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Olha eu de volta aqui, minha gente o/
Alguém aí ainda lembra da história da Anna - que no final das contas eu descobri que é com hagá mesmo, porque a reforma mudou? Aquela história Sem Nome? Aquela, cuja escritora levava meeeses para postar capítulos novos, e no final ousou dizer que não ia nem mesmo postar o final (a única parte realmente boa, que é quando acontece alguma coisa), porque queria publicar e não seria muito legal colocar tudo na internet?
Pois é, ela mudou de ideia.
Eu não vou mais tentar publicar. Honestamente, não acho que, se um dia for para eu ser escritora, eu queira começar com essa história aqui. Sei lá, ela não é... boa o suficiente. Se eu nunca escrever algo que eu considere bom o suficiente, então eu vou ser jornalista mesmo.
Mas eu gosto dela o suficiente pra deixar as pessoas da internet lerem o/
Então vocês, querida turma antiga do Fórum de Escritores, que sabe do que eu estou falando (e quando eu digo antiga, digo de mais ou menos um ano, no mínimo), apreciem o fim da história, que eu finalmente, depois de quase dois anos, vou postar aqui :)
Não ficou tão bom quanto um dia eu sonhei que seria, mas ficou melhor que o resto do livro (a parte que vocês leram), na minha opinião.
Porque é narrada pelo Pedro, meu personagem maisi fofo x3 *abraça Pedro*
Aaah, e... eu também disse que ia reescrever o início, porque eu achava que tava uma porcaria, lembra? Pois é, acontece que bateu a preguiça e eu só ajeitei até o capítulo 8, e nem mudei muito. Se você quiser reler, pode. Não tá tãão diferente.
O único problema é que eu posso ter mudado alguma coisa no início e ter esquecido de ajustar o final à mudança. Tipo a Anna achar a voz do Pedro horrível no primeiro dia; eu tirei aquilo. Se houver alguma menção a isso a partir do cap.8, é porque eu esqueci de mudar.
Se alguém achar um erro desse tipo na história, por favor me avise, que eu conserto na hora :)
E: Aaah². Alguém reconheceu o lay? Foi um dos primeiros da pp, da época em que eu ainda tava escrevendo a Parte I. Botei ele aqui de novo por razões sentimentais. Acho que ele foi o meu favorito de todos. Tão simples, mas sei lá... eu amo ele :3
Regras
Em homenagem aos bons e velhos tempos, vou copiar aqui o que era o texto das "Regras" da época que eu usava esse lay pela primeira vez:
-NÃO COPIE ABSOLUTAMENTE NADA DAQUI SEM A MINHA PERMISSÃO.
-Se encontrar algo que seja contra as regras, simplesmente me mande um neomail antes de denunciar, que aí eu dou um jeito e você não vai mais precisar denunciar :)
-Sinta-se a vontade para mandar neomails com críticas, elogios ou idéias; eles sempre serão lidos e respondidos logo. Estou aberta também a awards não muito mal feitos.
-E obedeça as regras acima... por favor *3*
Estou aberta também a awards não muito mal feitos... eu realmente escrevi isso lá em 2009? Que pretensão a minha. Desculpa aí, gente. Qualquer award vai ser recebido com muito amor, porque o que vale é a intenção o/
Capítulos
Okay. Pequena explicação primeiro:
A história é dividida em um Prólogo mais quatro partes, cada uma narrada por um personagem diferente; e tem o Epílogo também, mas eu não vou ficar falando sobre esse.
Pra quem já acompanhava, eu botei as duas primeiras partes caso vocês queiram reler e relembrar alguma coisa. Pra quem nunca leu, eu ficaria MUITO feliz se você lesse e gostasse, mas também não vou pedir isso pra ninguém; porque primeiro, é enorme - e segundo, os primeiros capítulos são (na minha opinião pessoal de autora perfeccionista) um saco.
Tipo, quem tava lendo e gostando, é porque gostou (duh), mas se você ainda não leu, é provável que não vá ficar muito animado com a Parte I. Ela é resultado de muito Crepúsculo e uma mente de menina problemática de 13 anos. Mas não se preocupe, que o resto é resultado de não gostar mais de Crepúsculo (minha série do coração é Amanhã) e de ser uma pessoa não tão problemática de 14-15 anos. O final principalmente; esse eu escrevi no final de 2010, quando eu já tinha passado da minha fase esquisita, e era capaz de escrever um texto decente. Na verdade, eu gosto bastante das Partes III e IV. O único problema delas foi terem que ficar fiéis à I.
Maaas enfim. Já estou falando muito. Leia, não leia, faça o que quiser.
Só... divirta-se :3
AVISO:Às vezes eu vou colocar um _ no texto, mas é porque são palavras que o neo não deixa eu escrever, tipo mi_co (porque eu não posso escrever isso??!). Só ignorem.
Prólogo
Parte I:
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Parte II:
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Parte III:
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Parte IV:
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Epílogo
Prólogo
Onze razões para esse ser o pior dia da minha vida desde que Mateus me disse que ia se mudar:
- É meu primeiro dia em uma escola nova.
- E esse dia é bem no meio do ano.
- O que quer dizer que eu sou novata, o que quer dizer que vou ficar sozinha no intervalo, ou pior, vou ficar com alguém totalmente desconhecido.
- O que vai ser constrangedor, porque, tipo assim, eu sou a única novata entrando no meio do ano.
- É meu primeiro dia de aula em uma cidade completamente nova.
- Que por acaso nem mesmo fica na mesma região do país que a minha boa e velha Brasília.
- O uniforme (ou melhor dizendo, a "farda", como eles gostam de chamar aqui) dessa escola nova é ridiculamente bufante.
- O meu querido irmãozinho de 7 anos já saiu da fase de ser fofo e agora não pára de me encher o saco.
- O que quer dizer que ele vai me deixar mais nervosa do que eu já estou, fazendo a primeira impressão dos estranhos assustadores lá dentro de mim ainda pior.
- Meu cabelo está impecavelmente horrível, como sempre.
- Não que eu tivesse qualquer chance se não fosse assim, mas parece que não há um único garoto nessa escola que seja no mínimo feinho.
- E o destino não gosta muito de mim, então provavelmente não vou encontrar um vampiro maravilhosamente apaixonável lá dentro para me salvar.
É, na verdade, acho que o lance com o Mateus foi melhor. Esse vai ser o pior dia da minha vida.
Capítulo 1
Capítulo 1
O maior susto foi quando entrei na bendita sala. O professor já estava falando, então eu devia estar atrasada, mas não foi isso o que me assustou. Mas afinal, do que é que ele estava
falando? Fotossíntese? Não se estuda fotossíntese no nono ano, certo?
Claro que não, porque aquele não era o nono ano, era o sexto.
Ótimo, nada como um bom mi_co para começar o ano. Ou, no meu caso, o semestre.
Quando entrei na sala certa (não antes de checar a plaquinha escrito "9º ano" umas três vezes), a professora, obviamente, já estava falando. Mas, do nada, enquanto eu ia em direção àquela última carteira na última fileira, que parecia cantar o meu nome, a professora parou de falar e ficou olhando para mim com uma cara realmente assustadora.
Ah, não. Ah, não! Por favor, dona professora,
por favor, não me faça me apresentar para a turma! Vamos, ouça as minhas ondas cerebrais e me deixe ir sentar naquela linda carteira escondida do mundo sem ter que falar nada para ninguém! Por favor!
Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa em minha defesa, antes que eu pudesse sequer pensar em ir correndo para a carteira, ela abriu o sorriso que eu tanto temia.
Derrotada, sorri de volta.
- Oi. Você é a aluna nova, não é?
Não, eu sempre estive aqui, não se lembra de mim?
- Ahã.
- Ah, o diretor me falou que você vinha. O Darwin está muito feliz de tê-la como aluna. É verdade que você ganhou o concurso de redação do Distrito Federal?
Isso, fale de como eu sou cdf no meu primeiro dia aqui, para todo mundo achar que ou eu sou metida ou uma filinha do papai ou uma certinha que só estuda. Qual é a dos professores, eles nunca foram adolescentes?
- Ahã.
- Bom, bem-vinda ao Darwin. Meu nome é Rolina, eu sou a professora de redação e interpretação textual. Espero que goste da escola. Qual é o seu nome mesmo?
Rolina? Que tipo de gente se chama
Rolina?
- Anna.
- Ah, sim. Turma, educação! O que é que a gente diz quando tem uma aluna nova?
Não, sério. Qual era o problema dela? Alô, essa é uma turma do nono ano, não do pré.
Bom, depois do "Bem-vinda, Anna" completamente tedioso dos outros alunos, exceto de uma garota baixinha na primeira fileira que parecia estar bem animada desde a primeira vez que a vi, eu e minha querida carteira finalmente nos encontramos.
Eu coloquei a mochila do meu lado, não antes de pegar meu caderno e meu lápis, e comecei a rabiscar. Mas tanto a aula (que por enquanto era aquele discurso meloso e sem originalidade de primeira aula) quanto meus desenhos mal rabiscados eram entediantes demais.
Então eu decidi dar uma checada geral na sala. Por causa da professora, eu não tinha conseguido passar o olho na turma quando entrei, para ver quem parecia amigável, ou de preferência tímido. Ah, e também para ver se pelo menos aqui tinha algum garoto mais interessante.
Comecei pela menina baixinha da primeira fileira, que ainda estava lá, acesa, uma hora prestando a maior atenção a Rolina, sempre discordando e dando sua opinião, e na outra zoando com alguém. Ela simplesmente não ficava quieta.
Dei uma olhada nas outras garotas da sala. Umas cinco ou seis pareciam patricinhas demais para sequer ter percebido minha existência. Outras duas estavam acompanhando os pitacos da baixinha. Mais algumas rabiscavam o caderno ou olhavam para a professora, sem ver.
Mas uma no outro canto da sala rabiscava furiosamente sua agenda, extremamente concentrada. Aquela me chamou a atenção. Cabelos pretos, lisos e longos, mas de um corte que precisava ser refeito. A franja na cara, uma tiara enorme de oncinha na cabeça. Era meio gordinha, mas não muito. Parecia um bom alvo: tímida, escondida no próprio mundo. Que nem eu, exceto pelo fato de eu não ter a sorte de saber criar um mundo só para mim.
E então, os garotos. Isso foi rápido: todos muito feios. Mas porque essa bendita cidade tinha que ter um povo tão feio? Quero dizer, só os homens, mas mesmo assim.
Passei novamente o olhar por toda sala, ainda com alguma esperança; e, por incrível que pareça, vi que tinha julgado mal. Quero dizer, eram feios, mas só os que pareciam desconhecer o significado de "banho". Alguns eram normais, um até bonitinho, se não tivesse aquela cara meio esquisita.
Mas, assim como uma garota tinha chamado a minha atenção em particular, um deles também prendeu o meu olhar. Não, não era a aparência, ele era normal, mas o comportamento dele me assustou. Por que é que ele tanto me encarava? Com tanta... raiva? Que eu saiba, vampiros deviam ser bonitos, então com certeza meu pequeno desejo não tinha se realizado. Além do que, o jeito que ele me olhava era diferente. Raiva com algo mais, raiva com... arrogância, e descrença. Como se fosse totalmente inesperado que eu estivesse ali. Como se fosse burrice minha estar ali.
Uh, estranho.
Fiquei checando o garoto com o canto do olho de tempo em tempo, mas ele não parava de me encarar. No começo, eu pensei em ignorar, que uma hora ele pararia, mas ele não parou. Mas afinal,
qual era. o problema dele? Ou o problema dele comigo, tanto faz. Será que era porque eu era de outro estado? Xenofobia, ou algo assim, parecia a única coisa que faria sentido. Mas não dava por causa daquele olhar de que eu era burra por estar aqui. Aquilo não parecia muito xenofóbico. Parecia mais louco, mesmo.
Talvez ele fosse. Louco, quero dizer. Talvez ele realmente tivesse algum problema mental, ou algo do tipo.
Tentei pensar em outra coisa, ignorar aquele par de olhos tão pesadamente sobre mim, mas não consegui. Fiquei a aula toda tentando entender o que estava acontecendo.
E então, o sinal tocou. Mal tive tempo de respirar, e a baixinha da primeira fileira já estava agachada na frente da minha carteira, com um sorriso enorme no rosto.
- Oi! Anna, não é? É um nome lindo. O meu é Yasmin. Eu também gosto do meu, é meio indiano, é legal. Ei, é verdade que você é de Brasília? Meu tio mora lá, sabe e... Ai, nossa, que lindo teu estojo! Posso ver?
Ótimo, a garota que era provavelmente a menos tímida da sala veio falar comigo. Por que, oh universo cósmico, por que tu me tratas assim? Bom, pelo menos, se ela tagarelasse demais, eu não precisaria falar muito. Além do que, ela parecia simpática, de certa forma.
É, de certa forma.
- Ah, claro. – Eu respondi.
Ela pegou meu estojo, abriu e começou a remexer enquanto voltava a falar.
- Eu a-do-ro Brasília. Se bem que a última vez que eu fui lá eu tinha uns 4 anos, então não me lembro muito bem. Mas meu tio diz que é uma cidade muito legal. Você gostava de lá?
Muito. Minha mãe disse que era uma questão de tempo até eu me acostumar ao ponto de preferir ficar do que voltar. Mas eu não vejo isso acontecendo.
- É, era legal.
- E o que você está achando daqui?
- Não sei, acabei de chegar – Era minha resposta toda vez que me perguntavam isso. Já fazia 3 semanas, então eu provavelmente devia formular uma nova resposta; mas tanto faz, porque ela não sabia.
- Ah. Bom, tenho certeza que você vai amar Dunas. Eu, pelo menos, a-do-ro, e não é só porque eu sou daqui. Todo mundo gosta.
Eu não teria grandes esperanças.
- Bom, tomara que sim.
- Ei, você já conhece o...
Mas o outro professor a interrompeu berrando por silêncio e dando um susto na sala toda. Sob pena de ser expulsos da sala, todos voltaram correndo para seus lugares, inclusive a agitada Yasmin, que acabou esquecendo de devolver meu estojo.
Cerca de dez segundos depois, porém, ela percebeu o engano e o jogou para mim, chamando a atenção de todos os donos das cabeças sobre as quais ele voou.
Valeu, Yasmin.
Pelo menos, eu não tive que ir falar com ela, o que teria que acontecer caso ela não tivesse percebido e me dado o estojo. O que teria que acontecer, mas provavelmente não o que teria acontecido.
A aula desse outro professor foi a mesma coisa, exceto pelo fato de que eu não tive que falar em publico (obrigada universo cósmico, esqueça o que eu disse antes). Teve discurso meloso, Yasmin interrompendo e discordando, garota do cabelo preto desenhando, e claro, garoto esquisito me encarando.
Eu não sei se ele me encarou no intervalo entre as aulas. Eu percebi que não tinha visto, e então jurei para mim mesma que checaria com o canto do olho quando os professores trocassem de novo.
Mas é claro que não consegui, porque Yasmin me interrompeu com tagarelice outra vez. Uma pessoa normal que pensasse o que eu penso sobre essa garota provavelmente chegaria à conclusão de que, poxa, ela tava mesmo enchendo um pouco o saco, mas ela parece tão legal, por que não dar uma chance? Ora, porque simplesmente não daria certo.
Já era difícil demais falar alguém tímido como eu, imagina nessa menina. Mesmo que ela parecesse amigável, devia ser só o jeito dela com todo mundo. Não valia a pena o esforço, não porque ela fosse ruim, mas porque era esforço demais.
E então, a terceira aula. Depois dessa, seria a horrível hora do intervalo, ou recreio, ou seja lá como se chama aqui. Seria a pior hora do dia. Principalmente se Yasmin me convidasse para me sentar com os amigos dela, o que sem dúvida alguma seria muito constrangedor.
Uma boa idéia seria ir correndo para a desenhista com tiara de oncinha do outro canto da sala, mas eu nunca teria coragem. Tudo o que fui capaz de fazer foi torcer para que ninguém viesse falar comigo e eu pudesse ir comer no banheiro em paz.
Porque, sim, eu sou tímida ao ponto de querer lanchar no banheiro. E não se engane, porque tem gente comendo no banheiro da sua escola também.
Bom, quando começou essa terceira aula, eu tentei, de verdade, prestar atenção na professora. Mas tudo o que eu consegui gravar era que ela dava aula de História e se chamava Núbia, porque o resto foi extremamente entediante.
Então, o que eu fiz foi ficar viajando enquanto ela falava, me lembrando de alguns episódios da minha vida que sempre me faziam sorrir de alegria, saudade, amor, e, na maioria dos casos, porque eram engraçados mesmo. Episódios que aconteceram antes de tudo isso começar.
Próximo capítulo
Capítulo 2
A primeira coisa em que pensei foi em uma das minhas mais antigas e mais vívidas lembranças. De quando eu tinha 5 anos, e brincava de pique-esconde na escolinha de música depois da aula. Eu estava seguindo um garoto mais velho, que na época parecia um adulto para mim, mas que hoje, pensando bem, eu sei que ele devia ter só uns 8 ou 9 anos.
Ele entrou no estreito corredor que havia atrás da escola, entre o prédio e o muro. Nesse corredor havia uma parte elevada, parecendo uma calçada ao lado de uma rua, onde se podia andar. Ao lado, na parte mais baixa, encontrava-se algo parecido com um lixão. Não havia moscas nem baratas nem fedor, só pedaços de antigos instrumentos, móveis e utensílios da escola, que estavam quebrados. Nunca entendi porque a diretora deixava aqueles restos ali, e provavelmente nunca vou entender. Só sei que estavam lá.
Eu segui o garoto pelo corredor o mais rápido que pude, pois queria me esconder com ele. Ele ficava me mandando ir para outro lugar, mas eu, por alguma razão que eu não me lembro qual é, estava decidida a segui-lo.
Eu deveria tê-lo escutado, porque quando decidi colocar minhas pernas para trabalhar um pouco mais, com medo de perdê-lo de vista, eu tropecei em um miserável tufo de grama que se esgueirava para fora do cimento, e caí bem em cima de uma velha cadeira quebrada do lixão.
Como que para compensar o azar de eu ter nascido com uma enorme habilidade para me dar mal quando corria, nenhuma perna de cadeira atravessou meu coração nem coisa do tipo. Mas eu saí bem machucada.
Acho que desmaiei, pois a lembrança mais próxima da queda era de estar no carro com o joelho aberto e sangrando enquanto eu chupava um docinho para me acalmar. Lembro-me de ter parado de chorar no momento em que senti o gosto do açúcar em minha boca.
Quando chegamos ao hospital, o médico teve que costurar meu joelho - cinco pontos. Ele fez qualquer piadinha sobre ser o mesmo número da minha idade, provavelmente tentando me animar – nenhuma criança gosta de estar no hospital com o joelho aberto sendo costurado -, e então eu perguntei se por acaso dava pra usarem uma linha rosa. Claro que não consegui, porque eles nem mesmo tinham linhas coloridas.
Fiquei chateada, mas, mesmo sem entender que o motivo de não usarem rosa era que não havia rosa, eu aceitei. Nunca fui muito de lutar pelas coisas, sempre achei melhor deixá-las ser o que quer que elas fossem. Preto, ao invés de rosa.
Comecei então a me lembrar de outros episódios como esse. O dia em que fiquei na piscina das 10 da manhã até as 10 da noite, por exemplo, e tive uma crise asmática. Fiquei internada uns 3 dias, mas adorei, porque podia passar o dia todo deitada só jogando snakes no celular do meu pai. Na verdade, depois daquele dia, eu tentei várias vezes ficar internada de novo, o que não foi muito legal para os meus pais.
Teve também o dia em que bebi um descongestionante nasal, e o dia que misturei detergente na água (para deixar ela limpinha) e dei para a minha mãe beber. Ok, acho que esse foi o Guinho, meu irmão, mas ainda vale a pena lembrar.
E então, eu ouvi alguém rindo em algum canto da sala, o que me tirou de minhas memórias por um instante. Mas foi o suficiente para mudar minha linha de pensamento. De repente, eu comecei a me lembrar só de coisas boas, como, por exemplo, do Mateus. Ele costumava ir brincar lá em casa pouco antes de se mudar, quando ficávamos assistindo filmes, andando com meus patins ou brincando de Polly. Tudo bem, ele ficava metralhando minhas bonecas com meu carro-helicóptero cor-de-rosa, mas mesmo assim eu acho que conta.
Tinha também a Mariana, minha melhor amiga de todas as melhores amigas que eu já tive, aquela que eu precisei deixar para vir para cá. Me lembrei que, no dia em que nós nos conhecemos, ela comentou sobre achar coelhos fofos e eu disse que adorava eles, e então ela achou que eu comia coelhos e me chamou de canibal. Eu nunca me esquecia dessa história, vivia enchendo ela com isso.
E então eu estava pensando nas inúmeras "burradas" que já tínhamos dado uma na frente da outra, e as duas na frente dos outros alunos, quando ouvi o meu nome.
- Anna, você faz com o Pedro, está bem?
Levantei rápido a cabeça. Alguém me chamou? Ah, a professora. Mas o que foi que ela falou mesmo?
- O que?
- O trabalho sobre desigualdade social. Você faz com o Pedro, tudo bem?
Olhei para o quadro, tentando me situar. Droga, devia ter prestado atenção nessa aula. Parece que íamos ter que fazer uma redação de 15 linhas sobre a desigualdade social do Brasil que vimos durante as férias. Tudo bem, fazer uma redação não seria nenhum problema, mas era um trabalho em dupla.
E quem era a minha dupla? Um garoto! Um másculo, homem e masculino garoto. Universo cósmico, o que foi que eu te fiz??
- Tudo bem – respondi para a professora.
E então eu vi uma carteira sendo arrastada para perto da minha. Devia ser o tal Pedro, que eu reconheci logo porque era aquele garoto que eu tinha achado bonitinho se não fosse a cara esquisita. De perto, o rosto dele parecia um tanto melhor do que quando eu o vi pela primeira vez.
- Oi – Ele disse, timidamente.
Bom, pelo menos, ele não parecia o tipo que falaria demais.
- Oi – Eu respondi.
Ele pegou uma lapiseira, abrindo o caderno.
- Então, quer que eu escreva?
- Não, pode ser eu.
Peguei uma folha do meu caderno enquanto buscava no quadro por mais informações. Nome, número, ano. Comecei a escrever no topo da folha.

- Pedro da Costa Lopes, 27
Ah sim, claro, o nome dele. Escrevi na segunda linha e perguntei automaticamente.
- Que ano?
Burra. Burra, burra, tapada. Qual o seu problema?
- Ahm, nono. Nono B.
Ah, claro, além de eu não me tocar que ele também é do 9° ano, esqueci que somos da turma B.
Corrigi rapidamente o erro, antes que ele pudesse achar que eu era uma debilitada mental ou algo do tipo, e comecei a redação.

Apaguei o "e" e recomecei.
.
E empaquei.
- Que nesse Brasil, não importa aonde se vá, sempre há alguém largado em um canto, sentado na calçada, vendendo docinhos no semáforo. Sempre há alguém pedindo esmola, sempre há alguém realmente vivendo uma batalha para viver, enquanto que nós estamos curtindo um hotel à beira mar.
Uau.
- Você não quer escrever?
- Pensei que você é que tinha ganhado o concurso de redação. – Ele disse com sarcasmo na voz, provavelmente achando que eu tinha preferido escrever porque pensava que era melhor que ele. Isso era até meio verdade, mas era uma grosseria da parte pensar assim, afinal eu nunca tinha pessoalmente me gabado. Tentei soar o menos metida possível.
- Ah, você ouviu isso, não foi?
- Acho que todo mundo ouviu. A Rolina comentou algumas muitas vezes antes de você chegar.
- Ah, droga – murmurei, pensando alto. Me arrependi imediatamente.
- Por quê? – Ele parecia surpreso.
- Por que o que? – Foi tudo o que eu consegui dizer, numa tentativa ridícula de soar inocente.
- Por que você não quer que as pessoas saibam que você ganhou o concurso de redação? – A voz dele soou como se aquilo fosse óbvio. Claro, porque era óbvio.
- Eu simplesmente não quero. Você vai querer escrever ou não?
Ele fez uma careta, mas pegou a folha e continuou minha frase exatamente com as palavras que tinha usado, acrescentando depois mais algumas linhas. Estava ficando bom, e eu não queria ter que conversar mais do que murmúrios e respostas pré-formuladas de novo, então deixei ele continuar.
Ele escrevia e olhava para mim de tempo em tempo, para saber se eu concordava. Eu só assentia com a cabeça, mas acho que nem estava mais lendo o que ele despejava tão rapidamente no papel.
A professora passou por nós, parou e olhou.
- Pedro, não é melhor deixar a Anna fazer o trabalho também?
- Não, nós estamos fazendo juntos. Eu estou só escrevendo. – Ele realmente achava isso, ou só estava me defendendo?
- Então, acho que não tem problema nenhum deixá-la escrever agora, não é?
- Claro. – Ele respondeu, passando o papel para mim.
Tentei rapidamente me situar onde ele tinha parado, mas não fui capaz de entender os garranchos masculinos dele. Ele pareceu perceber minha cara de quase-desespero e me ajudou.
- Faltam só 4 linhas, e eu já estou com elas na cabeça. Você se importaria se eu ditasse e você só copiasse?
- Não. Se você não se importar de eu reescrever tudo em outra folha, porque a sua letra... – quando vi, já tinha dito. E agora? Ah, já sei – misturada com a minha vai ficar muito estranho.
Ele riu.
- Claro, tudo bem.
Eu peguei outra folha no meu caderno e fui copiando a redação, não sem alguma ajuda dele para entender os hieróglifos, enquanto ficava cada vez mais pasma.
Que texto incrível! Coerência, coesão, gramática, pontuação, conteúdo, tudo perfeito. Só faltava a caligrafia.
- Nossa! Você bem que podia tentar o concurso de redação também. Quando acontece o do Ceará? - Eu disse, de repente assustada com a facilidade com que isso saíra da minha boca.
- Foi em março, que nem no resto do Brasil. Na verdade, eu participei. – Ele respondeu.
