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Bem vindo(a)!!!

Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente.
Gabriel Pensador

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Award cy

Pp purrrfect!!

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* Epílogo

Regras

Não copie meu texto. Nem uma frase. Nem um milésimo de frase! Deu muito trabalho escrever, eu quase criei calo nos dedos e se alguém da turminha do copia e cola resolver ignorar isso, vai se ver com tio snow e tia taelia;
Não copie meu layout! Fiz com todo o carinho especialmente para a pp. E tá vendo aquele Layout by lauradrcb, pequenininho ali no fim? Pois é. MEEEEUUUU *cara dumaw*;
E, se você gosta de ter a cabeça grudada no pescoço, é melhor seguir as duas regrinhas ali em cima ò_ó

Humm, o nosso querido meepit aqui é completamente contra copycat. Então eu recomendo que você nem tente algo assim, porque ele se vinga... Né, Meep?


*Meep*

Link-me


ou...


Use sem moderação (OMG)
E não precisa mandar nm perguntando se pode linkar. É claro que pode! Todo mundo gosta que façam propaganda por ele u.u

guest: Mas a boa educação manda assim.
lauradrcb: Tem razão... então com outras pps você pede. Comigo não precisa 8D

Links bons

Atemporal, por lauradrcb

Photobucket




Aconteceu alguma coisa!
Illusen passa por você e diz baixinho: Quer ouvir um segredo?

E, por fim, as páginas que não têm link-me:
Estórias de Neopia, que nem é esse mesmo o nome mas eu precisava anunciar de alguma forma ù_ú

Todos os links acima são muito bons e eu recomendo! =D

Parcerias


Créditos


Eu nunca poderia fazer essa pp sem antes nomear as pessoas que a fizeram real. Portanto, obrigada à:


Este cantinho feliz -q do qual eu peguei imagens fófis :3
Este cantinho dominado por meepits de onde eu pego meus meepits dumaw ou os que comemoram datas especiais ^^
pakshalika, por ter me ensinado a fazer pps multipáginas e que frequentemente tira minhas dúvidas sobre HTML e CSS;
Esta pp, que me ensinou a fazer contadores em geral. Ela também me tira muitas dúvidas de HTML;
Esta outra pp, de onde eu peguei algumas imagens;
Esta terceira pp que me ensinou a colorir barras de rolagem. Foi dela que peguei também as letras do continua no fim do capítulo;
Alguma pp da qual veio o chaveirinho de neomail... peguei de uma mas descobri que tinha sido copiado de outra. Então... obrigada à pessoa que fez, é lindo ;D
Esta quarta pp, de onde eu peguei o lápis das regras e o gatinho aqui do lado ^^
Pink Place, de onde eu peguei algumas imagens fófis ^^
Você, guest, por estar lendo a minha pp e valorizando o meu trabalho ;D
E à mim né... afinal fui eu que fiz isso tudo u_u

Acho que é só... mas se eu lembrar de mais alguém eu ponho aqui.

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Contando desde 20/11/2009, 17:22 NST

Contato


Neomail:

Atualizações


31/08/2010 - ACABOU! ALELUIA, SENHOR! DEUS É PAI! LIVRE! LIVRE! FIM!
27/07/2010 - Enchi o saco dessa seção .-.
12/05/2010 - Adicionei o capítulo 19.
10/04/2010 - Adicionei o capítulo 18 e retirei a seção "Informações" da parte das Coisinhas. Retirei também o Preto da página principal, porque a páscoa já passou.
28/03/2010 - O contador passou das 2000 visitas! *0* Obrigada a todos que nos ajudaram a chegar aqui, eu sem vocês não seria nada ^^
27/03/2010 - Adicionei o capítulo 17.
20/03/2010 - Adicionei o capítulo 16.
18/03/2010 - Adicionei o meepit das regras e coloquei letra arial na pp ^^
13/03/2010 - O zumbi volta à vida .-. e adiciona o capítulo 15.
20/02/2010 - Adicionei a seção "Minhas Divas" no Meu Cantinho.
16/02/2010 - Adicionei capítulo 14.
14/02/2010 - Dois novos depoimentos! Feliz dia dos namorados para vocês... *comendo chocolate* Mais um que eu passo sozinha (PORQUE EU QUERO!! *olhar dumaw*)
11/02/2010 - Temos um novo lay! ^^
10/02/2010 - Recebemos nosso primeiro depoimento no Hall do Fã!
09/02/10 - Adicionei capítulo 13 e criei o Hall do Fã, juntamente com a página secreta.
01/02/2010 - Chegamos às 1000 visitas! *--* e volta às aulas...
29/01/2010 - Adicionei capítulo 12 e editei Meu Cantinho.
24/01/2010 - Adicionei capítulo 11.
21/01/2010 - Temos uma nova parceria! Confira =D
18/01/2010 - Adicionei capítulo 10 e tirei a imagem do quadro do capítulo 3. Tava bugada o.x
15/01/2010 - Voltei para a minha casinha *u* e adicionei capítulo 9 para comemorar.
08/01/2010 - Cheguei aqui na praia na quarta. Estou escrevendo, mas a net é bem lenta.
05/01/2010 - Voltei para casa ontem_   tarde, vou ficar aqui na cidade o dia todo e amanhã cedo vamos para a praia *u*
01/01/2010 - Primeiro dia do ano! Adicionei Parcerias :3
29/12/2009 - Estou na casa dos meus avós *-* Vou passar o reveillon aqui.
27/12/2009 - Adicionei capítulo 8 (na nova contagem).
25/12/2009 - Juntei o capítulo 6 com o 5 e assim criei uma nova contagem.
23/12/2009 - Adicionei capítulo 8.
20/12/2009 - Mudei o layout e adicionei o capítulo 7.
18/12/2009 - Editei créditos e coloquei algumas imagens fofas na pp.
17/12/2009 - Editei links bons.
16/12/2009 - Adicionei capítulo 6 e editei contato.
13/12/2009 - Adicionei capítulo 5.
11/12/2009 - FÉÉÉRIASSSSS x3
10/12/2009 - Adicionei capítulo 4.
03/12/2009 - Editei Meu Cantinho.
28/11/2009 - Adicionei capítulo 3 e editei notícias. Coloquei letra diferente e criei meu cantinho.
27/11/2009 - Editei capítulo 2.
26/11/2009 - Coloquei cor nas barrinhas de rolagem e editei créditos. Editei links bons e pus o Continua no fim do capítulo.
25/11/2009 - Atualizei o link-me e adicionei links bons. Adicionei o capítulo 2, editei a home, as notícias e os créditos. Adicionei informações nas coisinhas.
22/11/2009 - Coloquei o new ali, o contato nas coisinhas e coloquei awards. Editei créditos.
20/11/2009 - Criei contadores, editei créditos e criei atualizações.

Gentz... eu não lembro que dia eu criei a pp e pus o capítulo 1! Desgraça... T.T

Prólogo

Fatos recentes que me convencem que a minha vida não é tão boa quanto eu pensava:

Eu estava tão feliz há alguns anos...

Ir ao capítulo 1

Capítulo 1

Acordei assustada naquela manhã de segunda-feira, com o despertador recém-adquirido tocando no meu ouvido. Não dormi direito; a cama e o colchão são novos, mas diferentes do que eu estou acostumada.
Se eu pudesse, teria ficado o dia inteiro ali, deitada, tentando não pensar na vida que eu levaria a partir de agora. Realmente, nada me animava a sair da cama. Exceto minha mãe.
- Bom dia, Taís! Um novo e lindo dia nos espera, além de uma cidade inteira para conhecer! – ela disse, animada, entrando no meu quarto sem cerimônia e indo direto abrir a cortina. Um dia ainda descubro como ela consegue ser sempre tão animada.
- Mãe, Anchieta é bem grandinha – eu disse – Não vamos conseguir conhecer todos que moram aqui, ainda mais quando os turistas aparecerem. – o grande problema de Anchieta (ES) é que, por ser litorânea, nas férias enche de turistas.
- Você é muito pessimista, Taís.
- Você é muito otimista, Joana.
Mas acho que ela não me ouviu ou só me ignorou, porque continuou brigando para abrir, agora, a janela. Suspirei e fui até lá ajudar.
Janela aberta, mamãe saiu do quarto, e eu sentei na cama, deprimida. Encarei meu reflexo no espelho da parede de frente à minha cama, como se tal ato pudesse melhorar meu dia.
Meu cabelo estava horrível, claro, mas eu sabia que, se o penteasse, ele voltaria ao seu normal: um repicado na altura do ombro. Negro em todos os fios, ele fazia contraste com minha pele muito branca e meus olhos muito verdes. Joana vivia se gabando de mim para suas amigas, me mostrava, comentava "como eu era linda"... e eu morria de vergonha, lógico. Torci para que ela não resolvesse fazer o mesmo aqui em Anchieta.
Suspirei fundo, para criar coragem, mas não adiantou muito. Ainda assim, me preparei para a escola. Não gostei do uniforme; cáqui com azul fazia uma péssima combinação. Preferia o da minha antiga escola, lá de BH. Mas já que eu não tinha escolha mesmo...
Hesitei na frente da porta do quarto; será que a velha desculpa do "acho que estou com febre" funcionaria?
Vamos lá, Taís, você é uma garota ou um rato?, pensei. Senti-me tentada a escolher ser rato, mas abri a porta antes que pudesse mudar de ideia.
Viajei em lembranças e pensamentos a partir daí, como sempre faço quando estou nervosa, e nem percebi que já estava dentro do carro e na porta da escola até Joana tirar o cinto. E assustei, claro.
- Já? – o pânico me tomou totalmente nesse momento.
- Já – acho que Joana (ou minha mãe, mas prefiro chamá-la de Joana) percebeu que eu não estava exatamente pronta pra algo assim, porque disse:
- Não é tão difícil assim, Taís – claro que é! – Você consegue.
Ninguém entraria no dia 31 de Agosto comigo, afinal ninguém entra nesse dia. Só me deixaram entrar porque vovô é influente. Então, tentar achar novatos seria besteira. Além de que eu provavelmente seria a atração do dia. Ou da semana, ou do mês...
Eu diria para ela todos esses motivos que tinha para não acreditar que conseguiria, mas não encontrei a minha voz. Engoli em seco, assenti, peguei a mochila e saí do carro.
Acho que consegui passar por paisagem relativamente bem, porque ninguém me parou e perguntou se eu era nova ali. Encontrei um mapa da escola em uma parede e, tentando passar despercebida, procurei pela sala 36. Pelo visto, era só seguir pela primeira direita. Fiz o caminho que constava no mapa e...
Sala dos professores. Mas era lá que tinha que estar a minha sala! Droga, isso me forçava a pedir informação para alguém.
Tentei voltar para o mapa, mas, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, saiu da sala uma garota, de pele morena e cabelos quase tão negros quanto seus olhos, que me olhou de alto a baixo assim que percebeu minha presença. Então sorriu.
- Ei, você é nova aqui? – meu plano não estava dando tão certo quanto eu esperava.
- Hum... sou. – eu disse, timidamente.
- Taís, não é? Neta do Abrão, filha da Joana... – fiquei pasma. Como ela sabia de tudo isso?
- É... como você sabe?
- Estou com sua ficha na minha mão – é mesmo, ela segurava um papel... eu nem tinha reparado – Além do mais, o seu avô se gabou para a cidade inteira quando soube que você e sua mãe viriam morar com ele.
Talvez Anchieta não fosse tão grande como eu pensava.
- Representante de turma da 9ª A. – minha futura sala! Coincidência... - Ou só Tatiana... Tati – ela se apresentou, e então sorriu – Vem, eu vou te levar para a nossa sala.
Eu sorri também e a segui, e não conversamos no caminho. A Tati era uma boa companhia, mantendo o silêncio por saber que eu estava nervosa e sem ter vontade de prolongar uma conversa. Mas eu sabia que não seriam todos assim, então tentei pensar nas possíveis perguntas que me fariam e em uma boa apresentação. Não deu certo; parecia que o meu cérebro estava travado.
O tempo corria rápido demais hoje; antes que eu me desse conta, estava na soleira de uma porta com uma plaquinha escrito "9ª série A" em cima.
- Ah, droga – murmurei para mim mesma. O fundão e as fileiras do canto estavam todos ocupados. Só me restava ficar bem na frente e no meio, onde todo mundo podia me observar sem se preocupar se eu estaria olhando. O que provavelmente aconteceria.
- Falou alguma coisa, Taís? – eu não estava muito afim de admitir o meu problema, mas talvez ela pudesse me ajudar.
- Fale... – PÉÉÉÉÉÉÉ!
- Opa, o sinal! – ela disse. Esse era pior que o meu despertador; tampei os ouvidos enquanto ele tocava – Espera todo mundo sentar e senta onde estiver desocupado, OK?
Não deu nem tempo de responder; no momento seguinte, ela já estava correndo para se sentar e um professor caminhava pelo corredor. Não venha aqui, não venha aqui...
Claro que ele seguiu direto para a porta onde eu estava parada como boba. Se eu fosse sortuda não estava nesse fim de mundo.
- Taís, não é? – era impressionante como ele era baixinho (um pouco menor do que eu) e tinha voz tão grossa. Impressionante também era como todo mundo me conhecia. Vovô era influente mesmo.
- Ah, é... – eu disse, sem nada melhor para comentar. Me senti como uma burra no mesmo segundo.
- É melhor entrar, não vai querer que achem que está matando aula, não é? – ele riu da própria piada sem graça. Algum buraco pra eu poder me esconder até essa tortura acabar, por favor?
- Hum. – talvez fosse melhor eu ficar em silêncio de uma vez. Entrei na sala com ele logo atrás, e, enquanto ele rumava para a sua mesa, eu fiquei parada na frente da porta, correndo os olhos para tentar escolher o lugar menos pior. Mas estava mais difícil do que eu imaginara.
- Taís, você pretende sentar-se? – repreendeu-me o professor. Aí, é claro que a turma toda me encarou e começou a cochichar. Talvez eu estivesse ficando louca, mas acho que ouvi meu nome várias vezes.
- É que eu estou meio perdida, ainda não sei onde me sentar... professor. – hesitei um pouco; ainda não sabia o nome dele.
- Então vamos fazer assim: você vem aqui na frente e se apresenta enquanto eu procuro um lugar para você. OK? – não, não, não, não me faça passar por isso, apresentações não...
- Tudo bem – ele acabava de entrar para a minha lista negra.
Depois de gaguejar uma apresentação que não me dei ao trabalho de incrementar demais (vovô já espalhara a minha biografia por aí), sentei em um lugar relativamente no fundo e perto da parede. Não estava bom, mas ruim também não estava.
O professor então se apresentou como Alfredo (demorei um tempinho para perceber que não era mais uma piada sem graça) e professor de Geografia. Mas eu boiei o resto da aula, porque era correção de dever. Pelo menos ele não me pediria para responder nada.
Passados os 50 minutos mais longos da minha existência, chegou outro professor. Gustavo, de Matemática, que me desejou boas vindas mas não me mandou fazer outra apresentação. Talvez essa aula fosse melhor do que eu esperava.
Ele começou dizendo que era matéria nova, mas, como eu já tinha aprendido, boiei de novo. O que captei é que ele era aparentemente o professor preferido da turma; brincou com todo mundo e discutiu futebol com os garotos.
Como eram duas aulas, passada a primeira, ele disse que íamos sair e era para rumarmos até o pátio, nas mesas verdes.
Realmente maravilhoso, eu pensei com sarcasmo. Atividade em grupo, lá fora e num lugar que eu nem mesmo sabia que existia. Talvez essa aula não fosse tão boa assim.
- Oi – ouvi atrás de mim, e pulei de susto. Uma garota de cabelo castanho claro com mechas loiras (seriam naturais?), olhos verde-água e pele branca, com sardas no nariz e nas maçãs do rosto me cutucava.
- Ah, desculpa, eu não queria te assustar... – ela prosseguiu – É só que... Taís, não é? – eu concordei, e ela continuou – Você não quer sentar com a gente?
Eu tinha pensado em arrumar um banquinho ou uma beira do chão para fazer o exercício, mas eu realmente não estava em condições de recusar.
- Pode ser – eu precisava parar com essas respostas automáticas. Ia acabar conhecida como a-garota-esquisita-e-caladona
- A propósito, meu nome é Clara – ela sorriu. Combinava com o rosto dela, ser toda clarinha... eu sorri também a essa observação.
Talvez eu devesse ter prestado mais atenção no caminho, mas fiquei pensando...
E se meu pai ainda fosse vivo? Ele morreu ano passado, daqui a uns dois meses ele faz aniversário de morte. Mas, se ele ainda estivesse vivo, será que eu viria para Anchieta tão cedo? Ricardo (ou papai, mas prefiro Ricardo) nunca se deu muito bem com o meu avô, acho que eles não aguentariam dividir o mesmo terreno. Tanto que a Joana vivia reclamando que ela sentia saudades de vovô...
- Oi gente! – ouvi a Clara dizer, tirando-me dos meus pensamentos. – Taís, deixa eu te apresentar. Essa aqui é a Rafa, ou Rafaela – me apontou uma garota de cabelos acaju encaracolados pouco abaixo dos ombros – O Mateus – apontou um garoto de cabelos castanhos, corte de tigelinha e o nariz um pouco maior do que o normal – A Beth, ou Elizabeth – me apontou uma garota maior do que eu, com o cabelo castanho escuro e olhos de um mel impressionante – A Cat, ou Catarina – me apontou uma garota também um pouco maior do que eu, que acenava e sorria balançando cabelos lisinhos, de um castanho ligeiramente avermelhado, que combinavam com seus olhos âmbar – O Dani, ou Daniel – me mostrou um garoto de cabelos e olhos negros, pele branca e com as mangas da blusa puxadas para mostrar os ombros, bem musculosos, aliás – E a Tati, ou Tatiana. Mas acho que vocês já se conhecem.
- Já sim – ela sorriu para mim, e eu automaticamente sorri também.
Até que foi uma aula agradável. Eu mais ouvi do que falei, mas, quando falava, todos prestavam a atenção. Fizemos metade dos exercícios, um ajudando o outro, e, ao voltarmos pra sala, eu já me sentia entre amigos.
Na hora do lanche, a Tati e a Clara me mostraram onde fica a cantina e onde a turma geralmente ficava. Não conversei muito, mas me diverti.
Nas últimas duas aulas eu até consegui prestar atenção, mas nada muito relevante aconteceu.
PÉÉÉÉÉÉÉ!
Arrumei minhas coisas rapidamente ao ouvir o sinal; Joana já estaria me esperando na entrada. Mas, quando estava quase na porta, ouvi uma voz me chamando:
- Ei! – era um garoto, loiro de olhos azuis e até bonitinho. Me xinguei mentalmente ao adicionar tal comentário. – Essa agenda não é sua?
Com tanta coisa irrelevante para esquecer, eu esquecera justo a minha agenda, a parte mais importante do material! Pelo menos se eu não quisesse ter que ligar para alguém e pedir o dever de casa. Coisa que eu realmente não queria fazer.
- É, é sim!
- Cuidado pra não esquecer mais nada, andaram roubando alguns itens esquecidos nas salas – ele disse, sombriamente.
- Certo. Obrigada. – eu disse, pegando a agenda e saindo correndo porta afora. Tive a impressão de que ele me observou até que eu saísse de vista.
Cheguei em casa, almocei e passei o resto do dia deitada olhando pro alto ou estudando ou fazendo dever de casa. Até que aquele dia não fora tão ruim assim. Meu medo era o dia seguinte.

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Capítulo 2

O despertador me assustou de novo no dia seguinte, mas ele estava desregulado, porque quando abri os olhos estava escuro e o relógio marcava quatro horas da manhã. Porcaria. Agora eu ia demorar séculos pra dormir de novo.
Foi quando eu percebi que não era o despertador que me acordara; era meu celular. Quem poderia me ligar a essa hora se eu não tinha dado meu número para ninguém?
- Alô – minha voz saiu meio sonolenta demais, mas talvez isso servisse pra pessoa ver que eu queria dormir.
Nenhuma resposta do outro lado da linha.
- Alô?
Nenhuma resposta.
- Alô!
A linha começou a dar mau sinal e desligaram do outro lado. Logo que isso aconteceu, a janela abriu, deixando entrar ar gelado no quarto. Tremi violentamente; estava realmente frio.
- Porcaria, que hora pra se passar trote – desliguei o celular e corri até a janela, fechando-a logo em seguida.
Foi quando eu vi.
Olhos, azuis e ligeiramente familiares me encaravam do jardim. Eu abri a boca, surpresa, e desembacei o vidro para poder ver melhor, mas já era tarde; eles tinham sumido.
- Deve ser só um bicho – eu disse para mim mesma, e, sentada na cama, encarei o meu reflexo.
Será mesmo?

