seu olhar para a nossa mesa. Que ótimo. – Você não sabe de nada! – Ele exclamou agora não tão alto. Ergui uma sobrancelha. Aquilo, com certeza era verdade. – Pois é, creio que está faltando algum tipo de esclarecimento aqui, mas eu gostaria que você explicasse de uma maneira um pouco mais educada e sem gritar tanto sabe, porque eu não sou nenhum tipo de surda e também não preciso ficar aturando as vozes irritantes de quem tentou me matar... Deixa ver, por volta das três ou quatro vezes. – Notei a raiva que assumia o rosto do garoto. Cruzei os braços em frente ao peito, sentindo um pouco de dor nas pernas que correram na maior velocidade anteriormente. – Estou esperando a sua explicação. – Observei, batucando com os dedos impacientemente no casaco.

- OK, senhorita irritadinha, eu vou ser breve e direto: - Ele começou. – Nós não somos os caras maldosos. Aquele cara é que é. – Ergui uma sobrancelha, e estava prestes a soltar um comentário ácido sobre como é feio mentir. – É o seguinte. Eu e Julio também... Somos diferentes. Você não sabe o quanto. É por isso que Julio enfiou a faca na sua barriga mais cedo. Você também é especial, Luna. Você não pode morrer. – Ele terminou. Senti um baque estranho em minha mente, e meu estômago revirou-se. Esfreguei as têmporas. – É, eu acho que já sabia disso... – Respondi numa voz fraca. Notei o quanto ele estava feliz pela minha guarda ter baixado. Respirou fundo antes de continuar. – Chame-o de Homem do Coturno Preto. É assim que todos nós o chamamos, por ser capaz de rastrear qualquer um que fale o seu nome, e qualquer um que tenha habilidades especiais. Só para constar, essas habilidades surgem devido a um gene que modifica parte da nossa estrutura, causando a mutação. Essa mutação ocorre diferentemente em cada portador do gene, dando-nos diferentes habilidades. Por exemplo, Julio tem super força, enquanto eu sou capaz de ver toda a estrutura celular que forma qualquer ser vivo, e você, ao que podemos perceber até agora, pode se regenerar e curar aos outros se quiser, além de brilhar quando fica meio irritada. – Terminou, com uma risadinha. Corei ao olhar para as minhas mãos e ver como uma leve camada de luz podia ofuscar meus olhos. Observei as pessoas em volta, cuidando para que ninguém me visse. Escondi-as nos bolsos e olhei novamente para Luís.

- Ok, espere um minuto. É bastante informação pra meu cérebro receber de uma vez só. – Falei pausadamente, olhando para a mesa. Pude ouvi-lo rir. – Pois é, principalmente quando se trata de um cérebro tão pouco desenvolvido como o seu. – Falou. Ergui os olhos e mirei os seus, franzindo o cenho. – Quem lhe deu essa liberdade? Posso garantir, a minha mão é bem pesada, moleque. – Falei, tentando fingir raiva, embora apenas estivesse perplexa. Levantei-me de súbito, confusa. Senti que ia chorar, e também não sei por quê. – Bom... Obrigada pelas informações, jovem cavalheiro, mas receio ter que ir embora e encontrá-lo somente amanhã. - Puxei algum trocado do bolso e joguei em cima da mesa, dando-lhe as costas e saindo às pressas. Senti sua mão segurar meu pulso quando já estava fora do café. – O QUE É? – Gritei, irritada. – Você é louca, garota? Ou simplesmente burra demais? – Ele perguntou, fazendo-me virar. – Nem imagina o quanto o cara é poderoso Luna, se ele quiser ele estala os dedos e está aqui, sugando todo o poder que tem dentro de você, e acredite, seria uma grande satisfação para qualquer cara como ele não poder mais morrer. Assim ele pode cometer todas as atrocidades que quiser sem correr perigo nenhum! Então, se quiser continuar viva e com os seus poderes, trate de olhar para todos os lados antes de sair de perto. Você corre perigo agora, Luna.


Capítulo 9

Saí da aula um pouco preocupada. Carregava a mochila às costas, enquanto batucava com os dedos em suas alças. Tentei ser uma das últimas a sair. Antes disso, meus olhos se encontraram com os de Luís, que diziam algo como "Me encontre lá fora". Mas é claro que não de uma maneira exatamente boa, se é que você me entende. De uma maneira meio... Sei lá, só me deixou ainda mais agitada. Despedi-me de Mariana e fui para o pátio da frente, olhando à minha volta por um instante e direcionando-me para um dos carros do estacionamento, uma camionete grande e preta, como Luís me descrevera. Quando entrei, ele e Julio já estavam lá. Os dois estavam com ar risonho, o que fez com que eu me perguntasse o porquê. Eu dissera a Tio Clinton que almoçaria na casa de uma amiga porque mais tarde faríamos um trabalho, portanto lá em casa estava tudo bem. O problema era, primeiramente, que não havia trabalho nenhum, e segundamente [?], que eu não fazia ideia de para onde estariam me levando.

Ninguém falou nada desde o momento em que o carro começou a se mover até o momento em que ele parou, intervalo de tempo que durou no mínimo uns vinte minutos. O motorista saiu e deu a volta no carro, abrindo a porta para mim. Desci rapidamente, ajeitando os cabelos lisos que eu deixara soltos pela manhã, mas que agora estavam meio desgrenhados. Acompanhei-os até a entrada de uma mansão enorme, atravessando o jardim bonito. Entramos, e fomos recebidos por uma espécie de "mordomos", que tinham mais cara de super agentes do FBI, com aqueles fones de ouvido e olhar assustador, além de músculos que deixavam seus braços quatro vezes maiores que os meus. Uma enorme vontade de esconder-me atrás de Júlio e Luís me invadiu, embora eu soubesse que a cena seria ridícula. Então, empinei o queixo e ajeitei a postura, enquanto um dos brutamontes tirava sem muita delicadeza a mochila das minhas costas, revistando-a e possivelmente amassando todo o meu pacote de biscoitos.