- E? – Eu estava estranha e sinceramente curiosa para saber.
- Segundo lugar – Ele admitiu, envergonhado. Eu não entenderia, se não estivesse passando pela mesma coisa. Ele só não queria que eu achasse ele um nerdzinho metido. Decidi ajudar.
- Nossa! Segundo do Ceará? Parabéns. – tentei soar sincera, para ajudar ele a saber que eu sabia que ele não era um nerdzinho metido, e funcionou. Porque eu estava sendo sincera.
- Então, posso ditar aquelas últimas quatro linhas? Ou você mudou de idéia?
Ah, é, a redação.
- Não, não, pode falar.
Ele começou a ditar as últimas linhas da redação e, ao escrever, fiquei ainda mais impressionada. Era o final perfeito.
Dei mais uma lida para ver se tinha deixado passar algum erro de escrita - e eu não tinha -, recortei a borda esburacada da folha e me levantei para entregá-la para a professora.
Quando voltei, não tinha mais nenhuma carteira ao lado da minha; Pedro já estava de volta ao seu lugar. Isso me deixou estranhamente desanimada, mas não muito, então não me importei.
Me sentei, guardei minhas coisas no estojo e olhei de relance para o relógio, para ver quanto tempo faltava para o intervalo.
Antes que eu pudesse ler as horas, o sinal tocou.
Próximo capítulo
Capítulo 3
Peguei meu lanche na mochila e fui para a porta o mais rápido que pude, em um delicado equilíbrio entre ser veloz e discreta. Olhei de relance para a turma.
Yasmin estava presa ouvindo alguém falar qualquer coisa, mas sorriu para mim no momento em que viu que eu estava olhando para ela. Sorri de volta, provavelmente um pouco mais do que devia; logo percebi que ela viria correndo atrás de mim no momento em que se visse livre. Isso era uma boa razão para eu cruzar a porta naquele exato momento, mas eu ainda não tinha terminado.
O garoto esquisito não estava me encarando, para a minha surpresa; ao invés disso, conversava com outro garoto e mantinha uma expressão um tanto... tensa. Parecia estar, é claro, com raiva, mas tinha algo mais, algo que eu não tinha percebido antes. Ele estava com medo. Só não consegui ver o porquê; o que é que havia para se temer em uma escola como a nossa? Eu é que não podia ser, afinal, o que é que havia para se temer
em mim? Somente coelhos felpudos e animaizinhos cor-de-rosa de programas infantis metiam menos medo do que eu, e olhe lá.
Bom, não sei bem porque procurei pelo Pedro, mas procurei. Só que ele já tinha saído da sala, assim como a desenhista de tiara de oncinha_ Não havia mais motivos para ficar ali, parada na porta com cara de besta, então fui para o banheiro esperando que ninguém viesse falar comigo no caminho.
Ainda não acredito nisso, mas consegui passar o recreio todo sozinha e comer em paz. Acho que a Yasmin não me encontrou. Ou talvez ela tenha desistido de mim, o que acho meio improvável, já a minha pouca sorte não era suficiente para fazer isso acontecer.
Bem como eu disse; no momento em que entrei na sala novamente, ela voou para cima de mim.
- Onde é que a senhorita estava? – Ela parecia nervosa, como que com raiva de mim. O que não fazia sentido nenhum... certo?- Procurei pela escola toda e não te vi, eu queria ter ficado com você durante o recreio. Hoje meus amigos estão insuportáveis. Quer dizer, não que eu tenha ido atrás de você para te fazer de substituta, eu com certeza teria te procurado de qualquer jeito e te chamado para sentar com a gente. Mas acabei ficando sozinha o tempo todo, te procurando.
Onde é que você estava?
Ah, droga.
- Eu, er... sei lá. – Eu realmente disse isso? Acho que preciso de terapia. Como eu podia querer que ela acreditasse que eu não sabia onde estava? A não ser que... – Eu não conheço muito bem o colégio. Não tenho muita certeza. Lá fora é enorme. – Isso era até meio que verdade. Se me pedissem para dizer onde ficava o banheiro em que me escondi, eu provavelmente não saberia dizer. Mas acho que ocultar o fato de que estava em um banheiro é meio que mentir, também.
- Mas onde mais ou menos você se sentou?
Ela não ia desistir. Eu precisava afastá-la antes que ela conseguisse tirar a verdade de mim. Nunca fui muito boa mentirosa, mas era isso ou todos me tachariam para sempre, além de aquela-garota-nerd-metida-que-ganhou-o-concurso-de-sei-lá-o-que, de aquela-garota-esquisita-que-lancha-no-banheiro.
Eu precisava pensar rápido.
- Ah, em um daqueles banquinhos de concreto, com a garota da tiara de oncinha_
Eu sabia que a amizade entre as duas não podia ser grande coisa, e por isso decidi falar que tinha estado com essa garota. O único
pequeno detalhe era que eu não sabia o nome dela e a acabei chamando de "garota da tiara de oncinha_ acidentalmente. Muito bem, agora eu seria aquela-garota-esquisita-que-não-lembrou-o-nome-da-fulana-mesmo-depois-de-passar-meia-hora-com-ela. A Yasmin pensou sobre minha resposta por um tempo, com aquela cara de "não entendi", e me respondeu sem mudar a expressão.
- Você quer dizer a Samanta?
- É, isso, a Samanta. – Bom, pelo menos agora eu sabia o nome dela.
- Ah. – Foi tudo o que a Yasmin respondeu, ainda chocada. E então ela foi embora.
Fui me sentar o mais rápido que pude, antes que ela voltasse e falasse mais alguma coisa. Não que isso fosse impedi-la de vir falar comigo se quisesse, mas acho que ficar lá em pé era meio estranho, de qualquer jeito.
Mas assim que me sentei e olhei sem querer para a... Samanta, vi que mentir não tinha sido uma boa idéia afinal. Yasmin estava falando com ela. Na verdade, parecia mais que estava interrogando. Ou brigando.
Samanta estava com aquela cara de mas-afinal-o-que-foi-que-eu-fiz-?, e eu logo percebi que assim que fosse descoberta a verdade sobre nós duas, que era que nunca houve um "nós duas", eu estaria ferrada.
Sem pensar, fui correndo ver o que elas estavam conversando. Mas, antes que eu pudesse sequer imaginar que droga falaria agora que elas tinham me visto, Yasmin saiu. Me agachei instintivamente ao lado da carteira de Samanta e usei de toda a minha força para realmente
conversar com uma completa estranha como uma pessoa normal, ou no mínimo conseguir falar alguma coisa.
- Oi... Samanta?
- É. Oi.
- Bom, erm, me desculpe por isso. Eu não achei que ela iria-
- Me desculpe pelo quê?
- Por... ahm... ah, o que foi que ela te disse? – Eu perguntei, apontando com a cabeça para Yasmin.
- Ah, ela só me perguntou onde eu tinha ficado durante o recreio. – Ela disse, dando de ombros.
- E ela perguntou com quem você ficou?
- Acho que não. Por quê?
- Porque eu meio que disse que tinha ficado contigo.
- Você disse, é? – O tom dela era meio assustado.
- Ora, bem... eu fiquei escondida dela durante o recreio, e aí quando eu cheguei aqui ela me perguntou onde eu tinha estado, e aí eu disse que com você. Eu estava nervosa e... – e perdi o acesso à parte do meu cérebro que sabia português. Tudo o que falei depois foram uns poucos murmúrios ininteligíveis, mas logo a expressão dela mudou para uma cara de "ah, entendi", e eu calei a boca.
- Ah, tudo bem. Sei exatamente como é. A Yasmin é um tanto... possessiva. Não se preocupe, se qualquer um perguntar, eu digo que estava com você. Só não faça isso de novo, por favor. Aquela garota já me odeia mais que o suficiente. E ela parece bem interessada em fazer amizade com você.
- Ela... ela não é assim com todo mundo? Quero dizer, ela não fica em cima de todo novato?
- Bom, com os novatos, sim, sempre. Mas nunca vi ela "ficar em cima" de alguém desse jeito. Não sei o que você fez, mas ela parece determinada a fazer de você um dos dela.
- Você quer dizer... um dos populares? – Eu disse, tremendo por dentro ao falar a última palavra.
Ela riu.
- Não, acho que o grupo dela não é bem como os populares dos filmes. Eles são mais como populares extrovertidos e sem todo aquele compromisso com a moda e com se achar melhor. Quer dizer, eu sei que eles se acham, mas pelo menos eles não ficam humilhando as pessoas e agindo como os tais... bom, não muito. Mas acho que ela pensa que você pode ajudar a aumentar a popularidade dela.
Essa me pegou de surpresa.
- Por quê? – Agora era
eu quem estava usando o tom assustado.
- Sem ofensas, mas não faço idéia. Talvez seja porque você é nova e de outro estado. Acho que isso chama a atenção das pessoas. – Ela deu de ombros.
Eu estremeci de novo, só que agora do lado de fora também.
Foi quando a professora gritou (imagino que não pela primeira vez) dizendo que quem não se sentasse e fizesse silêncio naquele instante iria se sentar na coordenação. Era a minha deixa.
Eu voei para a minha carteira, como o resto da turma, e nem mesmo disse mais alguma coisa para Samanta. Mas acho que ela não ia ficar ofendida com isso, ela não parecia ser desse tipo.
Aquela aula foi mais ou menos como as outras: praticamente só discurso de primeira aula, mais uma pitada de bronca. Eu nem me dei ao trabalho de prestar atenção. Só posso dizer com certeza que a professora era mulher porque fiquei encantada com o cabelo dela. Curto, ruivo, liso, um corte que não dá para explicar.Cada mecha era diferente, tinha um tamanho e uma forma diferente. O cabelo dos meus sonhos.
Mas isso não importa. O que importa é que essa aula dela durou dois horários, e ainda assim ela conseguiu não dar matéria nenhuma. Foi extremamente entediante. Dessa vez, eu nem fiz nada. Não desenhei, não observei a turma, não me enfiei em lembranças. Não tenho muita certeza se pensei, também. Acho que eu só esperei.
E então, depois de um tempo que parecia não acabar nunca, a tão esperada última aula começou. Era de matemática.
Essa finalmente foi uma aula interessante: o professor já começou contando piadas enquanto nos mandava abrir os cadernos para um jogo-exercício. Pode parecer estranho, mas foi um jogo bem legal, a turma toda riu várias vezes.
Esse professor já está concorrendo a Meu Professor Preferido esse semestre. Acho que ele tem boas chances de ganhar, já que, por enquanto, é o único concorrente.
Quando o último sinal tocou, minhas coisas já estavam todas estrategicamente guardadas na mochila. Fui uma das primeiras a sair da sala, dessa vez sem olhar atrás. Andei direto para a parte de fora da escola - bem ao lado da grade que a separava da rua -, encontrei um banquinho no canto e me sentei
Enquanto esperava, sozinha, meu pai chegar, vi o garoto-que-me-encara sair da escola com o amigo. Imaginei que talvez um fosse passar o dia na casa do outro, para matar a saudade, ou qualquer coisa assim. Mas eles não foram em direção a nenhum dos carros que ininterruptamente buzinavam para os alunos. Em vez disso, atravessaram a rua e ficaram andando para cada vez mais longe calçada abaixo. Pouco antes que eu pudesse perdê-los de vista, eles entraram, olhando para os lados, em uma ruelazinha que se apertava entre duas casinhas bem pobres, e desapareceram.
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Capítulo 4
Meu pai não demorou muito a aparecer. Desde o momento em que saí da sala até o que ele chegou, quase não falei com ninguém. Quase.
Yasmin acenou para mim e me disse "thau" com o máximo de dentes que ela pôde colocar em seu sorriso, e eu tive que retribuir. Mas não foi grande coisa: só um "thau", "thau", nada que eu tivesse que pensar para fazer. Só uma simples resposta automática.
Durante a tarde, eu percebi que, afinal, não foi tão ruim que nenhum professor tenha realmente dado matéria nova hoje. Isso também os impediu de passar tarefa de casa. Por isso eu tive a chance rara de ter uma tarde preguiçosa como as das férias. Nada além de comer, dormir, ler e usar o computador. Ah, e de agüentar as brincadeirinhas infantis do Guinho.
Como no jantar, por exemplo, quando ele propositadamente se engasgou tomando sopa e, não sei como, fez sair macarrão triturado do nariz. Não foi uma coisa muito bonita de ver, mas, por sorte, eu já tinha terminado de comer e pude correr para o meu quarto.
No dia seguinte, acordei com ele me balançando agitado e gritando "Anna, Anna, é o segundo dia de aula!! É o segundo dia de aula!! Vamos, Anna, vamos!! Vai começar o segundo dia de aula!!", o que ele fez ontem também, só que, é claro, animado com o primeiro dia. Eu já esperava que ele fizesse isso ontem_ mas toda essa alegria com o segundo dia também já era demais. Se ele vier me acordar amanhã de novo, vai ter sérios problemas.
Cheguei atrasada na escola outra vez. Acho que meu pai ainda está em ritmo de férias. Mas não reclamo disso, é claro.
Nas aulas antes do recreio, dei uma sorte que não julgava ter. As duas primeiras foram do mesmo professor, então não houve intervalo entre elas. E quando a terceira aula começou, a professora chegou tão imediatamente depois que ele saiu que nem mesmo Yasmin teve tempo de se levantar.
No recreio, é claro, é que vieram os problemas. Gastei toda a minha cota de sorte no recreio de ontem e hoje mais cedo: Yasmin fez absoluta questão de me levar para sentar com os amigos dela. Pude enrolar um pouco quando fui comprar meu lanche, mas a fila estava irritantemente pequena, e em menos de 3 minutos eu segurava um salgado de frango em uma mão e um guaraná na outra, enquanto andava em direção àqueles longos e cacheados cabelos pretos que abriam em meio a suas mechas um grande e aceso sorriso.
Em outras palavras, estava com meu lanche indo me sentar ao lado de Yasmin.
Logo assim que cheguei, ela começou a falar:
- Oi, Anna! Nossa, é a primeira vez que vejo você no sol de perto. Nem tinha percebido, seu cabelo é meio ruivo. E você é tão branca! Parece européia. Não acha, Lê, que ela é todinha européia? Eu nem tinha percebido. Européia no Nordeste, queimando no sol com a gente. É meio engraçado.
- Eu... eu sou brasiliense.
- Eu sei, menina. Vem, senta aqui – Ela disse, apontando um lugar ao seu lado – Foi o que eu disse. Brasília, Europa. Tudo a mesma coisa.
Olhei para ela, meio confusa. Então, é isso que pensam da gente aqui? Será que ela não sabe que a maioria das pessoas de Brasília descendem dos nordestinos que a construíram?
Ah, o que é que eu estou dizendo. Muito brasiliense – e goiano também, que eu saiba – acha que todo nordestino é caipira que sofre da seca. Não duvido nada que eles até pensem que
goiano é que é caipira.
Dunense, achando goianiense caipira. Sendo que nenhum dos dois é. Tem graça.
- Bom, deixa eu te apresentar ao pessoal – Yasmin continuou, apontando para cada um ao falar – Essas são a Cláudia e a Carla. Irmãs, claro.
- Gêmeas – disse Carla, apontando o óbvio, enquanto abria
para mim um sorriso nada simpático, que dizia apenas "eu não fico linda quando sorrio?". É claro que eu instintivamente respondi com um sorriso que dizia "com certeza!", pois era verdade. As gêmeas eram simplesmente
lindas.
Yasmin suspirou
- Sim, gêmeas. Bem, continuando, essa é a Letícia, minha amiga desde o jardim de infância. E aquele ali – ela apontou para um garoto no outro canto da mesa, que parecia –
parecia – estar extremamente concentrado em comer, sem nem mesmo nos perceber. Eu o reconheci por ser o amigo do garoto-que-encara. O que é que
ele estava fazendo
aqui? – é o Paulo. Ele e a Carla estão... namorando.
Ah. Bom, isso explica o fato de ele estar nessa mesa.
Eu me sentei e comecei a comer, escutando sem ouvir a tagarelice da Yasmin. Mas nem foi muita falta de educação, porque a maior parte do que ela falava era dirigido à Letícia.
Enquanto comia, eu percebi que o amigo do garo... que o Paulo estava olhando para mim, do mesmo jeito que seu amigo me encarara no dia anterior. Raiva, medo, incredulidade, cuidado, mais uma pitada de atenção. Como se ele estivesse examinando cada detalhe do meu rosto, tentando responder uma pergunta sem resposta, ter certeza de alguma coisa.
Percebi também que ele se sentia um tanto desconfortável de estar perto de mim; bem, não era o único. Não demorei muito a me levantar, dizendo que ia ao banheiro, pretendendo não voltar mais.
Andei um pouco pela escola, comendo e procurando um lugar para sentar. Olhei para cima e vi uma árvore grande que estava repleta de florzinhas amarelas; algo simplesmente lindo, com filetes de luz solar entrando esverdeados por entre as folhas, e as flores colorindo cada espaçozinho vazio.
Mas não foi muito boa idéia andar por aí olhando para cima. Em poucos segundos, eu e uma garota meio baixinha com cabelos lisos e cara de índia estávamos nos recuperando de um t_rombo. Ela vinha correndo, eu não via nada, é nisso que dá. Batemos uma com a outra, e o pacote de biscoitos dela estava agora rolando no chão.
Me abaixei para pegá-lo e entregá-lo a ela, mas outra mão chegou nele antes da minha. Era Samanta. Morrendo de rir.
- Isa, tudo bem? Nossa, vocês precisavam ter visto suas caras. Anna, você não derramou seu guaraná, né? Nossa, tô rindo até agora! Desculpem, mas foi muito engraçado. Vocês estão bem?
- Ah, ahã, tudo bem. – Eu balancei a cabeça, tentando sorrir.
A garota na minha frente, que eu deduzi que era a tal Isa, só murmurou qualquer coisa e também mexeu a cabeça afirmativamente. Mas depois ela pareceu mudar de idéia e falou:
- Peraí... Sam, vocês se conhecem? – ela disse, apontando para nós duas com a cabeça.
- Ah, é! Desculpa. Isa, essa é a Anna, a novata. Anna, essa é a Isadora.
- Oi – nós duas murmuramos uma para a outra.
Samanta voltou a rir. Ou melhor, gargalhar.
- Vocês deviam ter visto isso! Foi um t_ rombo e tanto! Nossa, que jeito de começar o ano, hein? Ah, desculpa estar rindo assim, mas o susto que vocês levaram...
- Sam! – interrompeu a indiazinha de lindos cabelos lisos – Pára com isso! – e depois disse para mim, quase rindo também - Desculpa a minha amiga, ela não é muito normal. Eu já disse pra mãe dela procurar um psicólogo, mas...
- Não disse nada! Você não é nem doida de falar uma coisa assim para a minha mãe.
- Tem razão... acho que ela ia me expulsar da sua casa!
- Ei!... Bem, é, sim, provavelmente.
As duas ficaram sérias um pouco, e então explodiram em risadas sobre alguma piadinha particular que eu perdera. Minha expressão não devia estar muito longe de assustada; na verdade era exatamente assim que ela devia estar. Samanta, quando conseguiu parar para respirar um pouco, me perguntou:
- E então, fugindo da Yasmin de novo?
- É... e dos amigos dela também. As gêmeas, a Letícia... e o Paulo.
- É, as gêmeas ninguém mer... – ela parou repentinamente, mudando a expressão – Peraí, o Paulo? O Paulo, amigo do Rodrigo, da nossa sala? Esse Paulo?
- Bem, acho que sim. Eu já o vi na nossa sala. Só não sei é desse Rodrigo. – Mas tenho uma boa idéia.
- Ah, o Rodrigo é o melhor amigo do Paulo, eu acho. Se você já viu ele na sala, então sabe quem é o Rodrigo. Eles estão sempre grudados um no outro. Mas eles são meio... sombrios, sei lá. As pessoas não costumam ficar muito com eles. O que é que ele estava fazendo
com a
Yasmin e
sem o
Rodrigo?
- Bom, ela me falou que ele está namorando uma das gêmeas.
- Uma das gêmeas?? – exclamaram as duas juntas.
- Nossa, eu esperava algo assim delas, mas não dele! O Paulo namorando? Que estranho...
- Ah, Sam, eles têm o direito de namorar quem eles bem quiserem – reclamou Isa.
- Sim, eu sei, mas eu não esperava por isso... bom, não é nada a ver com a gente, né? Então, vamos sentar? Ou vocês preferem ficar aqui em pé até o sinal tocar?
Demorei um pouco a perceber que ela também se referia a mim. Bom, o que eu deveria dizer? "Não, obrigada, eu prefiro ficar andando por aí sozinha. Quem sabe eu até vá lanchar no banheiro de novo, que nem ontem_ ", claro, isso seria a coisa certa a se dizer. Acabei tendo que ir me sentar num daqueles banquinhos de concreto colados na parede onde ninguém jamais sentava, junto com Samanta e Isadora. Bom, era bem melhor do que ficar com a Yasmin ou com o Paulo... ou no banheiro.
- Então, Anna. Você é de outra cidade, né? – perguntou Isadora, provavelmente tentando apagar totalmente o assunto Paulo da conversa.
- É, Brasília.
- Nossa, é bem longe. Por que é que você se mudou?
- Meu pai foi transferido. Na verdade, é mais um emprego novo... antes ele era vendedor, mas agora ele só conserta computadores. Mas acho que ele gosta mais assim.
- Ah. – Foi só o que ela disse.
Sofremos um pouco com aquele horrível silêncio por falta de assunto que às vezes acontece, e então, para o alívio das três garotas sentadas naquele banquinho de concreto, o sinal tocou.
Voltamos juntas para a sala, sem dizer uma palavra.
Foi só quando atravessamos a porta que eu me toquei que tinha cometido um erro terrível: tinha deixado Yasmin e não voltara mais. Ai, minha nossa, ela ia me descascar viva.
Já estava me preparando para o sermão, quando vi que ela passou por mim e não fez nada. Absolutamente nada. Não falou, não olhou. Nem mesmo fez uma cara de "vou te ignorar, viu? Para você aprender", nem qualquer outra expressão. Passou pela porta olhando para sua carteira, passou do meu lado olhando para sua carteira, e sentou na carteira encarando a mesinha da sua carteira. Com uma expressão totalmente vazia. Não demonstrava alegria, tristeza, medo, ânimo, tédio, nem mesmo indiferença. Simplesmente. Nada.
Foi a coisa mais inesperada que ela já tinha feito. Depois de vê-la fazendo coisas que as pessoas comuns não costumam fazer, coisas que eu não esperava que ela fizesse, mesmo tendo-a conhecido só ontem_ .. bem, eu já tinha aprendido a esperar o inesperado. Então ela vem e faz exatamente o contrário. Só para me enlouquecer.
Bom, eu pensei, pelo menos isso não era ruim. Eu não queria com todas as forças que ela agisse do mesmo jeito que a maioria dos outros alunos, como se eu não estivesse ali? Aquilo era motivo de alegria! De preocupação e curiosidade, talvez, mas, acima de tudo, de alegria! Eu é que não iria esquentar a cabeça tentando descobrir porque algo que eu queria tanto tinha acontecido. Eu iria simplesmente agradecer e deixar para lá.
E foi isso mesmo que eu fiz; esqueci o feliz mistério Yasmin e acompanhei a aula de matemática com o novo ganhador de Meu Professor Preferido deste semestre, que fez a turma toda dar muitas risadas mais uma vez.
Quando chegou a última aula, de geografia, a coordenadora da escola veio até a nossa sala para nos informar que naquela sexta haveria um passeio ao Museu da História do Brasil, para comemorar a volta às aulas. Todos deveríamos vir uniformizados no horário normal e pagar uma taxa de sete reais.
É claro que a turma não ficou lá muito animada, mesmo sendo um passeio. Deduzi que esse museu devia ser bem ruim. Quando a coordenadora viu o descaso da turma, comentou que quem não fosse deveria vir à escola mesmo assim para ter aulas normais. E de repente todos pareciam muito animados com a idéia, afinal, agora não era ficar em casa ou ir ao museu. Era ir ao museu ou ir à escola.
Logo depois que ela saiu, eu parei e pensei, pela primeira vez, sobre o que Samanta disse a respeito do Paulo. Ela tinha me dado algumas informações valiosas, e eu nem tinha notado.
Para começar, agora eu sabia que o garoto-que-encara se chama Rodrigo. Ela disse que eles estão sempre juntos, e que nunca estão com mais ninguém, então... mas o que mais ela disse?
Ela estranhou o fato de eles estarem separados.
O que é que ele estava fazendo
com a
Yasmin e
sem o
Rodrigo?", ela perguntou.
Claro.
Sem o Rodrigo. Como é que eu não tinha percebido antes? Olhei em volta, e percebi que ele não tinha vindo hoje.
Alívio.
Bom, era outro mistério, mas outra alegria. Isso não era mais uma coisa que eu queria? Que ele sumisse também? Tudo bem, foi só um dia, mas mesmo assim...
Um dia.
Decepção.
Um mísero dia. Que, por acaso, já estava acabando. Amanhã ele viria para a escola de novo. Sério mesmo, o que tem de errado comigo? De um momento que eu não vi um garoto, já deduzi subconscientemente que ele estava fora da minha vida para sempre. Ele podia até mesmo ter apenas ido ao banheiro!
BÉÉÉÉÉÉÉÉÉ!!!!
Como que para me ajudar a sair dos pensamentos, o sinal tocou mais uma vez, tão alto que me deu um susto e me fez pular da carteira. Peguei minhas coisas e as guardei na mochila o mais rápido que pude, mas não o suficiente. Tive que me espremer entre um monte de alunos para passar pela porta, e ainda deixar cair a mochila no meio do caminho. Aberta.
Catei todos os livros de novo, mas foi o tempo de todo mundo ir embora, deixando o corredor vazio para eu poder andar sozinha em direção ao carro já buzinando do meu pai.
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Capítulo 5
Quatro e meia da manhã. Duas horas e meia antes da aula começar. Meu despertador de décima linha pifara de novo e estava berrando no meu ouvido sem parar. Não tive como não acordar, perdendo totalmente o sono.