- Taís! Terra para Taís, Clara te chamando! – ouvi a Clara dizer, uma semana depois que eu vira os olhos no meu jardim.
- O-oi, acordei. Desculpa, Clara – eu levantei da carteira e arrumei o uniforme, enquanto dava um enorme bocejo – Não dormi direito essa noite. – passei a noite quase toda na internet procurando nomes de possíveis animais que poderiam estar no meu jardim. Na verdade, eu não dormia direito desde aquele 1º de setembro.
- Nota-se. Me empresta o dever de Português?
- Ué, você não fez? – ela me encarou, mas não respondeu. Entendi como um "não, mas e daí?" e passei-lhe a folha do meu fichário. Ela foi para a própria carteira e eu deitei de novo, vasculhando novamente a minha memória para tentar lembrar onde eu poderia ter visto aqueles olhos; tinha certeza que não me eram desconhecidos.
- Obrigada – ouvi a voz da Clara logo depois, enquanto sentia uma folha cair perto da minha mão. Levantei a cabeça de novo e vi a professora de Português, Maria Emília, entrar na sala.
Eu deveria ter ganhado um prêmio por ter conseguido ficar acordada nas duas aulas que ela deu, mas como a terceira seria Educação Física, pelo menos não conseguiria dormir. Uma coisa a menos para eu me preocupar.
Pensando nisso, fui cambaleando até a quadra, chegando até atrasada por não ter pego um atalho (de propósito).
PÉÉÉÉÉÉÉ!!!!
- Eu. Nunca. Mais. Jogo. Handebol. – eu disse, ofegante, ao sair da quadra, tampando os ouvidos por causa do escandaloso sinal que anunciou o recreio. Fui para a cantina, e, cuidadosa como sou, ao envés de prestar atenção no caminho, me concentrei em pegar o dinheiro no bolso. Resultado: tropecei.
- AAAHH! – comecei a cair, mas, de repente, um braço me segurou pela cintura.
- Você está bem? – disse uma voz, que reconheci como a do garoto que me entregara minha agenda.
- Estou... obrigada. - olhei para onde deveria estar o rosto do meu salvador, e levei um grande susto.
Os olhos eram do azul exato que eu vira no meu jardim.
- Tome mais cuidado da próxima vez – ele disse, mais baixo que o normal, enquanto me colocava de pé novamente. Depois, saiu andando sem nem olhar para trás, enquanto eu encarava suas costas, que ficavam mais distantes a cada segundo, tentando processar o acontecido.

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Capítulo 3

Eu ainda não acreditava no que havia visto.
Não era possível. Por que o tal garoto misterioso estaria no meu jardim? Por que ele seria tão frio comigo das duas vezes que nos falamos? Por que ele insistia em ficar perto de mim? Por que...
- Alexandre, você vai com a Taís – ouvi a professora falar, saindo dos meus pensamentos. – Ana, você vai com a...
Mas parei de ouvir aí. Porque eu não acreditava de novo.
Qual o problema da professora? Ela me mandara fazer dupla com o garoto misterioso, que, aparentemente, se chamava Alexandre! Não poderia ser com outra pessoa? Qualquer um!
Mais uma para minha lista negra. Ela estava ficando preocupadamente longa.
Então percebi que o Alexandre já havia arrastado uma carteira e se sentado ao meu lado. Fez bem, porque eu não ia me mexer nenhum milímetro só para sentar ao lado dele.
- Quer que eu pegue o meu livro ou você faz isso? – perguntou-me ele. Olhei para o quadro para me atualizar.

Agora!!
1- Explique detalhadamente como as pteridófitas se reproduzem.
2- Esquematize em desenho.

- Pode deixar que eu pego. – eu disse, friamente – Talvez seja melhor que você desenhe. – meu senso artístico é péssimo. Minto; no dia que eu aprender a desenhar ele virará péssimo.
- Tudo bem. – ele disse, arrancando uma folha de seu caderno. Peguei meu livro e folheei até encontrar informações sobre a reprodução das pteridófitas.
Ele era muito bom em desenho e, assim que terminei de escrever, babei no esquema que ele fazia. Não literalmente.
Quando ele terminou, arranquei a parte toda furadinha da folha e entreguei nosso trabalho para a professora, que leu minuciosamente tudo o que eu tinha escrito e observou o desenho até dar-se por satisfeita. Depois é que entendi porque ela fazia aquilo: fomos de longe os mais rápidos, sendo que algumas duplas não tinham nem mesmo aberto os livros.
Quando voltei para a minha carteira, percebi que ele ainda não tinha tirado a sua do lugar. Isso foi bom. Tinha muito a perguntar para ele.
Sentei e peguei a minha caneta, brincando com ela enquanto decidia como começar.
- Alexandre... – comecei, mas ele me interrompeu.
- Xande.
- Xande, que seja – eu disse – eu... – mas nesse momento, a minha caneta estourou, me enchendo de tinta azul. Eu ainda mato a minha mãe por comprar marca barata.
- Ah não, Taís! – a professora exclamou, e foi até minha carteira – Você está bem?
- Estou, só estou... azul. – eu comentei, um pouco sarcástica.
- Fique aqui, você pode sujar o chão. Mateus peça para uma faxineira vir aqui e traga um pouco de papel para limpar a Taís.
Então, olhei para o Xande, que já arrastava sua carteira para longe de mim. Observei a cadeira, e estranhei. Onde o Xande estava sentado antes, a cadeira estava azul com a tinta da minha caneta. Só que ele não tinha uma mísera gota na roupa!
Mas não tinha como isso acontecer, a tinta não podia ter simplesmente atravessado o Xande e sujado a cadeira, era impossível!
Ele então percebeu que eu estava olhando, e o encarei, confusa. Ele desviou o olhar e se pôs entre mim e sua carteira, impedindo minha visão.
Quando ele saiu da frente, a cadeira estava limpa.

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Capítulo 4

Deitada em minha cama, depois da aula, tentei entender o ocorrido.
OK, minha sanidade sempre foi meio duvidosa. Mas louca, louca mesmo eu nunca fui. Eu sei o que vi, eu vi a cadeira do Xande suja onde ele estava sentado, eu vi o uniforme dele limpinho, mas como a tinta sumiu no momento em que ele saiu da frente? E como ela poderia tê-lo atravessado?
- Isso não faz nenhum sentido! – eu exclamei, exasperada.
- Taís, você está bem? – perguntou Joana, do outro lado da porta.
- Estou sim. É só um... dever de matemática meio difícil.
- Quer ajuda?
- Não, pode deixar.
Decidindo que não faria sentido nenhum continuar deitada ali resmungando, fui fazer mesmo o dever de casa. Mas não deixei de pensar no assunto.
No dia seguinte, eu já tinha um plano completamente formado em minha mente. Ele ia ter que falar comigo. Mas, se não falasse... bom, aí eu teria que confiar na minha criatividade.
Fui para a aula e estava praticamente quicando na cadeira, de pura ansiedade, para que o recreio chegasse logo.
PÉÉÉÉÉÉÉÉ!
- Aleluia – eu murmurei, e corri para não perder Xande de vista.
- Espera, Xande! – eu gritei, no meio montoeira de alunos que saía das salas. Quase o perdi de vista, mas – louvado seja, meu destino – ele parou e esperou que eu o alcançasse.
- Que foi? – ele perguntou
- Preciso falar com você. – eu disse – Posso? – acrescentei, tentando não ser mal-educada.
- Claro. – ele disse, e o guiei até o primeiro banquinho deserto que vi.
- OK, eu vou ser curta e grossa – disse, depois de bolar rapidamente uma tática. Fechei os olhos para não encará-lo e perder a coragem – O que você estava fazendo no meu jardim às quatro horas da manhã?
Eu não resisti; abri os olhos e observei sua reação. Ele parecia confuso.
- Do que está falando? – ele ainda estava confuso. Que estranho. Não era para ele estar nervoso ou coisa assim? Eu não havia descoberto uma pista?
- Cena do crime: 4 da manhã do dia 1º de setembro, meu jardim. Eu vi, vi seus olhos no meu jardim quando abri a janela, mas logo depois você sumiu! Como? E por quê?
- Eu ainda não sei do que está falando.
Respirei fundo. Eu não esperava ouvir tanta sinceridade em sua voz. Ele não deveria estar mentindo? Eu pretendia perceber alguma falsidade. Ou ele mentia tão bem assim?
- Não adianta negar. Eu sei que foi você. – eu disse, tentando arrancar alguma verdade. Mas me decidi que ele estava seguro demais do que dizia para o meu gosto, e mudei de argumento.
- E a tinta da caneta? – eu perguntei, segura de que desta vez iria conseguir uma resposta consistente.
- Tinta da caneta? – eu esperava ouvir de novo aquela sinceridade, mas dessa vez, eu senti uma ponta, pequena, mas existente, de falsidade em sua voz.
- Na aula de Ciências, Xande, quando fizemos a atividade das pteridófitas em dupla – eu disse, fechando os olhos e respirando fundo para me assegurar de que não iria começar a sacudi-lo e gritar "Conte a verdade!". Me irrita profundamente que mintam para mim. Principalmente quando eu percebo – A minha caneta estourou e não te sujou, mas, quando você se levantou, a cadeira estava praticamente azul. – Não comentei que logo após a tinta tinha sumido. Vai que ele resolve me internar em um hospício. – Que eu saiba, tinta não atravessa corpos assim.
- Taís, não tinha nenhuma tinta na cadeira – ele disse, e eu observei atenta sua expressão. A mesma falsidade estava de novo em seu olhar, além da mesma cara de jogador que blefa. Mas agora tinha também certa surpresa. Aparentemente, eu tocara em algum ponto que ele pretendia esconder.
- Tinha, Xande. – ele abriu a boca para argumentar, mas eu o interrompi, com raiva pela mentira e por meu plano não estar indo tão bem quanto eu esperava. - Tinha sim porque eu vi e eu sei que não estou louca! – calma Taís, respira garota. Não é assim que você vai fazê-lo falar.
- Já vi que não vai adiantar te contrariar – ele levantou as sobrancelhas quando disse isso. – Mesmo que seja isso que eu pretenda.
Desta vez eu tive que me esforçar de verdade para continuar imóvel.
Decidi que aquela conversa não levaria a lugar nenhum, só me deixaria mais irritada. Talvez, depois eu tivesse uma segunda chance de esclarecer minhas dúvidas. Mas não naquele momento. Senti-me derrotada e mais irritada do que nunca ao chegar a essa conclusão.
- Você não é normal, Alexandre. – não era uma pergunta, era uma afirmação. – E, mesmo que você não me conte, eu vou descobrir o que você tem de errado. Nem que seja a última coisa que eu faça. – então eu me levantei e saí pisando forte pátio afora, me convencendo de que qualquer lugar era melhor do que ali.
Mas é claro que ele me seguiu, e, na primeira oportunidade, agarrou meu pulso, me fazendo parar. Eu voltei meu rosto para o dele, tentando ter uma expressão de firmeza.
- Não perca seu tempo com isso. – ele disse, praticamente sussurrando – Não vale a pena.
- Me conte, então. – eu disse, quase sussurrando também – Me conte, e eu não perderei meu tempo.
Ele não respondeu, apenas me soltou e seguiu em direção as salas, não sem antes me direcionar um olhar gelado que fez com que um calafrio percorresse minha coluna. Alguns segundos depois, o sinal tocou, e eu voltei para a sala, com mais dúvidas do que antes da minha "conversa" com ele.

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Capítulo 5

- Ah, vai Tati, faz esse favor pra mim... – eu disse, com voz de pidão. Já era dia 9 de setembro, e eu ainda não conseguira digerir a conversa do dia anterior.
- Eu não sei Taís, acho que isso nem mesmo é permitido! – ela disse
- Você não pode nem tentar? Por favor? – fiz meu melhor rosto de necessitada, enquanto esperava a resposta dela.
Ela me olhou de alto a baixo, deslocou seu peso para a perna direita e, com um suspiro, disse:
- Ta bom, vá... – eu sorri.
- Valeu, Tati!
- Mas só no fim da aula, OK? O sinal deve tocar daqui a pouco e não daria tempo...
- Claro! – eu disse, e, pulando de alegria, sentei-me na minha carteira e nem me importei com o escandaloso do sinal.
Após três horários, recreio e mais dois horários, o tão esperado momento chegou.
PÉÉÉÉÉÉÉ!!!!
Eu nem quis saber; fui logo procurando a Tati no meio dos alunos, e a encontrei ainda arrumando o material em sua carteira.
- Vamos? – eu disse, deixando de ser sorridente para ser ansiosa.
- Vamos. – ela disse – Você estava mais animada no início da aula.
- Nervosismo. – eu disse, dando pulinhos de ansiedade. A Tati riu e nós duas saímos juntas da montoeira de alunos, indo para a sala dos professores.
- OK, vejamos... – disse ela, entrando e indo direto para o computador comigo atrás, como uma sombra.
Ela digitou na caixinha de busca dos arquivos do colégio o nome do Xande e esperou enquanto as informações surgiam na tela.
- Aqui diz que ele é de Campinas... – ela disse, enquanto descia a tela – Nasceu e morou lá a vida toda até vir para cá. E não deixou endereço aqui em Anchieta. Que estranho.
Eu, como boa leitora de livros de suspense, sabia que era óbvio que, se o Xande escondia alguma coisa, ele não daria informações para que outras pessoas descobrissem seu segredo. Portanto, claro que ele não morava em Campinas.
- Mas espera... aqui diz que ele mudou a cidade natal, que disse errado da primeira vez – ela disse. E se ele tivesse escorregado e dado uma informação verdadeira da primeira vez, mas logo depois corrigiu o erro e substituiu-a por uma falsa? Provável. Enchi-me de esperanças ao pensar nessa possibilidade.
- Diz que antes ele tinha dito Foz do Iguaçu. Depois mudou a informação e trocou por Campinas.
- Foz do Iguaçu... – eu repeti, para não esquecer. Meu notebook ia ficar ligado por um bom tempo hoje.
- Mas de resto, tudo normal. – ela disse – Se quiser, pode ficar aí, dar mais umas olhadas, os professores não ligam. Mas eu realmente tenho que ir pra casa, Taís.
- Não, pode deixar, eu vou com você. – eu disse, e eu e ela rumamos para a saída, cada uma de nós concentrada demais nos próprios pensamentos para iniciar uma conversa.

Sentada em casa na frente do meu notebook, eu procurava por listas telefônicas, contatos ou qualquer coisa que pudesse me informar sobre antigos moradores de Foz do Iguaçu. Não estava dando muito certo; eu não achava o Alexandre Freitas de Castro em lugar nenhum.
Resolvi apelar e procurar em listas de falecidos que estavam fazendo aniversário de morte no mês de setembro. Com sorte, eu achava algum parente.
Procurei, procurei, mas não encontrei nada de muito revelador nas primeiras páginas que abri. Resolvi entrar com o nome todo do Xande na caixinha de busca. Sem motivo nenhum, só raiva da tecnologia mesmo.
Abri uma página que me pareceu "reveladora".
- Nunca. – eu não acreditava na página que eu tinha aberto.
OK, eu admito, podem muito bem ter erros na internet. Mas um erro descarado daqueles eu acho que não iam cometer.
Encarei uma foto do Xande na página, quase perfeita, em que se via de longe que era o mesmo garoto de quem eu procurava saber mais. O que me surpreendeu foram as palavras ao lado da foto.
Alexandre Freitas de Castro
Nascido em 13 de março de 1951
Morto em 16 de setembro de 1965"
- Impossível – eu disse para mim mesma. - Xande não é, não pode ser um fantasma que voltou do além! Ele me segurou, aparece de dia e não assombra nenhuma casa abandonada pelas redondezas. – eu tentava arrumar uma explicação razoável sobre aquilo. Não dava certo.
E, ao mesmo tempo, a verdade me invadia. Ele poderia muito bem aparecer no meu jardim e sumir se fosse fantasma. A tinta poderia muito bem atravessá-lo se fosse fantasma. E eu sabia que ele não era normal. Tudo apontava para ele. Por mais que eu não quisesse acreditar, eu sabia que aquela era sim a verdade.
- Impossível – eu repeti. Meu cérebro travou quando a verdade finalmente me atingiu.

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Capítulo 6

Uma palavra para me definir na semana seguinte? Zumbi.
Sei lá, sabe quando uma verdade bate de frente e a gente mal consegue perceber o mundo ao redor? Quando estamos ocupadas demais em tentar não pensar, não visitar nosso mundinho e a realidade vai para outro plano? Era assim que eu me sentia.
Talvez eu estivesse de luto por ele, talvez eu não quisesse ter sabido aquilo, talvez, talvez, talvez. Eu já nem sabia mais o que sentia.
E era nessa forma zumbi que eu estava no dia 16 de setembro (aniversário de morte do Xande) na aula de educação física. Voando e boiando no meio da quadra.
- Eu tô livre!
- Passa pra mim!
- Manda pro gol!
- Taís, sai da frente!
Eu só senti uma bolada forte na região do estômago, e cai no chão, lacrimejando. Eu estava perto demais do gol, sem querer me colocando no caminho da bola. Por que eu tinha que ser tão burra assim?
- Taís, você consegue me ouvir?!
Eu tentei responder, mas estava sem ar e onde a bolada pegara doía muito. Senti o café-da-manhã que tinha acabado de comer se revirar em meu estômago.
- Cuidado, ela vai vomitar! – ouvi dizer uma voz masculina. Bom, seja lá quem fosse estava certo, porque logo depois eu virei de lado e senti o café-da-manhã voltando. Queimou a garganta, e eu sentia como se todo o meu corpo estivesse doendo.
- Ai – soltei baixinho. Eu já nem sabia mais como abrir os olhos... onde eles estavam mesmo?
Foi quando eu senti que me levantavam e passavam meu braço esquerdo em torno do pescoço de alguém, enquanto uma mão desconhecida me segurava pela cintura.
- Taís, amiga, você está bem? – era a Tati que falava.
- Mais ou menos – eu consegui responder com voz rouca, e abri os olhos, com a claridade repentina me cegando.
Aparentemente, toda a sala estava ao meu redor, me encarando com olhos preocupados ou ansiosos, ou simplesmente com nojo. Na verdade, meu vômito estava fedendo no chão, então eu provavelmente fedia também.
Mas o que me chamou a atenção é que a Tati não estava me carregando; estava na minha frente. Então, eu estava apoiada em quem?
- Nós vamos te levar para a enfermaria, calma. – ela disse, e senti que me faziam andar. Esqueci a questão do ser misterioso que me guiava e fechei os olhos de novo, com medo de que o movimento pudesse gerar outra inquietação em meu estômago... isso é, se ainda tivesse sobrado algo lá.
Já tínhamos andado um bocado, eu ainda de olhos fechados e sem saber quem me carregava, quando senti que paramos. Já tínhamos chegado na enfermaria?
- Quem sabe a água não... – começou Tati, quando a voz de quem me carregava a interrompeu.
- Vai botar para fora de novo.
- Mas só um pouco...
- Mesmo assim. Temos que esperar até ela se acalmar.
Eu queria dizer que estava calma, mas não encontrei minha voz.
- É, talvez você tenha razão – tornou a dizer a Tati, e os dois ficaram em silêncio e recomeçaram a andar.
Passado mais algum tempo, senti que parávamos de novo. Dessa vez tive certeza que estávamos na enfermaria, porque uma voz ansiosa foi logo perguntar para a Tati o que tinha acontecido.
Fiquei feliz que ela tenha explicado tudo e pedido para não me convidar a falar. Eu ainda não tinha total certeza sobre o meu corpo, e não estava afim de vomitar mais.
PÉÉÉÉÉÉ!!!!!!
- Ah não – ouvi a Tati dizer.
- Não se preocupe, querida – disse a enfermeira, que me deitava numa maca ou cama, não tenho certeza – Pode ficar aqui com sua amiga que eu assino um bilhete para a professora deixar vocês entrarem na aula.
- Obrigada – ela disse, com uma voz aliviada. Fiquei ali deitada, esperando o enjoo passar.
- Posso ir? – ouvi a voz de quem me carregara
- Claro – a Tati disse, e foi até a porta. – Obrigada, Xande.
Meu mundo parou. O fantasminha camarada era quem me carregara até ali. Que ótimo.
Ouvi a Tati sentar ao meu lado e de repente senti uma vontade imensa de sair dali. Eu simplesmente não podia ficar ali, parada, depois de saber que era o Xande – O Xande! – que me carregara até ali, e eu não o reconheci. Sempre pensei que reconheceria aquela voz em qualquer lugar.
- Vamos para a sala, Tati? – eu disse, ainda meio rouca, e me sentei. Meu estômago protestou, mas eu não me importei.
- Talvez a gente devesse ficar aqui mais um pouco, não? – ela perguntou meio ansiosa, olhando para mim. Eu devia estar um caco para ela me olhar daquele jeito.
Mas eu acabei de vomitar, tive que lembrar a mim mesma.
- Mas não era hoje que teria matéria nova? – eu disse a primeira desculpa em que consegui pensar.
- Era? – ela perguntou.
- Era. – eu disse, aliviada por ela ter caído.
- Então temos que correr! Fica aí que eu vou chamar a enfermeira.
Meu estômago se inquietou de novo, e eu tentei engolir o máximo de saliva possível.
- Tá aqui o bilhete. Vamos! – ela disse, e saiu em disparada porta afora. Eu fui o mais rápido que pude, mas isso só estava piorando o enjoo.
- Por favor, não vomite, por favor, não vomite – eu fui repetindo baixinho até chegar na porta da sala. A Tati já tinha entrado, é claro.
A professora não disse nada quando entrei, mas lançou um olhar repreendedor para toda a sala, por prestarem mais atenção em minha entrada do que na aula.
- Tudo bem, Taís? – perguntou a Beth quando me sentei. Ela senta na minha frente.
- Perto disso – eu disse baixinho, e me deitei na carteira, tentando por tudo nesse mundo não pensar em coisas que poderiam incomodar meu estômago.