Andamos em linha reta até uma porta gigantesca, sem subir escadas ou virar a algum lado. Ela estava no fundo do saguão, de frente para a porta de entrada. E embora por trás daquela porta me parecesse haver um cômodo ainda maior, ao atravessarmos percebia que não era tão grande quanto eu imaginava, apenas espaçoso o bastante para que houvesse uma boa circulação de pessoas à volta da mesa de reuniões. A mesa de reuniões deveria ser feita de uma madeira muito parecida com mogno, e havia uma boa quantidade de cadeiras em volta. Eu diria que umas oito, ou mesmo dez, não parei para contar. Todas estavam ocupadas, exceto por uma. Mas ali continuou vago, e percebi que não pertencia a nenhum de nós. Para a gente, havia alguns banquinhos desconfortáveis de madeira nos espaços que sobravam entre uma cadeira grande e outra. Acomodaram-me em um, e notei que todos os olhos se voltavam para mim. Mas, felizmente, consegui manter uma expressão calma o bastante, embora explodisse por dentro. – E quem é ela, Júlio? – Perguntou um homem negro vestido em um terno, a gravata vermelha quase reluzindo à luz suave que entrava pelas janelas grandes, cujas cortinas deixavam pouquíssimas brechas para que o sol entrasse.

- Chamo-me Luna, senhor. – Respondi. Só então percebi que a pergunta havia sido feita diretamente para Júlio, e não para mim. Mas se tratava de mim, então, eu responderia, de qualquer maneira. – E por que está aqui? – Ele perguntou, fuzilando-me com os olhos quase tão negros quanto a sua própria pele. – Porque Júlio e Luís dizem que preciso de proteção. – Respondi, mantendo a expressão firme. – Proteção? – Perguntou o senhor, olhando agora para Luís. – Que tipo de proteção, Luís? – Seu tom não estava nem um pouco mais suave. – Luna desenvolveu o gene. – Luís olhou em direção a um homem de cabelos muito alvos, sentado ao lado do negro. – E o que ela desenvolveu? – Tal homem perguntou. Luís hesitou por um momento, como se tentasse calcular a reação de todos os presentes na sala. – Regeneração instantânea e cura. – Ele respondeu, franzindo o cenho, a voz seca. Todos olharam para mim. Tive vontade de deixar-me escorregar para debaixo da mesa de mogno e ficar ali até o fim dos tempos, pela maneira como me olhavam. Os olhos do negro e do alvo faiscaram. Percebi que esse tipo de gene não deveria ser tão comum. – Tristan está atrás dela. – Júlio falou. Senti a necessidade de falar alguma coisa. Qualquer coisa. Tentei pensar rapidamente. Mas nada.

- Mas que interessante... – Sussurrou o negro, enquanto passava a mão pela cabeça, que não tinha fio algum de cabelo. – Mas não podemos mantê-la o tempo inteiro com guarda-costas, vocês sabem. Creio que seria melhor deixá-los tomando conta dela somente enquanto ela faz algum treinamento. Onde está Adrienne? – Ele perguntou. Um dos mordomos abriu a porta rapidamente, e voltou dentro de alguns segundos. – Está a caminho, senhor. – Um silêncio insuportável se seguiu. Ninguém tentou puxar assunto nenhum, e pareceram se passar horas até a porta abrir levemente, e passos silenciosos atravessarem o mármore do chão. Adrienne parou ao lado de seu chefe. Meu coração deu um salto. Batia a ponto de querer sair pela garganta. Levantei-me subitamente, e franzi o cenho. A mulher de cabelos avermelhados, que caíam até mais ou menos a sua cintura, presos em uma trança que saía do topo de sua cabeça me encarou com a mesma surpresa com que a encarava, os olhos castanho-avermelhados encarando-me assustadoramente. Respirei fundo, querendo falar, mas a voz não queria sair. Apoiei-me no ombro de Luís, pensando por um instante que fosse desabar no chão. Era demais para mim.
- Mãe? – Foi o que consegui dizer.


Capítulo 10

Você pode imaginar o tamanho da confusão em que aquilo deu. Júlio e Luís me levaram para fora, enquanto os "adultos discutiam com Adrienne sobre o que estava acontecendo". Mas eu não fiquei esperando do lado de fora pela sua saída para que pudesse falar com ela. É claro que de certa forma estava feliz por tê-la encontrado, mas estava de certa forma, brava também. Sentia raiva porque antes de vê-la nem tinha certeza se ela estava viva. E agora vi que sim, ela estava viva, então qual era o problema de ter ido pelo menos uma vez nos procurar, principalmente após o acidente de papai? Aquilo só serviu para me deixar muito, mas muito irritada.

Para os deslocados, e história é a seguinte: Meu pai e minha mãe se conheceram muito jovens e eu nasci um ano depois. Então, nove anos depois (eles já estavam casados, e tudo o mais), Lucy nasceu. E depois da Lucy nascer, uma série de coisas estranhas começou a acontecer com a nossa família, até que um dia... Puf! Fui atrás de mamãe logo cedo, pois Lucy (cujo berço ficava em meu quarto) não queria mais parar de chorar, e somente papai dormia na cama grande dos dois. E foi isso. Sofri demais com a sua ida, nem sei descrever o quanto. E agora ela simplesmente me aparecia ali? Tive vontade de pular em seu colo e abraçá-la, mas ao mesmo tempo de ir embora e nunca mais olhar em seu rosto. Onde estava ela quando papai morreu? Onde estava ela para consolar a mim e a sua filha mais nova? Onde estava ela quando papai ficava acordado horas a fio fazendo hora extra na polícia local somente para poder deixar as contas de luz em dia? Pois é.