De tanto tempo que o barulho ficou soando pela casa até eu ter coragem de levantar para desligá-lo, meus pais também acordaram, com um não-lá-muito-bom humor. Só o preguiçoso do Guinho continuou dormindo como uma pedra até as seis, quando minha mãe foi acordá-lo.
Por termos (quase) todos acordado muito cedo hoje, saímos de casa 20 minutos antes do horário em que costumamos sair. Isso significava que, quando chegássemos à escola, a aula com certeza ainda não teria começado. E eu com certeza seria atacada pela Yasmin. Ótimo.
Quer dizer,
eu sei que ela me ignorou total ontem_ Pelo menos depois do recreio. Mas eu não podia esperar que a milagrosa distância dela fosse durar muito; é claro que ela teria voltado ao normal anormal dela hoje.
Quando cheguei à escola, já estava imaginando que desculpa daria por ter ido embora e não voltado mais. Ela provavelmente perguntaria; Samanta deixara claro (e eu percebera isso por mim mesma também) que Yasmin era "um tanto... possessiva".
Entrei na sala, e, obviamente, logo
alguém se levantou e veio falar comigo. Mas não era quem eu esperava. Era Isadora.
- Oi, Anna! Senta aqui com a gente.
Ela apontou para um lugar perto de duas carteiras já ocupadas por ela e por Samanta, no meio da sala. Era meio assustador me sentar ali, com tanta gente para qualquer lado que se olhasse. Mas era mais assustadora ainda a idéia de ter que falar não, então eu apenas obedeci.
Samanta revirou os olhos. Por alguma razão, ela não parecia concordar muito com a atitude da amiga. Depois voltou aos seus desenhos no caderno, enquanto eu me perguntava o porquê daquilo. Será que ela estava com medo de que ficar perto de mim fosse ficar perto da Yasmin? Ou será que ela só não gostava muito de mim mesmo?
Isadora ainda estava de pé, e, tarde demais, eu me lembrei de ser educada.
- Oi, Isadora. Samanta. – Eu disse, soando uma i_ diota. Já tinha se passado tempo o suficiente desde que eu fora cumprimentada para que eu pudesse simplesmente não responder, e parecer apenas rude, e não também uma lerda. Eu devia ter ficado de boca calada.
- Oi. – Foi só o que Samanta disse, ainda concentrada.
- O que você está fazendo dessa vez, Sam? – ouvi Isadora perguntar depois de um curto silêncio. – Uma menininha de mangá ou uma menininha de mangá?
- Fofa. Você esqueceu do fofa.
- Claro. Mas isso é tão óbvio. Seus desenhos são
sempre fofos.
- Eu sei. – Ela respondeu, brincando, mas obviamente concordando com amiga.
Curiosa, estiquei um pouco o pescoço para dar uma olhadinha em seu caderno. E ficar completamente pasma. Mais uma vez.
Como se já não fosse suficiente Pedro ser um gênio literário em potencial, agora Samanta era a melhor desenhista que eu já tinha conhecido pessoalmente. Eu não fazia idéia de como ela controlava tão bem o intercomunicador mente-mão para simplesmente sair fazendo traços rápidos se transformarem em uma obra de arte japonesa.
Era simplesmente incrível; e simplesmente injusto. Só faltava Isadora ser uma futura atriz de Hollywood ou algo assim para que eu fosse a única sem um talento. Não um super talento, como o deles, não era isso o que eu pedia. Só um
talento. Algo que eu fizesse bem, algo em que eu fosse melhor do que os outros.
Escrever não era um talento. Pelo menos não para mim. Eu não escrevia como Pedro, e isso já tinha sido comprovado cientificamente. Eu sei que ganhei o concurso e tal, mas fala sério,
ninguém no DF sabia dele. Eu tinha o quê, dez concorrentes? Ok, talvez mais um pouco, mas ainda assim não era um número muito difícil de bater. Eu não tive que ter talento. Só tive que ser um tanto quanto boa.
Interrompi meus pensamentos quando vi Yasmin vindo em minha direção, olhando para mim, com um pequeno sorriso forçado.
Ai, ai, ai, ia começar.
- Oi. – Ouvi-a dizer baixinho, quase tímida, me surpreendendo por completo. Como se ela já não feito isso o suficiente. – Desculpe por ontem_ O Paulo... bem, você viu como ele é. Desculpe por aquilo.
Ela estava se
desculpando? Pensei que seria o contrário, que ela brigaria comigo e eu é que teria que pedir desculpas. Mas parece que ela nunca faz o que eu penso.
- Como? – Foi tudo o que consegui dizer.
- O Paulo... ele não te assustou? Vi como ele olhava para você. Foi por isso que você foi embora, não é?
Droga. Ela era bem perceptiva.
- Bom, é, na verdade, sim – Soltei, achando melhor não mentir, uma vez que ela parecia entender as minhas razões. Claro que Paulo não era a única delas, mas eu não precisava falar tudo...
- Desculpe. – Ela continuou - Ele é assustador. Não faço idéia de porque a Carla está com ele, mas ela está, e nós temos que aceitar isso. Então acho que ele vai sentar com a gente por um tempo. Se você não quiser ficar, tudo bem. Eu mesma tive vontade de ir embora, também.
Eu estava mesmo ouvindo isso?
Yasmin suspirou.
- Bom, e eu só queria também avisar que a Letícia faz questão de ir comigo no ônibus, na sexta. – A expressão dela, antes triste, se alegrou mais um pouco – Mas a gente ainda pode ficar juntas durante o passeio. Vai ser legal.
Ela abriu de novo aquele enorme sorriso dela, e eu não tive como negar. Sorri também.
- Claro, tudo bem.
E então ela olhou para trás. Pela primeira vez, percebi que Letícia nos fitava, juntamente com Carla. As duas não pareciam aprovar muito que Yasmin estivesse falando comigo. O olhar delas... parecia com o do Rodrigo e do Paulo, só que bem menos intenso. Ainda assim, foi assustador. E estranho.
Afinal,
o que eu tinha feito? Agora eram quatro pessoas que possivelmente me odiavam. Não fazia o menor sentido; quer dizer, não que eu achasse que todos deviam me amar ou algo assim, mas
ódio já era algo um pouco extremo, não?
Yasmin falou qualquer coisa – que eu não entendi - usando a linguagem corporal, e então as duas, carrancudas, Carla sempre maravilhosa, foram se sentar.
Ela se virou de volta para mim e continuou como se nada tivesse acontecido:
- Eba! Você vai adorar o passeio. Eu prometo! Vamos ficar juntas o tempo todo!
Ah, droga. Por que diabos ela não podia simplesmente ficar com as amigas dela e me deixar em paz?
Sem saber que reação ter, liguei meu piloto automático, e ele simplesmente disse "Ok".
Yasmin, sempre sorridente, sempre mexendo as mãos enquanto falava, comentou que a professora atrasada já tinha entrado e que era melhor a gente ir se sentar.
Sem qualquer objeção, obedeci.
Fui direto para a minha já familiar carteira no canto da sala, mas então me lembrei que minhas coisas estavam esperando por mim na fileira do meio, ao lado de Samanta e Isadora. Estremeci por dentro ao me lembrar do que teria que enfrentar.
Não é grande coisa", eu repetia em minha mente. "Você só vai sentar em outra carteira. Nada de mais. Não é como se isso fosse te matar." Uma parte de mim sabia que eu mentia para mim mesma, mas tentei não lhe dar ouvidos. Um fracasso, é claro.
Sentei-me, peguei meu caderno e procurei a página onde estava a tarefa que a professora do cabelo perfeito cobrava. Logo depois, liguei de vez meu piloto automático; não me lembro com clareza do que se passou de lá para o recreio, afinal, não prestei nenhuma atenção. Mas, quando o sinal tocou, eu acordei, junto com maior parte desconcentrada da turma.
Então Isadora veio falar comigo.
- E você, Anna, o que trouxe de lanche?
- Como? – Perguntei, meio perdida.
- O que você trouxe para comer?
- Ah! – De repente me lembrei que, apesar de ter tido tempo de sobra antes da aula, esqueci de pegar alguma coisa para o recreio. Com é que alguém pode ser tão
lesada?
- Ah? – Ela disse, provavelmente se perguntando se eu era mentalmente normal. Eu mesma duvidava.
- Eu esqueci – Admiti – Não trouxe nada.
- Sério? Nossa, que pena. Mas tudo bem, a gente divide com você. Não é, Sam?
- O que? – Samanta também não parecia estar muito acordada.
- A Anna esqueceu o lanche dela. Você não vai comer o pacote de biscoitos todo, vai?
- Nossa, como você é indireta, Isa. Mas não, não vou. – Então ela se dirigiu a mim, sorrindo – Claro que você pode pegar um pouco, Anna.
- Ah, ta. – Tentei sorrir também - Obrigada.
- Então, vamos? – Isadora disse, me fazendo perceber que a sala já estava quase vazia.
- Vamos. – Respondi.
Descemos, nos sentamos naquele mesmo banquinho da parede e ficamos conversando um pouco, praticamente sobre coisas superficiais, como o tempo, os professores e os garotos interessantes da sala – ou a falta deles. Mas lá pra final dos curtos 20 minutos, Samanta, com seu pacote de biscoitos virado para mim apesar de eu quase não pegar nenhum, me perguntou sobre Yasmin:
- O que é que ela queria, afinal?
Pensei um pouco antes de responder.
- Ah... ela falou qualquer coisa sobre o Paulo, e depois me disse que ia pro passeio com aquela amiga dela, a Letícia. Mas quer ficar comigo no museu. – Minha expressão de terror voltou, e acho que isso não passou despercebido por elas.
- Você não é uma grande fã dela, né? – Isadora perguntou retoricamente, meio decepcionada – Hmpf, você e a Sam são iguais. A Yasmin não é nenhum anjo, mas vocês precisam mesmo ser tão contra a pobre da menina? Quero dizer, que eu tenha percebido, a única coisa que ela fez até agora foi tentar ser sua amiga.
Exatamente, eu queria dizer. Tudo o que eu queria era ser deixada em paz na minha linda solidão, mas Yasmin teimava em vir quebrá-la o quanto pudesse. Ela parecia não perceber que eu queria ficar sozinha, ou pior: ela percebia, mas não se importava. Isso não era motivo o suficiente para eu "não ser uma grande fã dela"?
Isso era o que eu queria dizer, mas obviamente não o que eu disse. Porque, além de tudo, as próprias Isadora e Samanta estavam quebrando a minha solidão. Mas a diferença era que... sei lá, elas pareciam não tentar mandar em mim. Eu me sentia livre para ir embora quando bem quisesse. Elas não eram... "um tanto possessivas", eu acho.
Então, que diabos eu ia dizer?
- Ah, nem vem defender a Yasmin, Isa! – Samanta quase gritou, nervosa, (e, obrigada universo!) cortando minha fala - Você sabe muito bem como ela é, já estuda aqui a três anos. Você teve três anos de Yasmin e ainda defende ela. Quase não dá pra acreditar!
- Eu
nunca disse que ela era uma boa pessoa, Sam! Só não acho legal vocês ficarem falando dela assim.
- Então tudo bem ela ficar falando da gordinha estranha e perdedora, mas a gordinha não pode falar nada dela?! – De repente, vindo do nada, Samanta pareceu explodir. Uma raiva guardada por tempo demais, que só precisava de mais um pequeno empurrãozinho para escapar.
Que bom, pensei, que estávamos no banquinho mais afastado.
- Você não é nenhuma gordinha estranha, Samanta, e sabe muito bem disso. E muito menos perdedora! Já se deu conta do talento que você tem para desenhar? Nem todo mundo é capaz de fazer uma coisa daquelas.
Samanta ignorou.
- E sobre a linda e adorável Yasmin dizer para a gordinha que um certo menino estava a fim dela, obrigando-a a ir até o menino, morrendo de vergonha e pena por ter que dar um fora nele, só pra ela descobrir que não era verdade, e acabar se sentindo como se
ela tivesse levado um fora??! – As bochechas de Samanta já estavam começando a ficar vermelhas – Isso não daria a ela o direito de pelo menos
falar alguma coisa da adorável Yasmin?
Isadora ficou bastante séria por dois segundos, e então respondeu, com a voz calma e fechada.
- Não foi bem assim que aconteceu.
- Não foi bem assim que aconteceu, Isa?!
- Você tem
alguma prova de que tudo o que você disse que a Yasmin pensa sobre você é verdade? Até onde eu sei, ela achava
mesmo que o Gustavo tava a fim de você. Não foi uma brincadeira de mal gosto, foi um desentendimento.
- Ha ha. Claro. – Samanta estava carrancuda.
- Você quer
parar? Isso tudo é culpa dessa sua mania de rotular. Só porque ela é popular, você já deduz logo que é do mal. Poxa, já passou pela sua cabeça que talvez ela tenha uma
razão pra ter tantos amigos?
A pergunta de Isadora pairou no ar, e de repente eu me dei conta de quão íntimo era o momento que eu, a garota que elas conheciam a três dias, estava presenciando. Fiquei meio constrangida; mas acho que elas nem percebiam mais a minha presença ali.
Passou-se um minuto de silêncio, todas nós fitando o chão. E então Samanta disse, com a voz arrasada e determinada.
- Eu estudo aqui desde que fundaram o Darwin, e ela também. Eu a
conheço. Não é rótulo, é um fato: as garotas mais populares da sala são sempre assim. Lindas e mimadas. – Ela fez uma pausa – E mentirosas.
- Samanta, a Yasmin pode ser até mimada, mas não é linda. Eu ainda acho que ela é popular porque é gente boa... do jeito dela, pelo menos.
- Mesmo assim, que direito ela tem de sair dizendo essas coisas? Você tem
noção da vergonha que eu passei? E o pior é que a gente era super amigo na época, e agora ele acha que eu sou uma i_ diota! Eu perdi meu melhor amigo da época... ele começou a me evitar, eu fiquei arrasada... por culpa
dela!
- Sam... – Uma lagrimazinha de raiva discreta abria caminho pela olho direito de Samanta, e Isadora não conseguiu terminar a frase. Só a abraçou e ficou assim por um tempo.
Completamente constrangida, eu me afastei delas o máximo que o banco permitia e fingi estar prestando muita atenção a qualquer outra coisa, como se não as tivesse ouvido. Era o máximo que eu podia fazer; levantar-me era incogitável.
E então, graças aos céus, o sinal tocou, e eu tive uma boa razão para ir embora tão rápido quanto minhas pernas permitiam.
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Capítulo 6
As últimas aulas se arrastaram lentamente, a maior parte do tempo gasto apenas com correção. Por mais que eu soubesse que isso é importante, eu simplesmente
não consegui prestar atenção.
Especialmente hoje.
Porque eu tinha coisas demais para pensar: primeiro, aquela história da Yasmin ter destruído a amizade da Samanta. Eu não sabia se ria ou chorava com o que ouvira, e com o fato de eu
realmente estar me dando ao trabalho de pensar nisso; era quase tão ruim quanto fofocar.
Mas, de qualquer jeito, não fazia sentido. Quero dizer, eu só conheci a Yasmin a três dias atrás, mas ela não parecia ser do tipo que faria algo assim; ela só era (muito) irritante e teimosa, mas nada além disso.
Isadora dissera que "não foi bem assim que aconteceu", e acho que acreditei nela. Apesar de Samanta claramente acreditar que foi sim bem assim que aconteceu, parecia mais provável que tudo não passasse de um exagero.
Talvez depois eu pudesse tirar a limpo essa história...
Balancei a cabeça, decepcionada comigo mesma. Isso
definitivamente era tão ruim quanto fofocar. Afinal, o que é que
eu tinha a ver com isso? Tentei pensar em alguma outra coisa.
Como os garotos-que-encaram, por exemplo. Eu ainda não fazia idéia do que estava acontecendo: nem porque eles pareciam me odiar, nem porque esse número crescia a cada dia. Primeiro, só o Rodrigo. No dia seguinte, o Paulo. E hoje, aquelas duas amigas da Yasmin também. E, que eu saiba, sem eu ter feito nada!
Tentei, mais uma vez, encontrar uma coisa,
qualquer coisa, que pudesse ter causado tudo isso, mas não consegui lembrar de nada.
Você pode simplesmente ir falar com eles", ouvi em minha mente, "Perguntar o que está acontecendo; provavelmente é só um mal entendido e eles vão acabar constrangidos". Era aquela vozinha de novo, mais uma vez apontando o óbvio que eu insistia em ignorar.
Mas ela estava certa. Fazia todo sentido ir descobrir de uma vez por todas qual era o problema. Mas é óbvio que eu
jamais teria coragem de chegar e perguntar, na maior cara-de-pau, porque eles olhavam para mim. Eu não sou assim.
De repente, ouvi meu nome; era a voz do professor.
- Anna? A resposta?
Resposta, como assim? Ah, certo, correção. Tudo bem, eu fizera a tarefa, eu tinha a resposta. Só não sabia qual ele queria. Que lindo.
- Quinta B. – Ouvi um sussurro atrás de mim; era Isadora.
Ah, obrigada, obrigada, obrigada! Eu realmente estou achando que podemos até ser boas amigas, se eu for capaz tal proeza.
Procurei a questão cinco, letra B, e disse para toda a sala (não sem alguma dificuldade) que o caso citado acima era de divisão celular por mitose, para gerar gametas. Nem cheguei a checar se minha resposta estava certa; na verdade, mal ouvi o que eu mesma disse, assim como a maioria da sala. Correções de tarefa eram sempre a parte mais chata das aulas.
Mas eu me virei e sussurrei de volta, quando a atenção do professor se voltou para outra pessoa.
- Obrigada, Isa. – Me surpreendi com a facilidade com que a chamei pelo apelido; eu queria dizer apenas "obrigada".
- De nada. – Eu podia ouvir o sorriso na voz dela.
Me virei de volta, com medo de ser pega conversando, e comecei a desenhar qualquer coisa feia, que agora me parecia ainda pior em comparação aos desenhos da Samanta, e simplesmente esperei a aula terminar.
Uma hora depois, o sinal tocou, dizendo alegremente a todos os cansados e esfomeados alunos e professores que era hora do almoço.
Mais uma vez, foi a maior bagunça até que todo mundo saísse, menos eu (que me atrapalhei um pouco na hora de arrumar a mochila) e dois garotos.
Demorei um pouco, talvez até demais, para perceber que garotos eram.
- Anna? – Ouvi do outro lado da sala a voz de Rodrigo; seu tom era de deboche e de piada, como se de alguma forma meu nome fosse engraçado. Foi algo muito mais além das estranhezas que eu já tinha percebido deles.
Quer dizer, eles realmente estavam
falando comigo.
Me virei e respondi, na maior naturalidade possível – o que, é claro, não foi uma tentativa muito bem sucedida. Eu estava bem... assustada, eu acho.
- O quê?
Ele riu um pouco, enquanto o amigo me fitava extremamente sério.
- Ah, fala sério!
Quão estúpidos você acha que nós somos?
Precisei de um tempo para digerir isso. O que ele queria dizer?
Eu nem conhecia eles! De que diabos ele estava falando?
- O quê? – Repeti, agora soando bem mais confusa.
- Ah, é claro que você vai bancar a inocente. Como se você fosse se entregar assim tão fácil. Mas tenho uma novidade para você: não importa quanto tempo isso demore, mas nós vamos te fazer se entregar.
Me entregar? Me entregar
do quê? O que eu tinha feito de tão ruim para merecer tudo isso? Eu não estava entendendo nada. E pior: simplesmente não fazia idéia do que responder. Quero dizer, que tipo de coisa você diz quando ouve algo assim? Aposto como e boa educação e a etiqueta não inventaram resposta alguma para um caso como esse.
Completamente perdida, eu soltei um clichê:
- Não faço a menor idéia do que você esta falando. – Só depois que eu falei fui perceber o quanto o que dissera dava a entender justamente o contrário; nos filmes, todo mundo que diz isso está mentindo. Sem poder recolher as palavras, tentei concertar. – De verdade, mesmo. Não entendi uma palavra. – Minha voz amedrontada não ajudava.
- Qual é! Você pode fazer melhor que isso. - Ele riu de novo, com tom de deboche.
Minhas sobrancelhas subiram e minha cabeça caiu de puro espanto. Eu não estava acostumada às pessoas acharem que eu estava mentindo.
- Olha, você deve estar se confundindo com alguma coisa.
- Não, tenho bastante certeza de que não estou... – Ele riu de novo. – Anna.
Ele parecia prestes a gargalhar.
Paulo, ao lado dele, continuava bastante sério, olhando para mim com raiva, confiança e medo, se é que é possível. Na hora, ele me lembrou um guarda-costas, agindo como se não estivesse ali, mas pronto para atacar se qualquer um chegasse perto de seu protegido; no caso, Rodrigo.
Eu até teria achado graça se não estivesse tão nervosa.
Percebi então que era a minha vez de falar alguma coisa, mas, na pressa, tudo o que consegui foi:
- O que tem de tão engraçado com o meu nome? – Droga, droga, por que a primeira coisa que me veio à mente tinha que ser logo isso?
- Ha, ha. – De repente a expressão dele se fechou. – Você sabe muito bem.
Agora estavam os dois sérios e ainda mais assustadores, olhando para mim. Apesar do medo, consegui responder.
- Não, não sei.
- É claro que não sabe. Você não sabe nada. Você é um anjinho que caiu do céu. – Ele fez uma pausa, pensativo. –
Exatamente como um anjinho que caiu do céu.
Demorei um pouco, mas entendi o que ele disse. De acordo com a história contada na Bíblia, havia um anjo chamado Lúcifer que traiu a Deus e então "caiu do céu", pode-se dizer assim, com os outros anjos que o ajudaram. Hoje, ele é mais conhecido como Diabo.
Fiquei surpresa com a comparação, mas mais surpresa ainda por ele conhecer uma história bíblica. Ele não parecia muito ser do tipo que conhece histórias bíblicas.
Ficamos alguns segundos em silêncio, até que Paulo decidiu que era hora de falar.
- Foi mais fácil do que eu pensei te fazer ficar sem resposta. Sinceramente, eu esperava mais vindo de
você.
Agora era ele quem sorria; um sorriso malicioso e cheio de divertimento. Demorei um pouco para encontrar o que dizer.
- É verdade, não faço a menor idéia do que responder. Deve ser porque não entendo uma palavra do que vocês dizem. – Minha voz não soou tão firme quanto eu pretendia.
- De verdade, An...na – Rodrigo riu novamente – Estou decepcionado.
- Sinto muito que esteja – Dessa vez eu consegui me manter firme, apesar de não sentir muito por coisa nenhuma. Ouvi passos vindo pelo corredor e imaginei que provavelmente era a zeladora vindo limpar nossa sala, como de costume. Eles claramente também perceberam o som.
- Se me dão licença... - Eu me virei, peguei minha mochila na carteira e tratei de ir embora o mais rápido possível, passando pela porta no exato momento em que a senhora acima do peso e seu esfregão entraram.
Andei para fora da escola tão rápido que mais parecia que eu estava correndo. Quando cheguei ao lugar onde os alunos esperavam por seus pais, a garota-da-tiara-de-oncinha e sua amiga índia me viram e vieram falar comigo.
- Oi. – Disse Isadora com um sorriso bem mais aberto e simpático do que... eu preferia não pensar. – Por que é que você demorou tanto?
Eu
absolutamente não queria conversar sobre aquilo, então dei uma meia-verdade:
- Me atrapalhei com a minha mochila.
Samanta não pareceu convencida, mas também não perguntou nada. Ela não deu a entender que realmente se interessava por isso.
- Ah. – Foi só o que Isadora disse.
Fomos juntas nos encostar na grade para esperar, mas logo o pai da Samanta chegou, e poucos segundos depois, o de Isadora. Não demorou muito, e eu estava sozinha.
Fiquei olhando para o portão de entrada da escola, me perguntando se...
eles já tinham saído, ou se ainda estavam lá dentro. Achei meio difícil que demorassem tanto para sair, então comecei a procurar entre os outros alunos que já estavam do lado de fora, mas não reconheci ninguém.
Voltei meus olhos para rua na esperança de ver o carro do meu pai, e assim fiquei por mais ou menos um minuto, até que alguém sussurrou atrás de mim, no meu ouvido:
- Aproveite o tempo que ainda resta. – Me virei e dei de cara com Rodrigo. Seu olhar era ameaçador. – Não vai durar muito.
Então ele sorriu, se virou e foi para a rua, sozinho, direto para aquela entradinha de favela em que eu o vira entrar no primeiro dia.
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Capítulo 7
Dunas é uma grande cidade litorânea, que fica entre o mar e uma enorme região de dunas de areia branca, que dá nome e rodeia toda a cidade.
Bem ao lado de onde eu moro, a prefeitura fez um reserva ecológica, para preservar a pouca vegetação restante. Na verdade,
bem ao lado mesmo; se alguém pular o alto muro dos fundos da minha casa, vai dar de cara com a mata fechada.
Por isso a vizinhança é meio vazia e calma, sem sujeira ou violência, apesar de Dunas ser considerada uma cidade poluída e perigosa. Parece que os marginais não ligam muito para a gente.
Já a minha casa, bem, eu a amo. É grande e amarela, alegre, e nela vivem eu, meus pais e meu irmão; sem dúvida uma família de dar inveja, apesar de minhas briguinhas com o Guinho.
Posso dizer que moro em lugar perfeito com as pessoas certas, que a minha vida é calma e feliz, e tudo mais.
Mas também posso dizer que foi nesse ambiente que consegui passar uma das piores tardes da minha vida.
Logo assim que cheguei da escola naquela estranha (seria essa a palavra certa? Talvez "macabra" se encaixasse melhor) quarta-feira, fui almoçar, e depois disso fui direto fazer a tarefa; tudo uma tentativa de me distrair para não pensar...
neles.
Mas todo o dever para amanhã não era muita coisa; me tomou apenas cinco minutos. Então decidi colocar em dia absolutamente tudo o que encontrasse na agenda, e, felizmente, isso demorou algumas horas.
Às oito da noite, eu já tinha terminado a tarefa e também jantado e tomado banho. Não havia mais nada a fazer, então pensei: por que não dormir mais cedo hoje?