PÉÉÉÉÉÉÉÉÉ!!!!!!
Recreio. Legal.
Eu saí, já me sentindo melhor, comprei meu lanche e passei o recreio todo sentada em um cantinho afastado, até ouvir novamente o sinal.
Ele não me fez feliz como devia. Seria aula de geografia, e eu realmente não tinha nenhuma boa perspectiva sobre ela. O Alfredo fala demais.
- Bom dia, turma! – ele disse animado. Pelo tom, parecia que ele estava entrando em algum parque de diversões, não em uma sala de aula.
- Bom dia, professor – a turma respondeu em coro e em uma voz monótona, enquanto todos voltavam para seus lugares. Sempre fazíamos isso, mas ele nunca se importava com a monotonia.
- Bem, para a aula de hoje... – ele começou, e foi explicando o que iríamos fazer naquela aula. Não ouvi; estava mais ocupada engolindo saliva e tentando manter a boca fechada.
- Taís, você está bem? – eu ouvi o Alfredo perguntar. Eu já estava passando muito, muito mal de novo. Talvez eu devesse ter pegado mais leve no lanche. Ou não comprado nada.
- Ahhh, não – eu consegui responder.
- Ah Taís, por que não disse que ainda não estava bem? A gente poderia ter ficado lá na enfermaria – ouvi a Tati dizer, já do meu lado de novo. Eu ergui a cabeça e vi que ela estendia a mão para me ajudar a levantar.
Cambaleei um pouco ao ficar de pé, mas consegui me apoiar na carteira.
- Xande... – a Tati começou, mas ele já estava me segurando... de novo. Tentei não pensar nisso.
- Melhoras, Taís – disse o Alfredo, e voltou à aula. Eu, o Xande e a Tati saímos da sala. Pensei que ficar andando pioraria o enjoo, mas o ar fresco me fazia bem. Consegui até ficar de olho aberto, e pouco a pouco o enjoo passava, até que sumiu.
Foi quando vimos um professor passando pelo corredor. Deveria ser de outra série, porque não o reconheci.
- Tatiana? – ele perguntou.
- Sou eu – a Tati respondeu. Foi estranho ouvi-la sendo chamada de Tatiana; eu já estava tão acostumada com o Tati que até levei um susto quando ela respondeu.
- A supervisora pediu para falar com você – ele disse.
- Agora? – ela respondeu, meio apreensiva – Xande, você se importa de levar a Taís até a enfermaria sem mim?
- Claro que não, Tati – o Xande respondeu – Pode ir.
Eu me esforcei muito para não colocar a Tati na minha lista negra. Ela não fizera de propósito... certo?
A Tati sumiu pátio afora junto com o professor, e eu e o Xande voltamos a andar. Eu fazia mentalmente o caminho.
Até que ele fez uma curva errada.
- A enfermaria é para lá – eu disse.
- Eu pensei que você quisesse conversar – ele me respondeu. Passamos por um corredor que eu nem mesmo sabia que existia e entramos em uma sala vazia.
- Sobre o quê? – agora eu estava confusa.
- Sobre o que você descobriu, é claro.
Foi aí que caiu a ficha. Ele sabia. Sabia que eu havia descoberto. Um segredo tão bem guardado, e ele o fez tão simples de ser desvendado.
Eu sentei em uma carteira e virei de lado, para onde ele estava.
- Então vamos lá, Gasparzinho. – eu disse, e o encarei.

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Capítulo 7

- O que vai ser? Seção de perguntas? – eu perguntei, a voz mais sarcástica do que eu pretendia.
- Eu não sei – ele respondeu, e se apoiou na parede, meio deitado – Faça como achar melhor.
Eu pensei por um instante. Não tinha preparado nada para aquele momento porque, bem, eu nunca adivinharia que o Xande faria uma coisa dessas.
- Como... você descobriu que eu já sabia? – eu disse, hesitando um pouco. Foi a primeira pergunta em que pensei.
- Ah, isso? – ele respondeu, e sorriu. Senti por um instante meu cérebro se desconectar do resto do corpo. Sorriso perfeito. – Você pensa alto demais.
Voltei ao presente com aquele comentário. O que ele queria dizer?
- Como é? – eu perguntei, atônita.
- É! – ele continuou, ainda com aquele sorriso no rosto. Tentei pensar em outra coisa para não perder a concentração – É muito estranho, você chega em casa, se tranca no quarto, deita na cama e começa a falar sozinha.
- Eu sei que faço isso – eu respondi, ainda chocada – É mania. Mas... como você pôde me bisbilhotar desse jeito? Conhece o significado de privacidade?! – eu já estava morrendo de raiva dele. Eu discuto meus segredos mais íntimos comigo mesma, e não é difícil imaginar tudo o que ele ouvira.
- Ei, calma – ele respondeu, e ficou mais sério – Eu não ouvi nenhuma novidade. Além de que não vou contar para ninguém.
Disso eu tinha certeza. Ele não era um fantasma muito social.
- Próxima pergunta? – ele disse. Eu estava sem ideias e nervosa, então demorei um pouco para responder, tentando ao mesmo tempo ter criatividade e me acalmar.
- Como você veio parar aqui? Quero dizer, não era pra você estar no além ou coisa assim? Ou pelo menos no Paraná.
- Sabe – ele disse, e ficou meio pensativo – esta é uma boa pergunta. Eu mesmo já me perguntei isso muitas vezes, mas... nunca encontrei uma resposta. Nem eu nem... – ele disse, e interrompeu sua fala de repente.
- Nem...? – eu o incentivei a continuar
- Próxima pergunta – ele disse simplesmente, e ficou imóvel, com uma expressão indecifrável. Eu ia insistir, mas não estava com vontade, fôlego e nem paciência para discutir, portanto perguntei o que sempre quis saber, desde que descobrira que ele era um fantasma.
- Como você morreu? – eu perguntei, e olhei para ele aguardando uma resposta. Ele não disse nada, nem mesmo se mexeu.
- Ah, desculpe, eu não quis... – eu comecei a me desculpar, mas ele me interrompeu.
- Estava frio naquele 16 de setembro. Apesar de a primavera estar próxima, o inverno ainda não dera trégua. – naquele momento,eu não consegui despregar os olhos dele.
- Eu voltava para casa correndo – ele continuou – porque o crepúsculo se aproximava e minha mãe sempre dizia para mim e para minha irmã mais nova, Ângela, que não era seguro ficar fora de casa à noite. Não em tempos de ditadura.
- Eu nunca acreditei muito nela, mas tinha que dar o bom exemplo para Ângela, então apertei o passo.
- Eu já via minha casa ao longe quando ouvi o som que nunca mais esqueci. Eram tiros. – ele fez uma pausa nesse ponto, e eu percebi que a hora fatal estava próxima. Eu não mexera um único milímetro desde que ele começara a contar, e tive que lembrar de respirar.
- Eu tentei correr mais rápido, mas parecia que eu estava em um daqueles sonhos em que você não consegue correr mais, enquanto o perigo se aproxima e você sabe que não vai ter como escapar.
- Então... aconteceu. O inevitável aconteceu.
- A última coisa de que me lembro é de ouvir Ângela chamando mamãe, dizendo que tinha me visto chegar. Senti pena delas – ele fechou os olhos e, para minha surpresa, uma lágrima escorreu. Nunca imaginei que ele pudesse chorar – de Ângela e de mamãe. O que iriam fazer sem mim? Sem meu pai, sem meus tios, eu era a única pessoa que restara que poderia de fato protegê-las. Mas não era mais. Eu me fora também.
Foi tão estranho ouvir isso. Ouvir alguém falar da própria morte.
Imaginei a pobre menininha na janela, vendo o Xande chegar correndo, e indo chamar a mãe, sem ter a menor noção do que estava para acontecer.
Mais lágrimas escorreram naquela pele branca, e eu senti que uma descia por meu rosto também.
Nunca entendi porque fiz aquilo, mas quando dei por mim de novo, o estava abraçando. Senti que minhas lágrimas molhavam sua camisa, e percebi também a surpresa dele, logo depois seguida por mãos gentis que acariciavam minhas costas.
Mas não era eu que o devia estar consolando?
- Talvez não tenha sido boa ideia te contar isso – ele disse.
- Não... fui eu que perguntei. Devia saber que poderia não aguentar... eu sempre fui manteiga derretida – quando terminei de falar isso, já estava sentada de novo em minha carteira, ainda de lado e perto dele, mas não mais abraçada.
PÉÉÉÉÉÉÉ!!!!!
O sinal me assustou. Tinha esquecido que estava na escola.
- Talvez seja melhor voltarmos – ele disse – Podem achar que a coisa com você está bem ruim, se passou quase um horário na enfermaria.
- Meio horário – eu corrigi – Fiquei uns 15 minutos na aula do Alfredo.
- Isso não é meio horário – ele disse. Eu ia discordar, mas ele não me deu tempo, pois continuou – Mas anda, ou não vamos poder entrar na sala sem bilhete. E vai ser difícil conseguir um.
- Ah, tudo bem – eu disse, sem nada melhor para comentar, e o segui de volta para a sala.
Conseguimos chegar antes que a professora aparecesse e desse por nossa falta, e enquanto eu me dirigia para a familiar fileira do canto, ele voltava à sua carteira na frente do professor. O pior lugar quando se quer conversar, mas... ele não conversava.
- E aí, Taís? Já está bem de novo? Você parecia mal quando saiu daqui. – ouvi a Beth me perguntar, assim que sentei no meu lugar.
- Eu estou bem, Beth – eu disse, e não pude reprimir um meio sorriso – Nunca estive melhor.
Ela não fez nenhuma pergunta, mas me olhou de alto a baixo antes de voltar sua atenção para a professora.

PÉÉÉÉÉÉ!!!!!!
- Finalmente – eu disse, aliviada. A aula estava muito monótona e eu queria ir para casa... organizar as ideias.
- Ei, Taís – o Xande me chamou
- Que foi? – eu perguntei. Me senti tão... estranha... tive uma sensação diferente, quando o ouvi chamar meu nome. Mas passou.
- Quer voltar para casa comigo? Você não parecia muito satisfeita quando eu te chamei para voltar para a sala. – ele sorriu, e meu cérebro se desconectou de novo – E eu quero saber onde você mora.
- Ahhh, tudo bem – Joana não vinha mais me buscar ou levar na escola; agora ela trabalhava esse horário.
Ele então me ajudou a guardar tudo na mochila, enquanto eu corava, porque todo mundo que passava ficava olhando para nós dois.
Desconfiômetro: Zero.
Coloquei a mochila nas costas e saí da sala, com o Xande logo atrás.
- Talvez você possa ficar para o almoço – eu disse, tentando arrumar assunto.
- Não, não vou... – ele disse, meio pensativo – fico ocupado por esse horário.
- Que pena.
Saímos da escola e fomos caminhando pelo familiar passeio. Bom, familiar para mim, porque ele estava sempre de olho em meus pés para ter certeza de que não iria pegar o caminho errado. Como se eu não fosse avisá-lo na hora de virar alguma rua.
Quando já estávamos a uma boa distância daqueles alunos barulhentos, o Xande disse:
- Mas e aí? Alguma pergunta a mais?
- Na verdade sim. – eu disse – O que você fez quando acordou? Quero dizer... – eu me enrolei todinha aí.
- Depois que eu morri?
- Isso – eu disse. Tentei olhar para o rosto dele, mas o caminho irregular em que passávamos não me dava esse luxo.
- Bom... – ele começou – Eu devo ter acordado pouco depois do meu enterro, porque ainda tinham alguns pertences ali perto. Um deles me surpreendeu... – vi pelo canto do olho que ele sorria – Depois eu conto dele para você.
- Depois? – eu perguntei. Era impressionante, mas ele conseguira me deixar muito curiosa com relação a esse pertence.
- É, deixa eu terminar essa história primeiro – ele disse, e depois continuou.
- Não demorei muito para me lembrar da hora da morte e perceber que algo estava errado. Eu não deveria ter ido para o além ou coisa assim, como você diz? E eu não me sentia como um fantasma. Como você pode ver, eu sou bem corpóreo.
- Mas eu sabia que, de qualquer forma, não podia continuar por ali. Minha família poderia me reconhecer e, por mais que eu desejasse voltar para a minha casa, sabia que minha volta poderia causar discussões demais.
- Como assim? – eu perguntei, completamente absorta em sua história.
- Imagine, líderes políticos e religiosos, como iriam ficar ao me ver? Um fantasma que não parece fantasma. Imagine os noticiários, dizendo que tudo que acreditávamos sobre a morte poderia ser mentira?
- É verdade – eu disse – E aí? – eu perguntei, ardendo de curiosidade.
- Descobri que poderia virar fumaça e entrei assim em um trem, que me levou até uma cidadezinha... não lembro bem onde... – ele parou de falar um pouco, pensativo. Eu ia cobrar a continuação, mas ele foi mais rápido.
- E assim fui viajando. De trem em trem, às vezes em bondes, às vezes levado pelo vento, até que cheguei em Campinas. Não era nenhuma cidade perfeita, mas servia para o meu caso.
- Eu ia sempre trocando de cidade a cada 5 anos, não podia ficar muito tempo em um mesmo lugar. Tentava não criar raízes, amizades, sabe? Pessoas que poderiam acabar se lembrando de mim. Isso sim poderia me complicar.
- Há quanto tempo está aqui? – perguntei
- Vim esse ano – ele disse, e sorriu. Tive que me esforçar para continuar prestando atenção no caminho – Por que, está preocupada que eu possa ir embora? Vai sentir saudade?
Minha face corou, mas não respondi, porque era isso mesmo.
Fiquei olhando para o chão, mas ele me parecia tão diferente... irregular. Irregular demais
- Xande! – eu disse, e o parei – Passamos da minha casa! Droga! – eu disse, e peguei a mão dele para fazermos meia volta. Sorte que eu tinha percebido e minha casa não estava longe, porque eu nunca fora pelo caminho que estava indo.
- Você mora aqui? – ele perguntou, meio bobo, ao olhar para a mansão do meu avô.
- É provisório – eu disse, mais baixo do que pretendia – Ainda não liberaram a herança do meu pai... quando liberarem, Joana compra uma casa para nós duas.
- Não tenha pressa, aproveite as regalias de rico – ele comentou, rindo. Meu cérebro fugiu de novo.
- Taís, é você aí fora? – chamaram de dentro da casa. Quem me chamava era a Luana, uma das empregadas que trabalham na mansão.
- Sou eu – gritei
- Então entra logo que o almoço já está na mesa! – ela disse, e voltou para dentro da casa, deixando a porta aberta para que eu entrasse.
- Tem certeza de que não quer almoçar conosco? – perguntei para o Xande.
- Não posso, desculpe – ele disse – A gente se vê amanhã?
- A gente se vê amanhã – eu disse, e entrei em casa enquanto ele voltava caminhando e sumia de minha vista.

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Capítulo 8

Acordei de repente morrendo de frio e com o barulho que o vento fazia. Olhei no meu despertador: ainda eram três e meia da manhã.
Descobri o motivo do frio: eu tinha esquecido a janela aberta. Mas que estranho, porque eu jurei que tinha fechado. Talvez eu estivesse mesmo ficando louca.
Juntei toda a minha força de vontade e levantei pra fechá-la, tentando não me importar muito com o frio.
Quando cheguei ao peitoril da janela, parei para olhar o jardim, meio que de costume.
E vi o que eu não esperava mais ver.
De novo aqueles olhos. Aqueles olhos gelados e azuis. Que agora, eu sabia que pertenciam ao Xande. Mas ele não tinha mais motivo para aparecer no meu jardim. Ele não precisava mais... precisava?
Naquele momento eu percebi que nem tinha perguntado para ele o motivo de estar no meu jardim da primeira vez.
Todos esses pensamentos ocorreram em um milésimo de segundo, mas foi tempo suficiente para tomar uma decisão meio besta.
- Xande? – eu chamei. Minha voz saiu meio baixa demais, e eu pensei que ele nem teria escutado, mas aqueles olhos se voltaram para mim.
E quando isso aconteceu, eu tive certeza de que aquele nunca seria o Xande. Pois, fosse quem fosse, não tinha o mesmo olhar do Xande, mesmo que a cor dos olhos fosse exatamente igual. Aquele era um olhar gelado, com ódio. Senti um calafrio percorrer toda a minha coluna e paralisei.
De repente, alguma coisa pulou em cima de mim, tapando minha boca e me impedindo de gritar. A sorte é que meu pufe fica na frente da janela, então não cheguei a cair no chão e quebrar alguns ossos, como imaginei que aconteceria. Mas o susto me acordou, e o pânico de ter alguma coisa desconhecida no meu quarto me imobilizando mais ainda.
Então, o que tapava minha boca parou de fazer isso, e à tênue luz do luar eu reconheci aquele rosto.
- Xan... – comecei, mas ele levou o dedo aos lábios, pedindo silêncio. Eu só obedeci.
Eu não sei quanto tempo ficamos ali, caídos no pufe. Só sei que, quando ele finalmente se levantou, minhas pernas formigavam e grande parte do meu corpo sofria com o frio torturante.
Ele ficou agachado, só os olhos visíveis para quem via de fora, por alguns instantes. Depois que teve certeza de que não havia mais nada no jardim, se levantou e fechou a janela. Fiquei grata por não ter mais que aguentar o frio, e até comecei a me levantar, mas ele me impediu. Só me deixou ficar de pé outra vez depois que baixou a cortina e se certificou que estava tudo devidamente fechado.
- Xande, precisava de tudo isso? – eu perguntei. OK, tinha um estranho no jardim com os olhos da mesma cor que os do Xande, e ele até poderia ser um psicopata, mas acho que também não era para tanto.
Além de que o Xande surgiu do nada, então ele também me devia algumas explicações em relação a isso.
- Taís, você sabe quem era? – ele simplesmente perguntou, ignorando minha raiva.
- Eu pensei que você soubesse – eu respondi. Afinal, não fora ele quem pulara em cima de mim só para que eu saísse da vista daquilo e me impedira de levantar até que tivesse certeza de que o jardim estava vazio?
- Eu tenho... uma leve ideia. – ele respondeu – Não de quem era, mas do que era.
Esse comentário me espantou. Não era humano?
- Era o que então? – eu perguntei.
- Um fantasma. Como eu – ele respondeu simplesmente. Meu queixo caiu.
- E existem outros fantasmas? – eu não pude deixar de me espantar. Não era a surpresa do ano, mas eu nunca tinha pensado nisso. Depois que descobri o que o Xande era na verdade, sempre o imaginei como o único a ter que aturar um fardo desse tipo.
- É claro – ele respondeu – Ou você acha que eu sou algum tipo de exceção à regra? – ele sorriu sarcasticamente quando disse isso. Mesmo não sendo o sorriso que eu gostava, meu cérebro fugiu. De novo.
- Eu não sei. Nunca pensei nisso.
- É, eu já imaginava. – nesse ponto ele desfez o sorriso e começou a ralhar comigo. – Você é completamente louca, Taís! Chamar pelo meu nome da janela quando tem um estranho no jardim?! O que você tem na cabeça?!
- Ah, não vem com essa não! – eu disse – Os olhos eram iguais aos seus, e você já tinha aparecido aqui antes! Como eu poderia saber que na verdade era outro fantasma que por ironia do destino resolveu aparecer no mesmo lugar e do mesmo jeito que você? Além de que no momento em que ele olhou para mim, eu já soube que era outra pessoa.
Ele se espantou, e eu percebi uma pontada de pânico em sua expressão.
- Ele olhou para você?
- Praticamente me encarou. Por quê?
- Isso é preocupante. Muito preocupante. – ele disse, e começou a andar de um lado para o outro no quarto.
- Xande, o que é que tem de mais? – eu disse, já preocupada.
- Imagine que ele poderia não conhecer o seu rosto. Imagine que ele estava só passando. Imagine que ele sabia que eu estava mais próximo dos humanos do que deveria. O que você acha que ele iria pensar quando você de repente aparecesse na janela e perguntasse por mim?
- Existem muitos Alexandres no mundo. – eu comentei baixinho.
- Mas só um com os olhos desse azul nojento e enjoativo – ele disse, e caiu no pufe de olhos fechados, massageando a têmpora.
- Eu ainda não entendi qual é o problema disso.
- Ele vai vir atrás de mim. Ou eu falei demais ou não fui cuidadoso o suficiente. E vai vir atrás de você. Você sabe demais.
- Mas... a gente não sabe quem ele é. Ele pode não ser ninguém, decidir ir embora e nos deixar em paz, não pode?
- Temos que ser mais cuidadosos exatamente por não sabermos quem ele é. Não sabemos o que ele vai ou que ele pode fazer contra nós. Não sabemos como nos defender dele, ou quando teremos que nos defender. Será que você já entendeu a gravidade da situação para nós dois ou eu vou ter que desenhar?
- Tá legal, já entendi. – eu disse meio irritada. Ele estava descontando suas frustrações em mim e, vamos combinar, não fui eu quem pediu para que isso acontecesse. – Mas você ainda tem uma coisa para me explicar.
- O que é, Taís? – ele perguntou com voz cansada.
- O que exatamente você estava fazendo no meu jardim a essa hora?
- Te vigiando, é claro – ele respondeu, ainda de olhos fechados.
- Para quê?
- Eu tenho que garantir a sua segurança.
- Ah, então quer dizer que o senhor agora se acha na obrigação de me proteger? – eu disse com voz sarcástica. – Aposto que também não é o primeiro dia que você vem aqui.
- Claro que não. – realmente ótimo - Fico no seu jardim toda a noite desde que nós conversamos e você me contou que tinha "me visto" aqui. Só que eu falei a verdade. Não era eu. Era aquele cara que tinha vindo aqui. – dessa vez eu gelei.
- Você tem ficado aqui todo dia desde...
- Desde o dia 9. Mas acredite, tem sido um tédio. Nunca acontece nada e hoje foi a primeira vez que ele apareceu. É claro que eu sempre pensava comigo mesmo: Xande, isso é bom, ela está segura. Mas a coisa realmente já estava ficando monótona demais.
Me segurei para não dizer bem feito.
- Xande, se ele até agora não fez nada...
- Foi porque eu impedi – ele me interrompeu.
- Da primeira vez ele teve oportunidade. Mas não fez nada. E você também não tinha que ficar no meu jardim, de qualquer modo!
Me surpreendi gritando. Percebi que minha mãe se remexia no andar de cima. Prendi a respiração e esperei que ela voltasse a dormir, e foi o que aconteceu.
- Escute – ele sussurrou – Não adianta ficar bancando a "que não precisa ser protegida". Até descobrirmos o que aquele cara pode fazer contra nós ou até ele ir embora, você fica sim sob a minha vigilância. Sem reclamações.
Eu queria muito dizer que não, que não aceitava e que ele com certeza tinha mais o que fazer. Mas a minha paciência para discussões estava acabando, e o sono já voltava, então eu provavelmente não conseguiria argumentar direito. Por isso, só me calei.
- Ah, finalmente – ele disse baixinho.
Olhei para o relógio. Quatro e meia da manhã. Talvez fosse melhor ficar acordada de uma vez.
Ele seguiu meu olhar e se espantou com o horário também.
- Caramba – ele disse baixinho – Você me faz perder a noção de tempo, garota. – ele deu um meio sorriso quando disse isso. Meu cérebro deu uma leve fugida, mas eu consegui me manter consciente.
Eu não sabia se aquilo era um elogio ou não, mas corei mesmo assim. Sorte que estava escuro, então ele não percebeu.
- Volta para a cama, Taís. Amanhã... digo, hoje, a gente tem aula – ele riu quando percebeu que teria que usar o hoje no lugar do amanhã. Não pude impedir desta vez; meu cérebro se desconectou do corpo e eu fiquei ligeiramente tonta.
- Ah é – eu disse, e cambaleei de volta para a minha cama.
Depois que deitei, percebi que ainda não tinha feito todas as perguntas que gostaria.
- Ei, Xande – eu chamei baixinho, com os olhos já pesando, mas quando olhei para o pufe, ele não estava mais lá. Suspirei e fiquei na posição que gosto quando vou dormir, e a inconsciência logo me aclamou, em um sono pesado e sem sonhos.