- Você... Quer uma água, Luna, ou algo assim? – Perguntou Luís, tentando parecer solidário. Não me dei ao trabalho de erguer uma sobrancelha. – Só não fale comigo, obrigada. – Respondi curta e friamente, seguindo-o para outra sala. Ali havia duas poltronas ao lado de um sofá bem grande. Joguei-me em um dos assentos, e só então percebi que algumas lágrimas rolavam pelo meu rosto. Enterrei o rosto nas mãos, encolhendo-me na poltrona até que não pudesse me apertar mais. – Isso tudo é um pesadelo. Não, é pior que isso, é a mais pura realidade. Não quero que isso esteja acontecendo. Eu não agüento mais! – Terminei a última frase com um grito bastante agudo. Os dois escutavam o meu desabafo de forma suficientemente imparcial. O que é bom, com certeza. Alguns minutos se passaram e a porta abriu–se vagarosamente. Os cabelos ruivos de Adrienne atravessaram-na, enquanto os dois garotos escapuliam para fora. Fiquei parada. Ajeitei-me na poltrona de couro e coloquei uma almofada sobre meu colo.

A princípio, ela apenas ficou me olhando. Sentou-se no canto do sofá, sem desgrudar as íris de cor muito parecida com a das minhas de mim. Elas brilhavam, e eu podia ouvi-la pensando em "como eu tinha crescido". – Luna... Eu acho que devo uma explicação a você, a sua irmã e seu pai... Eu sabia que mais cedo ou mais tarde nos encontraríamos novamente. – Ela falou, calma, muito diferente de mim. – E deve, mesmo. – Falei, secamente. – Mas não sei se você já sabe, mas não poderá dar explicação alguma ao papai. – Continuei. Suas sobrancelhas ergueram.

- Por quê? – Indagou. Então ela não sabia? Ótimo. Muito bom. Muito bom mesmo. – Porque ele morreu. – Sua expressão mudou subitamente. Aquela calma que antes parecia assumir seus traços foi substituída por algo bem pior. Algo muito perto do desespero. – E você não estava lá conosco. Por que fez isso com a gente? – Uma grande agitação começou a subir da ponta do dedinho do pé até o último fio de cabelo. Fiquei meio infeliz em perceber que a minha mão começara a tremer. Mais um pouco e eu realmente teria lhe dado um tapa, mas levantei-me antes disso. Adrienne não me viu sair correndo pela porta e em seguida passar por Júlio e Luís que me deram a leve impressão de estar ouvindo atrás da porta. Não me viu correndo o mais rápido possível ao perceber que os dois me seguiam, não viu as lágrimas que escorriam por meu rosto misturarem-se ao suor. Não notou o quão abalada eu me sentia, e provavelmente nem se importaria com isso. Caso contrário, teria vindo me buscar.


Capítulo 11

Naquela noite, evitei a todos. Falei qualquer coisa sobre TPM e subi para o meu quarto. Lá pelas nove da noite tia Jessica passou pelo meu quarto para levar um prato de sopa e uma xícara de chá, de uma erva cujas propriedades ajudariam com cólicas ou qualquer coisa do tipo. Agradeci com a voz embargada, esperando que fosse embora, mas ela se sentou à minha frente, olhando-me com aqueles olhos azuis claros, que amedrontariam a milhares de pessoas que a estivessem a encarando como promotora, e não uma tia. – Querida, você sabe que pode me falar de qualquer coisa que precise. Eu sei que sente muita falta de seu pai, e que eu e seu tio não estamos tendo tanto tempo para você e a sua irmã, mas sempre estarei de ouvidos a postos caso queira falar sobre qualquer coisa.
- Obrigada, tia. – Falei, rapidamente. – Mas não precisa se preocupar, a saudade às vezes chega de forma avassaladora, e tudo está sendo realmente difícil pra mim... – Deixei a frase pairando no ar e esbocei um leve sorriso para a moça de seus trinta e seis anos à minha frente. – Mas obrigada pelo apoio, de verdade.

Nem eu sabia o quanto estava cansada. Após terminar a sopa, que apenas serviu para travar alguns soluços, joguei-me sobre os meus travesseiros. Puxei as cobertas até os ouvidos, e respondi, quase dormindo, quando Lucy abriu a porta para me dar boa noite. E então caí num sono profundo, do qual só fui acordada horas depois. Por alguém que eu não esperava.

Ouvi a madeira do chão rangendo levemente, como se quem estava lá dentro não quisesse ser ouvido. Pisquei fortemente, mas tentei não fazer ruído algum. Notei que a janela estava aberta, mas não conseguia encontrar quem a abrira naquele escuro. Até que vi um vulto passando em frente à minha cama. Era alto, grande, e aquilo era tudo o que eu conseguia distinguir. – Quem está aí? – Perguntei, num murmúrio. A sombra se moveu, e parou ao meu lado na cama. A pessoa se agachou, e seu olhos ficaram a centímetros dos meus. À luz leve que vinha da rua e entrava no meu quarto, e percebi os cabelos brilhantes da criatura. Dei um salto, e caí do outro lado da cama. Ouvi uma leve risada sínica, e então percebi que a minha luminária se acendeu. Reconheci, com clareza, aquele rosto. Infelizmente.