Claro que, na verdade, eu estava apenas tentando me livrar daquela goteira de perguntas que pingava sem parar no fundo da minha mente; e o melhor jeito de fazer isso era ficar inconsciente, certo?
Errado. Além de levar uma hora para pegar no sono, pensando em todas aquelas perguntas malucas em sem resposta que insistiam em aparecer, eu ainda passei toda a noite tendo pesadelos terríveis, cada um pior que o outro, todos sobre a mesma coisa: alguém me perseguindo e tentando me matar... e, bem, conseguindo; sempre que eu morria, começava um novo pesadelo.
Foi um alívio enorme quando o despertador finalmente me acordou. Apesar de estar completamente exausta pela noite mal dormida, me levantei e me arrumei para a escola mais rápido do que julgava ser possível. Afinal, hoje era o dia em que eu criaria coragem e falaria com
eles pra valer; ou, pelo menos, era o que eu acabara de planejar.
Mas o plano não deu certo: no instante em que entrei na sala, percebi que ambos tinham faltado hoje. Fiquei parada uns dois segundos na porta, processando aquilo.
Quero dizer,
como assim? Claro, é a coisa mais normal do mundo alguém faltar à escola, mas
os dois? Depois do que acontecera no dia anterior? Não podia ser só coincidência.
Mas, se não fosse coincidência, então
o quê seria? Tinha que ser. Por que outra razão ambos faltariam no mesmo dia?
Congelei. Com certeza era a pergunta errada a ser fazer. Automaticamente, meu corpo andou até a cadeira que Isadora guardava para mim, enquanto minha mente voava longe.
Passei as três primeiras aulas sem prestar um pingo de atenção, só imaginando todas as possibilidades. No recreio, fiquei com as duas garotas que aparentemente eram minhas novas amigas, mas também não conversei muito. Nas últimas aulas, me obriguei a ouvir o professor, e acho que consegui, mais ou menos.
Já a tarde foi uma tortura. A espera pelo dia seguinte, para saber se eles apareceriam, para saber que maldita coisa eu faria se isso acontecesse; estava me matando.
Tentei me distrair, assim como fizera no dia anterior, mas não tive tanto sucesso, já que dessa vez as obrigações eram menores, e a ansiedade, maior. Quando enfim dormi, tive pesadelos de novo, mas estes eram diferentes: ao invés de ser perseguida, eu é que ia atrás de um grupo de pessoas desconhecidas, para fazer algo que eu nem fazia idéia do que era. Só sabia que tinha que segui-los, mas nenhuma vez consegui pegá-los.
Só quando acordei para a sexta-feira é que fui me lembrar que era dia de passeio ao museu, o que me deu um pouco de ânimo. Pelo menos
alguma coisa aconteceria hoje, com certeza.
Quando cheguei à escola, percebi que, novamente,
os dois tinham faltado; o que me assustou mais ainda, porque, bem, agora não havia dúvidas de que aquilo não era coincidência: algo
estava acontecendo.
Ainda bastante confusa, me sentei na quadra, onde estavam todos os alunos que participariam do passeio, e ouvi as instruções que os professores passavam. Não demorou muito, ouvi um sussurro atrás de mim, que quase fez meu coração sair pela boca:
- Oi, Anna.
Logo assim que ouvi, me acalmei; era a voz de Isadora.
- Eu não sabia que você também vinha pro passeio. – Ela continuou.
Virei-me para trás e caprichei ao máximo no sorriso:
- Oi. Eu vinha sim. Quer dizer, vim. – Ela riu. Para ser educada, perguntei – E a Sam?
Mais uma vez, chamei uma delas pelo apelido sem perceber. Mas acho que já estava ficando natural, não tinha nenhum problema.
- Ainda não chegou. Mas eu liguei pra ela, está vindo.
- Ah, ok. – Eu respondi meio desinteressada, depois voltando minha atenção para o professor, bem na hora em que ele realmente falou algo interessante:
- E, como no ônibus só há bancos de dois lugares, nada de irem três pessoas juntas, ok? Só duas. E ninguém vai sozinho, porque o número de lugares e o de alunos é exatamente o mesmo. – Ele sorriu, claramente orgulhoso de ter conseguido o ônibus perfeitamente certo. Tarde demais, me lembrei que aquele era o meu PPDS (Professor Preferido Deste Semestre), o de matemática.
E tarde demais também me lembrei que eu, Samanta e Isadora éramos
três garotas, e não duas, ou quatro. Uma de nós teria que ficar separada das outras, e sentar com alguém desconhecido. E me parecia bem óbvio quem seria essa uma.
Não posso dizer exatamente que entrei em pânico, porque, se fosse para isso acontecer, já teria acontecido e seria por uma outra certa coisa bem pior. Mas fiquei meio horrorizada. Sentar sozinha com um desconhecido (e eu podia
sentir que, por ironia do destino, seria um garoto) era algo fora de cogitação para mim. Mas ia acontecer.
Quando finalmente entramos no ônibus, vi Samanta e Isadora se sentarem no fundo – juntas, é claro – do lado esquerdo. Corri e peguei o lugar ainda vazio atrás delas, torcendo para que os cálculos do professor de matemática estivessem errados e ninguém se sentasse ao meu lado.
Eu já estava quase acreditando que isso realmente tinha acontecido quando, atrasado, um garoto entrou correndo no ônibus e procurou por um lugar. Eu também corri os olhos por todos os bancos, mas (é claro) o único com espaço era o meu.
Percebi que ele também devia estar meio desconfortável em sentar ao meu lado, porque correu os olhos por todos os cantos mais de uma vez. Não tinha jeito. Tinha que ser comigo.
Ele veio e, meio timidamente, se sentou. Eu sabia que seu rosto me era familiar quando ele estava longe, mas quando se aproximou eu o reconheci: era Pedro, o garoto daquele trabalho do primeiro dia.
- Oi. – Eu disse, sem pensar.
- Ei, olha, é você! Anna, não é? – Ele parecia meio animado demais, quase como se estivesse forçando.
- É.
Houve uns segundos de silêncio, enquanto o motorista ligava o ônibus e saía dali, até que uma cabeça apareceu por cima do banco da frente.
- Ei, Pedro! – O sorriso de Samanta estava maior do que o normal dela...
bem maior – Eu achava que você não vinha mais.
- O carro deu problema no caminho. – Ele explicou, dando de ombros - Eu e meu pai demos um jeito logo, mas aí eu cheguei atrasado.
- Você mexe com carros?
- Só um pouco. Na verdade, eu só ajudei um meu pai, não fiz nada de importante.
Samanta estava com aquela cara de "o que eu não faria para ver isso!", e eu devia estar com aquela cara de "como assim?".
Tipo, um cara ajudou o pai a dar um jeito no carro. E daí? Até
eu faço isso. A Sam estava impressionada demais. Tentei mudar de assunto.
- Mas e aí, esse museu. Algum de vocês já foi lá? – Ah, e me desculpem estar falando uma coisa tão nada a ver, mas sabe, foi a primeira coisa que me veio à mente para mudar o rumo da conversa.
- Eu não, mas o Pedro já, não é? – Samanta respondeu rapidamente.
- Algumas vezes, na verdade. – Ele sorriu, meio orgulhoso – Minha mãe dá aula de História da faculdade, e às vezes ela vai lá para ajudar em algumas pesquisas do museu, ela fala com o diretor e com o pessoal que trabalha lá, e tudo mais. – Ele parou um pouco antes de continuar - Sabia que eles têm um centro de pesquisa? Só que não podem entrar visitantes, como nós; só pessoas como a minha mãe. Mas eu já fui lá umas duas ou três vezes.
- Nossa, que legal! – Exclamou Sam, um pouco entusiasmada demais - Eu a-m-o História. Deve ser super legal ser filho da sua mãe!
- É, sim. – Ele disse, ainda com um tom orgulhoso.
Eu estava bastante surpresa com a reação de Samanta, justo ela que costumava ser tão quieta, agindo que nem... a Yasmin.
Eu já estava preparada para tentar pará-la de novo quando ouvi a voz de Isadora.
- Sam, senta aqui um pouco... – E depois só um sussurro baixo demais para que eu pudesse entender.
As duas começaram a conversar, e ficou claro que agora éramos só eu e o Pedro.
Demoraram alguns minutos até que ele quebrasse o silêncio:
- Então... você é de Brasília, não é?
Ah, lá vinha toda aquela conversa de novo. Será que é só isso que eu sou nesse lugar? A garota que veio de Brasília? Ah não, espera aí, acho que eu também sou a nerd em redação. Mas isso ele já tinha comentado, então...
- É, sou sim.
- Eu nunca estive lá. – Ele continuou – E, me desculpa, mas também não quero.
Isso me afetou bastante.
- Por quê? – Tentei soar indiferente, sem muito sucesso.
- Bom, eu não tenho nada contra a cidade em si. Mas ficar bem ao lado do centro político, morar ali naqueles prédios que dão vista para a casa do presidente... eu sei que provavelmente a casa dele é mais afastada que isso, mas ainda assim... eu não conseguiria.
Ah, a velha história dos políticos corruptos. Eu já tinha visto isso em muitos lugares, o ódio a Brasília por causa de algumas das pessoas que moram lá, e que em sua maioria nem brasilienses são. Eu tinha ódio a esse ódio. Era tão ridículo, tão sem fundamento... o governo já tinha sido no Rio, e ainda assim todos o amam. Qual é o problema com a minha Brasília? Ela não tem mar, mas é muito mais lind_a _que essa droga de Dunas.
Ela é limpinha, é organizada, é segura, é toda arquitetada. É a melhor cidade do mundo. Não é culpa dela que aqueles nojentos morem lá.
Ah, naquela hora eu explodi. Mas só por dentro. Apesar de que, geralmente, ninguém fala assim da minha cidade e sai ileso, eu não fiz nada de mais. Afinal, o Pedro parecia ser uma boa pessoa. Ele só era meio ignorante, só isso.
Corroendo-me de ódio por dentro (pelo que ele disse, e não por ele), eu fiquei quieta e disse somente um "Ah", que não soou tão despreocupado quanto eu esperava.
Mais uns minutos se passaram, e eu me acalmei. Afinal, era meio ridículo ficar assim durante muito tempo. Estávamos em um passeio, certo? E eu estava com minhas prováveis duas novas amigas. Era para eu curtir aquele dia; mesmo que fosse só um museu, ainda era melhor que a escola.
- Já estamos chegando. – Pedro falou baixinho, depois de um tempo, meio recluso.
Olhei pela janela e vi que estava certo. Lá estava o grande, o melhor-do-que-eu-esperava, Museu da História do Brasil do Município de Dunas, com um homem de terno à porta acenando e dizendo, em seu sorriso, "Sejam bem-vindos!".
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Capítulo 8
Por dentro, o museu era ainda mais incrível. Era grande, bem decorado, e algumas vezes se via em exposição alguma coisa realmente interessante, como lindos quadros de antigos governantes e coisas que as pessoas usavam em diferentes épocas e lugares do Brasil.
Além disso, estava lotado. No começo, eu cheguei a pensar, impressionada, que o lugar era sempre assim. Mas logo Pedro me explicou que era apenas hoje, pois eles abriram uma exceção e deixaram várias escolas virem de graça, para comemorar a volta às aulas ou sei lá. Só sei que havia dezenas de alunos de todas as idades de umas seis ou sete escolas diferentes, todos uniformizados.
Na verdade, tinha tanta gente que, depois de pouco tempo lá dentro, me perdi de Samanta e Isadora. Somente Pedro continuou ao meu lado, enquanto nós dois procurávamos por elas, sem sucesso - depois de uns 10 minutos, desistimos. Sabíamos que elas estavam bem, que a única razão para procurá-las seria para que ficássemos juntos; o que acabamos por decidir que não era razão o suficiente para continuar. Quer dizer, não é como se elas estivessem perdidas ou algo assim.
É claro que eu estava bastante constrangida pela presença masculina andando do meu lado, ainda mais quando a educação me obrigava a falar com ele regularmente. É claro que eu preferia estar sozinha. É claro que eu preferia nem estar naquele museu, por melhor que ele fosse.
Mas não era algo que eu ia conseguir, então só me acalmei e tentei não ficar resmungando comigo mesma; eu sou um saco quando resmungo na minha mente. Então, tentei não prestar muita atenção a Pedro e aprender alguma coisa de verdade; era para isso, afinal, que estávamos ali.
Mas ele não deixou. Não prestar atenção nele, quero dizer. Ficou o tempo todo falando, animado, explicando para mim sobre cada quadro, cada moeda, cada escritura pela qual passávamos. Ele sabia muito mais do que os cartõezinhos que havia embaixo das peças, provavelmente por causa de sua mãe, eu pensei.
Eu estava até interessada no que ele estava falando, mais ou menos, mas não conseguia entender de onde ele tirava tanta animação. Não era como se fosse uma exposição de aliens, ou qualquer outra coisa incrível. Era só um monte de coisas velhas; com um passado legal, mas um tanto inúteis.
Depois de uma meia hora de História (que eu ouvia apenas da boca de Pedro, sem dar a mínima atenção ao guia da nossa turma), nós passamos ao lado de um comprido, estreito e escuro corredor, que ficava entre a área das moedas e a das escrituras. Eu nem teria percebido sua existência se Pedro não tivesse falado, naquela hora:
- Ah, e aqui fica uma das minhas partes preferidas do museu – disse, apontando para o corredor, e depois falando baixo em meu ouvido – Você vai adorar.
Olhei para o lado. As luzes do tal corredor estavam todas apagadas, e a aparência dele dizia "não entre se não trabalhar aqui". Vi que nosso grupo continuou o passeio indo para a próxima ala, e que ninguém sequer olhara direito para o corredor.
Será que ele queria mesmo
entrar ali? Não me parecia uma boa idéia.
- Como assim? – Eu disse por fim.
- Você vai ver.
- Não, eu quero dizer... você pretende entrar lá? Agora?
- Sim, por que não?
- Por que não pode, né?
- E onde é que está escrito que não pode?
Levei um tempo pensando na pergunta dele.
Realmente, não tinha nenhuma placa dizendo que a entrada era proibida. É só que, bem, isso parecia um tanto óbvio. Além do que...
- Nós temos que acompanhar o grupo. Não podemos simplesmente sair e passear por onde a gente quiser.
- Por que não? – os olhos dele brilhavam – Não vamos nos perder, pode ter certeza disso. E depois, nem vão sentir a nossa falta. Mais tarde a gente volta. Só quero te mostrar uma coisa.
- E como vamos achá-los depois? – Eu podia sentir que ia perder a discussão, mas não desistiria até não ter mais argumentos.
- Eu conheço bem o caminho que os visitantes fazem. É só a gente correr que alcança eles.
- Não dá pra saber tanto tendo vindo só umas duas ou três vezes – Eu disse, desafiadora.
- Tem razão. Mas isso é porque eu já vim aqui tantas vezes que perdi a conta...
- Como assim?
- Eu menti lá no ônibus. Eu vivo nesse lugar. Meu pai trabalha aqui de verdade, e às vezes minha mãe vem ajudar. Os dois são loucos por História.
Precisei de um tempo pensando. Nesses poucos segundos olhei para os lados e percebi que, agora, já estávamos razoavelmente longe do lento grupo de alunos, e que se algum professor nos visse provavelmente nos chamaria a atenção.
Me voltei para ele e disse:
- Ok, olha, deixa para lá. Depois você me explica isso direito. Mostre o que você quer mostrar e vamos embora.
Ele pareceu meio decepcionado com a minha falta entusiasmo, mas disse que ótimo, eu com certeza iria adorar aquilo.
Ele olhou para os lados, para se certificar de que não seríamos percebidos, e falou baixo, para mim.
- Vamos.
Então ele pulou para dentro do corredor, e eu, contra todos os meus instintos, vontades e princípios, o segui.
Por dentro, o lugar parecia ainda mais escuro. Pela primeira vez percebi a seqüência de quadros que enfeitavam as paredes. Não eram de figuras históricas, como os que estavam expostos lá fora; na verdade, estes eram puramente artísticos, para decoração, e não me impressionaria se tivessem sido feitos ano passado.
Mas, apesar de a maioria deles retratar belas paisagens, com prados e campos e fazendas, cheios de moças usando vestidos de cores suaves, aqueles quadros só faziam o local ainda mais horripilante.
Horripilante. Acho que essa era a palavra perfeita.
Talvez, se as luzes estivessem acesas, e eu estivesse com uma companhia familiar e não-masculina (ou melhor, sozinha), e os quadros fossem de filhotinhos, e eu soubesse para onde diabos estava indo, o corredor parecesse até amigável. Mas não era o caso agora.
Nós andamos por alguns segundos até chegarmos à última porta, em cima da qual estava escrito "Centro de Pesquisas". Olhei meio amedrontada para ela, me perguntando se era lá dentro que Pedro queria entrar. Esse lugar não precisava de uma placa para dizer a todos que, sem dúvida alguma, a entrada era proibida. Mas então ele pegou na maçaneta.
- O que está fazendo?! – Soltei sem pensar.
- Abrindo a porta. – Ele respondeu com um tom confuso.
- Eu sei. Esse é o problema!
- Por quê? Ah, você não achou que eu queria te mostrar um
corredor, né? Eu vou te mostrar uma coisa aqui dessa sala.
Não tive como argumentar; não porque estivesse sem argumentos, mas porque percebi que Pedro não ouviria a nenhum deles.
- Tudo bem, então. – Eu disse, derrotada.
Ele abriu a porta e entrou furtivamente. Dentro, as luzes estavam apagadas, e ele teve que tatear na parede até encontrar um interruptor. Quando a sala se iluminou, fiquei impressionada. Era bem maior e mais moderna do que eu esperava; parecia uma cena de filme.
Pedro começou a remexer nas caixas que estavam em cima da mesa, procurando por alguma coisa.
De repente, me dei conta do que estávamos fazendo. Éramos dois adolescentes fugindo dos nossos professores em horário de aula, invadindo um centro de pesquisa de um museu - obviamente uma área restrita -, e mexendo nas relíquias históricas meticulosamente preservadas sem nenhum cuidado.
Pedro dissera que eu ia adorar aquilo. Pois ele devia achar que eu ia adorar a prisão, porque mais proibido do que estávamos fazendo não dava.
Ok, dava pra ser bem pior, mas, ainda assim, era ruim
o bastante. Pelo menos até aquele momento, eu tinha certeza de que não ia adorar coisa alguma.
Até aquele momento.
Porque foi aí que ele achou o que estava procurando e ergueu para me mostrar.
As mãos dele estavam juntas, mindinho com mindinho, fazendo uma forma côncava como a de um prato. Dentro havia dezenas de pedrinhas redondas, brilhantes e pequenas, estranhamente colocadas uma do lado da outra; demorei um pouco para perceber que estavam assim porqu_e eram, na verdade, as peças de uma dúzia de colares.
Fiquei muda por alguns segundos, admirando;
era mesmo muito bonito. Pareciam diamantes de tanto que brilhavam, e pérolas de tão perfeitamente redondas qu_e eram.
Mas também fiquei muda porque não fazia idéia do que dizer. Estava meio confusa; na verdade, estava esperando que ele me contasse a história daqueles colares, me explicasse o que eles tinham de tão especial – além de, é claro, serem tão lindos.
Mas Pedro não disse nada, e então eu soltei:
- São... muito bonitos. Mas eles...?
- São colares que foram dados às mulheres da alta sociedade brasileira, - ele explicou - em uma festa secreta para comemorar a criação de Brasília.
Brasília? Hm, agora me empolguei.
- Sério? Que legal. Eu nem sabia disso.
- É que não foi nada de mais, só uma festinha que o JK deu. E o... brinde, acho que se pode chamar assim, foi esse colar, e uns anéis para os homens. Mas é tudo falso. Não valiam nada.
Ele parou um pouco e virou a cabeça de lado, pensando, enquanto olhava para o nada atrás de mim. Depois continuou:
- Se bem que, como até ano passado os historiadores pensavam que só existiam 10 desses, valeram muito por um bom tempo. Mas na verdade tem algumas centenas. – Ele riu – Foi uma festa e tanto. Se bem que muitas mulheres levaram colares extras para toda a família... mas ainda assim.
- É. – Eu concordei, ainda meio sem saber o que pensar. Era lindo, era uma curiosidade, e era sobre a minha Brasília. Mas não uma coisa muito extraordinária; na verdade, me impressionava tanto quanto as outras coisas relativamente interessantes expostas lá fora. Nada de mais.
Eu decidi que estava na hora de sugerir que fôssemos embora, mas Pedro falou antes que eu pudesse abrir a boca.
- Então, vai vir aqui ou não?
Percebi, tarde demais, que eu ainda estava colada ao lado da porta, enquanto que ele estava do lado de lá da mesa do centro, de frente para mim. Eu só podia ver o que estava em suas mãos, mas não o conteúdo das caixas na mesa. Curiosa e obediente, me aproximei, olhando dentro da caixinha aveludada e acolchoada de onde Pedro tirara os colares.
Ela era muito bonita também, mas o que me impressionou foi que não era a única: as enormes caixas de papelão em volta dela estavam lotadas de outras caixinhas idênticas, que eu supus estarem cheias de colares também.
- Nossa. – Foi só o que consegui dizer.
- Pois é. – Pedro respirou fundo – Então, você quer um?
- Como assim? – Perguntei sem prestar muita atenção ao que ele dissera, ainda olhando e – confesso – mexendo dentro da caixinha aberta.
- Quer um colar? Pra ficar pra você. Parece que você gostou.
Dessa vez eu ouvi.
- Como assim?! Eu não posso pegar um!
- Claro que pode. Não ouviu o que eu disse? São falsos, só tem uns 40 anos de existência e existem aos montes. Não valem tanto a ponto de alguém se importar se eu te der um. Na verdade, meu pai deu um pra minha mãe, sem pedir pra ninguém, e ela amou... – ele pareceu se arrepender imediatamente da comparação por algum motivo que eu não pude perceber, e depois desconversou – mas, bem, o importante é que, quando a direção do museu soube, não ligou. E eu
pedi permissão. Então, sem problemas.
Peguei um deles com a ponta dos dedos e o observei de perto, colocando-o contra a luz para ver melhor o prisma colorido que fazia. Aquilo não parecia falso para mim, mas que grande coisa eu entendia? Olhei bem e acabei por confessar para mim mesma que, era verdade, eu
queria um. Eles eram tão lindos...
- Tudo bem, então. – respondi. Demorei um pouco para perceber que, livre e espontaneamente, eu estava sorrindo. Sorrindo mesmo, por fora e por dentro: eu estava feliz. Não porque tivesse ganhado um presente – apesar de isso ajudar um pouco também – mas por alguma outra razão maior que não consegui reconhecer. Não era como se eu fosse uma pessoa triste, mas naquele momento eu estava feliz de um jeito novo, e, ao invés de tentar descobrir a causa, eu apenas aproveitei.
- Obrigada. – Eu disse por fim.
- De nada. – Ele respondeu, meio tímido. Depois, ele respirou fundo e perguntou de uma vez, sua voz soando como se ele estivesse fazendo um grande esforço para parecer indiferente – Quer que eu coloque em você?
Meu sorriso desapareceu na hora.
- Não, não precisa.
A expressão dele ficou entre o normal e o torturada por um segundo. Eu então soltei rápido, antes que ele se magoasse:
– Eu amei, de verdade, mas... não acho que teria coragem de usar.
Ele então pareceu confuso.
- Por quê?
- É bonito demais. – Dei de ombros.
-
É bonito demais? Pensei que bonito era bom. – Ele disse, a voz com uma pitada de sarcasmo.
- E é, para a maioria das garotas. Eu só não gosto de chamar muita atenção. Não tenho coragem de usar coisas que fariam as pessoas olharem para mim, mesmo que seja porque acharam que ficou legal. Prefiro passar despercebida. – Expliquei, me sentindo uma completa retardada.
Mas aí ele pareceu compreender a minha maluquice.
- Ah, sim, claro. Não tem problema. Eu entendo... faz sentido. – Ele riu, e depois ficou sério – De verdade.
A seriedade não conseguiu se segurar por muito tempo e logo ele abriu um sorriso; um grande, alegre e lindo sorriso que fez com que, do nada, meu coração começasse a pular enlouquecido.
No primeiro segundo eu só olhei - ele sorrindo para mim daquele jeito dava de dez em todos os colares e caixinhas juntos. Mas então veio a confusão.
O que foi que deu em mim? Qual era o problema do meu coração? E por que eu estava tão admirada? Sim, o sorriso dele era bonito, mas eu já vira muitos atores famosos com sorrisos bonitos sorrindo, e nunca me sentira assim. Não era nada de mais: era um sorriso. Não era pra eu me sentir assim.
Eu ainda estava meio atordoada quando ele falou.
- Acho melhor a gente ir embora agora. Não estamos cometendo nenhuma infração, mas não estou com saco pra sair explicando tudo se algum professor desavisado achar que estamos fugindo.
Prendi-me ao novo assunto com toda minha atenção, para ver se toda aquela admiração passava. Para isso, achei melhor continuar a conversa:
- Mas nós
estamos fugindo. Mais ou menos.
- Não estamos, não; eu tenho permissão do pessoal do museu para vir aqui. Só estava com preguiça de ir atrás dos professores e falar com eles. De qualquer jeito, temos que ir agora. Guarde o colar em algum lugar.
- Tudo bem. – Respondi, enquanto colocava aquele belo presente no melhor lugar da minha bolsa.
Depois, ele saiu da sala, atravessou o corredor e andou apressado, enquanto eu o seguia, até chegarmos ao nosso grupo.
- Operação bem-sucedida. – Ele riu para mim quando chegamos, ofegando por causa da corrida – Ninguém percebeu.
- Viva nós. – Comentei enquanto me enfiava de volta em meio à multidão, de repente tremendamente ansiosa para achar a Sam e a Isa.
- Viva nós. – Ouvi sua resposta baixa atrás de mim, antes que os murmúrios à minha volta apagassem completamente sua voz.
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Capítulo 9
Não demorou muito até que eu o perdesse totalmente no meio de toda aquela gente, mas não me importei. Na verdade, precisava dele longe para poder conversar com a Sam e a Isa, o que eu estava louca para fazer.