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Capítulo 9

- Boa tarde. – disse um professor que entrou na sala.
Era o terceiro horário do dia, e seria aula de História. Mas era um professor quem entrara na sala, e quem ensinava História para nós era a professora Anna. Ela era até nova comparada com os outros professores, devia ter uns 42 anos, 45 no máximo.
- Bom, turma – ele começou, depois de sentar em sua mesa e escrever no quadro: "Henrique, professor de História" – Como vocês já sabiam, a professora Anna está grávida e adiou sua licença maternidade por recomendação médica. Portanto, a partir de hoje, quem dará aula de História para vocês serei eu.
Isso não fez a turma muito feliz. Anna era uma das nossas melhores professoras, e o novo professor não tinha uma cara muito amistosa.
- E, para inaugurar o período de aulas comigo, nós podemos fazer uma atividade em dupla! Afinal, a sala de vocês está bem adiantada com o cronograma, de acordo com as anotações da professora Anna. Podem escolher as duplas enquanto eu passo a atividade no quadro.
Ah, tinha que ser. Os professores sempre fazem isso para que achemos que eles são legais. O problema é que geralmente os que fazem isso são bem irritantes, e tentam ver se investimos mais na primeira impressão. Não funciona muito, mas acho que eles não percebem, porque sempre fazem a mesma coisa.
- Ei Taís, já tem dupla? – eu ouvi. Me virei para a direção da voz, e era a Clara quem falava.
- Não... nem procurei, para ser sincera – eu respondi. Não gosto muito de sentar em dupla na aula de História, porque sempre temos que terminar a atividade como dever de casa e sou boa em História. Isso significa que eu sempre me atraso explicando para a pessoa o que para mim é a coisa mais simples do mundo.
- Legal, quer ir comigo?
- Tudo bem. – Bom, a Clara é legal. Ela vai entender que eu tenho que diminuir minha carga de dever.
- Meninas, alguma de vocês ainda não têm dupla? – a Beth estava do meu lado, e ao falar isso parecia um pouco angustiada. Acho que ela não era muito acostumada a sobrar.
- Já temos, vamos juntas... mas quem sabe o professor não nos deixa ir de trio? – a Clara disse.
- É, vou perguntar para ele. – a Beth disse, e foi até a mesa do Henrique.
- Mas Clara... – eu disse, percebendo uma coisa. – O número de alunos da nossa sala é par. Não era para a Beth ter sobrado.
- Ah, mas é por causa do Xande. Ele sempre vai sozinho. – ela respondeu, com um tom que dizia "é óbvio".
Olhei para a carteira dele e o vi, realmente sozinho. Conversava com o professor, mas não estava sentado em dupla.
Isso não deveria ter me surpreendido, então nem sei porque fiz aquilo, mas quando vi já tinha feito.
- Garotas, podem ir vocês duas. Eu vou com o Xande. – eu disse.
- Taís, você está bem? – a Beth perguntou, me olhando com uma certa preocupação. Mas a Clara foi aparentemente mais compreensiva ou sensitiva, porque disse:
- Deixa, Beth. A decisão é dela, afinal. Anda, vamos arranjar logo lugares ou vamos acabar lá na frente. – e as duas saíram arrastando carteiras e tentando encontrar um lugar para sentar.
Bom, mesmo que aquilo fosse idiotice já estava feito, então fui andando até o lugar do Xande. Peguei uma carteira e, sem nenhuma cerimônia, coloquei-a do lado dele. Ele meio que me olhou de alto a baixo, supreso, mas não disse nada.
- Se importa? – eu perguntei por fim.
- Não. Mas mesmo que me importasse não faria diferença, faria? – ele respondeu, com um sorriso meio divertido e meio repreendedor.
- É, acho que não. – eu disse, e sorri também. Por sorte, dessa vez consegui manter meu cérebro no lugar. Não sem algum esforço.
Como da outra vez, fizemos a atividade em alguns minutos. Ele também era muito bom em História, então a coisa foi bem do tipo "eu leio, você escreve e nós raciocinamos".
Também descobri que ele escreve muito bem. Mais dois itens para a lista de talentos do Xande.
Depois de terminar a atividade, tínhamos uma aula inteira para vegetar ou conversar, ou as duas coisas. Legal.
- Com licença, professor – ouvi uma voz na porta. Era um funcionário da escola – Mas a Marta pediu para chamá-lo.
Marta é a nossa coordenadora. Muito reservada, está quase sempre trancada em seu escritório, mas sempre arruma um tempinho para botar defeitos nas coisas. E tem um gênio bem ruim.
Por isso ser chamado para conversar com ela geralmente não é um bom sinal.
- A Marta? – ele disse, e parecia meio apreensivo. Talvez ele já conhecesse a fama dela. – Tudo bem... ah, garotos, eu volto daqui a pouco. Podem continuar fazendo a atividade. – com essas palavras, saiu da sala.
- Espero que ele realmente volte daqui a pouco... ele parece ser um bom professor – eu ouvi o Xande dizer.
- Você acha? – eu perguntei.
- Estávamos conversando agora há pouco, e me pareceu simpático. – ele disse vagamente.
- O que você acha que ele fez para a Marta chamá-lo até lá? – eu disse, após uma curta pausa.
- Ah, a Marta não precisa de um motivo para ralhar com as pessoas – ele disse, e deu um sorrisinho. Desta vez, eu não pude evitar; meu cérebro travou. Bom, pelo menos ele não fugiu – Você soube da última? Com o professor de Inglês da tarde?
- Não... – foi o melhor que pude responder. Ele então me contou, e não foi só isso que fiquei sabendo, porque estava aparentemente muito bem informado sobre as fofocas da escola. Desde aquelas que todo mundo já sabia a outras que foram abafadas para não prejudicar reputações.
Isso nos ocupou por mais ou menos a metade da aula, porque o professor voltou após isso. E se incluiu na nossa conversa, nos contando que (confirmando nossas especulações) ele não tinha entendido até agora o porquê de ter sido chamado. Marta falou, falou, falou, mas não disse nada.
Aí obviamente o Xande foi contando o que ele sabia sobre ela, tentando explicar que era assim mesmo, e nisso eu fui na onda, contando as gafes que eu acabara de ouvir.
Bom, para resumir, na hora que o sinal bateu – escandaloso como sempre – estávamos terminando de xingá-la e rir de apelidos "carinhosos" inventados de improviso. Além do slogan: "Marta".
Me fez lembrar as aulas do meu antigo colégio, quando meu pai ainda era vivo. Não fazíamos absolutamente nada na aula e sempre passávamos de raspão no fim do ano, mas era tão bom que nem ligávamos.
Agora eu era apenas uma novata antissocial que conversava com um fantasma ainda mais antissocial e um professor substituto, sendo que o assunto era uma coordenadora com parafusos faltando.
A decadência era aparente. Mas não liguei, para ser sincera.
Peguei o meu lanche e me apressei pelo pátio para me sentar na mesinha de sempre, onde a turma geralmente ficava para conversar e lanchar. Na verdade, eu demorei bastante para resolver sair, porque eu e o Xande ainda "trocamos algumas ideias".
- Ei Taís, achei que você não fosse chegar mais! – a Cat disse assim que eu me aproximei.
- Hum, é que eu demorei um pouco para achar meu lanche – não era totalmente verdade, mas também não era totalmente mentira. Minha mochila anda tão cheia de tralhas que o que é realmente importante está sempre lá no fundo.
Então não me senti culpada ao dizer isso.
- Indo direto ao que interessa... a gente vai ir para a praia amanhã, aproveitar o sábado. Quer ir com a gente?

Eu não tinha ido à praia desde que chegara aqui.
Parece inacreditável, ainda mais quando se vê as praias lindas que têm aqui e a proximidade da casa do meu avô com o mar, mas é verdade. Meu biquíni é testemunha: está abandonado na caixa com as minhas coisas desde a mudança, junto com algumas roupas de frio e um bichinho de pelúcia todo rasgado.
Pensei em recusar, pois preferia passar meu sábado deitada na minha cama assistindo filmes de locadora, com pipoca e refri.
Mas alguma coisa me impediu. Porque eu sabia que era antissocial, e queria mudar isso. E, se a praia me ajudasse, talvez eu conseguisse voltar a ser feliz como antes. Certo?
- Tudo bem – eu respondi finalmente. Minha voz ficou meio morta, mas não acho que houvesse algum modo de mudar o tom, afinal eu não estava animada.
- Beleza! Mais a Taís na lista, Clara – a Clara estava anotando nomes em um pedaço de papel, então imaginei que fosse a tal lista. Dei uma espichada de pescoço para tentar descobrir quem mais iria, mas não consegui ler nada.
Passei o resto do recreio calada, apenas comendo o meu lanche. Como só a Beth já fala por ela e por mim, não acho que alguém tenha percebido.
PÉÉÉÉÉÉÉ!!!
- Taís! – ouvi o Xande chamar-me, e me virei para a direção dele.
- O que foi?
- Hum, nada, é só... bom, talvez você já tenha programa, mas... – ele hesitou repetidas vezes.
- Mas... – eu o incentivei a continuar.
- Bem, é que eu conheço um bom lugar para um passeio... não sei bem dizer onde é – ele hesitou de novo. Eu esperei calada. – Domingo é um bom dia para ir. E ir sozinho não tem graça... – ele mordeu o lábio inferior – Hum, quer ir comigo? – a voz dele falhou na última palavra.
Era impressão ou ele estava me convidando para sair?
- Claro – eu mordi o lábio também, meio na dúvida do que fazer. Tentei me lembrar de algum artigo que eu tivesse lido em revistas de adolescente, do tipo "o que fazer quando ele finalmente te convida", mas eu não consegui pensar muito bem. Ele estava muito perto, e pela primeira vez percebi que cheirava a orvalho e terra molhada, meio como uma manhã chuvosa no campo. Cheiro que há muito eu não sentia.
Se bem que devia ser a roupa, porque acho que fantasmas não têm cheiro.
- Então me encontra na frente da escola... depois da aula.– ele ficou pensativo – É. Aí eu te mostro onde fica. Pode ser?
- Claro – eu repeti. Meu cérebro ainda não estava funcionando plenamente, mas consegui me manter relativamente consciente da situação.
Foi aí que percebi que já não tinha mais ninguém no pátio, e que tínhamos ficado conversando por mais tempo do que podíamos. Droga.
Depois de passarmos uma desculpa esfarrapada para a professora que, solidariamente, nos deixou entrar, foi com alívio que me sentei em meu cantinho e comecei a pensar. Não em coisas que ultimamente andaram me preocupando, mas sim no fato de perceber que, no fim das contas, o Xande também era humano.
E aquela foi a primeira vez que não o imaginei como um fantasma ou morto ou coisa assim. Mas sim como um garoto, como um amigo. Não qualquer amigo; melhor amigo. Tati e Clara podiam ser boas amigas, mas no fim não sou tão próxima delas como poderia, ou deveria.
No fim, fora o Xande de quem eu mais me aproximara. Quase que inconscientemente.
É muita decadência.
Foi a última coisa que pensei antes de voltar minha atenção para a aula.

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Capítulo 10

- Garotas, sinceramente, vir à praia e não dar um mergulho é quase um pecado. Vocês não vão fazer essa desfeita comigo, vão?
- Taís, se eu entrar na água, meu cabelo vai ficar duro e feio. Olha quantos surfistas! Não vou perder uma oportunidade dessas só para entrar na água. Preciso de bocas novas, amiga.
Só não sei a que "amiga" a Mariana se referia. Eu tinha acabado de conhecê-la, e além do mais, ela me dá nos nervos.
Eu ainda descubro de quem foi a ideia de jerico de convidar essa garota... hipócrita.
Para a minha felicidade, ela estudava de tarde. O motivo?
- Não gosto de acordar cedo, nem sei como vocês conseguem! Até as onze da manhã estou em um sono profundo. – ela disse, entre risadinhas enjoativas e acenos de mão quando perguntei.
Eu sempre preferi estudar de manhã porque aí tenho a tarde toda para estudar, adiantar dever de casa e relaxar, tudo ao mesmo tempo. Estudando de tarde o tempo fica picotado e você acaba fazendo tudo pela metade.
Mas por sorte ela não pensava do mesmo jeito. Não sei se conseguiria aguentar uma criatura dessas lá na sala.
- Tudo bem então. Boa sorte com suas bocas novas. – Acho que fui meio áspera, mas na hora eu não prestei atenção e nem me importei. Simplesmente saí correndo da mesa na direção da imensidão azul.
Fui até um ponto bom e mergulhei. A água estava deliciosa, um pouco fria talvez, mas eu sabia que logo estaria acostumada. Saí nadando peito por baixo d'água, vendo como no fundo a coloração mudava, ficando mais puxada para o verde.
Quando o nível de oxigênio começou a ficar crítico, comecei a subir. Mas quando cheguei à superfície, bati em alguma coisa que, cega pela cor da água, eu não vira.
Se bem que a melhor descrição talvez fosse alguém.
- Ai, desculpa, eu não te vi... – comecei a me desculpar, mas a pessoa em quem eu trombara virou-se para mim. E era familiar até demais.
- Olhos de mar? – disse o garoto, mais alto que eu, com os cabelos castanho escuro e olhos cor de chocolate.
- Rosadinho? – Inacreditável. Com todas as letras.
- Mas não é possível! – ele disse rindo. Quantas vezes eu já não tinha visto esse sorriso... – Faz quantos anos? Uns seis?
- É, eu lembro... você ainda tinha 10 anos. Puxa, eu nunca pensei que fosse te ver de novo! Que mundo pequeno! Rosadinho... – eu disse, rindo para mim mesma.
A última vez que a gente se vira fora quando vim passar as férias de verão na casa do vovô, seis anos atrás. Ainda morávamos em BH, e foi naquele ano em que meu avô e meu pai brigaram feio.
Rosadinho (apelido carinhoso referindo-se à cor em que a pele dele ficava quando tomava sol) era nosso vizinho, mas pelo que me contaram, ele se mudara para Guarapari junto com os pais, alguns anos depois do nosso último encontro.
Fomos muito amigos, mesmo ele sendo menino e dois anos mais velho que eu. A amizade meio que minguou quando voltei para BH com a promessa do meu pai de nunca mais voltar. Mas acho que não dá para esquecer aquele mês em que ele foi o meu melhor amigo.
- Sabe que os seus olhos continuam da mesma cor? – ele disse, tirando-me de minhas lembranças. – O mesmo verde do fundo do mar. O apelido ainda vale – O sorriso não saía do rosto dele. Nem do meu.
- Mas eu discordo do Rosadinho. – Ele decididamente já não era mais vermelho de sol. Estava mais para um moreno, ainda de sol, mas bem longe do vermelho. E continuava com um físico bom, só que aparentemente com mais músculos.
Se eu fosse usar uma palavra para descrevê-lo, acho que eu só teria uma escolha. Gato.
E não era só eu que pensava assim.
- Veio com quem aqui para a praia? – ele perguntou.
- Com um povo da escola. – eu respondi, e mostrei a mesa com um aceno de cabeça.
Foi com enorme satisfação que percebi olhar gelado que a Mariana nos direcionava. Não, me direcionava, porque eu sabia que ela devia estar pensando que eu tinha roubado um "pretendente".
Eu iria esclarecer a situação sim... mas depois. Acho que eu tinha direito de tirar proveito, só para ver a cara dela.
- O quê, você veio lá de BH fora da alta temporada e ainda trouxe mais gente? – ele disse – Eu tenho que conhecer essa escola maravilhosa!
- Ah... não Gabriel – Eu disse o nome dele por falta de um apelido melhor. – Na verdade, estou morando aqui agora.
- Mas seu pai e o Abrão não tinham brigado feio?
Ah. Então ele ainda não sabia.
- Meu pai morreu. – eu disse baixinho. Eu baixei os olhos e mordi o lábio, não por estar triste ao tocar no assunto. Era mais uma reação imediata, um reflexo.
Eu ouvi o arquejo surpreso dele. E logo ele já tinha tomado minhas duas mãos, seguras pelas dele e juntas, na altura de meu peito.
- Ah Olhos de Mar, me perdoa, eu não sabia... – Eu fiquei olhando para nossas mãos, surpresa com sua reação, e depois fixei meus olhos nos dele, que agora estavam aflitos.
- Tudo bem, afinal você não tem nenhuma bola de cristal. – eu disse, e dei um meio sorriso, mostrando que não estava chateada. – Que eu saiba, pelo menos. Andou fazendo algum curso de bruxaria enquanto eu estava fora?
- Claro que não, estava muito ocupado desenvolvendo uma tecnologia inovadora para a NASA. – ele disse, e o sorriso voltou a seu rosto. Mas ele ainda deixava minhas mãos seguras entre as suas. Não me atrevi a soltar; sabe-se lá qual o motivo de ele as estar segurando.
- Hum, acho que vou ter que te apresentar para a turma. Caso contrário, vou acabar tragicamente assassinada. – Pensei no rosto de Mariana, enquanto me sacudia com as mãos firmes em torno de meu pescoço.
- Compreendo – disse ele, em tom de complô. E finalmente soltou minhas mãos.
Mergulhei mais uma vez e voltei para a mesa com ele andando ao meu lado.
Feitas as apresentações, Gabriel logo foi convidado a jogar uma partida de futebol, em que era mais importante ficar com a bola para si do que fazer um gol.
Já eu fiquei observando ele humilhar os outros jogadores, calmamente sentada na mesa. A Beth e a Cat tagarelavam enquanto caminhavam, com o intuito de chegar até as pedras no fim da praia, a Clara tinha ido catar conchinhas, a Tati estava na outra mesa conversando com a mãe, e o Dani e o Mateus estavam entre os humilhados no futebol. Não sei que fim a Mariana tinha levado e nem queria saber, mas provavelmente estava afogando suas mágoas em relação à indiferença do Gabriel fazendo charme para algum surfista.
Então eu fui a única que viu quem tinha chegado. O alguém que estava parado com olhos assustados, olhando diretamente para mim. E que não devia estar ali.
Não pude disfarçar minha surpresa, então minha voz saiu completamente esganiçada.
- Xande? O que você está fazendo aqui?!