- E então, Luna? Como vai a vida? – Perguntou Tristan, levantando-se e pegando o urso de pelúcia com o qual eu gostava de dormir. Ele encarou os olhos atônitos e o pelo cor-de-rosa do pobre brinquedo, e levantou uma sobrancelha para mim. – Ainda dormindo com bichinhos? Não acredito. Pensei que fosse mais corajosa que isso, mas parece que me enganei. – Seu sorriso irônico ainda não deixara a sua face. Ele contornou a cama lentamente, enquanto eu me apoiava na parede, trêmula. Tentei respirar fundo, parecer corajosa. Mas de camisola, cabelos bagunçados e olhos inchados, era muito, muito difícil. Dei um passo para o lado e tentei correr quando restava apenas um metro entre ele e mim. – Sabe, Luna, nós podemos simplesmente acabar com isso logo. Você sabe por que estou aqui. Então, qual é o problema? – Ele andava novamente em minha direção. – É só você me deixar pegar um pouco do que é seu... Queridinha. Só um pouquinho do dom que você tem... Só um pouquinho. Eu prometo.

Senti meus olhos encherem-se de lágrimas. Meu coração batia acelerado, e eu podia senti-lo querendo escapar do meu peito. Corri até a janela, abrindo-a, já colocando uma perna para fora, pronta para sair, fosse do jeito que fosse. – Ah, eu não faria isso. Você sabe Luna, que não adianta correr, eu sempre irei te encontrar... E, de qualquer maneira, você não iria querer deixar a sua pobre irmãzinha sozinha em seu quarto, não iria? Papai não ficaria nem um pouco orgulhoso se de repente você fugisse e deixasse Lucy nas mãos de um completo estranho, não é não? – Sua sobrancelha ergueu-se. Congelei. Coloquei novamente a perna para dentro. A minha vontade de chorar, naquele momento, vinha mais da raiva do que do medo. Desde que papai morrera, quando o assunto era Lucy, minha irmãzinha, eu assumia uma postura diferente. Acho que tem algo relacionado ao meu instinto protetor nisso. Mas creio que não venha ao caso. – Você não faria isso... – murmurei, franzindo o cenho.

- Ah, querida, com certeza faria. – Ele respondeu, firmemente. E de repente, só pude ver suas mãos segurando-me contra a parede, erguendo-me pelos ombros do chão. – Agora... Só preciso que você diga sim, Luna. Ou por bem, ou por mal. A escolha é sua.


Capítulo 12

- Eu vou morrer? – Perguntei. As lágrimas, àquela altura, derramavam-se sem hesitar. – Ah, Luninha, é com isso que você está preocupada? Bom, depende de como você se comportar. Se você for uma menina má e fizer muito escândalo, existem chances. Caso contrário... – Ele riu baixinho, e me soltou. Caí no chão, sem saída, os joelhos chocando-se contra a madeira fria. Respirei fundo, e pensei por alguns instantes. Levantei o rosto para a bela face de Tristan, e vi em seus olhos muita, muita raiva, além, é claro, da imensa vontade de tornar-se logo imortal. – E então? – Perguntou, dando um sorriso bastante convidativo. Mais uma lágrima escorreu pelo meu rosto. – Certo. Pegue. Mas nunca mais apareça na minha frente. – Mais uma lágrima. O rapaz puxou-me pelo pulso, e por um breve instante pude perceber a calma, ainda que maquiavélica, manifestar-se em seus olhos.

Sentou-me na cama, ficando de frente para mim. Vi suas mãos envolverem meu rosto, e então fechei os olhos. E a última coisa que senti foi aquela sensação horrível. Muito pior do que a que eu sentira da primeira vez. Estava a ponto de gritar, mas não havia voz. Estava sufocada, e de repente parecia que tudo o que havia de ruim no mundo caíra sobre meus ombros. Dor. Muita, muita dor, posso lhe garantir. Pude sentir a sua respiração, e ouvir o seu risinho baixo, cheio de maldade. E então tudo escureceu. E para falar bem a verdade, fiquei me perguntando, se é que conseguia pensar em alguma coisa àquele ponto: Será que eu morri?

Eu não sabia quanto tempo havia se passado. Não estava totalmente acordada, pois meus olhos pareciam não querer abrir. Eu oscilava entre o escutar o que os outros falavam naquele momento e entre o voltar para o sono profundo onde eu parecia estar antes de acordar. Tentei falar, mas um ruído qualquer saiu de minha garganta. Ouvi as pessoas à minha volta alvoroçadas. – Realmente doutor, ela me parecia um pouco incomodada antes de dormir, mas estava bem! Eu não sei o que aconteceu. E nós fomos vê-la hoje pela manhã... – Minha tia continuou falando, e eu voltei para o sono profundo. A única coisa que eu sabia era que suava. Sentia o meu pijama ensopado sob os cobertores, mas ainda assim estava com muito, muito frio. Tremia.

Abri os olhos lentamente. Vi à minha volta um ambiente todo branco. Ao lado de onde eu estava deitada, uma poltrona, na qual meu tio parecia dormir. – Tio? – Perguntei, a palavra se formando com dificuldade. Sentia minha garganta seca, e estava muito, muito cansada. Minha cabeça pesava, meus olhos ardiam, e eu estava suada, ainda. Tio Clinton sobressaltou-se na poltrona, e levantando-se, andou até mim. Apertou o que parecia ser uma campainha, e dentro de alguns instantes enfermeiros chegaram. – Como está se sentindo? – Perguntou. – Péssima. – Eu respondi, piscando demoradamente. Uma enfermeira aproximou-se com uma pequena lanterna, e pediu para que eu seguisse a luz com os olhos. Eu o fiz sem dificuldade, e dentro de alguns instantes todos haviam saído do quarto. Tio C. voltou a sentar-se na poltrona, apenas me observando. Houve uma batida leve na porta, que se abriu dentro de alguns segundos.