Comecei a procurar por elas entre o nosso grupo, mas não estavam em lugar nenhum. Pensei então que, logicamente, elas foram separadas de mim e do Pedro e estavam em outro grupo, com outro guia, e por isso nem nós não as achamos no começo e nem eu podia achá-las agora.
Então, quando os dois professores, o guia e todo mundo do grupo se distraiu com um moleque que tinha cuspido chiclete no cabelo de uma garota, eu fugi, entrando no primeiro corredor alternativo que vi.
Eu tinha que procurar os outros grupos, achar minhas amigas. E não podia esperar até depois do passeio.
Levei uns bons cinco minutos até achar mais gente; mas era um grupo cheio de criancinhas, então nem olhei entre eles. Continuei procurando, mas, mesmo depois de ter revirado todo o museu, não consegui achá-las. Não fiquei preocupada com elas, sabia que estavam em movimento também e que eu
tinha olhado onde elas estavam agora, mas que simplesmente não fora na hora certa.
Eu já devia ter procurado por mais ou menos meia hora quando desisti e decidi voltar para Pedro – que era com quem eu ficaria se eu voltasse para o meu grupo. Não sei bem, eu me sentia confortável perto dele; era natural.
Mas eu estava totalmente perdida e não sabia onde eles estavam agora. Que ótimo. Quem teve a genial idéia de sair procurando a esmo a Sam e a Isa em um museu enorme, afinal de contas?
Com muita raiva de mim mesma, acabei por decidir que o melhor a fazer era ir lá fora e ficar esperando ao lado do ônibus. Com sorte, se eu me escondesse bem até meu grupo voltar, nenhum professor perceberia nada.
Mas, quando enfim cheguei ao lado de fora - o que demorou um pouco, porque a) eu estava meio perdida e b) eu parava o tempo todo para ver as exposições - vi um monte de gente andando, vindo dos fundos externos do museu. Um guia ia à frente, com um adulto de cada lado, e alguns alunos iam seguindo-os; era outro grupo, com certeza. Escondi-me imediatamente, com medo de ser apanhada, e os observei passarem e entrarem de novo no museu. Não vi nem Sam nem Isa no meio, mas aquela imagem me deu uma idéia.
Se eles estavam vindo do fundo do museu, e não haviam ido embora ainda, então provavelmente havia algo interessante para se ver lá trás. Imaginei que todos os grupos deviam passar por lá alguma hora.
Então, assim que me vi livre de olhares, fui correndo para os fundos, na esperança de encontrar minhas amigas, ou, pelo menos, meu grupo. Andei por um corredor externo que ficava ao lado do museu, entre este e um muro alto; no chão, havia apenas uma grama recém-cortada. Estava ligeiramente escuro, já que não havia iluminação e o sol não entrava totalmente ali. Achei o lugar muito inóspito para que os grupos de alunos passassem por ali, e também não vi nada de interessante que os pudesse levar ate lá. Além do que, fiquei um pouco sobressaltada; era um lugar meio assustador, na verdade.
Depois de um minuto andando (o museu
era mesmo enorme), passei por uma porta na lateral, que dava para o lado de dentro. O corredor ainda continuava por mais uns metros, e eu podia ver que o lugar no final era grande e bem iluminado. Olhei para a porta ao meu lado: era estreita, feia e mal acabada.
Fiquei em dúvida. Teria o grupo que vi saído por essa porta ou vindo lá do final do corredor?
Parei para pensar. Não fazia muito sentido que tivessem vindo pela porta, primeiro porque, bem, não havia absolutamente nada para ver entre ela e a entrada do museu; depois, ela era bem mais ou menos, tinha cara de porta de serviço, só para o pessoal da limpeza, ou qualquer coisa assim.
Então eles deviam ter saído para ver o que estava nos fundos mesmo. Decidi continuar andando pelo corredor, mas então ouvi o que menos esperava naquele lugar deserto. Eu ouvi uma voz.
- Anna? Cadê você? – Disse a bela voz de um garoto.
Olhei a minha volta, com o coração aos pulos por causa do susto, mas não vi ninguém. Olhei de novo para todos os lados, mas tinha certeza de que estava sozinha no corredor; não havia lugar para se esconder ali.
Aquilo só fez meu coração disparar mais rápido; naquele momento, eu quase entrei em pânico. Eu já estava meio assustada por estar sozinha naquele lugar ligeiramente sinistro, além de que estava com a sensação de que algo muito ruim estava prestes a acontecer. Agora, eu tinha certeza disso. Com muito medo, abri a boca para responder para o nada, mas antes ouvi a voz de novo.
- Anna, é sério. Responda, por favor! – Dessa vez reconheci a voz de Pedro, apesar de estar meio distorcida. Ele não estava aqui, mas, quando ouvi sua voz, me acalmei, pensei com clareza e percebi que, desde o começo, eu só estava ouvindo o que ele falava do lado de lá da porta.
Sentindo-me bastante idi_ot_a por ter pensando que estava rolando algo sobrenatural, respondi, gritando para que me ouvisse:
- Estou aqui! Espere aí, já estou indo!
Não tinha mais motivos para querer ver o que existia no final do corredor, agora que eu sabia que ele estava bem do outro lado da porta e estava preocupado, me procurando. Suspirei, pensando na bronca que levaria dos professores, e abri a porta.
Do lado de dentro, tudo estava escuro. Levou alguns segundos até que meus olhos se acostumassem e eu visse que estava em uma salinha pequena, cheia de utensílios de limpeza, sem nenhuma saída além da porta atrás de mim.
Mas não foi isso que me fez congelar no lugar. Foi a imagem
dele.
Não era o Pedro. Nunca fora o Pedro. Na minha frente, ele estava sozinho, de pé, com os braços cruzados e um sorriso malicioso e divertido nos lábios.
- Eu imito bem, não? – Disse Rodrigo.
Nem me preocupei em responder; me virei com a intenção de sair dali de novo e ir correndo para qualquer outro lugar, mas não pude. Atrás de mim, alguém fechara a porta; tentei abri-la, mas estava trancada.
- Desista. Nós vencemos. – Ele disse para mim, ainda sorrindo muito.
Olhei de volta para ele, em pânico total. O que estava acontecendo? O que ele queria? Qual era o problema dele, afinal? O que eu fizera?
O que eu ia fazer?
- Na verdade, foi mais fácil do que eu pensava. – Ele continuou. – Mal pude me divertir. Parece que você não é lá essas coisas, hein?
Engoli em seco. Ele parecia esperar minha resposta, mas não consegui pensar em nada. Ao invés disso, fiquei ali de pé, encarando-o, enquanto ele me encarava. Por fim ele desistiu e disse alguma coisa:
- De verdade, é só isso, Andressa? Eu sinceramente esperava mais. Você não vai fazer nenhuma ameaça nem sacar uma arma, nem lutar nem nada? Vai deixar a gente te levar fácil assim? – Apesar do sorriso e do tom de deboche, pude ver a real curiosidade e insatisfação em seus olhos. Demorei um pouco para perceber o erro que ele cometera.
- Meu nome é Anna – Corrigi.
- Ah, me poupe! Não vá bancar a inocente agora.
Sabemos que é você. – Ele riu – Devia ter arranjado um disfarce melhor. Nerd boazinha? Qual é! É tão o contrário de você que chega a ficar óbvio.
Naquele momento, eu entendi. De repente, todas as peças se encaixaram, e eu vi o que estava acontecendo; tão óbvio que senti completamente id_iota por não ter percebido antes.
Eles não me odiavam; eles nem mesmo me
conheciam. Viram-me pela primeira vez na segunda feira, assim como foi a primeira vez que eu os vira. Eles não tinham nenhum problema comigo, nem eu tinha feito qualquer coisa para eles.
Mas alguém tinha. Era essa tal Andressa quem eles queriam, quem fizera algo muito errado e que devia estar em uma encrenca danada, a ponto de ter que fugir deles... no começo, senti muita pena da pobre garota que estava, em algum lugar, realmente se escondendo e com medo deles por algo que tinha mesmo feito e, assim, não podia negar.
Mas a pena não durou nada – logo eu percebi que estava sendo confundida com ela e, seja lá o que tinham planejado para ela, iam fazer comigo. Ela era uma droga duma sortuda, e eu era muito, mas muito azarada. Ser confundida com alguém que está sendo perseguido por marginais. Só podia acontecer comigo mesmo.
- Acho que é um mal-entendido. – Balbuciei, à beira de um colapso, depois de perceber de quem eu estava nas mãos e o que eles provavelmente pretendiam – vingança.
- Eu acho que não é.
- Mas é. - A essa altura eu já estava choramingando, mas minha voz não demonstrava muito isso. – Eu juro! Não faço a menor idéia do que vocês estão falando, nem quem é essa Andressa... seja quem for, eu não sou ela! Juro! – Agora eu chorava pra valer.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, e então suspirou, decepcionado.
- Quer saber? Isso foi patético.
Depois disso, senti a porta se abrir atrás de mim. Virei-me para ela esperançosa e me preparei para fugir, mas não houve tempo: dei de cara com um jovem de uns 19 anos bem grande segurando um saco e uma barra de metal.
Depois, senti uma pancada forte na cabeça, acima da orelha; a dor foi intensa e aguda, muito pior do que rasgar o joelho. Soltei um grito baixo e curto, e então caí, de repente sem forças nem mesmo para ficar de pé. Parecia que eu estava prestes a desmaiar. E acho que foi isso mesmo que aconteceu.
A ultima coisa que vi foi o rosto
dele, que sorria de novo, divertido, e depois minha visão esvaeceu; tudo ficou escuro. Antes que eu apagasse totalmente, ouvi vozes ao longe que chamavam preocupadas por meu nome, entre elas a de Pedro. Mas àquela altura eu estava tão longe que não podia mais saber se eram reais, um sonho, ou as vozes que a gente deve ouvir depois que morre, nos chamando para o além.
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Capítulo 10
Escola. Apesar de tudo, depois de tudo, eu ainda tinha que vir à escola.
Que perda de tempo; sinceramente, como se eu não tivesse um mundo de coisas a fazer e outro a me preocupar. Me diz: como é que eu saber a colocação pronominal correta vai fazer
alguma diferença na minha vida? Na dos outros tudo bem, porque aí eles vão escrever do jeito certo, passar no vestibular, arranjar um bom emprego e toda aquela baboseira que os professores falam pra convencer a gente que a matéria deles é importante. Mas eu? Fala sério.
Eu olhava para os lados e me via cercado de um bando de idiotas, todos aqui, por livre e espontânea vontade. Quero dizer, é claro que os pais deles os mandaram vir à escola, mas aí é que está: eles simplesmente obedeceram. Se quisessem
mesmo não estar aqui, sem dúvida arranjariam um jeito de fugir.
Não é o meu caso. Eu sou obrigado,
obrigado mesmo, a participar dessa idiotice. Na verdade, eu e o Paulo. O resto deles não precisa se preocupar com esse tipo de banalidade - eles podem gastar esse tempo para se dedicar ao que realmente importa, como eu devia poder, como o outro azarado do meu lado devia poder.
Como
ela pode.
Argh! Como se eu já não tivesse coisas o suficiente para me preocupar, ainda tem ela! Ela, que deve estar por aí, livre, arquitetando sua preciosa vingança; ela, que talvez até mesmo já tenha colocado-a em prática, se a conheço bem.
Que ódio! É totalmente injusto que ela possa estar, agora, se preparando, e eu tenha que estar nesse lugar ridículo.
Há, há", eu pensei. "Como se a vida fosse justa."
E ainda por cima, a professora nem mesmo está ensinando alguma coisa. Como eu disse, discurso de professor. Ela está mostrando para nós porque devemos aprender português e qual a importância da disciplina, e que como nossa profissão é ser aluno, nós devíamos nos dedicar mais a isso. Qual é,
isso não é profissão - é prisão.
Mas, de repente, me bateu a curiosidade. Exatamente do quê ela estava falando agora?
- ... e hoje, nós vamos receber uma nova aluna na nossa turma! Não é empolgante? O nome dela é Anna e ela vem de Brasília! Na verdade, ouvi falar que ela até ganhou o concurso de redação do DF... Ah, não será uma honra para todos nós estar com uma escritora prodígio como ela? Li a redação que ela escreveu, e simplesmente... – E simplesmente eu não consegui continuar prestando atenção àquela propaganda barata. De verdade, eu podia odiar a escola, mas aquela professora se destacava. Qual era o nome dela mesmo? Romina, eu acho, algo assim. Tanto faz.
Bom, eu só sei que, depois disso, se passaram mais uns cinco minutos (eu diria cinqüenta, mas o relógio acima do quadro não concordava comigo) e a tal da Anna chegou, atrasada.
Mas não era a nerd desconhecida, metida e com a vidinha perfeita que eu esperava ver.
Não, na verdade, passava longe.
Ela
parecia uma nerd, mas eu sabia muito bem, e Paulo ao meu lado já devia ter percebido, que ela não era. Ela nem mesmo se chamava Anna. Ela era
ela. E estava aqui. Nessa sala de aula. Nessa escola. Nesse momento. Perto de mim.
De repente, o chão debaixo dos meus pés pareceu sumir. O que é que ela estava fazendo aqui? Por quê? Será que queria executar sua preciosa vingança
aqui, na escola? Na frente de todo mundo? Ela era louca?
Não, não era. Ela devia saber muito bem o que estava fazendo, devia ter pensado em algum plano muito mais diabólico do que eu podia sequer imaginar; na verdade, eu ainda não conseguia nem decifrar o que haveria de proveitoso para ela em estar aqui.
Mas talvez...
Talvez a idéia seja nos espionar, vigiar, extrair informações sobre o nosso dia-a-dia para que ela possa saber a hora e o lugar certos para fazer o que quer que ela planeje fazer. Ou algo assim. Não sei. Acho que vou ter que falar sobre isso com Paulo na hora do recreio, mesmo... e mais tarde, com o pessoal. Aí então eu tento descobrir que diabos ela está fazendo aqui.
Argh! Eu não acredito nisso! Ela precisava mesmo ficar me lembrando que minha vida corre perigo até aqui, onde às vezes eu consigo não pensar nela? E ainda por cima aumentar esse risco ficando tão inevitavelmente perto de mim todo santo dia?
Será que, por acaso, o plano dela é me torturar com essa curiosidade angustiante e depois, quando eu estiver indo para casa, longe da vista de qualquer um, me matar?
Um tremor de puro pânico me percorreu quando me dei conta da possibilidade. E se fosse isso mesmo?
Era o plano perfeito. A vingança perfeita. Ninguém nem mesmo suspeitaria dela; no máximo, da "Anna", mas não dela. Provavelmente Paulo perceberia, mas não tem a menor chance dele algum dia ir até uma delegacia prestar queixa contra ela. Há há. Queria ver ele tentar.
Ou talvez os planos dela também o envolvam, e o pessoal. Faria sentido... mas ela não se atreveria a atacar todos nós juntos. Nem mesmo
a mim ela pode derrotar no mano a... mana.
Se bem que ela era esperta demais para tentar lutar comigo. Ela com certeza estava tramando algo muito maior, muito mais complexo e diabólico do que eu jamais seria capaz de decifrar.
É, talvez pensar em possibilidades nas quais eu vá morrer dentro das próximas 24 horas não seja uma boa idéia; não por enquanto, pelo menos. Talvez agora o melhor a fazer seja dar uma segunda olhada na garota – afinal, eu estava pensando
nela quando a "Anna" entrou. E se a "Anna" for a Anna mesmo e eu esteja apenas ficando neurótico? Pela cara de Paulo, ele não desconfia de nada. É provável.
Além do que, checar o que ela está fazendo agora deve ser uma boa idéia:
- ... o diretor me falou que você vinha. – Ela ouvia a professora dizer - O Darwin está muito feliz de tê-la como aluna. É verdade que você ganhou o concurso de redação do Distrito Federal? – Eu ouvia a professora fazer sua propaganda barata.
Olhei imediatamente para a... "Anna" (eu me recusava a pensar no outro nome) e vi que, por um segundo, a máscara perfeitamente polida de queridinha do professor esvaeceu, e o que realmente estava por detrás fez uma leve careta. Mas foi rápido demais para que eu – ou qualquer outra pessoa – pudesse ler o sentimento que ela escondia. Se bem que eu não precisava tirar aquela máscara idiota para saber o que estava lá dentro. E era ela, agora eu tinha certeza.
Depois disso, um sorriso tímido voltou aos lábios da garota e ela deu a sua brilhante resposta:
- Ahã.
- Bom, bem-vinda ao Darwin. Meu nome é Rolina, eu sou a professora de redação e interpretação textual. Espero que goste da escola. Qual é o seu nome mesmo?
Ela respondeu depois do meio segundo de espanto com o nome da professora, pelo qual todos nós passamos no nosso primeiro dia:
- Anna. – E quase todos acreditaram.
- Ah, sim. Turma, educação! O que é que a gente diz quando tem uma aluna nova?
- Bem-vinda, Anna. – Disse a turma.
- Volte para o inferno, Andressa. – Murmurei eu.
Paulo não disse nada e nem ouviu o que eu disse, apenas continuou desenhando no caderno, que era o que ele estava fazendo desde que a aula começara. "Anna" então foi se sentar em uma cadeira bem afastada; estava bem óbvio que ela não queria chamar atenção, pelo jeito que se movia.
Foi quando de repente, vindo do nada, uma idéia me passou pela cabeça.
Não era só ela que estava perto de nós. Nós estávamos perto dela. Nós podíamos, sim, contra-atacar. E desde quando ela era assim tão poderosa a ponto de achar que faria eu e o Paulo tremermos nas bases só por causa da sua presença? Esse jogo funciona dos dois lados. Não somos completamente incapacitados - temos nossos truques debaixo da manga, e não temos medo de usar.
Talvez, quando chegar a hora de reunir todos e contar sobre tudo isso, a gente não se preocupe em descobrir o que ela quer aqui; e sim o que nós vamos fazer com ela. Porque nós
vamos fazer algo com ela; e essa perspectiva melhorou muito a minha forma de vê-la.
Ela não estava aqui como ameaça: estava aqui se fazendo de alvo fácil, na verdade. Será mesmo que ela seria tão burra? Ontem eu não acreditaria, mas lá estava ela, se colocando na mira do meu revólver. Ou ela era muito mais idiota do que eu pensava, ou o seu plano era muito mais complexo e inteligente. Mas isso não importava. Porque fosse o que fosse, não iria funcionar. Não mais.
Voltei minha atenção ao rosto dela e percebi que ela também me encarava; as bochechas coravam e a expressão mostrava perfeitamente a sensação de ai-que-vergonha-por-que-ele-está-me-olhando-assim-?, na qual eu, obviamente, não acreditei. Ela era uma ótima atriz, e um dia cometeu o erro de me deixar saber disso.
Logo ela desviou o olhar, exatamente o que uma garota normal faria. Mas eu não. Eu a encararia com a melhor máscara de raiva que pudesse, por quanto tempo conseguisse; uma hora ela teria que fazer alguma coisa - apesar de ser boa atriz ela também era fácil de irritar.
E, como o garoto muito inteligente que eu sou, dei o meu máximo para irritar a garota que queria me matar. Pode não soar uma boa idéia, mas confesso que, naquela hora, eu estava muito confuso e com muita raiva dela para pensar racionalmente. Deixa-la nervosa me pareceu, na hora, brilhante. Além do que, olhar para ela me ajudava a lembrar do quanto eu a odiava, e a pensar em um jeito de
eu me vingar
dela.
Fiquei tão concentrado nisso que mal percebi as duas vezes que o sinal tocou e que aquela menininha... a Yasmin, eu acho... veio falar com ela, nem quando tive que fazer algum trabalho com o Paulo (que provavelmente fez tudo sozinho, eu acho - não me lembro bem). Na verdade, ele até levou alguns segundos para me acordar e dizer que devíamos descer para o recreio, quando a terceira aula acabou.
Depois disso, me levantei imediatamente, e quase corri para o lugar afastado onde ficávamos durante o intervalo, rebocando Paulo atrás de mim; eu agora tinha um plano, e nós dois tínhamos muito o que conversar.
Próximo capítulo
Capítulo 11
- Talvez a gente deva grudar nela, para poder ver o que ela está fazendo o tempo todo, mas de um jeito que ela não possa evitar. – Sugeriu Paulo, enquanto comíamos nossos lanches, sentados num banquinho afastado. – Podíamos entrar no... círculo social, ou sei lá, que ela entrar.
- É, do jeito que somos populares, vai ser super fácil - Resmunguei.
- Ah, não enche, Rodrigo. Eu to falando sério aqui. Eu vi a Yasmin conversando com ela... mesmo sendo quem ela é, vai ser difícil resistir àquela garota. Então, temos algumas horas para sermos os melhores amigos da baixinha, e depois, tha-ram: livre acesso ao nosso alvo.
- E por que é que eu iria querer passar o dia todo perto
dela? Fala sério, Paulo. Já não é suficiente ter que vê-la todo dia?
- Olha, eu sei que você tem suas birras com a garota, e eu respeito isso, você tem todo direito. Mas temos que pensar racionalmente, aqui. Seguir esses seus sentimentos obscuros provavelmente não vai ajudar em nada, só vai nos guiar para a armadilha dela. Você tem que esquecer o passado se quiser continuar respirando, cara.
- Disse Paulo, o poeta.
- Ah, você ta um saco, hoje! Dá pra se concentrar? Não sabemos nem se ainda estaremos vivos quando o sol... quero dizer, de noite.
- Você ia dizer "quando o sol se pôr", não ia? Que nem naqueles livros maricas de poesia que você gosta tanto, não é?
- Minha mãe me obriga a ler aquilo desde sempre. Não é minha culpa se acabei me acostumando.
- Também não é sua culpa aquilo ser totalmente de mulherzinha. – Eu ri.
- Já vi que vai ser impossível conversar com você hoje. Ok. Olha aqui: eu tive um idéia e vou coloca-la em pratica, quer você queira ou não. Não sei quanto a você, mas ainda quero salvar a nossa pele.
- Ok, você me pegou. – Murmurei – O que é?
- Nada que precise da sua ajuda para acontecer. Fica na tua, ta?
- Não, agora eu parei. Sério. Me diz aí, o que é?
Ele suspirou fundo.
- Sabe a Carla, uma das gêmeas?
- Acho que sim.
- Bem – Ele riu divertido – Por acaso eu encontrei isso na minha mesa, hoje mais cedo. Ela que mandou. – Ele rolou os olhos para mostrar como achava aquilo absolutamente ridículo.
Peguei o papel de caderno dobrado que ele me mostrava e comecei a ler. Quase caí pra trás quando vi que era uma carta de amor.

Fiquei alguns segundos em choque antes de começar a rir. O Paulo recebendo cartinhas melosas de amor? Se bem que essa não era exatamente melosa, era na verdade bem confiante, mas ainda assim, era uma cartinha de amor.
- Cara, eu simplesmente não acredito nisso. Você não precisa ficar compartilhando comigo a sua vida amorosa, sabia? – Eu disse entre uma risada e outra.
- Há há, que engraçado. – ele ironizou - Só te mostrei isso porque pode nos servir pra alguma coisa.
- Pra quê?
- Presta atenção: você – eu; eu – Carla; Carla – Yasmin; Yasmin – Andressa. Isso dá o que?
Fiquei quieto por um momento, absorvendo o plano.
- Pode funcionar. Assim podemos espioná-la sem que ela possa nos impedir.
- Exatamente. – Concluiu ele – Foi o que eu disse.
- Então... – Eu comecei a rir de novo – Você pretende responder a carta?
- Ugh, nem me lembre disso. Mas... sim, acho que vale a pena.
- Cara, que a força esteja com você, então.
- É, eu sei. Falando nisso, eu tenho que ir agora. Sabe como é.... foi o que eu disse, temos só algumas horas pra virar amigos da baixinha.
- Correção: você tem. Você é quem teve essa idéia, eu não vou me meter nisso.
- E é bom que não se meta mesmo. Não quero que você estrague tudo, como sempre.
- Hm, estou começando a achar que você não está tão triste com o seu papel no plano... se quer ficar sozinho com a Carla, não estressa que eu te dou toda a liberdade, amigo. – Eu ri de novo.
- É, realmente, está impossível conversar com você hoje. – Ele disse enquanto se levantava. – E vê se muda de humor antes da reunião depois da aula, ok? Até onde eu sei, você não quer estar na mira de mais ninguém.
- Vou tentar me controlar. – Eu disse, ainda rindo, enquanto ele já ia andando. – Boa sorte! – Eu gritei, mas não sei se ele me ouviu.
Só quando ele já estava bem longe é que fui parar para pensar naquele plano mais a sério; e logo eu cheguei a uma conclusão.
Há há. Idiota. O plano era bom, mas se oferecer de isca não foi uma grande idéia. Para ele. Não era nem só a Carla; era a própria Andressa. Mas se o cara quer se arriscar, problema dele. Melhor pra mim: recebo as informações sem ter que bancar o espião. Me dei bem.
Não fiquei muito tempo sozinho até que o sinal tocasse novamente. Logo estávamos todos de volta para nossa sala: Andressa num canto conversando com Yasmin – se bem que parecia que ela estava era levando uma bronca da baixinha -, Carla piscando o tempo todo para a nossa direção e retocando a maquiagem, eu sentado no meu lugar e Paulo do meu lado com uma cara meio... enojada. Tive que fazer muita força para conter o riso, porque de certos ângulos dava até para ver a marca do brilho de Carla na bochecha dele, e as partes que ele borrara ao tentar limpar aquela meleca que as mulheres tanto amam da sua cara.
Mas não fui forte o suficiente – confesso que soltei algumas risadas quando o vi fazendo mais uma inútil tentativa de se livrar do brilho. Era simplesmente hilário demais.
As últimas aulas começaram e minha mente começou a voar. O meu plano estava funcionando, e eu nem mesmo tive que compartilha-lo com Paulo; a brilhante idéia dele acabou tomando toda a nossa conversa. Mas pelo menos se encaixava no meu: matar Andressa.