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Capítulo 11

Não, aquilo não eram olhos assustados. Eram olhos... envergonhados, talvez? Como se não quisesse estar ali, como se devesse explicações a alguém.
Bom, ele me devia muitas explicações.
Ele deve ter ficado uns cinco segundos me olhando, e eu os mesmos cinco segundos sustentando seu olhar, até que uma voz interrompeu nossa comunicação silenciosa, se dirigindo ao Xande.
- Ah, vocês chegaram! Ainda bem, já estava ficando preocupada. – Vocês?
- Dona Célia, não precisava se preocupar. É só que a Luana fez a maior bagunça na casa procurando o chapéu de praia dela, dizendo que sem ele ela não saía – o Xande disse, e riu. Mas quem era Luana?
- Alexandre, eu já lhe disse que aqui ninguém é dona! – Célia disse com um olhar repreendedor, mas também com um sorriso nos lábios – Eu sei que você gosta de ser educado, mas isso me lembra que já sou velha.
- É, tão velha... – a Tati disse em tom de ironia, parada ao lado da mãe. Eu teria dito algo também, mas estava surpresa demais para conseguir pensar em alguma coisa. Então apenas continuei olhando.
De repente, surge uma garota de uns 16 anos, com o cabelo castanho escuro, carregando sacolas de praia e uma bolsa térmica.
- Xande seu peste, podia ter pelo menos tirado as suas coisas do carro! – ela disse, e jogou uma das bolsas de praia para o Xande, que pegou. Um belo reflexo.
- Mas por que eu faria isso, se você já o faz tão bem por mim? – o Xande respondeu, ainda rindo.
A tal garota deu três risadinhas sarcásticas (Há, há, há) e veio andando até a mesa em que eu estava sentada. O que foi estranho, porque ela não me conhecia e, portanto, não podia saber que aquela mesa também estava sendo usada pelo nosso grupo.
Ela deixou a sacola dela na areia e já ia se sentando quando a Célia a chamou para conversar. Então ela só deu um oi para mim e voltou para a mesa da Tati.
Já o Xande veio andando e se sentou na cadeira que a garota tinha puxado.
- Oi – ele disse simplesmente. Eu não respondi, só continuei olhando-o.
Ele esperou minha resposta, que não veio, e depois disse:
- O que foi?
- Você me deve explicações – Minha voz saiu sem vida, e eu sabia que meu rosto também estaria assim.
Ele suspirou fundo, entendendo o recado.
- A gente já tinha combinado que eu ficaria de olho em você.
- É, mas eu não pensei que se incluíssem na conta fins de semana e feriados!
- Você concordou e ponto. Nosso trato já está feito, Taís. Não tem como voltar atrás.
- Eu não assinei nenhum contrato. Quero rever os termos desse trato.
- Taís...
- Xande! Eu já tenho uma sombra, não preciso de outra!
- Olha, eu também não estou gostando da situação, tá legal? E você não está melhorando ela com essa atitude! Não podemos conversar?
- E o que acha que estamos fazendo, plantando bananeira?
- Eu quis dizer sem toda essa agressividade. Civilizadamente.
Eu respirei fundo, e olhei para ele. Foi quando eu percebi que estava a centímetros de distância dele, cruzando a mesa para chegar perto de seu rosto. A situação dele não estava melhor; ele cruzava a mesa também, e diante de meu olhar, percebeu nossa proximidade.
Senti meu rosto corar enquanto voltava a sentar normalmente.
- Tudo bem, então. Me convença. – eu disse.
Ele respirou fundo.
- Não há o que dizer. Não sabemos quem era aquele cara. Não sabemos se ele é perigoso. Não sabemos se ele vai te procurar. E, se vier, eu tenho que estar aqui. Só isso.
- É claro, você tem que ser o maravilhoso príncipe encantado... – eu disse, sarcástica.
Ele bufou.
- Você é impossível, Taís.
- Grande novidade.
- Eu tinha que dizer.
Ficamos algum tempo em silêncio. Eu fiquei olhando para o mar, mas sentia que ele me observava. Não me atrevi a virar o rosto para comprovar minha teoria.
- E também, se eu não viesse, a Luana ia me matar. – o Xande disse finalmente.
- Quem é Luana? – Senti que já era seguro virar o rosto, e ele estava mesmo me observando. Mas desviou o olhar quando percebeu que eu vira.
- Acho que podemos classificá-la como minha... irmã mais velha, assim por dizer. – ele disse – Luana é a garota que veio para cá comigo, aquela ali – Então ele apontou para a garota dos cabelos castanho escuros, sentada conversando com Célia. Ela também usava um chapéu de praia – o que ela estava procurando antes de vir, imagino – e óculos escuros.
- E ela sabe que você já morreu? – minha voz saiu mais sarcástica do que eu pretendia. Acho que eu estava começando a exagerar no sarcasmo.
- Sabe, tanto que ela também já.
Não consegui deixar de me espantar. Luana era muito cheia de vida. De longe já se percebia isso.
- E-ela? Mas... como? Quando?
- Acidente de carro, década de 80. – Xande disse simplesmente. Eu queria mais detalhes, mas percebi que, para obter a história toda, teria que falar com Luana. Um relato detalhado de sua morte é algo muito pessoal. – Por incrível que pareça, ela se adapta muito bem a novas modas. Mas acho que você já percebeu isso – ele continuou, e sorriu para mim.
- É, acho que percebi – eu disse, ainda olhando para Luana. – Mas por que ela seria sua irmã mais velha?
- Ela mora comigo. Na mesma casa que eu, digo.
- Sério?
- Sério.
- Pensei que você fosse solitário.
- Não, nem de longe.
- Por que, tem mais gente morando na mesma casa que você? Além da Luana?
- Tem sim. Talvez um dia eu lhe apresente.
Não gostei do modo como ele disse talvez.
- Ela tem o quê, uns 16 anos?
- Ela? Tem 18. Tanto que veio dirigindo. – Acho que ele percebeu como eu estava surpresa, porque completou: - Mas ela é pequena mesmo.
Fiquei olhando (sem ver) a mesa por alguns instantes, processando as novas informações enquanto ouvia as ondas quebrarem.
- Você ainda não me deu todas as explicações. – eu disse.
- Então pergunte.
- Que papo é esse de... virar fumaça?
- Ah, isso. Hum, é uma pena ter começado justo com uma pergunta que não posso responder. – Ergui meus olhos e olhei para seu rosto.
- Por que não? – eu disse, confusa.
- Isso é algo que só se entende vendo, sabe? Com uma demonstração prática. E não precisamos de uma demonstração prática por aqui – ele olhou para as pessoas na praia, ilustrando seu argumento.
- É, mas você vai acabar me enrolando se eu não souber agora. Me enrolando de novo. Daqui a pouco vou virar uma múmia, de tão enrolada. – Ele riu.
- Esqueceu que ainda temos amanhã? Não se preocupe, todos esses "mistérios" serão esclarecidos. – ele disse, e eu o encarei. – Só mais 24 horas? Por favor?
Eu acabei suspirando em concordância, o que gerou um sorriso em seu rosto. Minha cabeça estava tão confusa que meu cérebro não se deu ao luxo de fugir.
- Viu só, quando você concorda com as coisas todo mundo fica feliz. – ele disse.
- Não cante vitória antes da hora – eu rebati.
- Estou até sendo atrasado. – ele disse, ainda rindo. – Eu vou nadar. Você se cuida?
- Não se preocupe, não vou deixar de gritar quando o fantasma do mal aparecer aqui para me assassinar ou qualquer coisa assim.
Ele sorriu, mas depois o sorriso se desfez.
- É sério Taís, não deixe de gritar.
Eu revirei os olhos.
- Vai logo, garoto!
Observei enquanto ele entrava no mar, e depois voltei os olhos para o jogo dos garotos.
Para minha surpresa, Gabriel não estava jogando, mas sim sentado na areia, olhando para mim. Não tive certeza de seu olhar; estava frio, vazio...
Mas antes que eu pudesse tirar alguma conclusão, ele se levantou e voltou a jogar.
Será que ele tinha me observado enquanto eu conversava com o Xande?
Isso seria preocupante. O que ele poderia ter percebido? E ele parecia tão magoado...
É, pela primeira vez desde que cheguei aqui, eu devia mais explicações a alguém do que esse alguém devia a mim.

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Capítulo 12

Está frio. Isso não deveria me incomodar. Não posso ter o luxo de me incomodar com coisas assim. Não nesse momento. Num momento desses.
Mas não deixo de olhar para o ar condicionado, como se isso o fizesse parar ou ficar mais quente. Me aconchego mais.
- Está com frio, querida? – Giovanna me pergunta, sempre bondosa. Eu sei que é só para manter as aparências e não me assustar. Sei que por dentro, ela está tão temerosa quanto eu.
- Estou. Quero ir para casa. Quero a minha mãe. Quero o meu pai. – eu digo, como se fosse uma criança pequena. Nesse momento, os 13 anos que passei não me importam mais. Não posso impedir que mais lágrimas corram por meu rosto.
- Eu sei, Taís, eu sei. – Ela é compreensiva e me puxa para perto, me abraçando e me colocando no colo ao mesmo tempo, nós duas apertadas naquele banquinho de sala de espera de hospital. Já estou meio grande para isso, mas tias queridas são sempre tias queridas. Enterro meu rosto em seu pescoço, e por isso minha voz sai abafada.
- Você acha que... que papai... – Eu não consigo terminar.
- Ele vai ficar bem, você vai ver. Pensamento positivo. – Eu percebo pelo tom da voz dela que ela está sorrindo. Daquele jeito estranho de titia, de sempre ser feliz e pensar positivo, não importa a situação.
Às vezes eu gostaria de ser tão forte como ela, para poder aguentar tudo isso.
Ficamos mais um tempo indeterminado em silêncio, só esperando. Meu coração bate descompassado, enquanto eu tento (sem sucesso) pensar positivamente.
Penso em tudo que eu e meu pai já fizemos juntos; as pescarias sem peixes, os mexidos e omeletes que ele faz tão bem, todas as vezes em que fomos até o parque de diversões enquanto mamãe descansava...
Meus olhos se enchem de lágrimas, e eu choro. Outra vez.
Passam-se segundos, minutos, e até horas, e ninguém dá notícia naquela sala de cirurgia. Minha mãe está tão nervosa quanto nós duas, por isso nem conversa, sentada em um banco do outro lado da sala. O único disponível na hora que ela chegou.
Como estará papai?
Mais lembranças dele, e a última vez que o vi...
- Quantas idas ao parque eu estou te devendo mesmo, Taís? – ele dissera.
- Não sei, pai... – eu disse, com um caroço enorme na garganta. Ele suspirou.
- Não se preocupe, filha. Eu vou sair dessa cama de hospital, fazer a cirurgia e voltar. Não me olhe como se fosse a última vez que vai fazer isso.
Eu mordi o lábio, mas não respondi.
Logo depois, chegaram os enfermeiros que iriam levar papai para a sala de cirurgia.
- Eu prometo, Taís. Vou sempre estar com você. Sempre. – ele disse, e acariciou meu rosto. Logo depois foi para a maca, e eu o vi passando pela porta do quarto.
Algo me tira de minhas lembranças de repente. Um médico sai da sala de cirurgia e caminha até Joana. Não consigo ver o rosto do cirurgião.
Ele fala algo com ela, que o olha com olhos assustados por alguns segundos, e depois cai no choro.
Não.
NÃO!
PAI!

- Pai! PAI! – eu gritei no escuro, assustada com o sonho-lembrança, sentando-me imediatamente na cama. Eu estava suando frio, e meu rosto estava áspero onde as lágrimas secaram.
E molhado, onde novas caiam.
Eu tinha jogado essa lembrança lá no fundo do meu cérebro, em um canto escuro e sombrio que eu tinha prometido para mim mesma que nunca mais visitaria.
A lembrança do dia em que meu pai morrera. Quando não puderam salvá-lo. Quando o câncer acabou por vencer. Quando ele descumpriu uma promessa pela primeira vez.
Ele não estaria mais comigo. Ele me deixara. Nos deixara. Eu e Joana.
Enterrei o rosto nas mãos, deixando as lágrimas rolarem. Ouvi Joana se mexer no andar superior, mas eu sabia que ela não desceria. Não era a primeira vez que sonhos como esse me assombravam, e eu já lhe dissera que nessas horas preferia ficar sozinha.
- Taís? Você tá legal? – Ergui o rosto para ver quem me perturbava em meu luto. Era o Xande, sentado na janela aberta. Ah, ótimo.
- Não, não estou. – Em qualquer outro momento, eu teria sido sarcástica, mas resolvi não me dar ao trabalho.
Ele suspirou e entrou no quarto, caminhando silenciosamente, e sentou-se na beirada da cama.
- Sonhou com seu pai?
- Não foi um sonho. Foi uma... lembrança. Do dia em que ele morreu. – Eu enxuguei algumas lágrimas com o pulso, e olhei para seu rosto. Não vi grande coisa na luz fraca da lua, mas consegui perceber alguns traços.
O que realmente vi foram seus olhos, como dois faróis na noite escura.
- O que você está fazendo aqui? – eu perguntei. Minha voz saiu cansada. Um sussurro.
- Eu preciso responder? – ele olhou para a janela. Ah, claro. Vigiando o jardim. Me vigiando. O de sempre.
Ficamos alguns minutos em silêncio, eu ainda fungando um pouco.
O cansaço acabou por me fazer deitar, mas eu sabia que não conseguiria dormir tão cedo. O "pesadelo" ainda me assombrava.
Enrolei-me como uma bola, querendo disfarçar a sensação de vazio dentro de mim.
Então percebi pelo canto do olho que o Xande se esgueirava de volta para o jardim.
- Xande – eu chamei. – Não vá, por favor, não quero ficar sozinha. – Minha voz saiu como um fiapinho, e eu me sentia como uma criança com medo do escuro.
Bom, o escuro sempre me faz pensar, e a última coisa que eu queria naquele momento era pensar.
- A lembrança é tão ruim assim? – ele perguntou, e pela proximidade de sua voz, percebi que estava bem ao meu lado. Virei-me para ele.
- Mais do que você pode imaginar.
Ele suspirou um pouco, e fechou os olhos. Dois faróis azuis apagados.
- Tudo bem, eu fico. Sua mãe vem te acordar de manhã?
- Não... não no fim de semana. – eu disse, e fechei os olhos também. Senti que ele passava a mão por meu rosto, tirando uma mecha de cabelo. Não reclamei; a sensação era boa. Achei que fosse uma sensação de proteção, mas parecia mais do que isso.
Uma ideia milagrosa me ocorreu em meio à tristeza e ao cansaço.
- Xande?
- Hum?
- Você acha que... meu pai... pode ter virado fantasma também?
Ele ficou calado por alguns segundos. Pensei que ia dizer logo que era uma ideia absurda e que eu não deveria ficar esperançosa demais sobre o assunto. Mas não foi bem isso. Ele foi até gentil demais.
- Durma, Taís. – Ele estava sendo evasivo. Como se ao invés de sim ou não ele dissesse talvez. Me enrolando, para variar.
Sua mão acariciou meu rosto de novo, mas sem nenhuma mecha para tirar dessa vez. Continuei calada, porque a sensação ainda era boa. Apesar de ser uma ação estranha.
Prestei atenção em sua respiração leve, contando. Um, dois, três...
Perdi a conta por volta do vinte e seis; o cansaço venceu.

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Capítulo 13

Eu não consegui falar com o Gabriel.
Eu tentei de tudo, tudo mesmo: o antigo telefone dele, vizinhos, os novos moradores da casa, lista telefônica, internet, tudinho.
Eu já estava quase digitando o site de aniversários de morte em que encontrei o Xande, mas aí eu acabei por só bater na minha testa e me xingar de desesperada. Eu queria falar com ele e esclarecer as coisas (que eu nem sabia quais eram exatamente), mas não precisava dar uma prova de loucura para isso.
Até que a Luana (não a irmã do Xande, a moça que trabalhava na casa de vovô) me disse que tinha o contato do novo endereço deles, e eu podia telefonar para lá se não me importasse em fazer um interurbano.
Eu quase dei um beijo no rosto dela, de tanto alívio. Mas me contive e apenas comentei que conhecia uma xará dela.
Peguei o telefone e o número na mão dela e disquei.
Tocou três vezes.
- Alô? – uma voz feminina disse do outro lado.
- Alô. Humm, posso falar com o Gabriel?
- Não se encontra, quer deixar recado? – O sorriso fugiu de meu rosto.
- Ahh, tudo bem, eu acho – eu disse, hesitando um pouco. – Diz que é a Taís... pede para ele me ligar. Quando der.
- Tudo bem, eu falo com ele.
- OK, obrigada. – e desliguei o telefone. Minha animação tinha ido todinha embora. Eu me sentia até meio vazia.
Encarei vagamente o relógio, como se ele pudesse me dar alguma solução. Mas para a minha infelicidade, ele apenas continuou com seu tic-tac.
Eram onze e quarenta da manhã, e eu ainda tinha duas horas para estar pronta para o passeio com o Xande. Meu dever de casa estava todo feito e adiantado, e como o Xande não tinha aparecido de manhã eu deduzi que ele deveria estar ocupado.
Não me restava muito para fazer, então decidi tomar um banho e me aprontar mais cedo. Mesmo já tendo decidido com que roupa eu iria.
Deixei a água quente cair livre em meu ombro, e assim fiquei até ter certeza de que estava relaxada. Enrolei-me na toalha e então saí.
O resto da manhã foi tedioso. Eu almocei e assisti TV, mas foi só.
Também fiquei o tempo todo de olho no telefone, para o caso de o Gabriel resolver me ligar. Mas foi só perda de tempo e concentração, porque ele insistia em ficar silencioso.
Isso mais o fato de que minha mãe derrubou o copo de suco bem em cima de mim na hora do almoço.
Já deu para perceber que, a essa altura dos acontecimentos, eu não estava com o melhor humor do mundo.
Tentei ficar animada enquanto caminhava até o maravilhoso ponto de encontro do qual o Xande tinha feito tanta propaganda, no parque natural da cidade, e acho que até consegui ficar um pouco melhor. Só não sabia se uma mudança tão pequena faria muita diferença.
Não é que eu estivesse irritada, eu só estava indiferente. Vazia.
Observei calada a beleza do parque, cheio de famílias alegres, menininhas com seus vestidos esvoaçantes, garotinhos empinando pipa com o pai e casais apaixonados fazendo piqueniques à sombra das árvores. Senti-me como se estivesse em um daqueles filmes antigos, que mostram o protagonista caminhando na solidão pela relva macia enquanto observa a felicidade alheia.
Bem, minha solidão logo acabaria.
Avistei uma placa ao longe e me aproximei dela para ler o que dizia.
Região Central do Parque. Aqui você pode encontrar:
E começava a listar que tipo de fauna e flora você poderia encontrar por lá. Nada que me interessasse, então apenas tirei do bolso o bilhete que o Xande me entregara.
Pode ser um pouco difícil encontrar o local exato. Então vou simplificar; apenas siga os pontos de referência.
- Entre no parque e caminhe na direção da placa amarela.

Bom, isso eu já tinha feito.
- Encontre a placa que indica a região Central do parque.
Feito também.
- Você vai ver uma fonte ao longe. Siga na direção dela.
Ergui os olhos e realmente vi uma fonte. Linda, muito bem feita. Eu quase conseguia ouvir o barulho da água caindo, mesmo sabendo que estava longe demais para tal feito.
Guardei o bilhete no bolso de short e fui para a direção da fonte, assim como o recado mandava.
Quando cheguei, tive que ter um autocontrole enorme para não me jogar lá dentro. A água estava clarinha e fazia aquele barulho delicioso de água batendo em água. Isso sem contar o calor.
Abri novamente o bilhete.
- Encontrou a fonte? Siga para a direita.
Eu me senti como se estivesse montando um brinquedo ou aprendendo a passar de nível em um desses joguinhos.
Guardei novamente o bilhete no bolso e me virei para seguir à direita.
- Opa! Desculpa aí. – Eu tinha trombado em alguém. Outra vez. Já não bastava o Gabriel, agora era um desconhecido.
Pele clara, cabelos ondulados cor de mel e olhos castanho escuros, não muito mais alto do que eu.
- Ei, mas você não é a Taís? A neta do Seu Abrão? – ele disse.
Maravilha, meus cinco minutos de fama chegaram mais rápido do que eu esperava.
- Hum... é, sou eu. – eu disse.
- Que legal! Prazer, meu nome é Lucas. Meu avô é amigo do seu. Ele diz que é sócio, mas eu não acredito. – Ele falava como se nos conhecêssemos há anos, mas só agora tivesse se lembrado de comentar isso comigo. E também falava rápido, um jorro de palavras; tive que me esforçar para entender.
- Ah... interessante... – Eu não tinha exatamente uma resposta melhor, mas ele não se importou, porque continuou falando naquele jorro:
- Meu avô sempre diz que visita vocês frequentemete para jogar um baralho com o seu. Eu nunca acreditei, mas aí ele fica dizendo que eu não sei de nada e que quando eu arrumar um amigo decente eu vou entender. Aí eu digo que já tenho amigos assim e ele desconversa! Dá muita raiva. Uma vez ele comentou de você, disse que você era mais ou menos da minha idade, aí eu até disse que queria te conhecer para ver se era realmente verdade que vovô visitava vocês frequentemente, mas ele não deixou! Eu até fiquei curioso para realmente te conhecer, mas sei lá, eu nem sei onde vocês moram. Aliás, é verdade mesmo que meu avô sempre visita vocês?
Eu demorei alguns segundos para entender tudo.
- Eu não sei... não vejo muito o meu avô. – eu disse, lentamente. – Ele quase sempre sai.
- Sabia! – ele disse, triunfante. Não sei que alegria toda era aquela, então continuei calada.
- Mas o que você anda fazendo por aqui? – eu já ia responder, mas ele não deixou. – Conheço esse parque como a palma da minha mão, então se estiver perdida, conte comigo.
Ele aguardou minha resposta com um sorriso prestativo no rosto.
- Na verdade... Lucas, não é? – ele concordou com um aceno de cabeça. – Eu só vim mesmo para passear... aproveitar esse domingo de sol.
- Ótimo! Então eu posso te acompanhar! Conheço um lugar maravilhoso que fica logo... – Nesse ponto, eu o interrompi.
- Não Lucas, você não está entendendo. Eu vim aqui para... pensar, sabe? Esfriar a cabeça. Muita aula... quase fico louca. E eu prefiro pensar sozinha, entende?
Eu odeio mentir, mas quando é necessário...
- Ah. Claro... tudo bem. Desculpe então. Mas a gente se fala depois, certo? – Aquela animação de sempre surgiu novamente em seus olhos.
- Certo. – eu respondi, e tentei sorrir. Não sei se deu certo, mas o Lucas pareceu-me aquele tipo de pessoa que fica feliz só com uma tentativa.
- Então tchau. – ele disse.
- Tchau. – eu disse, e observei enquanto ele caminhava para algum outro lado.
Abri novamente o bilhete e reli as instruções.
- Direita. Tá. – eu disse para mim mesma, e segui para a direita.
Depois de ter seguido mais algumas instruções e chegado no meio de uma "trilha" vazia na mata, li a seguinte frase:
- Agora que você já chegou às árvores cruzadas, pode achar um lugar para descansar e me esperar. A não ser que eu já esteja aí, claro.