- Oi, Luna. – Ouvi a voz conhecida. Deixei de encarar o teto para olhar vagarosamente para a porta e encontrar um Luís de face zangada. E, é claro, com seu fiel companheiro Júlio atrás de suas costas. Meu tio olhou-me, interrogativamente. – São meus amigos da escola, tio C. – Falei. Ele sorriu, dizendo que nos deixaria a sós por alguns instantes, pois iria buscar um café na lanchonete do hospital. Cumprimentou os dois antes de sair, e estes entraram rapidamente, fechando a porta da mesma maneira. – Luna, o que foi que houve? – Perguntou Luís, afobado. Virei o rosto para o lado, sentindo vontade de chorar. – Eu não quero falar sobre isso agora. – Respondi, virando-me para o outro lado, pouco me importando com os fios do soro que era aplicado em minhas veias. Uns breves segundos se passaram. Julio deu a volta na cama do hospital. – Luna, é sério. Foi o Tristan? – Ele perguntou, agachando-se para que ficasse mais ou menos na altura de meu rosto.

Virei novamente para o outro lado, tentando não olhar para Luís. O que mais pesava sobre as minhas costas agora era a culpa. Eu sabia que eles ficariam muito zangados. Já deviam estar, na verdade. – Já disse que não quero falar sobre isso agora. – Respondi, sentindo uma lágrima escorrer pela minha maçã do rosto. Luís agachou-se desta vez, olhando-me nos olhos, como fizera Julio. – Por favor Luna, responda sem mentir. Nem omitir. – Limpei as lágrimas em meu rosto. – Certo. Acho que encontrei finalmente um motivo para vocês me deixarem em paz. Provavelmente não tenho mais poderes, e sim, ele sugou tudo. Não tive escolha. Podem começar o sermão. – Terminei virando-me para olhar o teto, novamente. As lágrimas ainda escorriam, e pude sentir que os dois se olhavam, cada qual em seu lado da cama. Mas o que me dava tanta certeza sobre aquilo, era, afinal, que eu sentia dor novamente. Se ainda os tivesse, certamente não estaria tão mal.


Capítulo 13

- É claro que ainda os tem, Luna. – Falava Julio, andando de um lado para o outro entre as carteiras ainda vazias da sala de aula. – Como ainda os tenho? – indaguei. – Sinto a minha cabeça doer. A essa altura, já devia estar bem, se os tivesse. – Reclamei. Julio passou a mão pelos cabelos, e jogou sua mochila na carteira logo atrás da minha. – Mas você está bem. É essa a prova de que você ainda os tem. Qualquer um morreria. Você não morreu. – Naquele momento, Luís entrou na sala. Não posso deixar de falar dos olhos verde-musgo que me encararam enquanto ele andava em direção à sua carteira. Não sei por que ele parecia tão incomodado, se afinal fora concluído que a culpa não era minha. Não totalmente. Até eu já estava mais calma. - Luís, está tudo certo? – Indaguei, um tanto cautelosa.

- Sim Luna, tudo certo. – Respondeu. E embora tivesse respondido seu jeito não mudara. Parecia falar com raiva, ou algo muito parecido com isso. Remorso, talvez? Não sei. Outras pessoas começaram a chegar. Mariana, Ana e Todd correram em minha direção, perguntando o que havia acontecido. – Estive doente... – Respondi, dando de ombros. Ana fez questão de sentar na carteira logo atrás da minha, enquanto os outros dois sentavam aos lados. Sorri para eles. Eram realmente grandes amigos. O sinal tocou e notamos o professor de Educação Física logo à porta. Seguimos para o ginásio da escola, que ficava logo atrás da cantina. Handebol. Bem, digamos que eu não fosse terrível naquilo. Bastava ficar na defesa. Afinal, quando se tratava de atacar, era só correr para frente, passar e arremessar a bola, certo? Não parecia tão difícil. Desci para os vestiários junto às minhas duas amigas, onde trocávamos de roupa enquanto conversávamos um pouco. Três dias sem conversar precisavam ser colocados em ordem, certo?

Subimos quando o apito acima soou, e o aquecimento começou. Mais tarde, o professor fez os times. Acabei ficando no time número três, e tivemos que esperar fora da quadra pela nossa vez de jogar. – Ei, Luna! – Chamou alguém. Olhei para trás. – Oi Ellen! – Exclamei, estranhando, pois ela não havia falado muito comigo desde que eu entrara no colégio. – Então, como você não estava quando eu falei para a turma ontem_ vou lhe convidar pessoalmente. Vou dar uma festa na sexta-feira, minha festa de aniversário. Vai ser na minha casa mesmo, na sala de aula eu lhe passo o endereço. Começa às oito da noite. – Falou, sorridente. Sorri também, um tanto surpresa. – Obrigada pelo convite Ellen! Acho que vou sim!

Ao final da aula, saí ao lado de Luís. Ele mal falara comigo naquele dia, o que me deixara pensando por algum tempo com meus botões. Mas todos têm dias ruins, não tem? Dentro de algum tempo, Julio se juntara a nós dois. – Vou almoçar na sua casa. – Ele informou. Arregalei os olhos. - Como é? – Indaguei. – Decidiram que seremos seus guarda-costas. Eu fiquei com o turno da tarde, Luís com o da manhã, já que estuda com você. Além do mais, são ordens da sua mãe. – Ele falou. Fuzilei-o. Olhei para Luís, como se esperasse alguma confirmação. – Mas... Eu não preciso de guarda-costas, preciso? Quer dizer, T. já pegou o poder! – Falei. Luís cortou-me, sem olhar. – São ordens da sua mãe. Pelo menos até você ficar boa de verdade. – Assim, fiquei quieta.