Já estava na hora, na verdade, de nos livrarmos daquela ameaça constante, ainda mais agora que nossos grupos tinham se separado. Eu ainda me lembro de como foi, há dois meses atrás. Quando toda essa confusão começou...
- Como assim, vai sair?! – Ela gritou, assustando todos os pombos que procuravam comida no lixo atrás de nós – Você acha que é assim, quando enjoa você simplesmente sai? Não aprendeu nada nos últimos três anos?
Respirei fundo e tentei parecer calmo e seguro – no momento uma missão quase impossível.
- Eu. Vou. Sair. – Repeti.
- Ah, não vai não. – Ela bufou, mas depois pareceu mudar de idéia, abrindo um largo e diabólico sorriso. – Mas é claro que eu posso dar um jeito para você sair, se quiser. Para sempre.
Depois, ela pegou a faca que sempre trazia no bolso e começou a brincar com ela. Não demorou muito para eu entender o que ela quis dizer com "Para sempre".
- Não, obrigado. Eu me viro sozinho.
- Então, é isso? Você pretende dar as costas e começar seu negócio sozinho? – Ela abriu um sorriso de pura ironia para a possibilidade.
- Na verdade, não. Eu não estou desistindo de trabalhar com você, estou desistindo de trabalhar nisso. Eu vou para casa.
- Sério? Bom, melhor para mim. Fica mais fácil te matar se você estiver sozinho.
- Me... matar? – Não consegui impedir o medo de atingir a minha voz.
- Vamos, se coloca no meu lugar. Seria burrice deixar você ir andando livremente por aí, sabendo de tudo o que rola por aqui, pra você simplesmente dar uma queixa anônima na polícia e fazer com que me peguem, não seria? Eu não sou burra, Rodrigo. Você sabe disso.
Suspirei, derrotado.
- Sei.
- Então, vamos? Já devem estar nos esperando.
- Não. – Eu disse firmemente.
- Não?
- Não! Eu não vou com você, Andressa, não importa o quê. Chega! Quer saber? Eu não tinha pensando na polícia, mas obrigado por me lembrar. – Me virei e fui andando para a saída do beco; eu não ia continuar aquela conversa. – Boa sorte com a prisão.
Não dei mais dois passos; ela sacou a arma e só o que ouvi depois foi o estrondo do tiro. Caí no chão, já todo ensangüentado; ela me acertara no ombro. A dor era enlouquecedora. Mas eu não gritei. Nada no mundo me faria dar esse prazer a ela.
Ela chegou perto de mim, se ajoelhou e disse:
- Boa sorte com o inferno.
Depois, ela se levantou e foi embora, me deixando lá para sangrar até a morte. É claro que ela poderia ter acertado o coração ou o crânio, se quisesse. Mas ela deve ter preferido uma morte lenta. Uma vingança. Deve ser mais divertido para ela desse jeito.
Mas foi isso que salvou a minha vida – poucos minutos depois, Paulo apareceu e me salvou, tirando a bala e estancando o sangue, e depois me levando para algum lugar onde eu pudesse trocar de roupa. Ir para o hospital era muito arriscado, e eu não podia aparecer em casa sujo de sangue, então ele me levou para a casa dele, que estava vazia.
Naquela noite eu decidi que não poderia continuar com o plano; então disse para Paulo e para os outros que Andressa tinha nos traído e saído do grupo, que era o que na verdade eu planejava fazer. Isso me daria cobertura caso ela descobrisse que eu ainda estava vivo e tentasse dar um jeito nisso. Ok, vamos ser realistas. Quando ela descobrisse que eu estava vivo e tentasse dar um jeito nisso.
O que, na verdade, não demorou muito para acontecer – já faz uns dois meses que eu e o Paulo estamos tomando todo cuidado possível para não sermos pegos por ela. Agora ela não quer apenas se livrar da ameaça de ser entregue à polícia; ela quer também se vingar por ter sido cortada da gangue. Dois problemas dela resolvidos com uma simples solução. Me matar.
E esse é o meu problema, essa ameaça constante à minha vida. Essa preocupação, essas reuniões, esses sustos, esse medo. Um problema meu com uma simples solução.
Matá-la.
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Capítulo 12
Era quarta-feira. Dia que havíamos escolhido na reunião de segunda para conversar com ela; tentar descobrir o que ela estava tramando, tentar tirar dela qualquer coisa que fosse. Dia que eu sabia que terminaria com a gente frustrado por nosso plano ter falhado - dia que Paulo, sempre otimista, ansiava desde o segundo em que alguém deu a idéia de realmente conversar com ela.
Nós havíamos planejado fazer isso somente depois da aula, quando todo mundo já tivesse saído – tínhamos tido até a idéia de fazer alguma coisa na mochila dela que a fizesse demorar mais a sair – mas é claro que isso não impediu Paulo de falar sobre o assunto o dia todo.
- E lembre-se de soar bem seguro, ok? – Ele comentou enquanto lanchávamos – Nós estamos blefando, então tente parecer convincente.
- Nós
não estamos blefando. – Eu murmurei.
- Sim, sim, eu sei, nós vamos mesmo tentar alguma coisa e tal; mas eu to dizendo que vamos blefar sobre o fato de não termos nenhum medo dela. Não é bem como se estivéssemos apavorados, mas também não é como se não estivéssemos nem aí para a ameaça dela. Você sabe disso. E ela também. Mas não custa nada tentar confundi-la.
- É, eu sei, eu sei. Vou fazer isso aí.
Paulo suspirou.
- Sabe, pra mim ta parecendo que você não dá a mínima pra isso. Será que é tão difícil para você se concentrar só um pouco? Isso é importante.
- Ahã. Como se
ela fosse mesmo deixar escapar alguma coisa...
- Ah, tava demorando pra começar. Sabia que já faz umas três horas que você não fala de como ela é incrível e impossível de vencer? Você merece até uma medalha! Ficar sem adorá-la assim por tanto tempo é um feito inacreditável. – Ele ironizou.
- Eu não estou "adorando-a" – Me fazia tremer de nojo só de pensar na possibilidade – Estou só sendo realista.
- "Não custa tentar" está dentro do que é realista. – Ele disse.
- Sim. Por isso mesmo que vou tentar. Mas achar que vamos conseguir alguma coisa não está dentro do que é realista.
- Quer saber? Você é pessimista demais.
- E você, otimista. Olha, eu prometo tentar. Na verdade, prometo dar o meu melhor, se isso te faz feliz. Acontece apenas que, no final, você vai estar todo decepcionado porque não deu certo, e eu não.
- É, eu sei. Mas... não custa tentar. Sério mesmo. Tente soar convincente, ta? Fique rindo, menospreze o que ela disser, qualquer coisa que faça ela acreditar que não temos medo dela.
- Ok, ok, já entendi. Não se preocupe. Ela não é a única boa atriz aqui.
- Certo, então. A gente se vê no final da aula. Eu... tenho que ir ver a Carla.
Ah, sim, a Carla! Isso me lembra de algo que eu estava querendo perguntar para ele...
- Paulo, falando nisso, acho que você não precisa mais continuar com esse seu plano. Ela e a Yasmin mal conversam. Não vai fazer a menor diferença você estar no grupinho Yasmin. Se bem que, foi muito estranho o jeito que a baixinha desistiu dela de repente... não é? – Eu o desafiei.
Ele ficou em silencio por alguns segundos antes de responder.
- Você não acha que fui eu que afastei as duas, acha?
- É bem o que eu acho, sim. Era de se esperar que ela desistisse da baixinha depois que visse você com a Carla. Mas não vejo porque a Yasmin pareceu desistir dela... a menos, é claro, que
alguém tenha falado alguma coisa.
Dessa vez o silêncio foi mais longo.
- Ok, talvez eu tenha mesmo falado alguma coisa pra Carla. – Ele admitiu – Mas e daí? Eu não disse nada que comprometesse a gente... só que ela tomasse cuidado com a novata... eu... fiquei preocupado.
- Preocupado? – Eu não conseguia acreditar no que ouvia. O Paulo arriscando uma missão que ele mesmo inventara só por causa da remota possibilidade de algo acontecer com uma das gêmeas?
- Sim, preocupado. Ela... não é tão ruim assim. Mas deve ter comentado alguma coisa com as amigas.
Dessa vez não consegui conter o riso.
- Então ta, né. – Eu disse entre uma risada e outra – Parece que o seu plano não deu tão certo, afinal de contas.
- Você... está rindo? Achei que ia ficar com raiva.
- Bom, era pra eu ficar, sim. Mas agora não importa mais. Se o lance do museu der certo, não vai fazer muita diferença a gente ter "espionado" ela ou não. Além do que, é engraçado demais pra eu ficar com raiva. – Eu disse, depois começando a rir de novo.
- Pra você, tudo é uma piada. Ou uma tragédia. – Ele reclamou. – Vamos, hora de subir.
Olhei a minha volta e percebi que todos os outros alunos estavam se levantando e andando de volta para suas salas. Que estranho, eu nem me lembrava de ter ouvido o sino tocar; mas tanto faz.
Eu e o meu amigo apaixonado voltamos cada um para sua carteira e esperamos as últimas três aulas se arrastarem, até o momento em que pudéssemos, enfim, ir falar com
ela.
Na verdade, tenho que confessar que as últimas aulas demoraram mais a passar do que eu esperava. Será que eu também estava ansioso para ser derrotado na conversa depois da aula? Ou os professores estavam apenas caprichando na arte de nos fazer morrer de tédio, hoje?
Bom, só sei que, depois de duas horas e meia de espera, o último sinal finalmente tocou e todo mundo começou a se levantar para ir embora. Todo mundo, menos eu, o Paulo, e
ela. Parece que, no final das contas, a nossa pequena sabotagem na mochila dela realmente deu certo.
Nós dois nos levantamos, as mochilas ainda no chão, os livros ainda espalhados nas carteiras. Paulo me cutucou. Pelo visto, era a hora de eu começar a falar.
Coloquei a minha melhor máscara de confiança e de não-to-nem-aí-para-você, e então a chamei pelo falso nome:
- Anna? – Eu disse, quase deixando escapar uma risada.
Ela se virou para nós, quase como se tivesse levado um susto – exatamente o que a personagem "Anna" que ela criara faria – e deu a sua brilhante resposta:
- O quê?
Dessa vez eu comecei a rir mesmo. Ela simplesmente merecia um Oscar pelo que estava fazendo; estava
a própria nerdzinha boazinha inocente e tímida agora. E era engraçado demais ver a grande e assustadora traficante de armas Andressa fazendo tal papel. Paulo disse para eu tentar rir e menosprezar o que ela dissesse; agora eu via que não seria tão difícil. Quer dizer, a parte do "rir". O "menosprezar" exigiria um esforço da minha parte.
- Ah, fala sério!
Quão estúpidos você acha que nós somos? – Mas era um esforço que eu era capaz de fazer.
- O quê? – Ela repetiu, soando bem mais confusa.
- Ah, é claro que você vai bancar a inocente. – Eu brinquei - Como se você fosse se entregar assim tão fácil. Mas tenho uma novidade para você: não importa quanto tempo isso demore, mas nós vamos te fazer se entregar.
Ela demorou um pouco antes de responder:
- Não faço a menor idéia do que você esta falando.
Um clichê? Ou ela era uma atriz excelente e queria que sua personagem soasse nervosa, ou nós realmente a estávamos assustando.
– De verdade, mesmo. – Ela continuou, como se quisesse concertar o que dissera. - Não entendi uma palavra.
- Qual é! Você pode fazer melhor que isso. - Eu ri de novo, com tom de deboche.
- Olha, você deve estar se confundindo com alguma coisa.
- Não, tenho bastante certeza de que não estou... Anna. – Mais uma vez o nome me fez rir.
Ela ficou quieta por alguns segundos, antes de responder:
- O que tem de tão engraçado com o meu nome?
O que tem de tão engraçado com o seu nome? Que tipo de pergunta é essa? Hm, será que é o fato de que ele não é seu nome real? Que é o nome de uma santinha qualquer que você inventou e que ele simplesmente não combina com você, por isso fica tão hilário chama-la assim? Eu não sei, o que você acha?
- Ha, há. Você sabe muito bem. - Eu disse, com raiva da pergunta idiota dela.
- Não, não sei. – Ela insistiu.
- É claro que não sabe. Você não sabe nada. Você é um anjinho que caiu do céu. – A comparação era para ser irônica, mas logo percebi que era simplesmente perfeita –
Exatamente como um anjinho que caiu do céu. – Completei.
Ela levou alguns segundos, mas entendeu o que eu quis dizer. Estranho. Ela não era do tipo que conhece histórias bíblicas.
Depois, ficamos todos em silêncio. Ela parecia realmente não saber o que falar - era real, ou só atuação?
- Foi mais fácil do que eu pensei te fazer ficar sem resposta. – Disse Paulo, de repente. Eu quase levei um susto; já tinha me esquecido da presença dele ali. - Sinceramente, eu esperava mais vindo de
você.
- É verdade, não faço a menor idéia do que responder. Deve ser porque não entendo uma palavra do que vocês dizem. – Mais um clichê. Será mesmo que estávamos deixando ela nervosa?
- De verdade, An...na. – Eu quase a chamei pelo nome verdadeiro. - Estou decepcionado.
Era verdade. Eu estava. Esperava que ela viesse com respostas brilhantes e que derrotasse a gente de lavada. Mas não. Ela não parecia nem um pouco confiante, como estava em todas as outras vezes que a vimos. Ela parecia... derrotada.
Mas, devia ser só parte da personagem.
Ela não era assim tão facilmente derrotável.
- Sinto muito que esteja – Ela disse, dessa vez um pouco mais confiante. Depois, virou a cabeça para a porta. A zeladora estava vindo; não era difícil ouvir seus passos pesados vindo pelo corredor. Ela então se voltou para nós, pediu licença e foi embora.
Depois de alguns segundos, eu e Paulo começamos a pegar as nossas coisas, para sairmos da sala antes que a zeladora reclamasse que a gente ainda não tinha descido. Enquanto andávamos pelo corredor, ele murmurou, derrotado:
- É, você estava certo. Não arrancamos nada dela.
- Eu te disse.
- Mas pelo menos acho que a confundimos um pouco. – Ele lembrou, um pouco mais satisfeito.
- Era só parte da personagem, Paulo. Ela estava só interpretando.
- Ah, você é muito pessimista.
- E você, otimista. – Repeti, sorrindo.
Fiquei mais uns segundos em silêncio antes de continuar:
- Mas... talvez... Talvez a gente tenha mesmo assustado ela. Eu não sei. Quer saber? Vai indo pra casa. Eu ainda tenho uma coisinha pra fazer.
- O quê?
- Bem, se a gente realmente assustou ela, eu acho que seria bom terminar o trabalho.
- Como assim?
- Eu quero ir falar com ela. Sozinho. Só uma frasezinha. Não se preocupe.
- Eu acho que seria inútil. – Ele reclamou.
- Eu também. – Eu virei para ele e sorri – Mas não custa tentar.
- Esse é o espírito. – Ele sorriu - Ok. Eu vou embora. Amanhã a gente se vê.
Depois, ele se virou e começou a andar para fora da escola. Eu comecei a procurá-la entre os alunos, e logo a encontrei ao lado da grade, olhando para a rua.
Cheguei perto dela, por detrás, e sussurrei no seu ouvido:
- Aproveite o tempo que ainda resta. – Ela se virou e dei de cara comigo. – Não vai durar muito.
E, apesar de que deveria, eu não estava blefando.
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Capítulo 13
Acho que não me lembro muito bem do que aconteceu naquela tarde. Eu devo ter ligado o meu piloto automático no máximo, porque tudo o que me lembro é de pensar, pensar muito, o tempo todo.
As perguntas jorravam na minha mente. O que ela planejava? Por que, exatamente, criara a Anna? Será que ela estava mesmo com medo? Ou suas habilidades em atuação eram simplesmente muito maiores do que eu esperava?
Por um segundo passou na minha cabeça a idéia de que, talvez, a Anna fosse mesmo a Anna, e não tivesse nada a ver com a Andressa. Mas logo tirei esse pensamento da minha cabeça; as duas eram idênticas demais para não serem a mesma pessoa.
De noite, eu e Paulo fomos à reunião da gangue. Tínhamos que decidir os últimos detalhes do nosso plano para sexta-feira. A idéia era pegá-la durante a excursão e levá-la até o velho galpão da fazenda, onde ela gostava de encontrar seus "clientes" antes de nós descobrirmos sua localidade – só que nós ainda não tínhamos decidido
como exatamente faríamos isso.
Já estávamos quase desistindo de capturá-la na sexta, porque ninguém conseguia pensar em nada, quando me lembrei que havia outro garoto na sala que sabia da existência dela - como Andressa - além de nós.
Uma vez, no ano passado (quando ela ainda era, digamos assim, do nosso time) ela se encontrou conosco na saída de escola para resolver qualquer assunto urgente, do qual eu não me lembro mais. Enquanto estávamos conversando e andando, Paulo percebeu que estávamos sendo seguidos, pegou a arma de Andressa e foi correndo ver o que tinha atrás de uma árvore ali perto.
Ele estava lá, nos espionando.
Andressa disse que o matássemos logo, que ele tinha "ouvido demais". Paulo retrucou falando que nós não tínhamos, exatamente, comentado nenhuma informação confidencial. Era verdade: ele deve ter nos seguido durante cerca de 30 segundos apenas – ainda era possível ver a escola no fim da rua. Então, só o que poderia era ficar especulando o que afinal nós éramos e sobre o que falávamos.
Eu lembro de ter mandado os dois calarem a boca, afinal, ele ainda estava ali, ouvindo.
- Que diferença faz, se vamos matá-lo? – Ela respondeu.
- Não vamos matá-lo. – Eu disse, depois me virando para ele – Se você voltar para a escola e ficar de bico calado. – Ameacei.
Lembro-me de depois ele ter voltado correndo para a escola, mas, de alguma forma, ainda mantendo sua dignidade no seu silêncio e no jeito que corria. Ele não parecia um ratinho assustado. Sempre pensei que, se ele se juntasse a nós, daria um ótimo traficante.
Andressa quase
me matou por aquilo, mas deixou passar. Comentou que aquilo poderia ser útil para nós algum dia, de qualquer jeito. Podíamos chantageá-lo caso precisássemos dele.
Agora, me lembrando daquele episódio, vejo que a idéia dela era realmente ótima. A de chantageá-lo para fazer algo por nós. Só que eu iria usar essa idéia contra ela.
Enquanto o resto do grupo conversava, eu comecei a arquitetar todo o plano na minha cabeça: tudo o que eu precisava fazer era contar para ele que a linda Annazinha era aquela garota que quisera matá-lo, e fazer com que ele tome o nosso partido. Então, eu o convenceria a distraí-la, ou levá-la para algum lugar onde pudéssemos pegá-la, ou qualquer outra coisa que precisássemos que ele fizesse.
A idéia era apenas a seguinte: ela não desconfia dele. Atua bem, mas é péssima em gravar rostos, então não se lembra dele e com certeza vai segui-lo se ele pedir. Não porque ela realmente seja capaz de se interessar por qualquer coisa que ele diga, mas simplesmente porque não o vê como ameaça e tem que manter a personagem.
Logo, eu tinha um plano preparado: para começar, nós daríamos um jeito de sumir com as duas aparentes novas amigas da Andressa para, consequentemente, o garoto poder usar isso como desculpa para grudar nela durante o passeio. Então, ele arranjaria alguma mentira para convencê-la a ir sozinha com ele para qualquer lugar (na hora me passou pela cabeça a idéia dele dizer que seus pais trabalham no museu - seria uma boa desculpa se tivessem que entrar em lugares proibidos), e então nós estaríamos nesse lugar, esperando por ela.
Exceto pelo fato de que ela podia desconfiar, e de que era uma ótima lutadora, e de que sempre anda armada, e de que corre bem rápido, e de que talvez conseguisse fugir de nós antes que sequer percebêssemos que ela havia nos percebido, me parecia um plano sem falhas.
Pouco antes de terminarem a reunião, eu abri a boca e disse tudo o que estive pensando enquanto eles tentavam pensar – e nem me lembro mais quantos "e por que você não disse antes?" ouvi nas duas horas seguintes que passamos lapidando e polindo o meu plano à perfeição.
Na manhã seguinte, eu e o Paulo deveríamos ir ao museu, sob a desculpa de sermos alunos fazendo um trabalho, e fazer um mapeamento do que achássemos importante no lugar.
Hm, parece que ele sempre arranja um jeito de irmos só nós dois juntos fazer o que quer que precise ser feito quando essas coisas acontecem. "Não é nada com você", ele diz. "É só contra o resto deles".
Então, na manhã de quinta-feira, nós, muito felizes com o fato de não estarmos na escola, fizemos uma lista dos melhores lugares para usarmos no plano (precisávamos de um para nos escondermos quando saíssemos do ônibus - porque ela não podia perceber nossa presença -, de um lugar para colocar as "amigas" dela e de outro para onde o garoto a levaria e nós a pegaríamos).
Ao voltarmos para o lugar onde devíamos encontrar o resto do grupo, estávamos, como raramente estivemos, muito animados com o tanto que as coisas pareciam estar finalmente dando certo. Mas, é claro, logo que viramos a esquina para entrarmos na favela, esse sentimento foi abruptamente arrancado pela raiz.
Ela estava lá. Sentada na beira da calçada, com a calça frouxa, os tênis surrados, a blusa de alcinha e o ruivo cabelo solto de sempre, ela afiava sua faca de estimação e cantarolava uma música qualquer que não consegui reconhecer. Naquele momento ela estava, depois de tanto tempo, parecendo ela mesma, sem um pingo de Anna em qualquer lugar. Eu não sabia se a preferia assim, ou como a irritante perfeitinha que parece estar destruindo o que sobrou da minha vida. Talvez eu a preferisse de jeito nenhum. Morta, para ser mais exato.
Paulo agarrou meu braço, tentando me puxar de volta para onde ela não pudesse nos ver. Mas, obviamente, já era tarde demais:
- Não sabiam que é feio deixar as pessoas esperando? – Ela disse, sorrindo sarcasticamente, sem em momento algum tirar os olhos da faca.
Nenhum de nós conseguiu dizer palavra por alguns segundos – não só por medo, mas por que não sabíamos o que dizer.
- Qual é, não vão nem mesmo me cumprimentar? - Ela disse por fim - Hmph. Esse é o problema com os garotos de hoje em dia: não são nem um pouco cavalheiros. – A voz soava desapontada, mas o sorriso de escárnio no rosto transformava todas as palavras em sarcasmo – o jeito pelo qual, esqueci de mencionar, ela mais gosta de se comunicar.
- E as garotas de hoje em dia não nem um pouco damas. – Completou Paulo, corajosamente.
Ela riu um pouco, e depois retrucou:
- Ser dama é um saco. Preferimos ser independentes. Tão poderosas quanto vocês. – E então, ela olhou para nós pela primeira vez; os olhos cheios de superioridade – Na verdade, até
mais poderosas. Nem é tão difícil. Vocês, homens, são tão focados com seus inimigos entre vocês mesmos que se esquecem de nós. Aí fica fácil demais.
Hm, me focalizar no meus inimigos homens e nunca pensar na Andressa - sim, claro, é exatamente isso o que eu faço.
Ficamos calados por um tempo, até que eu criei coragem e desafiei:
- O que é que você quer, Andressa? Ou você estar aí sentada é só coincidência?
Ela riu.
- O que você acha que eu quero? Depois que
alguém me cortou do grupo, o que você acha que estive fazendo?
Eu abaixei a cabeça, o rosto fervendo de raiva. Eu sabia muito bem o que ela andara fazendo. E ela sabia que eu sabia. Pra que, então, me torturar ainda mais com aquela pergunta ridícula?
Ah, sim, pra me torturar ainda mais.
- Eu só espero que esteja se divertindo com sua brincadeirinha – Respondi – porque não vai durar mais muito tempo.
- Oh, não, eu estou apenas começando. – Ela riu – Mas estou louca para ver a cara de vocês quando eu terminar.
Dessa vez, foi Paulo quem riu:
- É realmente uma pena que você não chegue a terminar.
- Ah, mas eu vou. – Ela disse, enquanto finalmente se levantava, guardando a faca no bolso – Vocês nem fazem idéia.
Depois, tenho vergonha de confessar que o pânico, na sua forma mais pura, tomou conta de mim. E se estivéssemos errados sobre ela? E se ela estivesse se "fantasiando" de Anna por uma razão totalmente diferente da que pensávamos? E se soubesse sobre o nosso plano para a sexta? E se estivesse justamente nos guiando para uma armadilha, enquanto achávamos que
nós faríamos isso com ela?
E se, na verdade, ela estivesse apenas blefando para fazer minha confiança (que devia estar bem explícita, até então, em meu rosto) se abalar?
Inconscientemente, dei um passo para trás. Paulo, ao contrário, deu um passo para frente, enquanto – por mais impossível que possa parecer – soltava um risada tranqüila, desabando totalmente o clima de tensão que ela criara.
Depois, ele disse:
- Não somos mais os dois pivetes inocentes que você encontrou jogando bola no lugar errado, garota. Olhe bem para nós: somos dois traficantes de sucesso aos 16 anos, sem falar que fazemos parte de uma gangue. Você? Você é uma reles, sozinha e fraca garota de 14 anos que simplesmente nasceu com sorte. Sinceramente, não sei como pode ainda estar respirando.
Por alguns segundos, nós dois o fitamos, completamente imóveis, sem acreditar que ele realmente dissera aquilo. Paulo, o mais certinho, o mais calminho, o mais pacífico, falando como... a Andressa? Mas ela não segurou a expressão por muito tempo; logo, se virou de volta para ele e respondeu:
- Não sabe? Mesmo? Que pena. Isso provavelmente ajudaria o lado de vocês, saber porque todos os que me enfrentam acabam mal. Sorte minha que eu sei muito bem. Vocês, homens, são tão previsíveis... mal posso esperar para ser desafiada por outra garota. Aí, sim, seria um desafio de verdade. Todo esse joguinho de vocês... às vezes eu simplesmente me entedio.
Depois, ela deu de ombros, sorrindo arrogantemente.