Xande


Olhei para o alto e vi que eu realmente estava embaixo de duas árvores cujos galhos se cruzavam e formavam um arco quase perfeito. Para árvores, é claro.
Ainda com o bilhete na mão, olhei em volta e dei alguns passos, procurando ver se o Xande estava lá. Como não encontrei nada, avancei mais um pouco.
Virei o rosto e, atrás de uma árvore, vi os olhos do Xande me espiando. Suspirei e sorri.
- Oi Xande. – Me aproximei de onde ele estava, ainda sorrindo.
Meu sorriso murchou no segundo em que fiquei perto o suficiente para distinguir feições.
- Xande? Mas ora essa Taís, que falta de visão. Talvez você esteja precisando de óculos. Preocupante, não acha? – Ele ria debochadamente da minha cara, e eu não sabia o que fazer.
- Quem é você? – eu sussurrei, e por instinto recuei alguns passos.
- Será que este lindo rostinho ficaria bem com um óculos? – ele continuava falando, ainda rindo debochadamente, seus olhos me percorrendo atentamente de alto a baixo.
- Quem é você? – eu repeti.
- Eu sou alguém. Isso não importa. O que importa é que, como você já deve ter percebido, eu não sou o seu querido Xande. Ou pelo menos deveria ter percebido, não é? – Ele riu outra vez. Aquele riso me deu nojo.
- Como você sabe o meu nome? Cadê o Xande? O que você quer?! – Eu já estava me desesperando. Foi estranho, porque algum sexto sentido qualquer me dizia que eu estava correndo risco de vida, e eu nunca tinha passado por algo assim.
- Eu só tenho algumas contas a acertar, Taís. Ou dívidas a cobrar, o que você preferir.
- Mas eu não tenho nada a ver com isso, eu nem te conheço! – Eu já tinha recuado tanto que senti minhas costas baterem em uma árvore. Mal senti. Tinha mais com o que me preocupar.
- Eu sei, meu bem, juro que sei. – Ele estava perto agora. – O problema é que quem realmente tem contas a acertar comigo sumiu do mapa. E você é a pessoa mais próxima. – Mais perto. – E convenhamos... eu estou só adiantando as coisas. Uma hora ou outra ia acontecer. Você sabe demais. – Ele estava a poucos centímetros de mim agora.
Lembrei de minha conversa com o Xande:
- Imagine que ele poderia não conhecer o seu rosto. Imagine que ele estava só passando. Imagine que ele sabia que eu estava mais próximo dos humanos do que deveria. O que você acha que ele iria pensar quando você de repente aparecesse na janela e perguntasse por mim?
- Existem muitos Alexandres no mundo. – eu comentei baixinho.
- Mas só um com os olhos desse azul nojento e enjoativo – ele disse, e caiu no pufe de olhos fechados, massageando a têmpora.
- Eu ainda não entendi qual é o problema disso.
- Ele vai vir atrás de mim. Ou eu falei demais ou não fui cuidadoso o suficiente. E vai vir atrás de você. Você sabe demais.

Aquelas palavras ecoaram em minha cabeça.
E vai vir atrás de você. Você sabe demais.
Minha respiração acelerou mais ainda, e eu decididamente estava em pânico. Onde aqueles mocinhos de cinema encontram coragem para encarar a morte de frente? Porque eu não conseguia. Meu cérebro funcionava a mil, procurando uma solução.
- Mas... mas isso não... – Eu não consegui completar a frase. Aquele estranho pousou a mão no meu rosto. Eu recuei, mas ele continuou com ela ali.
- A vida não é justa. E nem a morte. – ele disse.
Entendi o duplo sentido de suas palavras.
Um, ele era um fantasma.
Dois, ele ia me matar.
Eu continuei ali parada, porque eu não sabia o que fazer. Eu só sabia uma auto-defesa básica, que talvez não funcionasse para um fantasma. Bom, talvez eu pudesse tentar. Não tinha mais nada a perder.
- Mas não se preocupe. – ele prosseguiu. – Eu sou piedoso. Até porque você não fez nada, não é? Então relaxe. Não vai doer nada. – ele desceu sua mão por meu pescoço, e aí eu entendi o que ele queria fazer. Apertar a artéria que leva sangue para o cérebro para me fazer desmaiar. Inteligente.
Eu só caracterizei aquilo como hora de agir.
Levantei meu joelho o suficiente para atingir, com um forte chute, sua parte baixa, assim por dizer. O ponto fraco de todo homem.
Ele recuou o suficiente para que eu pudesse escapar, então saí correndo. Ouvi um grunhido atrás de mim poucos instantes antes de ser atingida por ele e cair no chão.
Ele agarrou minhas mãos e as prendeu em minhas costas. Eu tentei reagir. Mas não sabia como, e mesmo que soubesse não teria força suficiente.
Senti um aperto na base do pescoço, do lado esquerdo, onde eu imaginava estar minha artéria. Doeu, e eu ofeguei ainda mais, na tentativa fraca de me manter consciente.
Obviamente não funcionou, e de repente tudo ficou escuro e eu não ouvi mais nada.
Não, não! Eu tentei me mexer, lutar, mas não sabia onde estava meu corpo.
A última coisa que senti antes de ser sugada pela escuridão foi um impacto, talvez forte, talvez fraco, em algum lugar do meu corpo que eu não consegui discernir. E então ouvi o meu nome.
Eu só não sabia se realmente alguém gritava por mim ou se era apenas uma ilusão criada pelo último fiapo de esperança que eu tinha.

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Capítulo 14

Fui levemente recobrando os sentidos.
Pouco a pouco, senti que meu corpo se soltava da escuridão e minha mente se tornava mais clara. Ouvi vozes ao longe, que no momento não passavam de grunhidos incompreensíveis. Tentei me focar nelas, e logo comecei a discernir palavras.
- E você deveria descer desse pedestal e começar a me agradecer, porque era eu quem sabia onde ela estava quando ocorreu, e se não fosse a minha ajuda... – A voz foi interrompida.
- Só para começo de conversa, ela estaria muito melhor sem ter te conhecido, e não teria esse tipo de problema! – disse uma segunda voz, que aparentemente discutia com o dono da primeira. – Se você tivesse ficado quieto no seu canto, ela não saberia nada e aquele louco não teria tentado matá-la!
Essa fala despertou em mim lembranças horríveis de um estranho de olhos azuis que me fez desmaiar.
Ou morrer. Eu não sabia.
Talvez eu também tivesse virado fantasma, assim como o Xande. Não era algo impossível.
Mesmo assim aquele pensamento me fez gelar, e eu tentei me situar mais para descobrir se realmente estava morta.
Senti que estava sendo carregada; o sobe-e-desce de meu corpo e o fato de o lado direito de meu rosto estar sendo prensado contra o peito de alguém, como imaginei, só confirmavam a hipótese. A falta de batimentos cardíacos me fez imaginar que era Xande quem me carregava.
E eu estava certa, pois logo identifiquei que era ele mesmo o dono da primeira voz.
- E eu fiquei! – disse o Xande. – Foi ela que resolveu me investigar e conseguiu mais informações do que qualquer outro.
- Mas você facilitou! – tornou a segunda voz, que identifiquei como o Gabriel. Estranho; o que ele fazia tendo essa discussão com o Xande? – Se fosse tão fácil assim descobrir que você é um falecido, todos no mundo já saberiam. Você é que não quis impedi-la.
- Já fui humano, Gabriel. E eu erro.
- E tinha que ser justamente esse erro? Ela não estaria bem mais feliz sem precisar carregar um fardo assim? E se tivesse acontecido alguma coisa com ela hoje, se aquele maníaco tivesse conseguido seu propósito e ela estivesse morta, o que é que você iria dizer? Como iria se sentir, Alexandre? – A última frase pareceu-me mais um desabafo do que parte de um sermão. Mas não liguei. Significava que eu não estava morta, e o alívio foi tão grande que todos os meus músculos, antes tensos, relaxaram.
- Por que precisaria pensar em uma resposta para isso? Não aconteceu nada! – exclamou Xande, em resposta.
- Mas poderia ter acontecido! Se não fosse a minha ajuda...
- Ah, lá vem você subindo de novo nesse pedestal!
- Parem de brigar, vocês dois. – eu disse finalmente. Minha voz saiu baixa e rouca, mas os dois se calaram no mesmo instante. Como senti meu corpo estável, imaginei que estivéssemos parados.
- Taís? A gente te acordou? – ouvi o Xande dizer, baixinho.
- Talvez. Na verdade gritem mais alto, eu acho que ainda não ouviram vocês lá na África do Sul. – eu respondi, sarcasticamente.
- Se lembra do que aconteceu? – Gabriel perguntou, ignorando meu sarcasmo.
- Infelizmente. – eu respondi, e abri os olhos.
Copas de árvores me encararam de cima, e percebi que ainda estávamos na mata. Isso me deixou um pouco nervosa, mas me mantive calada.
Baixei um pouco os olhos e encontrei os olhares nervosos do Xande e do Gabriel. Inspirei longamente, sentindo o cheiro da camisa do Xande. Orvalho e terra molhada, novamente. Movi levemente o corpo, que doeu um pouco na coxa, no pulso e na região das costelas, mas não achei que fosse nada grave.
- Eu cheguei a me machucar? Algo que dê para perceber, eu digo. – eu perguntei.
- Você está bem roxa na região abdominal e achamos que talvez tenha torcido o pulso direito, mas de resto está bem. – Gabriel respondeu prontamente.
- Droga. – praguejei – Joana vai me lotar de perguntas.
- Tenho certeza de que vai pensar em alguma desculpa. – disse o Xande.
- Posso ficar em pé? – eu disse.
- Acha que consegue? – Xande perguntou, preocupado. Achei que ele estivesse exagerando; eu não estava tão mal assim.
- Acho. – eu disse, e logo fui tentando me erguer. O Xande me impediu imediatamente.
- Com calma, Taís. – ele disse. Eu revirei os olhos e continuei a me erguer, com os braços em torno de seu pescoço para me apoiar.
Quando fiquei em pé, soltei os braços. Foi má ideia; fiquei tonta e meus joelhos cederam. Por sorte, o Xande estava a postos e me segurou.
- Foi mal, foi mal. – eu disse, já segurando novamente nele. – De novo...
- Nem pensar! Você vai voltar para o colo e é agora. – disse Xande, e me pegou no colo de novo.
- Não, Xande, eu quero descer! – eu exclamei, e comecei a me agitar e sacudir. Ele continuou me segurando, com uma força que eu não pensei que ele tivesse.
- Já disse que não. Nem adianta ficar se sacudindo assim. – ele disse, com um meio sorriso. Exibido.
- Que coisa, seu chato. – eu disse, me rendendo, e fiquei quieta.
Olhei brevemente para o Gabriel, e ele estava com o mesmo rosto fechado de sábado.
- Se você quiser, Taís, eu te ajudo a andar. – ele disse, inexpressivo. Só que ele não olhava para mim, mas sim para o Xande; um olhar bem frio, por sinal.
Olhei para o Xande, que estava com a mesmíssima expressão. Talvez fosse alguma competição de quem direciona o olhar mais gelado.
- Não acha melhor esperar mais um pouco? – o Xande retrucou, seco.
- Não, não acho. – respondeu Gabriel.
Os dois ficaram se encarando por alguns segundos.
- Hum... vocês devem ter o que conversar, então... pode me colocar no pé daquela árvore? – eu disse, hesitante.
- Tudo bem. – Xande respondeu, e me pousou sentada no pé na árvore mais próxima, sem nunca desviar os olhos do rosto de Gabriel. O clima estava muito pesado ali.
- Acho que não tenho mais nada para fazer aqui. – Gabriel sussurrou vagamente.
- Também acho. – disse o Xande. Direcionei-lhe um olhar repreendedor no mesmo instante, mas acho que ele não viu.
- Tchau, Taís. A gente se vê depois. – Gabriel disse, e saiu andando para longe. Eu observei suas costas até perdê-las de vista, com um nó na garganta e um aperto no coração. Não entendi o porquê daquela sensação, mas nem por isso deixei de senti-la.
- Como... como ele sabia?... – Não consegui completar a frase muito bem. Mas, felizmente, o Xande entendeu.
- Ele também teve um incidente bem ruim com os mortos. – ele respondeu, e me olhou. – Você está bem? Sente-se bem mesmo?
- Sim. – eu respondi, e ele inspirou lentamente de olhos fechados.
Aproveitei a oportunidade para subir um pouco a blusa e observar o local onde o Gabriel dissera estar bem roxo. E estava mesmo, com hematomas horríveis colorindo o branco da minha pele. Voltei a blusa para o lugar rapidamente, com uma sensação de enjoo e pânico crescendo.
- Desculpe. – eu ouvi o Xande dizer, baixinho. Ele agora estava encolhido, apoiando a testa nos joelhos e abraçando suas pernas. Fiquei com dó ao vê-lo daquele jeito.
- Pelo quê?
- Por isso. Por tudo. Você não tem nem noção de como eu me sinto culpado. Eu devia sumir da face da Terra, isso sim.
- Do que está falando?
- Ah, Taís! – ele disse, e ergueu-se de repente, andando de um lado para o outro. – Você sabe muito bem porque aquele cara apareceu. E eu já tinha te avisado sobre isso, lembra? Você sabe demais! E fui eu que te deixei saber sobre isso! Se eu tivesse sido mais cuidadoso... ou se eu tivesse simplesmente sumido ao morrer, como todos esperavam que eu fizesse... – ele parou, apoiado em uma árvore. A angústia dele me assustou. – Dói ver o que fizeram com você, sabendo que no fim das contas, a culpa foi toda minha! – Ele deu um tapa tão forte na árvore ao dizer isso que uma montoeira de folhas caiu. Eu me encolhi instintivamente.
Ficamos um tempo parados, ele ofegando e eu observando.
Fiz minha loucura do dia nesse momento.
Calada e esperando não fazer barulho, me levantei com dificuldade, apoiada na árvore. Depois de muito esforço, consegui.
Segui mancando até o Xande, que só me percebeu quando já estava a seu lado. Ele não disse nada, apenas me observou espantado.
Então, eu o abracei. Não forte, para não piorar a situação dando gritinhos de dor por causa dos hematomas. Mas ainda assim um abraço.
- Não fica assim – eu disse, enterrando a cabeça na base de seu pescoço – Não foi culpa sua. Eu que fui uma teimosa de grau maior ao insistir no seu caso. Desculpa.
Suas mãos afagaram minhas costas, mas ele não disse nada.
Não sei exatamente quanto tempo nós ficamos ali parados, em um pedido de desculpas silencioso, absortos em nossos pensamentos. Não que isso me interessasse naquele momento.
Até que ele se afastou um pouco, ainda me mantendo no abraço.
- Taís, eu... eu queria fazer uma coisa. – ele sussurrou.
- O quê? – eu sussurrei em resposta.
- Você deixa?
- O que você quer fazer?
- Você deixa? – ele repetiu. Olhei em seus olhos, e percebi que ele não estava muito firme em sua decisão. Resolvi facilitar.
- Tudo bem. – eu disse.
- Então feche os olhos.
Eu obedeci.
- Não abra, por favor. – ele disse. Percebi uma certa hesitação em sua voz.
Depois de uns poucos segundos em que apenas sua respiração era ouvida, percebi que suas mãos em minhas costas me puxavam gentilmente para mais perto dele. E o cheiro familiar de orvalho e terra molhada invadiu minhas narinas.
Eu estava confusa, mas nem assim abri meus olhos.
Então a confusão se dispersou, e eu percebi o que iria acontecer um milésimo de segundo antes de acontecer de fato. Mas não o impedi, porque no fim das contas eu também queria aquilo.
Minha respiração acelerou até beirar o ofegar, e meu coração disparou até ser claramente ouvido quando seus lábios finalmente tocaram os meus.

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Capítulo 15

Não tenho como descrever. Simplesmente não sei como dizer o que eu senti quando aconteceu de fato. Eu... sei lá.
Não sei quanto tempo durou exatamente, porque o tempo pareceu parar e tudo deixou de fazer sentido. Só sei que não foi suficiente. Queria ficar ali, com ele, por toda a eternidade, e não me preocupar com mais nada.
Mas nada é perfeito. Então acabou.
E acabou completamente de repente. Num segundo, estávamos lá, e no outro ele tinha se afastado e estava longe de mim. De corpo e de mente.
- Que foi? – perguntei. Ele estava alarmado, a mente a mil por hora. Acabei ficando nervosa também.
- Tenho que ir. – ele respondeu, ainda longe, olhando por cima do ombro. Então começou a falar rapidamente. – Taís, escute, não aconteceu nada aqui, entendeu? Se perguntarem qualquer coisa, invente uma história, sei lá, mas eu não estive aqui.
- Eu... mas...
- Não se preocupe com nada, eles vão cuidar bem de você.
- Do que você está...
- Desculpe. Mesmo. – dizendo isso, ele simplesmente começou a correr por entre as árvores, de um jeito que eu nunca conseguiria acompanhar.
- Não! Xande espera, como assim? Volta aqui!
Tentei ir atrás dele, mas ainda estava mancando. Quando olhei de novo, eu já o tinha perdido de vista.
Estava sozinha.
Sentei-me ao pé de uma árvore com dificuldade e pus a cabeça entre os joelhos, tentando pensar direito.
Eu não... entendia. Não consegui compreender o porquê de ele ter saído correndo assim, tão de repente, e ainda por cima sem me levar junto. Ele, o tolo super-protetor que fizera de tudo para me manter em segurança, tinha me deixado ali sozinha, entregue à minha própria sorte.
Tinha que ser o apocalipse. Não tinha outra explicação.
O único barulho audível era a minha respiração, ainda acelerada por causa da surpresa da saída repentina e do beijo inesperado.
Mas ele não... ele não poderia simplesmente ter me deixado ali. Devia ter algum motivo forte para ir embora correndo, e algum modo de me manter segura até o socorro chegar. Ele era um fantasma, mas de louco não tinha nada.
Passos ao longe me arrancaram de meus pensamentos, e eu entrei em estado de alerta. Tentei me levantar, mas meu corpo doía mais do que nunca, e tudo o que consegui foi cair de novo, não sem antes soltar um gemido de dor.
Os passos continuaram se aproximando, e lágrimas começaram a rolar por meu rosto enquanto a dor aumentava e eu continuava tentando ficar de pé. Mordi o lábio, tentando ignorar a dor que só aumentava, até sentir gosto de sangue. Mas finalmente consegui me levantar e me apoiar, cambaleante, na árvore.
Os passos estavam muito próximos agora. Eu quase podia dizer onde exatamente eles estavam, mesmo com a dor forte quase me fazendo desmaiar. Não entendi como ela podia ter aumentado tão de repente. Em um momento, eu quase não a sentia; em outro, eu quase desmaiava por causa dela.
- Ah, achei você! – ouvi uma voz aliviada dizer. Não percebi que estava encarando o chão até ter que erguer a cabeça para ver quem havia dito aquilo. Era o Lucas. Nem cheguei a me questionar o que ele fazia ali.
- Ela não parece bem. – disse uma outra voz. Não me virei para ver quem era. – Está pálida.
- Taís, você está bem? – tornou a dizer Lucas.
- Acho... sim... – eu consegui dizer.
- Me ajuda aqui, Gabriel. Acho que ela quebrou algumas costelas. – ele disse, em um tom aflito. Senti que me pegavam no colo outra vez, mas já tinha fechado bem os olhos e bem a boca.
Não aconteceu nada aqui.
E lá estava o Gabriel, fingindo que era a primeira vez que me encontrava desde a praia.
Será que eu estava cercada de atores? Gente fingindo para manter um segredo?
Ou talvez fosse só a presença do Lucas. Ele parecia tão mal informado quanto qualquer ser humano deveria estar.
- Está tudo bem agora, Taís. – alguém me disse. – Vamos levar você para casa. Sua mãe já deve estar preocupada.
Com certeza ela estaria. Eu saíra no início da tarde... que horas seriam? Tinha perdido completamente a noção do tempo, e não sabia por quanto tempo ficara desmaiada.
Suspirei e enterrei a cabeça na camisa de quem me carregava, tentando esconder as lágrimas.
Não aconteceu nada aqui.