Os dias se passaram e nada aconteceu. O peso de minha cabeça só fora aliviar na sexta feira, dia da festa. Saí com Mariana e Ana para comprar algo que pudesse vestir a noite, já que as minhas roupas simplesmente não seriam o bastante. De acordo com elas, a família de Ellen tem muito dinheiro. Andamos pelo shopping inteiro até encontrar uma roupa que ficasse ótima. E realmente, perdoem-me pela franqueza, ficara ótimo. Fui me arrumar na casa de Ana, junto com M. Bom, e a minha roupa ficara assim: Um sapato de salto alto preto, uma saia de cintura alta também preta, e uma blusa colorida, azul e rosa-claro. Além disso, comprara brincos novos, e Mari conseguira deixar meus cabelos lisíssimos com a escova e o secador. Ana usava um vestido e saltos também, enquanto Mari optara por um short, uma blusa muito bonita e um lenço. Enfim.

Saltamos do carro do pai de Ana logo em frente à casa gigantesca de Ellen. O portão estava aberto, de forma que não nos demoramos a entrar. Um segurança indicou-nos o salão de festas, ao lado da piscina, aos fundos da casa, e realmente me assustei quando encontrei todo aquele pessoal por lá. Havia, no mínimo, umas cem pessoas. Do lado de fora, só para constar. Demos de ombro, e então entramos no salão de festas, onde as luzes estavam apagadas e o som em seu último volume. Deixei meu presente sobre uma mesa destinada a isso, e Ellen veio nos cumprimentar, sorridente. Cumprimentei-a também, e então segui as meninas para o lado de fora. Acomodamo-nos em uma das mesas perto da piscina, e ficamos por algum tempo conversando.

Disse às garotas que iria ao banheiro e dar uma volta, procurar pelo Luís. Quando saí do lavabo, a maquiagem retocada, parei por alguns instantes, perto de onde todos dançavam e pulavam. Tinha a leve impressão de que alguém estava me observando. Olhei à minha volta, novamente para o banheiro. Não, não havia ninguém por ali, ninguém que estivesse olhando em minha direção. Mas a sensação continuava. Olhei mais uma vez, e só então o vi. Ali, muito perto da bancada, com um copo de algo na mão. Reconheci facilmente seus cabelos, seus olhos, sua altura. – Tristan. – Murmurei.


Capítulo 14

Nem pensei no que estava fazendo. Simplesmente andei em sua direção, o coração saltando a ponto de sair pela minha garganta. Estava com muita raiva. Eu havia dito para nunca mais aparecer na minha frente. Minhas pernas moviam-se com incrível destreza, visto que muita gente que andava por ali esbarrava em mim, e eu usava saltos. Parei a uns trinta centímetros dele. – Pensei que tivesse dito para nunca mais aparecer na minha frente, seu psicopata. – Ralhei, esbanjando nojo em minha voz. – Mas a culpa não é minha, Luninha! – Ele respondeu, abrindo os braços. Segurei-o pelo colarinho de sua camisa, e puxei-o para um canto onde não houvesse muita gente. - É sério Tristan, eu seria capaz de matá-lo, se não fosse quem sou. – Ah é? – Ele perguntou, em tom de deboche. – Pena que eu não posso mais morrer, não é mesmo queridinha? Além do mais, nem é por sua causa que eu estou aqui.

Bati o pé no chão. E de repente, eu simplesmente não consegui controlar meus movimentos. Afastei-me um pouco, e esmurrei-lhe o rosto, primeiro com a mão direita, depois com a mão esquerda. Franzia o cenho, trêmula. Creio que tenha doído mais na minha mão do que no rosto de Tristan, embora tivesse colocado o máximo de força que podia. – Bom, acho que eu merecia essas duas. – Ele falou. Olhei à minha volta, para checar se alguém havia me visto. E levei o maior susto, porque os olhos de Ellen me encaravam, arregalados. – Por que você esmurrou o meu irmão, Luna? – Perguntou a garota, sua voz irritante. Congelei.

- É... É... – Olhei para o rapaz. Devo dizer que pensei muito rápido, para disfarçar tão rápido a minha face surpresa e perplexa. Empurrei-o rapidamente, e ajeitei os cabelos, que estavam bagunçados. – Pergunte a ele! – Exclamei, e então o olhei com uma face de nojo. – Cretino! Eu falei que não queria nada com você! – Não fiquei para perceber a expressão de Ellen, apenas segurei minha bolsa rente ao meu corpo e saí do salão. Não posso deixar de admitir que uma parte de mim estivesse simplesmente aos risos. Mas também devo lhe dizer que parte estava preocupada. Algo indicava muito claramente que não era somente por sua irmã que Tristan estava ali. Por que seria, então? Por algum outro poder? Avistei Luís ao longe. Corri em sua direção, não me importando com a rodinha de amigos que me encarou perplexa enquanto eu o puxava para longe da mesma.

- Tristan está aqui. – Falei. Respirei fundo e contei o que havia acontecido. Uma sobrancelha do garoto ergueu-se. – Acho que devemos ir. – Ele disse, suspirando. Pegou seu celular, e ligou para Julio, que também havia sido convidado para a festa. Combinamos de nos encontrar na frente da casa dentro de alguns minutos. Eu e Luís chegamos primeiro, e paramos por alguns instantes. Notei que ele continuava parecendo um pouco tenso. – Luís, o que houve? Por que você está tão tenso, desde que eu voltei do hospital? – Ele me olhou por alguns instantes. – Eu não estou, Luna. – Respondeu. Certo, eu não ia cair naquela. – Estou falando sério Luís, não sou tão boba. – Ele suspirou, mais uma vez. Ergueu uma sobrancelha, os olhos verde-musgo parecendo querer desviar dos meus.