- Mas não me entedio o suficiente para parar de jogar. – Completou.
Então, deu as costas para nós e foi embora. Nenhum de nós dois ousou segui-la, então só ficamos parados lá por um bom tempo, assistindo-a ir, sumir da nossa vista.
Pela última vez, jurei a mim mesmo.
Próximo capítulo
Capítulo 14
Pequeno aviso prévio: eu geralmente não me sinto assim em relação ao que eu escrevo, mas quer saber? Acho que esse é meu capítulo favorito da Parte II toda *u*
Eu ainda me lembro, vividamente – quando tudo começou. Não todo o problema com a Andressa/Anna; estou falando de quando tudo começou, anos atrás. Quando eu tive a infelicidade de simplesmente estar no lugar errado, na hora errada. E perto das pessoas erradas.
Eu e Paulo – na época com uns 12 anos – tínhamos combinado com uns garotos do Darwin de ir jogar bola no campinho perto da escola depois da aula (que, para nós, na época, era à tarde, o que fazia o jogo-de-depois-da-aula acontecer bem durante o pôr-do-sol). Não era bem um campinho, era mais um terreno baldio, mas, aos nossos olhos, podia ser comparado ao próprio Maracanã.
Lembro-me que, depois que o jogo acabou e os outros garotos foram embora, nós dois decidimos ficar lá mais um tempo, treinando nossas embaixadinhas. Nossas mães só apareceriam na frente da escola para nos pegar dali a 20 minutos, de qualquer jeito. Não era problema nenhum ficar ali mais um tempinho.
As coisas estavam indo na maior normalidade, até que Paulo (e eu ainda não o perdoei por isso) chutou errado e acabou fazendo a bola ir parar do outro lado do muro dos fundos do campinho.
Já tínhamos ouvido histórias horríveis sobre o que havia detrás daquele muro velho e pichado; a maioria contos de terror recheados de tudo o que viesse da imaginação dos nossos colegas de sala, como tiros, brigas e gritos agudos de mulheres implorando por socorro. Nós, é claro, morríamos de medo até de chegar perto do muro. Não queríamos ir buscar a bola.
Mas ela era um dos bens mais preciosos de Vítor, outro moleque que estava jogando com a gente. Ele era um fanático por futebol, e nos emprestou aquela bola com a confiança de quem entrega o próprio coração a um psicopata. Nós tínhamos que devolver aquilo. Nós tínhamos que ir pegar a bola.
Bem que eu queria que nosso medo tivesse sido maior que nossa dignidade – desse jeito tudo o que receberíamos seria uma cara feia de Vítor no dia seguinte e uma semana sem sorvete nem videogame.
Mas não foi o que aconteceu.
Depois de uns cinco minutos discutindo, decidimos que era melhor pular o muro do que ir zanzando por aí atrás da porta na rua que desse para aquele terreno. Talvez fosse mais sensato sair zanzando, mas tínhamos medo de quem viria atender à porta. Preferíamos fazer isso às escondidas. Além disso, o muro era baixo, e o chute do Paulo não tinha sido tão forte. Poderíamos resolver tudo em dois minutos; ou pelo menos achávamos que podíamos. E esse foi nosso grande erro.
Depois de mais uns cinco minutos pulando, suando e bufando, o Paulo finalmente conseguiu, colocando toda a força que tinha nas mãos (que seguravam meu pé), me jogar para cima do muro. De lá de cima, estendi a mão e o puxei. Depois, com os corações saindo pela boca, respiramos fundo e pulamos para outro lado.
Estávamos num pedacinho de terra batida muito pequeno e escuro, atrás de uma casinha de tijolos muito pobre; o lugar parecia ser algo como um quintal dos fundos. As luzes da casa estavam desligadas - não havia nenhum tipo de iluminação artificial por perto e a lua estava minúscula, um fiapinho de luz no céu daquele começo de sexta à noite. Na verdade, estava tão escuro que não conseguíamos achar a bola.
Saímos tateando o chão às cegas, em busca de algo que parecesse ser redondo. Foi muito difícil, pois uma boa parte do chão estava coberta de – para resumir em uma palavra só – tralha. Móveis quebrados, roupas velhas, objetos de metal de todo tipo, a maioria irreconhecíveis. Mas apenas a maioria. Pois, entre todo aquele lixo, encontramos algo que mudou nossa vida para sempre.
Armas. Três caixas cheias das mais variadas armas - desde uma simples pistola à mais poderosa metralhadora. Quase caímos duros quando vimos aquilo. Montes de armas. E muito provavelmente guardadas ali ilegalmente.
E nós lá, fuçando! Se nos encontrassem... Não queríamos nem pensar nisso.
Mas não desistimos da bola. Não sei, não sei por que não desistimos da porcaria da bola. Mas não desistimos. Continuamos procurando, mortos de medo, desesperados para sair logo dali, até que ouvimos um barulho.
Quase gritamos – nós dois – mas tivemos juízo o suficiente para fazer silêncio e procurar imediatamente, em pânico, um lugar para nos escondermos. Alguém tinha acabado de entrar na casa.
Enquanto nos apertávamos num cantinho vazio entre um monte de tudo e a única árvore do local, vimos as luzes da casinha sendo ligadas. Depois, pudemos ver, pela janela que dava para os fundos, um grupo de homens – a maioria bem jovens, na verdade – entrando e conversando alto o suficiente para ouvirmos, mas num português tão ruim que nenhum de nós conseguiu entender metade do que diziam.
E então, para a nossa surpresa, entrou uma garota. Ela.
Aquela foi a primeira vez em que a vi; estava com uma blusinha rosa, uma bermuda jeans e o cabelo preso em duas marias-chiquinhas bem altas, apesar de estarem meio despenteadas, deixando várias mechas caírem sobre o rosto. Lembro-me de tê-la achado, pela primeira vez, uma garota de aparência totalmente indefesa – na verdade, acho que cheguei a pensar que era algum tipo de refém daqueles homens, uma pobre menininha de 10 anos que eles haviam seqüestrado. Hoje, a idéia me faz rir. Como a gente pode se enganar pelas aparências!
Mas a impressão só durou até o momento em que olhei nos seus olhos e a ouvi falar. Estava no seu jeito, nas suas palavras: quem ela realmente era. E não era um pobre anjinho em apuros. Não, era uma daquelas garotas que lembram as super vilãs dos desenhos animados; parecem indefesas e santinhas, mas, quando a máscara cai, o herói acaba vendo o monstro que ela realmente é. E, felizmente para nós, naquele momento ela não estava se preocupando muito em manter sua máscara.
Depois de um tempo lá, congelado de pavor, meio que ouvindo a conversa, acabei entendendo o que aquela pequena garota fazia ali – ela era a filha de alguém, aparentemente alguém importante. Estava ali só para assistir, mas com freqüência abria a boca e opinava sobre o comentário de alguém. Ninguém, nem mesmo seu pai, a mandava calar a boca; eles pareciam nervosos no começo, mas quando começavam a ouvi-la, acabavam tendo que admitir que ela estava certa, que era uma idéia idiota, que era melhor começar tudo outra vez.
Constantemente ouvíamos elogios; como era esperta, como era sagaz! "Que filha você foi ter, Joãozin Algumacoisa!" "Essa aí vai liderar o crime internacional um dia!".
Foi então que eu percebi a extensão da loucura que estávamos cometendo. Já era para termos saído dali a muito tempo! O Vítor que esperneasse o quanto quisesse; naquela hora eu decidi que iríamos embora sem a bola e iríamos imediatamente.
- Paulo – eu disse, sussurrando – vamos embora. Agora!
Ele se virou para mim surpreso, com os olhos arregalados:
- O quê? De jeito nenhum! Você não vê a chance que temos aqui?
- Não!? – Respondi, tão surpreso quanto ele.
- Se ficarmos aqui, podemos acabar pegando um monte de informações sobre esses caras, e depois é só entrega-los à polícia! Podemos dar uma de heróis aqui! Não me diga que está com medo.
- Sim, estou com medo. – Confessei rapidamente – É claro que estou com medo! Você está louco? Eles vão nos matar! Vamos embora!
- Não, não vão nos matar; não se você calar a boca e ficar quieto aí. Olha, a gente espera eles irem embora, e então a gente vai. É bem mais seguro do que tentar ir agora. A gente vai fazer muito barulho pra pular aquele muro de novo.
Infelizmente, eu tinha que admitir, ele tinha razão. Ainda hoje concordo que a decisão dele fazia mesmo mais sentido, era menos arriscada. Na hora, eu só acenei com a cabeça, relutante, mas concordando. Ele estava certo. Nós podíamos até mesmo ir parar no jornal, quem sabe? Dois heróis mirins desmascaram um importante gênio do crime! Eu já podia sentir a fama que ganharíamos nas próximas semanas.
Era mesmo uma boa idéia, ficar ali ouvindo, esperando. Mas é realmente uma pena que, mesmo assim, não tenha dado certo.
Porque, depois de mais uns dois ou três minutos de silêncio apertados naquele buraco, suando e morrendo de medo, nós vimos algo que fez o meu coração (e o dele também, imagino) parar.
Alguém tinha pedido para um Fulanozinho ir pegar a "mercadoria" lá trás, e foi o que o dito cujo fez. Ou melhor, ia fazer, até que viu dois moleques empapados de suor escondidos ao lado da árvore dos fundos, com os olhos arregalados de puro pavor, encarando-o.
Naquela hora, nem mesmo o Paulo conseguiu ser sensato – até porque não acho que havia nada sensato para fazer – e só ouviu seus instintos, assim como eu. Ele se levantou e, usando toda a força que tinha, disparou para dentro da casa, tentando fugir; e eu estava bem atrás dele.
Mas, quando passei pela portinha dos fundos e entrei na salinha, me deparei com a imagem do meu amigo desmaiando, com uma pontinha de sangue no topo da cabeça, ao lado de um homem alto que segurava uma barra de metal com as duas mãos. Mas nem tive tempo para deduzir o que tinha acontecido, porque, um milésimo de segundo depois, senti o corpinho de uma menina atrás de mim, com outra barra de metal, que deu uma pancada forte bem embaixo da minha cabeça. Depois, tudo ficou escuro.
Enquanto andava rua abaixo, eu ia pensando, me lembrando do que acontecera depois. Quando acordamos, Paulo e eu estávamos sentados no chão, com os punhos amarrados. Demorou um pouco para eu recobrar totalmente a consciência, mas quando o fiz, percebi que ainda estávamos na mesma salinha, e que, pela luz que entrava pela janela, já era dia.
O engraçado foi que, naquela hora, o primeiro pensamento que me veio à mente fora que minha mãe ia simplesmente me matar! Mas logo me toquei que, se as coisas continuassem como estavam indo, aqueles homens provavelmente iam mesmo me matar. A mim, e ao meu amigo que, ao meu lado, também já estava acordando.
A primeira coisa que ouvimos foi a voz grave, gutural do homem mais velho; provavelmente o líder e o pai da menina. Hoje não consigo mais me lembrar bem do que ele dissera, mas devia ser algo como o que estávamos fazendo ali, o que queríamos, quem éramos.
Me apressei em responder que só tínhamos entrado naquele quintal para pegar uma bola, e que não era nossa, e que tínhamos que pegar, e que íamos ficar sem sorvete se não pegássemos, e... Bem, confesso que comecei a soluçar, chorar, tagarelar, tudo ao mesmo tempo. Eu estava entrando em pânico.
Por sorte, Paulo parecia estar com os nervos sobre controle, então acabou fazendo com que eu calasse a boca e começou a contar o que havia acontecido - a verdade - de forma organizada, diferente de mim. A única mentira foi que nós só não tínhamos ido embora porque estávamos com medo de que nos ouvissem. Bom, não era totalmente mentira, porque essa era a maior parte do motivo para mim, mas eu sabia que ele só ficara para virar herói.
Depois que terminou, o homem, muito sério, acabou soltando um velho clichê: "Sinto muito, mas vocês sabem demais". Naquele momento, no meio da jorrada de pânico que eu podia sentir pulsando em minhas veias, encontrei um pedaço de mim que conseguiu perceber que, apesar de tudo, o homem parecia relutante em nos matar. Talvez ele tivesse alguma coisa dentro do seu peito que chegasse perto de ser um coração. Ou talvez ele estivesse apenas com medo de ser preso por homicídio.
De qualquer forma, sua expressão era o contrário da de sua filha, sentada em uma mesinha na parede oposta à nossa, sorrindo como se tivesse ganho na loteria. Ok, talvez não a loteria, porque seu sorriso demonstrava maldade, uma diversão com o sofrimento alheio. Era mais como o sorriso de alguém que conseguiu a melhor vingança que se pode imaginar, e que a estava assistindo acontecer. Praticamente dava pra ouvir seus pensamentos: "Que ótimo, finalmente algo interessante vai acontecer por aqui!"
Isso tudo eu vi em uma fração de segundo, porque logo depois da sentença final do homem, um outro jovem que estava na porta comentou que a gente podia ser útil.
- O quê? – Disse o homem, por um reflexo, sem parecer ter realmente ouvido.
- A gente pode não matar eles. – Continuou o jovem com seu português mais ou menos – E botar eles pra trabalhar pra gente. Se não fizerem direito, aí a gente apaga. Mas, quem sabe, talvez dois pivetes seja exatamente o que a gente tava precisando pro nosso plano funcionar.
O homem parou e pensou um pouco sobre o assunto. Enquanto isso, me virei de repente para Paulo, e pude ver, nos olhos dele, que também estava, assim como eu, se deixando ter esperança. Talvez nós conseguíssemos escapar, afinal!
Então, o homem disse que, talvez, o companheiro tivesse razão. Do outro lado da sala, o sorriso da garota sumiu imediatamente. Ela olhou para o jovem, e depois para nós, os olhos cobertos de fúria. Na hora pensei que a raiva dela era porque não íamos morrer tão cedo, mas hoje eu sei que, apesar de ser por isso também, a principal causa era que ela era sempre a pessoa usada quando precisavam de "pivetes". Era seu papel, a doce menina que distraía o dono da loja chorando enquanto o resto roubava alguma coisa. Ou seja lá para quê precisassem dela.
O fato é: a idéia do jovem acabou pegando e, naquela mesma noite, realizamos nosso primeiro trabalho, com um sucesso tão tremendo que decidiram que não iriam nos matar, mas nos oferecer um lugar na gangue. Claro que não era exatamente uma oferta, então nós aceitamos.
Apesar de termos praticamente implorado algumas vezes, só nos deixaram voltar para casa depois de uma semana. Nossos pais já estavam praticamente loucos de preocupação àquela altura, tanto que simplesmente esqueceram de nos arranjar um castigo por termos sumido por tanto tempo e por termos dito apenas que tínhamos nos perdido, o que obviamente não era a verdade. Mas eles devem ter achado que estávamos tão traumatizados que não lembrávamos bem o que acontecera, então, para nossa sorte, nem perguntaram muito.
Lembro-me que, assim que nos vimos livres dos homens pela primeira vez, andando de volta para casa, Paulo comentou que podíamos nos infiltrar na gangue, até que tivéssemos tantas informações que poderíamos acabar com todo o contrabando de armas da cidade, ou pelo menos uma boa parte. Podíamos agir feito espiões, ou algo assim. Aí, sim, seríamos verdadeiros heróis!
Mesmo nos meus inexperientes 12 anos, eu sabia que ele estava sonhando alto; mas acho que neguei isso a mim mesmo e me deixei sonhar também. E foi isso que tivemos como plano, a partir de então. Derrotar todos os vilões que aparecessem e salvar todas as moças que encontrássemos pelo caminho. Ou melhor, quase todas.
O irônico é que, depois de mais uns dias, acabamos conseguindo a bola de volta e a devolvemos a Vítor, mas àquela altura ele já tinha comprado uma nova, então levá-la ou não nem fez muita diferença. Se soubéssemos disso naquela noite em que decidimos pular o muro...
Nos quatro anos seguintes, acabamos deixando a escola de lado (tanto que repetimos o 6º e o 7º anos) e começamos a preocupar mesmo nossos pais. Hoje eles devem achar que usamos drogas, ou algo assim, e que começamos naquela noite. Apesar da idéia soar ridícula, tenho que confessar que a verdade não é muito melhor.
Enquanto eu andava por aquela rua residencial com Paulo, não conseguia parar de pensar nessas coisas. Nós nunca chegamos a usar as informações que temos para entregar ninguém à polícia, nem mesmo depois que o pai da Andressa morreu e nós nos vimos meio que livres da gangue. Acho que porque, se fizéssemos isso, seríamos presos também. Éramos tão criminosos quanto o resto deles. Quase tanto quanto ela.
Não éramos heróis. Éramos vilões.
E era justamente esse pensamento que assombrava minha mente quando chegamos à casa do Pedro.
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Capítulo 15
A pequena casa amarela estava completamente coberta pela sombra de uma enorme árvore, bem na esquina entre duas ruelas cheias de outras casinhas coloridas. Eu, o Paulo e mais três outros amigos nossos (que eu pedi para virem porque já não agüentava mais ficar só com o dito cujo) estávamos parados diante do baixo muro que separava a casa amarela da rua.
Antes de bater, tínhamos que verificar umas coisinhas. Primeira: o carro estava na garagem? Se não estivesse, então havia boas chances do Pedro estar sozinho em casa; pelo menos que soubéssemos, ele era filho único e órfão de mãe, então uma garagem vazia significava um pai no trabalho e um Pedro sozinho.
Segunda: ele ainda morava naquele endereço? Há alguns meses, ele tivera que me dizer onde morava porque eu tinha que fazer um trabalho com ele, e com mais umas pessoas. É claro que não compareci, mas ainda assim faturei um endereço; o único problema é que, meses depois, podia ser uma informação ultrapassada.
E terceiro: a casa possuía algum tipo de sistema de segurança sofisticado? Sabe como é, quando você entra em uma casa com um bando de adolescentes, roupas pretas e um taco de beisebol que provavelmente vai acabar acertando a cabeça de alguém, não vai querer ser filmado nem acionar nenhum alarme.
Depois de alguns minutos de discussão, acabei aceitando a tarefa de descobrir essas respostas. Eu tinha que subir o muro e, de lá de cima, dar uma olhada dentro da casa.
Não foi fácil escalar uma superfície reta de dois metros de altura sem nenhuma escada ou algo para segurar (ainda mais quando o topo está cheio de cacos de vidro feitos para impedir invasões), mas com a ajuda dos outros quatro acabei conseguindo. Lá em cima, me equilibrando com cuidado entre os cacos – que, por sorte, estavam perfeitamente mal colocados – chequei o interior da casa.
Para começar, felizmente, a garagem estava vazia. As luzes estavam acesas, e o único barulho que se ouvia era o baixo som de uma tevê ligada na sala. Tudo indicava que tinha alguém em casa, que este alguém estava sozinho e esse alguém era Pedro. Perfeito.
Além disso, logo vi que a maior segurança que a casa tinha eram os cacos de vidro. Mas isso não fazia diferença, de qualquer jeito. Pelo visto, não precisaríamos arrombar nem invadir nada. Não seria necessário usar o plano "B". O "A" – bater na porta – seria suficiente.
Com um pequeno sorriso no canto da boca, pulei de volta para a calçada. Não tive que dizer nada; apenas fiz que sim com a cabeça e vi sorrisos brotarem no rosto dos outros, que entendiam que tudo estava certo e pronto para começar.
Eu e os outros três nos escondemos em um canto, enquanto Paulo dava três pancadas fortes no portão. Ele queria que eu fizesse isso, mas argumentei dizendo que já tinha feito a minha parte.
Depois de alguns segundos de relutância, conversando por sobre o muro com Paulo, Pedro desistiu e abriu a porta. Mesmo atrás de um matinho do outro lado da rua, pude ouvi-lo perguntar o que é que Paulo queria.
- Preciso conversar um pouco com você, é só isso. – Ele disse.
- Tudo bem então, pode falar.
Pedro saiu para a calçada, fechando a porta atrás de si. Pude ver um sorriso divertido surgindo nos lábios do meu amigo; parecia que ele poderia usar ser precioso taco, no final das contas.
- Não posso falar aqui. Que tal você me seguir que aí a gente conversa num lugar mais seguro?
- Que tal eu dizer não e voltar pro meu programa? – Apesar da recusa, pude ver verdadeira curiosidade nos olhos de Pedro. Ele parecia querer saber o que era tão importante, mas não era burro pra tentar descobrir.
Pedro abriu novamente a porta atrás de si, dando um passo de volta para a casa.
- Não é uma opção. – Paulo respondeu, acertando o taco na cabeça do garoto.
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Enquanto os outros arrastavam o corpo para o carro, eu arrastava nada além do taco de beisebol e meus pensamentos. Para começar, onde é que Paulo tinha arranjado aquele taco, afinal de contas? Nos Estados Unidos? Falando sério, seria mais fácil simplesmente levar um pau qualquer. Mas não, pro Paulo tinha que ser um taco de beisebol de filme policial. Ou do jogo dos Mets. Sei lá.
Mas, na verdade, o que eu estava pensando era no que estávamos fazendo. O que eu quero dizer é, como foi que a gente se meteu nesse problema todo, quando foi que a gente começou a agir assim?
Seqüestrar inocentes e obrigá-los a trabalhar por nós? Minha ficha criminal podia ser bem ruim, mas eu nunca fizera nada a alguém tão completamente inocente, alguém que nunca tinha feito nada contra mim.
Mas que droga, pensei. Estamos ficando como ela. Eu estou ficando como ela.
Ao entrar no carro, logo assim que Guto (um dos nossos) deu a partida, uma pequena frase me veio à mente, quase que como dita por um outro alguém no meu ouvido: "Você tem que parar".
Simplesmente essas quatro palavras. "Você", "tem", "que", "parar". Nada mais. E, de alguma forma, a frase grudou na minha cabeça e não saiu mais.
Como assim, eu tenho que parar? Justo agora que as coisas estão indo até bem? E, sinceramente, parar por quê?
Eu não vou parar nada. Nada. Vou com isso até o fim, vou pegá-la, vou matá-la, vou acabar com essa tortura. Eu absolutamente não vou parar.
Sacudi a cabeça, como que para tentar me livrar daquele pensamento. Paulo olhou para mim, com a expressão de quem está se perguntando da minha sanidade, mas logo virou a atenção de volta para a janela. Tínhamos chegado.
Levamos Pedro ainda inconsciente para dentro do galpão abandonado e o sentamos, amarrado, no chão. Agora era só esperar ele acordar.
Um minuto, dois minutos, cinco minutos.
Dez minutos depois, o Guto se cansou de esperar e foi buscar um balde de água. Normalmente eu me oporia, mas também já estava enjoado demais de esperar para me preocupar com o bem-estar do nosso refém. Ele que ficasse molhado, o problema não era meu.
Guto rapidamente voltou, trazendo consigo um balde de metal completamente cheio, e logo depois jogou toda a água em cima do pobre garoto.
Pedro acordou instantaneamente. Olhou em volta, assustado, mas logo entendeu o que estava acontecendo e se acalmou. Voltou-se para Paulo, os cabelos pingando, os olhos cheios de sarcasmo, e disse:
- Ok, então. Parece que é importante. Pode falar. Mas se eu estiver perdendo meu programa por uma besteira...
- Não é uma besteira. – Paulo lhe assegurou rapidamente – Na verdade, é uma questão de vida ou morte. Não a sua vida, não se preocupe. Se bem que, quero dizer, pelo menos esperamos que sua vida não seja posta em risco. Mas nunca que sabe, não é? Coisas acontecem.
Pedro encarou-o, entendendo a seriedade da questão. Não era hora para sarcasmo.
- O que vocês querem?
- Apenas a sua ajuda num pequeno assunto, nada mais.
- E por que eu os ajudaria? – Apesar do tom ameaçador da voz, ele parecia temer a resposta.
- Bom, nosso plano A é que nós te contemos o nosso problema, e você concorde em nos ajudar. Esperamos que você entenda que, pelo menos nesse caso – Paulo riu – somos os mocinhos. Mas também há sempre o plano B... que, infelizmente, é um pouco pior que o A.
- Ah, pára com isso! – Guto reclamou, já impaciente outra vez. – Já ta cansando. Você vai botar logo o pivete a par de tudo ou a gente vai ficar aqui pra sempre?
Tive que me segurar para não ir. Guto tinha razão, aquele joguinho já estava enjoando. Mas ah, qual é, a explosão dele também foi engraçada. Tentei segurar o riso, sem sucesso, mas ninguém percebeu.
Logo depois, Paulo se voltou pra Guto, tentando acalmá-lo um pouco, mas só o irritou um pouco mais. Guto me encarou, do outro lado do enorme galpão, gritando:
- Ei, Ro, por que é que você não faz logo o serviço? Você não gosta de bancar o líder? Então, vai lá e manda o poeta aqui ir sentar. E termina logo com isso que eu quero ir embora.
Levei um susto com o grito, mas logo me recompus, tomando o lugar de Paulo na cadeira na frente de Pedro. Então, comecei a falar.
Contei para ele quase todo o nosso problema com a Andressa, lhe contei que a novata "Anna" era essa garota que queria nos (ou seria "me"?) matar, e o coloquei a par do nosso plano para sexta de manhã, plano do qual ele era o personagem principal.
Expliquei-lhe o que devia fazer:
1) Ele deveria, sem falta, sentar-se com ela no ônibus. Talvez fosse uma boa idéia chegar atrasado, porque muito provavelmente a única cadeira vazia seria a do lado dela (quero dizer, quem sentaria com ela podendo sentar com seus amigos?). Além disso, a-única-cadeira-que-tem-é-a-sua é uma boa desculpa para sentar ao lado de alguém.
2) Ele deveria conversar com ela durante o trajeto, de forma que pudesse também grudar nela no museu sem parecer completamente suspeito.
3) Ao descer, ele chamaria a atenção dela para longe das amigas por um segundo, para que pudéssemos pegá-las.
4) Ele teria que inventar alguma desculpa para convencê-la de segui-lo por aí, para longe do grupo. Como eu já tinha pensado, talvez "meus pais trabalham no museu" fosse uma boa desculpa.