Bem, digamos apenas que eu não fui para casa como tinham me dito, e sim para o hospital.
Com a minha sorte, eu tinha conseguido quebrar duas costelas, torcer o pulso e ganhar alguns hematomas na perna direita. O médico disse que não sabia como eu tinha conseguido chegar consciente ao hospital. Era para a dor ter me feito desmaiar.
Continuei calada quando ele disse isso. Alguém me devia algumas boas explicações.
Quando (finalmente) me deram alta, com uma faixa passada por meu tórax para não abrir a fissura das costelas com a respiração e uma munhequeira no pulso, eu mal podia esperar para questionar o Xande sobre domingo.
Joana me levou para a escola, abrindo uma exceção por causa das costelas. Consegui entrar na sala sem que muita gente ficasse perguntando o que acontecera, mas é claro que quando me sentei na minha mesa, a fofoca já se espalhara e todos queriam saber se era verdade que eu tinha quebrado duas costelas.
Respondi pacientemente todas as perguntas que me fizeram, sempre de olho na porta.
O sinal tocou, o professor entrou, e nada.
O Xande não viera. Pela primeira vez no ano inteiro, pelo que me contaram.
Tudo bem. Tudo bem. Tudo sob controle. Acalme-se, Taís. Ele deve ter tido bons motivos. Como para aquela saída na floresta. Ele sempre tem bons motivos.
Fiquei a primeira aula inteira acalmando-me mentalmente, mas com o coração apertado e um grande nó na garganta.
Alguma coisa estava errada. Eu tinha certeza disso. E precisava descobrir o quê.

A semana passou lentamente, como se alguém tivesse ligado a opção "câmera lenta" no tempo. Cada dia olhando para a carteira vazia do Xande, cada noite em claro com a janela escancarada, apenas aguardando sua chegada... era uma tortura. Tudo era uma tortura. Existir era penoso para mim naquele momento, ainda mais com a sensação horrível de que algo estava completamente errado.
Clara e todo o resto já tinham desistido de mim. Ou eu fitava o infinito, ou ficava irritada. Meu humor mudava repentinamente a cada segundo, completamente imprevisível.
Passaram-se uma semana, duas... e nada. Nenhum sinal, nenhum aviso, nenhuma explicação. Nada.
Eu estava quase acreditando naquela frase que sempre repassava mentalmente: Não aconteceu nada aqui.
Até que em uma noite tomei uma decisão extrema.
Fui até a janela e olhei para o jardim, antes tão agitado, agora apenas normal.
Sentei-me no parapeito da janela e observei o céu. Então fechei os olhos.
- Xande, por favor. Por favor, por favor, apareça. Eu preciso falar com você. Preciso muito. Muito mesmo, Xande. Eu sinto sua falta. Não quero fingir que nada aconteceu. Você foi o melhor amigo que eu já tive, e não foi só amigo. Eu... gosto de você mais do que como amiga. Eu sei que você também. Você me beijou, lembra? – eu me sentia meio idi.ota falando com as flores, mas era minha última esperança. – Por favor, Xande. Apareça.
Abri os olhos e observei o jardim. As folhas balançavam com o vento, e as flores exalavam um aroma delicioso. Mas nada de Xande.
Desci da janela, sabendo que implorara apenas para o jardim. E que não tinha mais ninguém lá.
Abri uma gaveta, onde guardava minha lista telefônica. Encontrei o número que precisava e peguei o telefone. Disquei.
- Alô. – respondeu uma voz de homem, que eu conhecia muito bem.
- Alô, Gabriel? Aqui é a Taís. Eu sei que não é hora, mas preciso de ajuda.
- O que foi?
- Por telefone não. Tem como você vir aqui ou prefere que eu vá aí?
- Taís, eu moro em Guarapari, lembra? Não tem como vir à pé a essa hora.
- Eu pego um táxi. Roubo um carro. Sei lá.
- É tão urgente assim?
- O que você acha? – minha voz saiu irritada demais. Respirei fundo. – Pelo amor de tudo que é mais sagrado, Gabriel.
- OK. Então fica aí quietinha que eu já apareço. E não faça nenhuma loucura.
- Entendido. Tchau. – eu disse, e desliguei.
Tinha que funcionar. Tinha. Se Maomé não vai até a montanha, a montanha vai até Maomé. Certo?
Guardei a lista de volta na gaveta enquanto repetia mentalmente a frase que o Xande dissera:
Ele também teve um incidente bem ruim com os mortos.
Se o Gabriel não soubesse onde o Xande estava... ninguém mais saberia.

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Capítulo 16

Liguei a TV e fiquei vendo a novela, enquanto o tempo passava.
Depois de mais ou menos uns vinte minutos, quando a mocinha e o mocinho estavam trocando alguns amassos, eu ouvi batidas na janela. Toc, toc, toc.
Caminhei silenciosamente até lá e dei uma espiada pelo vidro. O Gabriel me acenou no lado de fora.
Um pouco surpresa, abri a janela e deixei-o entrar.
- Pela janela, seu louco? – eu sussurrei.
- Oi, Taís. – ele sussurrou de volta, sarcástico.
- Oi, Gabriel. – rebati. – Então? Existem portas, sabia?
- Bah, eu não tenho tanta cara-de-pau para aparecer na porta da sua casa a essa hora. – ele respondeu. Correu os olhos pelo quarto e parou na TV. – Novela? Você assiste isso?
- Talvez. – respondi. Ficamos alguns segundos em silêncio. – Preciso da sua ajuda. – sussurrei, e foquei em seu rosto.
- Eu sei disso. – ele suspirou. – Diga então. O que seria tão preocupante a ponto de você me tirar de casa a essa hora? Não me diga que é dever de casa. – Suspirei. Não estava com paciência para ficar discutindo ou sendo sarcástica.
- O Xande sumiu, Gabriel. – Talvez eu não devesse ter sido tão direta, porque ele crispou os lábios e seus olhos faiscaram, como se eu tivesse acabado de dizer que ele precisava lutar até a morte com alguém. Ele respondeu:
- Eu também sei disso. – Bom, pelo menos eu não teria que perder o meu tempo explicando.
- Ótimo. Então sabe onde posso encontrá-lo?
Ele sentou-se em minha cama e fitou a televisão com repentino interesse.
- Sei. – ele respondeu, inexpressivo. Enchi-me de esperança e não pude impedir que um sorriso aparecesse em meu rosto. Sentei ao seu lado.
- Sério? Sério mesmo? – ele não respondeu. – Onde?
Ele continuou calado.
- Gabriel, eu estou falando com você. – o sorriso começou a abandonar meu rosto. Ele continuava olhando fixamente para a TV. Nesse momento, eu perdi a paciência e desliguei a televisão.
- Então? – instiguei. Ele simplesmente baixou o rosto e continuou calado.
- Gabriel. Por. Favor.
Ele continuou encarando o chão, mas dessa vez, falou:
- Taís, você sabe por que eu mudei de cidade?
Aquela pergunta me pegou totalmente de surpresa. Quero dizer, o que tinha a ver?
- Não. – eu respondi. – Mas isso não interessa...
Ele me interrompeu.
- Quando eu tinha meus doze anos, no início do ano letivo... Bem, apareceu uma novata na minha sala. – ele disse, ainda fitando o piso. – Ela era maravilhosa. Tinha longos cabelos loiros que caíam por seus ombros em cachos, como em uma cascata, e uma linda pele branca. Era tímida e retraída, mas tinha um sorriso doce e sempre sabia conversar. Seu rosto parecia esculpido por anjos. Até o nome era perfeito: Camila.
Não sabia onde exatamente ele queria chegar com aquele papo, mas me calei. Devia ser algo importante, se ele estava me contando.
Ou, no máximo, uma história para me distrair. Bem, era interessante, em todo caso.
- Só havia uma coisa que estragasse sua aparência, e nem mesmo aquilo fazia tanto efeito sobre tamanha beleza. Ela tinha olhos lindos, mas de um azul estranho, morto. Acho que você sabe de que cor estou falando.
Demorei um pouco até perceber do que ele falava.
- Você diz... Então ela também era...
Mas ele me interrompeu de novo.
- Passadas mais ou menos duas semanas do início das aulas, montaram um mapa de sala. Camila passou a sentar-se na minha frente.
."Inicialmente, ela nem mesmo me dirigia a palavra. Simplesmente fingia que eu e o resto da turma não existíamos. Mas depois de um tempo, com algumas perguntas do tipo 'Que horas são?', 'Teve dever de casa de quê?', e outras assim... Bem, começamos a conversar mais e nos tornamos amigos.
."Um dia, estávamos saindo da escola. Ela sempre seguia sozinha por uma ruela vazia, que eu não sabia onde ia dar. Já perguntara muitas vezes a ela onde morava, mas Camila sempre desconversava. Sobre isso e sobre todo o resto. Nunca conversávamos sobre ela.
."Então eu resolvi descobrir por mim mesmo.
."Tentando não fazer barulho, eu a segui por várias ruas estreitas, lugares que eu nem mesmo sabia que existiam.
."Então ela deixou seu material em uma esquina, olhou por sobre o ombro para certificar-se de que estava sozinha e... sumiu. Em seu lugar ficou apenas uma leve fumaça esbranquiçada.
."Para resumir... Depois de mais alguns dias, eu descobri o que ela realmente era. Contei a Camila o que tinha descoberto, e ela entrou em pânico. Não pude culpá-la. Depois que ela me contou o que poderia acontecer se eu dissesse para mais alguém... Preferi ter continuado na ignorância.
."Um dia, eu e ela estávamos passeando pelo parque depois da aula, contando piadas um para o outro por falta do que fazer. Então, aconteceu. Em um segundo ela estava rindo, e no outro tinha ficado séria e se distanciara de mim, encarando o nada com preocupação.
."Ela apenas sussurrou que tinha que ir e saiu correndo. Eu tentei ir atrás dela, mas... não deu certo. Ela sempre ganhava quando apostávamos corrida, e naquele momento não foi diferente.
."Passaram-se duas semanas, e ela não apareceu. Eu estava ficando preocupado. Ela nunca havia sumido assim, sem se despedir, dizer para onde ia ou quando voltava.
."Em um sábado, eu estava passeando pela praia. De tanto caminhar, cheguei até 'as pedras' lá no fim. E já estava prestes a voltar quando a vi. Camila. E parecia cautelosa, como se quisesse se fundir com a paisagem para não ser notada por ninguém.
."Foi aí que eu cometi o erro da minha vida.
."Eu a segui, querendo descobrir o porquê de tamanha cautela, e talvez conversar com ela depois. Tentei não tropeçar, cair no mar ou fazer qualquer tipo de barulho, mas felizmente ou infelizmente, as ondas encobriram os sons do meu andar.
."Depois de caminhar por mais alguns minutos, eu avistei uma fenda, uma passagem na rocha, em que Camila entrou. Apressei-me atrás dela, e entrei também. Aí eu vi.".
Nesse ponto ele calou-se. Eu ainda não havia percebido que mensagem ele queria passar contando-me a história dele e de Camila, mas o fato é que eu estava completamente envolvida e curiosa.
Portanto, não resisti e perguntei:
- Viu o quê?
Ele fez uma pequena pausa.
- O motivo de Camila ter sumido, e do Alexandre também. A origem deles. O centro de todo o mundo dos mortos.
."A cidade fantasma.".

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Capítulo 17

- A o quê? – eu perguntei perplexamente. Gabriel me ignorou novamente.
- Segui-a escondido, até estarmos no centro da cidade. Seus passos apressados ecoavam pelas paredes das casas e estabelecimentos, naquele momento, vazios. Percebi levemente que algumas áreas tinham estilos de casas diferentes das outras, mas não cheguei a prestar atenção.
."Mas houve um ponto em que eu... tropecei, chutei alguma coisa, ou algo assim... E ela percebeu a minha presença. E entrou em pânico no mesmo instante.
."Eu tentei acalmá-la enquanto ela corria para cima de mim e nos mergulhava nas sombras de um beco, mas ela estava em pânico total e completo, repetindo a todo o instante como ela era irresponsável e que ela devia ter vergonha de si mesma. Fiquei assustado com aquilo, mas Camila simplesmente não me ouvia.
."Ela tentou me levar clandestinamente para fora da cidade, mas se tem um ditado que se aplica muito bem àquele lugar, é o 'Entrar é fácil, sair é que são elas.'. Fomos pegos antes mesmo de dobrarmos a esquina.
."Arrastaram-me até uma grande casa, claramente um local público, mas no estilo de casas do século do Ouro. Camila também foi, mas ela não foi arrastada como se fosse alguém nojento contaminado com algum tipo de vírus letal.
."Entramos, e eu percebi que a tal casa era praticamente um labirinto; haviam portas em toda a extensão dos três andares, fantasmas andando de um lado para o outro e nenhum único mapa para nos localizarmos. Apesar disso, o cara que me levava parecia conhecer o lugar como a palma de sua mão, pois depois de alguns corredores e portas atravessados, chegamos a uma sala solene, com portas duplas de carvalho nos fundos.
."Olhei brevemente para Camila. Ela estava chorando, lágrimas peroladas e reluzentes. Engoli em seco.
."Abriram as portas, e para lá me arrastaram, com Camila ao meu lado. Dentro da sala havia uma grande mesa, como nessas que usam para reuniões de empresas. Nas cinco cadeiras ocupadas, havia figuras de péssima expressão, como se dessem tudo para não ter que fazer o que quer que estivessem fazendo. Todos tinham pele branca, olhos daquele azul e cabelos loiros. Essa é a marca do fantasma.
."Eles fecharam ainda mais a cara quando entramos.
."Questionaram Camila sobre mim, e ela respondeu. Questionaram também o cara que havia me arrastado até ali, e ele também respondeu. E, depois de alguns segundos de discussão sussurrada, eles simplesmente decidiram que eu sabia demais e que devia ser morto naquele mesmo instante para evitar maiores consequências.
."Quando Camila ouviu seu veredicto, entrou em pânico. E de repente começou a dizer que a culpa era toda dela, que ela era totalmente responsável por tudo, que eu fora apenas um pobre coitado que estava no lugar errado e na hora errada e que ela assumia todas as consequências.
."Tudo para me manter vivo.
."Você tem alguma noção do que senti naquele momento? Eu e ela éramos amigos há pouco mais de meio ano, mas ela não sabia quase nada de mim e eu muito menos dela. E, mesmo assim, ela estava disposta a sofrer por minha causa.
."Chutaram-me para fora da cidade, dizendo que se eu contasse para mais alguém alguma coisa... qualquer coisa... sobre o que tinha acontecido ali... eu iria me arrepender de ter nascido.
."Tive que ir embora da cidade. Eu tinha medo. A todo o momento pensava que algum deles ia aparecer e vir terminar o serviço. Não dormi em paz até estarmos em segurança, isolados do mundo dos mortos, calmamente instalados em Guarapari.
."Não sei o que fizeram com Camila, só sei que nunca mais a vi novamente. E nem quero ver. Se aprendi uma coisa com tudo isso, Taís, é que jamais se deve confiar nessa gente. Nunca. No fim das contas, e se você tiver sorte, vai acabar traumatizado pelo resto da sua existência, com um buraco enorme no seu peito e uma culpa tremenda te perseguindo.
."Portanto Taís, acho que você deve ter bom senso e deixar para lá. Esquecer. Porque não vale a pena. Por experiência própria, não vale a pena.".
No momento em que ele terminou de contar a história, eu me senti vazia. Vazia e culpada. Solidária.
Mas quando ele concluiu sua fala, eu me revoltei.
- Não, Gabriel. Eu não vou desistir do Xande assim.
Ele massageou a têmpora.
- Taís, você chegou a pelo menos ouvir o que eu acabei de te contar?
- É claro! Mas... – Meu coração estava apertado. Eu estava confusa. Não tinha tanta certeza do que queria, com o bom senso e meus sentimentos brigando um com o outro. – Mas eu não... suporto... Eu preciso ir atrás dele. Eu sinto que ele precisa de mim, Gabriel. E vou ajudá-lo, porque é isso que... – Hesitei. – os amigos fazem. – Eu ia dizer a gente faz por quem se ama, mas achei melhor não arriscar.
Ele me olhou, e eu percebi que ele implorava silenciosamente para ver o lado dele, o bom senso.
Mas eu mantive a minha expressão: determinada e serena. Ou pelo menos eu rezava para que ela estivesse assim.
Ele suspirou.
- Você não vai desistir tão fácil assim, vai? – ele me perguntou em uma voz cansada.
- Não, não vou. – respondi.
Ele suspirou novamente, então se levantou e abriu a janela.
- Gabriel? Aonde você vai? Ainda não me disse onde está a entrada para a...
Ele me interrompeu.
- E nem vou dizer. – Com essas palavras, pulou para o jardim.
Assustei-me. Como assim? Depois de me contar aquilo tudo, de me passar lição de moral e fazer eu realmente ter esperança, ele simplesmente iria embora sem me contar nada?
Corri atrás dele, pulei a janela, e consegui agarrar seu punho antes que ele fosse mais longe.
- Como assim? Eu pensei que tivesse vindo aqui para me ajudar! – eu lhe questionei.
- Eu vim! – ele respondeu. – Mas saber o que você quer saber não vai te ajudar, muito pelo contrário. Vai acabar com sua vida, Taís. E eu não serei o causador disso.
- Mas eu preciso achar o Xande, e ajudá-lo! – Uma lágrima saltou dos meus olhos contra a minha vontade e desceu por meu rosto.
- Querer e precisar são duas coisas muito diferentes, Taís!
- Será que você não entende? Eu o amo!
Arrependi-me no mesmo segundo de ter dito aquilo. Ele arregalou seus olhos cor de chocolate, e me fitou com um misto de perplexidade, pânico, nojo e... ódio. Afastei-me e cobri a boca com as mãos, atenta à sua reação.
- Não. – ele disse. Seus olhos faiscaram, e ele me virou as costas.
- Gabriel, não, Gabriel espera! – eu implorei, mas ele não me ouviu. Pulou a cerca e foi-se, sumindo na escuridão.
Eu só sei que caí no chão e lá fiquei. Chorei muito, muito mesmo, enquanto olhava para o chão de terra e a grama, mas sem prestar atenção neles.
Minha única esperança de encontrar o Xande acabara de pular a cerca e sumir. Meu melhor amigo me odiava e tinha nojo de mim. E meus sentimentos estavam todos confusos e embaralhados.
Eu só queria que a terra me engolisse e eu não tivesse que pensar em mais nada, nunca mais.