- Eu... Bem Luna, eu meio que me sinto culpado pelo que aconteceu. Eu convenci Julio a não ir atrás de você quando saiu correndo, e também à sua mãe. Achei que seria melhor que ficasse sozinha, que pensasse um pouco. Eu também passei por algo parecido e... Bom, isso é outra história. – Sobressaltei-me ao saber da semelhança. – E... É isso, enfim. Acho que por saber pelo que está passando, me importo com você. – Agora ele olhara em meus olhos. O que quase me fez dar um passo para trás, porque de repente me deixara encabulada. Talvez pela força com que me fitavam. Olhei para outros lados, desviando a sua atenção. – E Julio, que não vem? – Perguntei. Mas, então, ouvimos um grito.


Capítulo 15

Corremos. Corremos mesmo, e eu pelo menos, à toda velocidade que meus saltos permitiam. Luís me puxava pela mão, tentando seguir a voz escandalosa e feminina. Até que chegamos perto da piscina, e perto da borda, Ellen abria o berreiro, apontando uma tarântula, gigantesca. Revirei os olhos. Ok, eu não gostava de aranha, mas pelo que andava acontecendo ultimamente, esperava encontrar algo pior. Preparava-me para ir embora quando Luís puxou meu pulso fortemente. – Tristan – Sussurrou, apontando com a cabeça – Está indo para trás do salão de festas. – Observou. Olhei discretamente, e vi sua sombra andando rápido para dentro de uma pequena passagem. – Luna? Onde está Julio? – Ele perguntou. Notei uma enorme preocupação em sua voz. – Vamos. – Falei, desta vez tirando os sapatos e puxando-o para a outra direção, imaginando vagamente sobre quem teria trazido a tarântula à festa.

Nós dois andávamos muito sorrateiramente, nas pontas dos pés, eu diria. Se bem que todos aqueles pedriscos machucavam as minhas. Paramos por um instante, ouvimos uma voz gemer. Percebia-se, era masculina. Olhei por trás da parede. Estávamos no pequeno espaço que existia entre os fundos da casa e o muro que delimitava seu terreno. Ali estava muito escuro. A única luz que vinha parecia sair de uma pequena janela, que provavelmente pertencia ao banheiro. Julio estava esparramado no chão, e Tristan ao seu lado, ajoelhado, a mão agarrando raivosamente seu pescoço. O outro se contorcia, mas não gritava, apenas murmurava monossílabos. Luís sobressaltou-se atrás de mim, e eu puxei sua mão para que ficasse quieto. Esperei por um momento que me parecesse oportuno. Infelizmente, acho que não haveria momento oportuno. Dei um passo para trás de deixei que o moreno assumisse a dianteira. Seus dedos ergueram-se em frente ao meu rosto, um de cada vez. Um... Dois... Três. E ele soltou da minha mão.

Com um salto, Luís atingiu Tristan em cheio. Este caiu, o que possibilitou ao outro um momento para que o imobilizasse. Corri na direção de Julio, que agonizava ao chão. Segurei sua mão, com força. Concentrei-me o máximo que pude em tentar salvar o rapaz. Encostei-a em meu rosto. Enquanto praticamente rezava para que conseguisse algo, os outros dois quase se matavam ao meu lado. Devo lembrar que agora T. estava extremamente mais forte, devido ao que tirara do garoto cuja mão eu segurava. Meus dedos esquentavam gradativamente, e dentro de alguns segundos pareciam pegar fogo. Uma enorme luz, cegante, saía de mim. Ainda de olhos fechados, localizei o peito de Julio. Esperando que adiantasse, coloquei uma mão ali, sob onde batia seu coração. Meus dedos ardiam, mas me parecia que de uma forma boa. Não me machucava, afinal. Não ouvi mais a briga atrás de mim. Meu amigo estava morrendo, e eu sabia que podia salvá-lo. – Vamos, você não pode morrer!

Involuntariamente, uma lágrima rolou pelo meu rosto. E de repente, minhas mãos pararam de arder. Minhas pálpebras lentamente se levantaram, e eu sorri quando vi que Julio se mexia, difícil, mas gloriosamente. Até me distraí por alguns instantes, mas voltei com um sobressalto quando Tristan parecia ter jogado Luís contra o muro. Mais uma lágrima umedeceu minha pele, desta vez de medo. Mas então me levantei. Não sabia exatamente o que fazer. Queria ajudar, de alguma forma. Luís não parecia querer voltar a lutar, o rosto todo cheio de machucados. Tristan olhou à sua volta. Deu uma risada, bastante sarcástica. – Mas que ótimo! – Ele falou, abrindo os braços enquanto olhava-nos, um a um. – Dois coelhos em uma só flechada! Porque o terceiro eu já consegui matar! Embora ele não possa morrer. – Sorriu para mim, o que me encheu de vontade de cuspir no chão. – Sorte a minha, Luna, que você é inofensiva. Só cura e se regenera, nada de relevante, nada que possa me machucar. Aliás, nada mais pode me deter. – Riu alto novamente, e segurou Luís pelo pescoço. – NÃO! – Gritei, mais lágrimas escorrendo pelas minhas maçãs do rosto.

- Moça... – Começou Julio, me cutucando. A princípio não havia sentido o cutucão, mas quando ele o fez novamente, virei bruscamente. – Fala, Julio! – Ele juntou as sobrancelhas. – Como você sabe meu nome? E por que aquele homem está quase matando o outro? Você não vai ajudar? Ai, estou péssimo. – Cuspiu as últimas palavras, e tirou sua mão da minha com cara de quem se perguntava por que uma estranha segurava sua mão. E então eu entendi. Ele se esquecera de tudo.