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Capítulo 18

Eu confesso que não pensei que voltaria à minha forma de morta-viva.
Mas, adivinha? Eu estava errada.
Não foi nem de longe uma surpresa o fato de estar mais inconsciente do que seria realmente necessário nos dois dias que se seguiram.
E não posso dizer que foi agradável ou familiar, porque um, eu estava completamente neutra e não achava nada bom ou ruim; e dois, porque eu tinha excluído do meu cérebro toda e qualquer lembrança da minha primeira semana como zumbi, então não tinha nada para me basear. Até porque é muito provável que eu não conseguisse tal feito.
Joana... Bem, não entendia, e eu não iria lhe contar. Então tentei evitar todo o tipo de contato com ela, e estava até me saindo relativamente bem, murmurando que estava tão indiferente por causa das provas, toda vez que ela perguntava. Ela não comentou mais nada. É uma coisa que eu gosto na minha mãe: só se meter na vida da gente quando é estritamente necessário.
Bem, como o terceiro dia era sábado, minha mãe convenceu-me a ir com ela a uma locadora e escolher um filme. Ela sabia que eu não sairia de casa, e não recusei pois seria bom ter uma desculpa para o meu silêncio. Agarrei o primeiro filme que vi na minha frente e o entreguei à Joana, que seguiu até o balcão.
Fiquei parada encarando a cabeça decepada de um cara na capa de um DVD de terror quando, de repente, uma voz exclamou:
- Taís!
Bem, dá para imaginar o susto que eu levei quando me virei e encontrei o Lucas, com aquele sorriso prestativo no rosto.
- Ahn, Lucas? Tá fazendo o que aqui? - eu perguntei, tentando esconder a minha surpresa.
- O mesmo que você. Escolhendo um filme. - Ele ergueu a mão, me mostrando um DVD. - É aquele baseado no livro. Na verdade, o livro é muito bom. Já leu?
- Não. - respondi.
- Eu já. Disseram que o filme era completamente diferente do livro, mas eu não acreditei, aí convenci meu pai a me deixar vir, só que ele acabou vindo junto. - Ele apontou para um cara recém-quarentão, loiro de olhos verdes. O sonho de toda mulher.
- Ahn, legal. - Eu não estava com criatividade ou paciência para criar um diálogo, então se ele quisesse falar, que fizesse um monólogo e fosse feliz.
Mas talvez ele fosse mais perceptivo do que eu tenha percebido inicialmente.
- Você está legal, Taís?
Seus olhos castanhos-escuro me observaram.
- Estou. - respondi simplesmente, e desviei os olhos.
- Tem certeza? Parece ter algo te incomodando. Preocupando, na verdade.
Voltei o olhar para ele. Seu rosto inocente mostrava sincera preocupação.
Como eu poderia dar uma tirada em alguém com aquela expressão?
Já estava prestes a responder quando ouvi a voz de Joana:
- Fabinho! Poxa vida, quanto tempo! - Salva pelo gongo.
Ela estava falando com o pai do Lucas, e tinha um sorriso no rosto, assim como ele. Os dois se abraçaram, como velhos amigos.
Fiquei um pouco surpresa, mas Lucas nem tanto, porque apesar de também estar meio desconfiado, puxou-me pela mão, dizendo:
- Anda, vamos lá.
Segui silenciosa atrás dele, e encontrei Fábio e Joana tagarelando alegremente sobre os tempos da faculdade, meu pai, meu avô, o avô de Lucas e mais um bando de coisa que as pessoas geralmente conversam quando se encontram depois de anos.
- Humm, mãe? - chamei.
Ela levou um leve susto, mas virou-se para mim sorrindo.
- Então Fábio, essa aqui é a Taís, lembra dela? - Fábio observou-me por alguns instantes, e sorriu, querendo demonstrar espanto.
- Garota, como você cresceu! Ainda lembro de quando você era uma bebezinha. A mais linda que eu já vi; Muito parecida com a mãe, sem dúvidas. - ele disse, e sorriu para Joana.
Talvez eu estivesse entendendo errado, mas os dois estavam sorridentes demais para uma relação saudável entre amigos.
Dei uma olhadela para o Lucas, e ele também parecia meio desconfiado.
- Ah, Taís, já conheceu o Lucas? - Fábio perguntou, mas não esperou resposta, e virou-se para Joana. - Meu filho. Acho que você se lembra.
- Claro que lembro! - ela respondeu, ainda sorrindo. - Ah, Fábio, foi ótimo encontrá-los aqui. Aquela casa anda tão desanimada, não querem passar lá?
Fábio deu de ombros, e perguntou para o Lucas:
- O que acha, filho?
Ficou na cara que o Lucas não esperava que o pai lhe perguntasse o que fazer, porque ele teve um leve sobressalto e gaguejou algo do tipo:
- Ahn, por mim... tudo bem...
Fábio deu-se por satisfeito, porque virou-se novamente para Joana.
- Aceitamos seu convite com prazer, Joaninha. - ele disse, e beijou a mão dela, como faria um perfeito cavalheiro.
Basicamente, eu estava de olhos completamente arregalados. Lucas, ao meu lado, estava com o queixo caído. Mas Joana nem se deu conta; apenas mordeu o lábio, aparentemente feliz por Fábio lembrar-se dos velhos apelidos. Os olhos dos dois brilhavam.
Mas então ela percebeu a platéia, e corou.
- Ahn, os DVDs. - ela murmurou. Fábio olhou para nós, um levemente desconfortável, e também foi para o caixa.
Alguns segundos se passaram até que eu conseguisse formar palavras, mas Lucas foi mais rápido.
- Você viu... aquilo? - Ele estava totalmente perplexo. Dei-me conta de que eu também estaria mais ou menos daquele jeito.
Engoli em seco.
- Vi.
- Cacetada, você sabia que eles se conheciam?
- Nem fazia ideia.
- Mas faz sentido. Nossos avós se conhecem, então eles provavelmente acabaram se conhecendo também.
- Eu sei. Mas...
- Passaram dos limites.
- Exato.
Nos entreolhamos por alguns segundos, e eu dei-me conta de que tinha saído da forma de morta-viva. Quando estava prestes a ficar surpresa com o fato, lembrei-me do Xande e de todo o resto que tinha fugido completamente da minha cabeça enquanto Joana e Fábio conversavam, e acabei fechando os olhos e me encolhendo levemente, a dor dominando-me.
- Vamos, meninos? - Joana chamou. Abri meus olhos e, segurando o choro, a segui.

Voltamos para casa, e Fábio rapidamente deu um jeito de despachar Lucas e eu para meu quarto, levando o filme que eu tinha escolhido aleatoriamente, o filme dele baseado no livro, pipoca e refri.
Obviamente eu sabia que Joana e Fábio queriam ficar sozinhos, então não fiz nenhuma objeção, assim como Lucas. Achei que Joana merecia uma segunda chance no amor, ela tinha esse direito. Afinal, ela tinha perdido papai tão de repente...
- Qual dos dois assistimos primeiro? - Lucas tirou-me de meus pensamentos.
- Ahn? - Observei os dois filmes que ele segurava. - Pode ser esse. - Apontei para o que ele tinha escolhido. Pelo menos ele parecia com vontade de ver, ao contrário de mim, então não iria estragar seu dia.
- Certeza?
- Claro.
- Então tá. - Ele foi até o aparelho de DVD e colocou o filme. Voltou para o meu lado e começou a comer a pipoca.
Passados mais ou menos vinte minutos do início do filme, em que eu nem mesmo prestara atenção por estar tão presa em meus pensamentos, Lucas o pausou.
- Taís, você não está assistindo. - ele afirmou.
Eu já estava prestes a negar e dizer que era mentira, que estava adorando o filme e que queria desesperadamente que ele desse play para saber o que ia acontecer a seguir, quando ele me cortou.
- Você está sim preocupada com algo, algo grande e importante. Taís, você pode me contar, eu não vou sair espalhando para ninguém, e quero ajudar.
Ele me olhou com o rosto tão sério que eu quis desesperadamente acreditar. Mas não adiantava me iludir; ninguém poderia me ajudar. Suspirei.
- Lucas, te contar só vai piorar as coisas. Ninguém pode me ajudar. Desculpe.
- Ah, Taís! Tem que ter alguma coisa que eu possa fazer. Qualquer coisa. É horrível ficar aqui e ver o quanto você está sofrendo.
- Lucas, eu... - comecei, mas ele me interrompeu.
- É sério! Tem que ter alguma coisa que eu possa fazer. Olha, eu sou realmente bom em matemática e geografia, já fui escoteiro e conheço a cidade como a palma da minha mão, então...
Dessa vez, quem o interrompeu fui eu.
- Como a palma da sua mão? Quer dizer, cada rua? Cada pedra?
- É. - ele respondeu. Um brilho de esperança iluminou meus olhos, mas eu nem percebi.
- Então...
Eu já estava formulando um plano. É claro, por que não? Eu não precisava envolvê-lo de fato na história; era só mentir sobre como conseguira achar o lugar. E o Lucas não precisava ficar sabendo do motivo para eu querer a informação...
Antes que eu pudesse evitar, já tinha sido contagiada por uma esperança tão grande e tão forte que um sorriso invadiu meu rosto.
- Lucas, existe uma praia que eu não sei qual é, que tem uma fenda nas rochas que a separam da outra praia. Uma fenda grande; Uma passagem. Eu preciso muito saber onde essa fenda fica, mas não faço nem ideia de onde ela possa estar. Você sabe?
Meus olhos dardejaram por vários pontos em seu rosto.
- Ah, bem... - ele disse, fazendo suspense. Mordi o lábio, de ansiedade. Ele sorriu ao ver minha reação. - Sei.
Meu coração quase pulou do peito.
- E... Pode me dizer? - perguntei com voz fraquinha.
- É para isso que estou aqui, não é?
Eu quase explodi de felicidade.
Sim, sim, finalmente!

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Capítulo 19

- Cantil de água?
- Aqui.
- Barrinhas de cereais?
- Aqui.
- Agasalho?
- Aqui.
- Isotônico?
- Aqui.
- Para quê precisa de tudo isso?
- Aq... Lucas!
Desde que Lucas me contara onde encontrar a entrada para a cidade fantasma – Aleluia, Senhor! – e eu pedi sua ajuda para montar uma mochila com itens de sobrevivência, ele tem tentado arrancar de mim o motivo para querer tudo aquilo. Porque, para ele, eu ia simplesmente me enfiar em uma fenda na rocha por simples prazer de explorar, e não arriscar a minha vida em meio a um bando de mortos desconhecidos.
Confesso: se fosse comigo, também não encontraria sentido.
- Tá, entendi – ele resmungou, rabugento. – Só queria entender. Você não ficará semanas por lá, não precisa de tudo isso.
- Antes prevenir do que remediar. – respondi simplesmente enquanto fechava a mochila e a colocava nas costas. Estava vestindo uma regata simples, uma calça jeans surrada, mas confortável, e tênis de se praticar esportes, também muito confortáveis.
Óbvio. Estava querendo ser otimista, mas passar frio/fome/necessidades de todo o tipo é bem mais simples de suportar quando não se está com alguma peça pinicante. E eu tinha certeza que, uma hora ou outra, acabaria passando por algo assim.
Claro. Pense comigo: se fosse tão simples assim achar a fenda, todo mundo encontrava. Então eu passaria boa parte do dia procurando ou escalando rochas complicadas. E ninguém nunca escutava nada vindo de lá, então deveria ser um lugar fundo ou afastado. Gabriel não me dera detalhes, e eu não teria ninguém para me ajudar, então precisaria ser autossuficiente.
A única pessoa que sabia do que eu realmente estava fazendo era o Lucas (mais ou menos. Céus, eu estava mentindo para meio mundo). Eu ainda estava magoada demais com o Gabriel para falar qualquer coisa com ele, e minha mãe... Bem, preciso explicar o motivo? Ela achava que eu ia passar o fim de semana (e mais alguns dias, não disse quando voltava) em uma casa de campo da Clara. Convenientemente, não passei o celular da Clara e rezei para que, onde quer que eu pretendesse ir, tivesse cobertura e eu não estivesse abalada demais para fingir felicidade. E que a bateria durasse, claro.
Talvez o truque não funcionasse, mas era tudo o que eu tinha. Minha intuição me dizia que eu precisava encontrar o Xande, e precisava logo, antes que algo ruim acontecesse. Mas, infelizmente, ela não especificou esse "algo ruim".
- Taís? – Lucas arrancou-me de meus pensamentos. Pulei levemente, de susto, e ele suspirou. – Não vai mesmo me contar o que você vai fazer com essa mochila, vai?
- Que parte do "Não" você ainda não entendeu? – retruquei irritada. Ele me direcionou um olhar magoado, e eu suspirei. – Desculpe. Estou estressada, só isso.
- Não precisa descontar em mim. Só quero ajudar – ele disse.
- Eu sei.
- Talvez você devesse colocar uns absorventes aí também.
- Lucas!
- Desculpe! – ele apressou-se em dizer – Mas sei lá, vocês garotas não são muito previsíveis em relação a isso.
Rezei para um santo ou deus qualquer que estivesse me ouvindo para que questões fisiológicas não me atrapalhassem. Eu já ia passar aperto suficiente, não precisava de mais nada, obrigada.
Suspirei mais uma vez e olhei meu quarto, tão agradável, arejado, tão... Tão meu. Guardei bem na memória onde tudo ficava, desde a cama até a TV. Quem sabia se eu voltaria ali novamente?
De repente dei-me conta da loucura que estava fazendo.
Eu poderia desistir. Poderia dar uma desculpa qualquer de "estou com diarréia" e nunca mais pensar no assunto. Poderia ligar para o Gabriel e pedir desculpas, e chamá-lo para tomar um milk-shake na sorveteria da esquina, como fazíamos nos velhos tempos. Poderia dizer à Joana que Fábio era uma ótima escolha e pedir todos os detalhes da relação, como faria uma boa filha. Poderia esquecer que um ser chamado Alexandre uma vez existiu e levar a vida normal a que tinha direito.
Mas não podia.
- Então, pronta? - ele questionou.
- Eu nasci pronta – respondi.
- Tá. Te levo até a praia.
Não recusei. Estava me sentindo ridiculamente carente.
Acompanhei Lucas pelo corredor, e despedi-me calorosamente de minha mãe, repetindo diversas vezes que a amava enquanto a abraçava, e não queria mais soltar. Eu sentiria uma tremenda saudade dela. Mas tinha que seguir em frente.
Caminhamos até a praia, e nenhum de nós disse uma única palavra. Não foi, bem, um silêncio constrangedor. Mas é que não vimos necessidade de falar, então simplesmente continuamos calados.
E, mais cedo do que eu queria, estávamos caminhando sobre a areia macia. E então de frente para o começo da minha trilha. E eu soube que, agora, era caminho sem volta.
- Então, até mais, Taís – disse Lucas. Achei que ele queria me abraçar ou falar algo mais, mas simplesmente me deu um desajeitado aperto de mão. Retribui.
- Adeus, Lucas.
E, antes que eu pudesse me arrepender, ou que Lucas desconfiasse da minha desanimada despedida, dei-lhe as costas e comecei minha jornada, sempre com o barulho calmante do mar à minha esquerda e toda uma visão de vida ficando enquanto eu continuava.
Não olhei para trás.

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Capítulo 20

Hora da confissão.
Foi uma péssima ideia ter ido.
Pronto, falei.
A verdade é que eu descobri que não era tão fácil assim aparecer na maravilhosa Cidade dos Mortos ou o que quer que seja. Os túneis não tinham uma mísera luz, eram claustrofóbicos, e o lugar todo era um labirinto. O que eu fui descobrir quando já estava láá na frente, e não tinha ideia de como voltar para a saída.
Boa, Taís.
Sentei-me em um canto qualquer, deixei a lanterna acesa no chão e comecei a mordiscar uma barrinha de cereais, desanimada. Olhei para meu relógio de pulso, passando para o cronômetro. Já tinha uma hora e meia que eu estava enfiada no subterrâneo e ainda não tinha encontrado nada.
Como era mesmo o nome daquele cara que tinha entrado num labirinto com um monstro com cara de touro? Perseu? Não, espera, acho que era Teseu... Perseu era o cara da cabelos de cobra. É, isso aí, Teseu. Mas ele era um homem adulto forte e gostosão ajudado por uma princesa feiticeira com um novelo de lã mágico. Eu era uma adolescente magricela e cansada que não fazia ideia do que raios estava fazendo. 10 a 0 para o Teseu.
Enquanto me comparava com mais alguns heróis gregos e terminava de comer a barrinha, comecei a achar que estava ouvindo alguma coisa. Mas era impossível, eu não tinha visto nada ainda. Então ignorei.
Botei a mochila nas costas, levantei (agradecendo por ser meio baixa e não ter que ficar abaixada), peguei a lanterna e iluminei o caminho a minha frente. Era tão longo que seu final era apenas escuridão. Dei o primeiro passo.
Mas apaguei a lanterna e voltei rapidinho para o canto, porque alguém dobrara uma esquina e tivera seu ombro iluminado.
Prensei-me contra a parede, quase tentando me fundir com as rochas, e esperei prendendo a respiração. Eu tinha sido vista. Eu estava ferrada.
A pessoa avançou rapidamente para o meu lado. Com certeza seus olhos estavam mais adaptados à escuridão do que os meus, porque enquanto eu mal via um vulto, o ser parecia saber para onde estava indo.
Juntei as mãos e comecei a fazer promessa para todos os santos que conseguisse pensar. Esforço inútil. Se algum deles me ouviu, não teve tempo para fazer nada, porque uma mão gigante agarrou o meu ombro e me empurrou para frente. Eu desesperei. E comecei a falar coisas do gênero:
- Ei, espera, você está cometendo um engano! Eu entrei aqui sem querer, foi mal, só quero sair! Me solta e diz onde está a saída que eu nunca mais volto!
Não vou irritá-lo com tudo o que eu falei, leitor. Porque eu abro a matraca quando estou nervosa, e se eu até cheguei a oferecer suborno, é porque estava muito nervosa. O importante para você saber é que, no meio do caminho, o brutamontes passou uma faixa pelos meus olhos e me colocou em cima do ombro dele. Que lindo. Passei o resto da jornada sacolejando cegamente.

Foi pela imensa falta de som que eu descobri que tínhamos chegado. No caminho, ainda podia-se ouvir água pingando, e sentir aquele abafamento típico de lugares pequenos e fechados. Mas quando isso passou, e aquele silêncio que até dá pressão instalou-se, eu soube que estávamos na cidade. Porém, não conseguia ver nada, então continuei desorientada.
Algumas sacolejadas depois, senti que estava sendo jogada no chão. Já havia algum tempo que eu estava escutando algumas vozes, mas quando toquei o chão todos calaram-se.
Até que...
- Taís? É você?
É claro que eu reconheci a voz dele. Reconheceria em qualquer lugar nesse mundo, em qualquer hora. Mas não respondi nada porque estava feliz demais para formar palavras.
- Eu disse que ela vinha – ouvi Xande prosseguir. – A id.iota.
... Foi como se um peso tivesse amassado o meu cérebro. Eu não consegui processar o que ele disse. Minha boca estava seca. Meu coração deu uma falhada, para depois bater com mais força. O Xande... Estava... Se referindo a mim?
Senti uma dor forte na parte de trás da cabeça e desmaiei.

Acordei com sono, muito sono. Sentia como se meu corpo inteiro pesasse toneladas. Estava deitada em algo quente e macio, então continuei quieta por alguns segundos. Só depois de alguns segundos abri os olhos.
Demorei até me acostumar com a luminosidade, mas pude perceber que alguma pessoa estava extremamente perto de mim, e afastou-se repentinamente ao me ver acordar.
Franzi a testa.
- Gabriel?
- Ah, você acordou.
Ele arrastou o pufe até o lado da minha cama. Estava em meu quarto. (Mas então fora só um sonho? Foi estranho pensar nisso. Estranho e aliviante.) Olhou bem nos meus olhos e soltou:
- Taís, você é burra ou surda?
Pisquei algumas vezes, surpresa.
- Ahn? C-Como assim?
- Você foi pra lá, mesmo depois de eu te dizer tantas vezes que não deveria ir! Que não deveria se meter com aquela gente, para o seu próprio bem!
Ew, não fora um sonho.
- E viu no que deu? – ele prosseguiu. – Tive que levar uma cavalaria para ir te salvar. Mas pelo menos deu pra você ouvir o que eu queria que ouvisse. O seu queridinho fantasma estava te usando, Taís. Te usando. Ele não ama você. E nem você ama ele, afinal nenhum dos dois têm noção do que é amor.
Meus olhos se encheram de lágrimas. Eu não queria acreditar. Mas devia.
- Eu sou uma id.iota! – choraminguei. – Até o Xande concorda com isso!
Acho que ele não esperava essa reação, porque ficou confuso quando eu comecei a chorar.
- N-Não, peraí, não precisa chorar. – Gabriel ergueu as duas mãos e as trouxe para perto de mim, aparentemente sem saber o que fazer.
- Mas é que era tudo tão perfeito, tão maravilhoso – eu continuei, ainda chorando muito e soluçando entre as palavras. – Ele era perfeito, e me protegia como se eu fosse seu bibelô... E tudo, tudo só para conquistar minha confiança e me fazer de id.iota! Eu não acredito que caí nessa!
Ele suspirou aflito, enquanto eu continuava chorando e soluçando. Ergueu meus braços com cuidado, fazendo com que eu notasse os machucados ali, e os passou em torno de seu pescoço, em uma espécie de vem cá, não chora, eu te abraço e tudo fica bem.
- Tudo bem, Olhos de Mar. Errar é humano. O que importa é que nada de ruim aconteceu, e agora você está aqui, segura. Talvez um pouco machucada, mas nada de risco de morte. – Ele suspirou de novo, parecendo ligeiramente confuso e nervoso. – Desculpe fazer jogo de culpa com você. Agora pare de chorar porque desse jeito você me deixa desarmado.
Enterrei o rosto em seu ombro, chorando baixinho abraçada em meu melhor (e são) amigo. Acabara de nomear Gabriel como minha consciência oficial. Melhor que um grilinho verde.

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Epílogo

Seis meses depois

Gabriel me esperava na porta da escola, com um sorriso travesso no rosto. Uma das mãos estava no bolso, e a outra segurava uma caixinha.
Corri até ele.
- Desculpe pela demora, o professor de geografia prendeu a gente na sal – Fui interrompida por um beijo roubado. Dei-lhe um tapa na cara. Não muito forte, mas o suficiente para ele me direcionar uma careta.
- O que eu fiz?
- Não na frente de todo mundo – teimei. Ele revirou os olhos. Nosso namoro não era segredo, mas um pouco de discrição cai bem a todo mundo.
- Poxa vida, Taís. Eu venho aqui te dar parabéns pelo seu aniversário, com presente e tudo, e o máximo que ganho é um tapa na cara... – Ele vez um biquinho teatral. Eu revirei os olhos, sorrindo, e segurei sua mão.
- Bobo.
- Sempre – ele completou. – Toma. Parabéns pra você, Olhos de Mar.
Ele me estendeu a caixinha, e eu a segurei. Desamarrei o lacinho, tirei a tampa e, de dentro, retirei uma caixinha de música em formato de piano. Com um sorriso, rodei a corda e ela começou a tocar "Pour Elise".
- É linda, Bi.
Seu sorriso alargou-se.
- Que bom que você gostou. Eu queria te dar uma foto minha, mas minha mãe me convenceu de que não era o presente ideal para uma moça elegante.
- Escute sua mãe, ela sabe das coisas – brinquei.
- Nã-Não. Eu sei mais. Quer ver? Hoje vamos na Nova Sorveteria comemorar, e eu pago tudo.
Meus olhos brilharam, e eu abracei Gabriel. Algumas garotas que estavam perto deram risinhos, mas nós ignoramos.
Quando olhei por cima de seu ombro, ainda abraçada nele, fitei a rua. Do outro lado, depois de muita gente, estava um garoto loiro dos olhos azuis, olhando tristemente para mim. Paralisei.
- Taís? Tá tudo bem? – Gabriel perguntou, me cutucando, visto que eu ficara tempo demais grudada nele. Pisquei algumas vezes e me desvencilhei.
- Tá sim. É só a minha imaginação me pregando peças de novo. Ande, vamos tomar sorvete.
Peguei sua mão e o arrastei para o outro lado da rua. O garoto sumira.




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