Deixei-o de lado e levantei-me o mais rapidamente possível andando em direção ao muro contra o qual Luís estava sendo apertado. – NÃO O MATE! – Gritei para Tristan, correndo mais rápido possível. Meu coração batia acelerado, e em meu rosto permanecia uma expressão amedrontada, raivosa e preocupada ao mesmo tempo. Empurrei-o com o máximo de força que pude, mas ele não se mexeu. Luís tinha o rosto vermelho-pimentão, e os olhos fechavam-se. Até tentava alguns chutes, mas de nada adiantavam. – Por favor! – Exclamei suplicante. Algo se moveu às minhas costas. Quando vi, havia um grande público observando a cena. Ah meu Deus! minha mente gritou. – Não se preocupe agora, Luna. Acabo de criar planos para o seu amiguinho. – Ouvi Tristan sussurrar. E tão rápido quanto a minha cabeça virara novamente para os dois, o predador desapareceu. Juntamente com a sua presa.


Capítulo 16

Tomei fôlego e olhei à minha volta. Os participantes da festa olhavam para onde antes estavam os dois, com, devo lhe dizer, a maior cara de taxo. Mas não que eu estivesse exatamente me importando com isso. Porque, primeiro, Luís acabara de ser seqüestrado por um psicopata que rouba poderes; Segundo, Julio não se lembrava de absolutamente nada; E, terceiro, a irmã do psicopata andava em minha direção com cara de quem também queria me matar. – O QUE VOCÊ FEZ COM ELE, SUA... SUA... – Certo, digamos que todas as coisas de que ela me xingou não possam ser citadas aqui. – E AINDA POR CIMA TENTOU SEDUZI-LO MAIS CEDO! HAHA! ONDE ELE ESTÁ? – Agora quem estava contra a parede era eu. E embora Ellen tivesse seu aspecto franzino, devo dizer que era forte o bastante para me segurar ali por um bom tempo pelo pescoço. Sorte a minha que eu também tinha certa força. E então empurrei-a para o lado com toda a força.

- Calma, guria! – Exclamei, massageando o lugar onde suas mãos enormes estiveram apertando. A essa altura, o público esperava uma grande briga, ou algo assim. – Eu não sei. Ok? Eu não sei. Pergunte ao seu irmão, era ele quem quase estava matando Luís contra a parede. – E então, murmurando um "Vamos embora, Julio", atravessei o monte de pessoas que me encarava com expressão reprovadora. Não sabia se o amigo de Luís me seguia, mas mesmo assim andei entre o resto dos jovens que não haviam assistido a cena, até alcançar a entrada da casa. Tremia. Estava nervosa, incrivelmente nervosa. – Espera aí, ô... Menina! Vai mais devagar! – Gritava o outro, um pouco manco às minhas costas.

Fui para o único lugar para onde poderia ir. Aquela mansão grande, onde estivera fazia alguns dias. Quando toquei o interfone, o segurança levou algum tempo até acreditar que era eu realmente, e abriu o portão, embora ainda cauteloso. – Para onde estamos indo, bonitinha? – Perguntou Julio. Ergui uma sobrancelha. Bonitinha? Com certeza Julio tinha perdido algum parafuso em sua experiência de quase morte. – Você já vai ver. – Respondi. Quando entramos, dei de cara com Adrienne. Tentei não sentir nada, embora fosse difícil, e agir com indiferença, o que era mais difícil ainda. Meus saltos faziam o clac-clac no chão frio e lustrado, quebrando o silêncio e rebatendo em todas as paredes enormes do enorme hall da mansão.

Fomos levados novamente à sala de reuniões, e acomodamo-nos nas cadeiras de mogno, esperando que Adrienne chamasse aquele homem negro e o homem de cabelos alvos. Alguns momentos depois eles entraram, não mais em ternos como naquele dia, mas sim em roupas simples de ficar em casa. Os dois sentaram-se à minha frente, e Adrienne postou-se atrás, a postura ereta e a expressão séria. Eu acreditava que ela fosse algum tipo de assistente dos dois. Com uma indicação do homem negro, ela sentou-se à ponta da mesa. E então, dentro de alguns segundos o resumo do que acontecera durante aquela noite jorrara de minha boca sem dificuldade alguma. Julio encarava a todos com uma expressão curiosa, os olhos observavam a tudo sem piscar, e os ouvidos captavam as palavras sem perder nenhuma delas. – Eu perdi a memória? Claro que não! – Ele exclamou quando cheguei nessa parte. – Quer ver só? Sou um garoto totalmente normal, meu nome é Julio Conrado Montero, e meus pais se chamam Eliza e Patrick. Tenho quatorze anos e moro no bairro das Laranjeiras, onde vive a alta sociedade daqui. – Ele sorriu, erguendo as sobrancelhas, com aquela cara de "Viu só?".

Ignoraram Julio completamente, e voltaram a sua atenção a mim. – Como o encontraremos agora? Pode estar em qualquer lugar! – O homem calvo pensou por alguns instantes. – Trabalharemos nisso. Agora, espero que possa explicar a Julio o que exatamente aconteceu. Depois disso, vão para casa, descansem. Amanhã procuraremos Luís com calma. – O velho não queria procurar Luís agora? Bati o pé no chão. – Você não vê? Ele vai matar Luís antes que cheguemos lá! Precisamos ir atrás deles dois agora! – Gritei. – Vão para casa, eu já disse. – Os olhos azuis do homem me fuzilaram, e eu recuei. – Certo. – Suspirei e levantei-me, puxando Júlio comigo.


Capítulo 17, em breve!




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