5) Ele a levaria para o lugar que eu e o Paulo havíamos escolhido para pegá-la – uma salinha de serviço no corredor de fora.
6) Depois, ele precisaria apenas ir embora o mais rápido possível e dizer para alguma autoridade que ela sumira, dando assim alguma pista falsa que levasse a polícia para bem longe de nós.
E pronto! Como recompensa, ele teria uma consciência tranqüila sabendo que tinha ajudado a prender uma terrível criminosa.
- Mas eu não estaria ajudando a prendê-la. – Ele argumentou, quando terminei – Estaria ajudando vocês a pegá-la, isso sim. Mas, como vocês não são polícia, eu...
- Você também está envolvido nisso. – Interrompi – Lembra-se do dia que você a viu pela primeira vez?
Pedro de repente congelou.
- Você quer dizer aquele dia em que eu...
- Sim.
- Então, aquela garota...
- Essa mesma.
- Ah. – Foi só o que ele disse, olhando fixo para o chão.
Depois de um tempo de silêncio, eu tomei a palavra:
- Olha, ela sabe quem você é. Sabe que você sabe quem ela é. Ou pelo menos que tem uma idéia. Naquele dia, só não te matou porque não deixamos. Mas ela não está mais com a gente; se algum dia se lembrar de você, pode vir te matar. Então ela também é problema seu.
É claro que eu estava mentindo; Andressa tinha coisas demais na cabeça para se lembrar dele. Além do mais, mesmo que se lembrasse, provavelmente não faria nada a respeito. Não gastaria seu precioso tempo em alguém tão inofensivo; ou que pelo menos ela achava inofensivo. Por isso que ele era perfeito para o trabalho.
Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, eu o lembrei:
- Mas ela não te reconheceu na escola. Ela não é muito boa em se lembrar de rostos. Só quando ela quer. O que quer dizer que, se ela quiser te encontrar, ela vai. Mas também quer dizer que não vai suspeitar nem lembrar de você no museu.
Pedro continuava a fitar o chão, completamente quieto.
Me levantei da cadeira, andei dois passos e me ajoelhei atrás dele. Desatei os nós, deixando que ele se livrasse e se levantasse.
Logo estávamos ambos de pé, um de frente para o outro. Estendi-lhe minha mão e perguntei:
- Então, temos um trato?
Pedro olhou indeciso para minha mão por uns momentos. Mas aí pareceu tomar sua decisão.
- Temos. – Disse, apertando minha mão.
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Capítulo 16
Quando o despertador tocou naquela sexta de manhã, eu já tinha acordado. Não foi de propósito; eu bem que devia ter dormido um pouco mais. Mas acho que foi um daqueles dias (
acho, porque não me lembro disso já ter acontecido comigo antes, então não tenho certeza) em que a gente simplesmente está ansioso demais para continuar dormindo. Na verdade, eu não estava só ansioso; estava quase animado. Quase feliz.
Foi por isso que, quando minha mãe chegou ao meu quarto, se preparando para a sua luta diária de me tirar da cama e me obrigar a ir para a escola, o encontrou vazio. Me lembro bem de, poucos segundos depois de ouvir a minha porta se fechando no fim do corredor, ver minha mãe chegar à cozinha - onde eu estava - com a expressão meio espantada.
- Já acordou? – Perguntou.
- E já comi. – Respondi, sorrindo; estava animado demais pra me lembrar de ser rude.
Ela olhou pra mim, cínica.
- O que foi, o dia estava lindo demais pra ficar na cama?
- Exatamente. – Respondi, sorrindo de novo, enquanto levava meu prato para a pia. A expressão dela passou de cínica a preocupada.
- O que aconteceu?
- Nada não, mãe. O que foi, não posso nem acordar na hora, comer tudo e lavar meu prato que você estranha?
- É bem isso, sim. – Ela disse, sem se deixar abalar pelo meu comentário do tipo "você-não-confia-no-seu-próprio-filho-?"; e depois ficou meio curiosa, meio cautelosa – Tem... tem alguma coisa a ver com um garota?
- Sim, acho que tem sim. – Eu ri - E hoje é aquele passeio do museu de que eu te falei.
- Mas, Ro, - ela disse, depois de um momento de silêncio - eu achei que você nem queria ir... Eu nem paguei...
- Mas o pai pagou. – Menti.
- Sério? – Ela parecia confusa.
- Sério.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, e então disse:
- Bem, então ta. Que bom que você quis ir. Vai ser legal.
- Vai sim.
- Então... já que você levantou, eu vou voltar pra cama, ta?
- Ta bom, mãe. – Respondi, enquanto ela voltava para o corredor.
- Divirta-se! – Eu a ouvi gritar.
- Pode acreditar que eu vou. – Respondi, enquanto checava se o taco do Paulo estava na mochila.
--
Meia hora mais tarde, eu já estava no ônibus com o pessoal. Não o ônibus que a escola alugou; o público mesmo.
Apesar de a boa educação dizer que não se deve ficar sentado quando há velhinhas em pé, especialmente se você vai descer em apenas cinco minutos, eu estava sentado ao lado de Guto – principalmente porque já não agüentava mais o Paulo -, pensando no que estávamos prestes a fazer. As coisas seriam diferentes a partir daquele dia; tanto se dessem certo como se dessem errado. É uma sensação maravilhosa e assustadora, saber que sua vida está prestes a mudar. Não dá pra pensar em outra coisa.
Logo chegamos ao nosso ponto. Ainda tínhamos que andar algumas quadras até o museu, mas naquela hora o ônibus da escola provavelmente ainda nem tinha saído. Tínhamos tempo.
Entramos, preparamos tudo, nos posicionamos. Eu fiquei esperando dentro do quartinho do corredor de fora, junto com Tonhão (sim, isso mesmo. Temos um cara que se chama Tonhão).
Paulo e Guto estavam escondidos em qualquer lugar, esperando também; o papel deles seria pegar as amigas da Andressa, amarra-las, amordaça-las e coloca-las numa salinha qualquer, então não fazia muita diferença onde eles ficariam agora. Eu e Tonhão, não. Nós tínhamos que esperar no quartinho de limpeza, que era para onde Pedro iria trazer nossa vítima.
Enquanto isso, os outros dois garotos estavam na nossa caminhonete, simplesmente esperando o momento em que apareceríamos correndo com um corpo de menina nos ombros, para poderem ir embora dali; a parte deles era sem dúvida a pior. E o Pedro, agora ele devia estar no ônibus com ela, vindo para cá.
Todos tínhamos walkie-talkies, para o caso de haver alguma emergência. Até então, o plano parecia estar indo muito bem.
Cinco minutos depois, ouvimos um ônibus chegando. Pedro nos alertara para não ficarmos muito ansiosos quando ouvíssemos isso, porque hoje viriam muitos ônibus de diferentes escolas.
Mas eu não consegui agüentar; naquela hora, meu sangue gelou. E se já tivessem chegado? E se o plano estivesse começando agora? Será que estava indo tudo bem? Será que ia funcionar?
Antes que eu pudesse ter um ataque, meu walkie-talkie apitou.
- Rô, ta na escuta? – Era a voz chiada de Paulo.
- Estou. – respondi.
- Olha, nós estamos escondidos aqui do lado de fora, de onde dá pra ver os ônibus. Só pra vocês saberem... ainda não são eles. São só um monte de pivetes.
Imediatamente, eu me acalmei.
- Ah, ta. Ok, então. Fiquem aí até eles chegarem.
- Claro. Se der, a gente avisa vocês quando eles chegarem. Mas não posso prometer nada.
- Ok.
- Ok. – respondeu o Paulo, depois adicionando, só pra fingir que está em um filme de ação (eu aposto) – Câmbio, e desligo.
- Ta, tanto faz. – murmurei pro walkie-talkie, apesar de saber que ele não ouviria.
Depois, passei por mais cinco minutos de angústia. Cada vez que ouvia um ônibus chegar, meu coração pulava à boca; e então Paulo ligava pra avisar que "ainda não são eles". Cheguei a me preocupar se eles tinham se perdido ou algo assim. Até que, então, o walkie-talkie apitou mais uma vez, logo depois de mais um barulho de ônibus chegando, para dar as grandes notícias.
- Eles chegaram.
Suspirei fundo, tentando acalmar a minha ansiedade.
- Vai começar, então. – Respondi.
Depois, ouvi mais um apito; Paulo tinha desligado o aparelho dele. Eles já deviam estar começando sua parte no plano.
E, enquanto isso, eu estava aqui, confinado a esta salinha junto com o Tonhão, tendo apenas que esperar, e esperar...
Antes eu tinha achado que a pior parte era a dos caras na caminhonete. Pois eu me enganei. Eles têm que esperar mais, mas pelo menos não têm a expectativa do momento em que terão que fazer alguma coisa os corroendo por dentro. Quero dizer, eles têm que ajudar a botar ela na garupa rápido, e um deles vai dirigir. Mais mesmo assim, não é nada grande.
Não demorou muito, e meu walkie apitou de novo.
- Conseguimos. – sussurrou Paulo – Essa parte foi fácil. As duas são tão avoadas... já estão presas num dos outros quartinhos de limpeza.
- Ótimo. – murmurei – Mas e...
- O Pedro e a Andressa? – ele interrompeu – Se eu não soubesse do que está rolando, podia jurar que ele tava a fim dela, ou algo assim. Sério mesmo, atuação perfeita. O cara é profissional.
Tremi um pouco com a idéia de alguém ficar a fim dela, mas não dei muita bola pra isso. Era hora de se concentrar.
- Então, agora é só esperar eles aparecerem aqui, certo?
- Certo.
- Mas e vocês? O que vão fazer agora?
- Bom, nós estamos de uniforme, não estamos? Vamos nos misturar. Sabe como é. Ficar de olho nos dois.
- Claro. Nos avisem quando ele tirar ela do grupo.
- Ok. Câmbio, desligo.
Naquela hora, decidi que iria ter uma conversa com Paulo sobre aquele negócio de "câmbio, desligo". Era muito irritante.
Deixei Tonhão a par do que estava acontecendo, e então ele pegou uma barra de metal (ele tinha achado o taco clichê demais), e sentou do lado da porta. A idéia era, quando ela estivesse chegando perto (e nós saberíamos quando isso acontecesse), ele estaria escondido atrás da porta, de forma que ela não o veria. Então, eu só precisaria enrolá-la por um tempo até que ele se posicionasse atrás dela, e tacasse a barra com toda força na sua cabeça; ela nunca saberia o que a acertara.
Ou, pelo menos, era o que tínhamos planejado.
Mais dez minutos. Paulo liga pra avisar que os dois ainda estão zanzando por aí com o grupo, e que não param de conversar. Diz que Pedro está fazendo um ótimo trabalho, mas que já poderia ter terminado com a fase "conversar" a essa altura. Ele estava demorando muito.
Eu concordei. Já fazia quase meia hora que eu estava confinado naquele quartinho, e não agüentava mais.
Depois de mais uns cinco minutos, recebi outra ligação do Paulo, dizendo que Pedro já tinha percebido que ele e Guto o estavam seguindo; ele disse que achava que, talvez, o Pedro estivesse esperando os dois sumirem pra fazer alguma coisa. Talvez ele achasse que, se ela suspeitasse, ia olhar em volta e reconhecer a cara dos dois.
Também tive que concordar com isso. Talvez ele estivesse certo; mesmo que não fosse isso que impedia Pedro, talvez sumir fosse uma boa idéia. Se Andressa visse Paulo e Guto, tudo estaria acabado.
Falei para os dois saírem de lá, irem para outro grupo, qualquer coisa; mas que deixassem os dois sozinhos. Como resposta, recebi um "Ok, vamos fazer isso. Câmbio, desligo."
Agora, não dava mais pra saber o que os dois estavam fazendo - mas pelo menos eu esperava que fizessem alguma coisa além de andar com o grupo, já que não estavam mais sendo vigiados.
Eu confesso que até tive esperança de que eles aparecessem na porta um minuto depois; mas não foi o que aconteceu. Mais quinze minutos depois, Paulo ligou de novo.
- Eles já chegaram aí?
- Não. – Respondi, com a voz mais ranzinza do que eu esperava.
- Nossa, sério mesmo? Que é isso! A essa altura já deu tempo mais do que suficiente pra ele sumir com a menina.
- Eu sei.
Ouvi Paulo suspirar do outro lado.
-Ta certo, né. Me avisa quando for pra ir pro caminhonete. A gente não agüenta mais esperar aqui.
- Ah, é mesmo? – Naquela hora, eu explodi – Mas que pena de vocês, aí fora, esperando para ir embora a mais de dez minutos! Fala sério.
- Calma, calma! – Ele riu – Desculpa. Eu sei que ta pior pra vocês aí. Foi mal.
- Ta. Olha, antes de você ir, deixa só eu falar uma coisa.
- O que?
Eu pretendia dizer pra ele não me responder com "Câmbio, desligo", mas aí uma idéia me veio à mente.
- Vai atrás deles.
- O que?
- Atrás deles. Sinceramente, se o garoto queria privacidade pra fazer o serviço, já perdeu sua chance. Vá lá ver o que estão fazendo.
Paulo ficou em silêncio por um tempo.
- ... Ok, então. Nós vamos. Câmbio, desligo.
Dessa vez, o "câmbio, desligo" não me irritou; eu estava muito concentrado pensando em outra coisa.
E se Pedro nos tivesse traído? Agora que eu estava pensando nisso, era a coisa mais fácil do mundo. Eles não estavam conversando? Talvez ela tenha se tocado da armadilha, e então jogado todo o seu charme de Anna para cima do menino. Ele então se convenceu de que nós estávamos enganados e que ela não era Andressa nenhuma. E então, assim que se viu livre de Paulo e Guto, levou ela para algum lugar seguro.
Isso pode muito bem ter acontecido. E se aconteceu? Pela milésima vez naquela manhã, eu congelei.
Aquilo estava começando a dar errado. Muito, muito errado.
E não podia falhar. Não podia. Se falhasse, nós todos podíamos morrer.
Só isso.
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Capítulo 17
- Eles sumiram! – Paulo gritava do outro lado. – Sumiram!
- Como assim, sumiram?! – Perguntei, nervoso.
- Como você acha? Estavam aqui, e não estão mais. É assim que sumiram.
- Vocês têm certeza?
- Absoluta. Já devemos ter checado o grupo inteiro umas mil vezes. Eles não estão lá!
Fiquei um silêncio por uns segundos, processando a informação. Eles sumiram. Eles não estão lá.
Eu estava certo! Pedro nos traiu.
- Você tem alguma idéia de pra onde eles podem ter ido? – Perguntei, tentando ficar calmo.
- Não sei. Talvez ele esteja levando ela para aí agora. Mas... nós olhamos todo o caminho até aí, também. Nem sinal deles. Mas ele pode ter se perdido...
- Ele não se perdeu. Ele a escondeu.
- Do que é que você está falando? – Paulo parecia realmente surpreso - Por que ele faria isso? Ele sabe quem ela é. O meu medo é que ele tenha dito alguma coisa pra algum guarda, ou algo assim...
Ah, não. Ah, não! Eu só tinha pensado em
um jeito dele nos trair – salvando ela – mas tinha me esquecido que ele também pode nos entregar todos à polícia! Como eu fui idiota!
- Bom, então encontrem eles! – Gritei – Ou pelo menos só ele. Se ele estiver sozinho, façam o que for que fizeram com as amigas dela também. Prendam-no em qualquer lugar, e descubram o que aconteceu.
-
Ele? Por que não ela?
- Porque, se ela quiser sumir, ela some. Pelo menos vocês têm alguma chance de encontrá-lo, e tirar qualquer informação dele.
- Tem razão. Vamos fazer isso. Ah, não, peraí, eles...
- O que?
*
click*
O walkie dele desligou.
Fiquei alguns segundos parado, encarando meu aparelho. Nós dois tínhamos falado alto o suficiente para que Tonhão tivesse ouvido, então eu não tinha que atualiza-lo.
Depois disso, eu tive um ataque. Sem brincadeira. Eu surtei.
Já fazia
uma hora que eu estava dentro daquele lugar minúsculo, que cheirava a desinfetante de banheiro, junto com um adolescente de quase dois metros de altura, só ouvindo notícias cada vez piores. Não dava mais.
Eu abri a porta, e saí do quartinho. Cheguei a pensar em entrar no museu, sacar uma arma e atirar nela na frente de todo mundo (apesar do fato de eu não ter uma arma nenhuma naquela hora), e que se danassem as conseqüências.
Mas por sorte, antes que eu começasse a andar corredor abaixo, Tonhão agarrou minha camiseta e me puxou de volta para dentro. Antes que ele pudesse começar a gritar comigo, o walkie apitou de novo.
- Achamos eles. – Guto disse.
Na mesma hora, o meu coração, que estava pra pular pra fora, voltou ao seu estado normal.
- E? – Perguntei, impaciente.
- Eles estavam numa sala qualquer de um corredor do tipo "apenas funcionários". Não temos a menor idéia do que estavam fazendo lá dentro, mas agora já saíram.
Fiquei um pouco de tempo meio pasmo.
Esse era o "lugar seguro" onde ele traidoramente decidira escondê-la? Uma sala do museu?
Talvez o cara não fosse tão profissional assim, afinal de contas.
- E agora? - Perguntei
- Bem, agora eles estão separados. Não sei porquê, mas quando ele saiu com ela pelo corredor, ele simplesmente deixou ela sumir no meio do grupo. Foi então que o Paulo atacou.
- O Paulo o que? – Perguntei, confuso.
- Atacou. Você não disse que se o encontrássemos sozinho era pra gente pegar ele? Foi o que o Paulo foi fazer. Os dois já sumiram agora. Ele deve ter levado o Pedro pro mesmo lugar daquelas duas, Sam e Isa, eu acho. Eu fiquei pra trás pra ficar de olho na Andressa.
- Ah. – Eu disse, começando a me animar de novo. – Ta certo. Fizeram bem. Agora, a gente só precisa improvisar um jeito de trazer ela aqui mesmo sem a ajuda dele.
- Eu posso fazer isso. – Guto assegurou – Ela parece estar procurando pelas amigas. A minha idéia é: se eu arranjar uma distração, talvez ela use a chance para escapar do grupo. Talvez ela comece a zanzar por aí, atrás das duas.
- Sim, e daí?
- Daí – continuou ele – se eu conseguir convencer os grupos a ir passando pelo corredor do quartinho de vocês, aí fora, talvez ela perceba e vá para o corredor também. Então, vocês pegam ela.
Parei pra pensar um pouco na sugestão. De início parecia interessante, mas tinha furos demais. Pra começar, ele nem sabia se ela realmente iria "sair zanzando por aí" atrás das amigas; na verdade, isso era bem improvável. Elas nem eram amigas de verdade, eram só pra manter a personagem; Andressa não dava a mínima para elas. E depois, como exatamente ele pretendia que nós "pegássemos" ela? Mesmo que ela fosse para o corredor, não entraria no quartinho; e nós não podíamos nos arriscar a sair dele, porque alguém podia ver.
Quando eu disse isso para o Guto, tudo o que ele me disse foi:
- Esse é o preço que se paga por ter que fazer as coisas improvisado. E vocês que arranjem um jeito de fazer ela entrar no quartinho; isso não é problema meu. Você vai querer tentar ou não?
Suspirei, pensando, e então respondi:
- Acho que não temos escolha.
- Ta bom, então. Se preparem. Se ela sair do grupo, eu não vou segui-la, ok? Só vou avisar vocês e então vou ver o que o Paulo está fazendo.
- Certo. Faça isso.
E então, ouvi o apito do walkie dele se desligando. Agora, mais uma vez, só tínhamos que esperar.
Enquanto isso, eu decidi pensar no que faria caso ela aparecesse no corredor. Tonhão disse que eu devia fingir ser uma das amigas dela, quem sabe ela não entrava?
Depois de bater nele por insinuar que eu tenho voz de mulher – coisa que ele faz com certa freqüência, e com todo mundo – acabei vendo que a idéia dele não era tão má assim. Eu
era mesmo bom em imitações.
Talvez, se eu imitasse o Pedro...
Alguns minutos mais tarde, recebi mais uma ligação animada de Guto.
- Deu certo! Tudo o que eu tive que fazer foi cuspir meu chiclete na cabeça de uma menina qualquer, e ela foi embora!
Eu fiquei quieto, apenas ouvindo ele. Eu não conseguia acreditar que estava funcionando.
- Depois – ele continuou – eu corri até um lugar onde o corredor se dividia em dois, onde tinha uma plaquinha indicando o caminho, e virei ela pro caminho que leva pro lado de fora. O guia que passou por lá logo depois ficou meio confuso, mas obedeceu a direção nova e foi lá pra fora! Se os outros grupos fizerem o mesmo, ela pode aparecer aí a qualquer momento.
Fiquei um tempo quieto, absorvendo aquelas informações.
Depois, agradeci ao Guto e disse pra ele ir ver se o Paulo estava bem. Então, pedi pro Tonhão ficar de olho pela fresta da porta; se ele a visse, era pra me avisar – silenciosamente, é claro – e se posicionar ao lado da porta, do lado que viraria "atrás da porta" quando esta fosse aberta.
Durante quase dez minutos, não vimos nada de interessante – só alguns grupos que passavam perdidos por ali. E então, de repente, ouvimos passos vindo do outro lado do corredor.
Passos de uma pessoa só.
Tonhão olhou pela fresta e fez uma careta nervosa.
- É ela. – sussurrou.
Era ela. Finalmente, depois de mais de uma hora naquele quarto, era ela. Depois de uma semana de planejamento. Depois de quatro anos de tortura. Era ela.
Tinha chegado a hora.
- Anna? Cadê você? – Perguntei, imitando Pedro o máximo que podia. Tentei soar apenas meio preocupado, mas na verdade eu estava extremamente nervoso por dentro. Mais uma vez, prestes a ter um ataque de nervos. Mas me obrigando a ficar calmo.
Olhando pela fresta, Tonhão me disse que ela estava parada olhando para os lados, como que se perguntando de onde vinha aquela voz. Como ela levou muito tempo para dizer qualquer coisa, eu acabei soltando:
- Anna, é sério. Responda, por favor!
Não demorou muito, eu ouvi sua resposta do outro lado da porta.
- Estou aqui! Espere aí, já estou indo!
Ela estava acreditando. Estava funcionando.
Tentei me acalmar, pra não deixar muito óbvio o quanto eu a temia de verdade. Isso faria tudo muito mais difícil.
Tentei fazer aquele sorriso malicioso e divertido de peguei-o-bobo-na-casca-do-ovo, e imagino que consegui. Porque, quando ela entrou, sua expressão foi de surpresa total.
- Eu imito bem, não? – Eu disse.
Antes que ela pudesse se virar, Tonhão já tinha saído do quartinho e trancado a porta atrás dela. Ele provavelmente achou que eu ia querer aproveitar a minha vitória só um pouquinho; sabe como é, ter o prazer de esfregar isso na cara dela antes que ele a deixasse inconsciente. Na verdade, eu nem tinha pedido isso. Foi muito gentil da parte dele.
- Desista. Nós vencemos. – Eu disse, rindo.
Ela não fez nada, só continuou parada lá, me olhando, com puro pânico no rosto; talvez uma atuação.
- Na verdade, foi mais fácil do que eu pensava. – Continuei – Mal pude me divertir. Parece que você não é lá essas coisas, hein?
Ela continuou me encarando.
- De verdade, é só isso, Andressa? – Eu ri, apesar de estar honestamente decepcionado - Eu sinceramente esperava mais. Você não vai fazer nenhuma ameaça nem sacar uma arma, nem lutar nem nada? Vai deixar a gente te levar fácil assim?
Ela piscou uma ou duas vezes, e então soltou:
- Meu nome é Anna.
Meu nome é Anna", ela disse. Meu. Nome. É.
Anna!
Ah, naquela hora, eu explodi – mais de descrença do que de raiva.
- Ah, me poupe! – Gritei - Não vá bancar a inocente agora.
Sabemos que é você. Devia ter arranjado um disfarce melhor. Nerd boazinha? Qual é! É tão o contrário de você que chega a ficar óbvio.
Ela ficou quieta por um tempo, como se estivesse processando o que eu acabara de falar.
- Acho que é um mal-entendido. – Foi só o que ela disse.
- Eu acho que não é. – Respondi.
- Mas é. Eu juro! Não faço a menor idéia do que vocês estão falando, nem quem é essa Andressa... seja quem for, eu não sou ela! Juro!
E então, ela simplesmente começou a chorar.
Ela fingiu
chorar.
De verdade, ela estava fazendo tudo tão errado, de uma forma tão idiota, que eu quase acreditei que não era ela. Mas só quase.
Respirei fundo antes de falar de novo, agora sério.
- Quer saber? Isso foi patético.
E então, Tonhão entrou e terminou o serviço.
Ela caiu, inconsciente, e nós dois rapidamente pegamos o saco para colocá-la dentro. Mas antes que pudéssemos começar a fazer isso, o meu walkie-talkie apitou de novo.
- Eles fugiram – Paulo disse, soando muito preocupado.
- O que? – Perguntei, sem prestar muita atenção.
- O Pedro, a Samanta e a Isadora! Eles fugiram, e agora estão procurando a Andressa, junto com os guias e os professores!
- O que?! – Gritei.
Ah, não, por favor, não! Nós já a temos. Finalmente, nós a pegamos, acabou! Por que,
por que isso não acaba nunca?
- Corram pro caminhonete! – Berrei - Nós vamos para lá também. Agora!
Quando desliguei o walkie-talkie, Tonhão já tinha colocado ela dentro do saco, e agora a segurava por sobre os ombros.
- Vamos! – Gritei para ele.
Enquanto corríamos em direção à caminhonete, eu finalmente quebrei. Tudo o que eu fazia enquanto corríamos era rezar e rezar para que tudo desse certo. Para que por favor,
por favor, a gente conseguisse sair dali.
Mal acreditei quando, poucos segundos depois, conseguimos entrar na caminhonete, colocar ela na garupa e sair dirigindo normalmente.
Pra falar a verdade, eu estava tão aliviado que, naquela hora, mal percebi o vulto que se escondia na garupa, ao lado do saco.
O vulto que acabaria estragando tudo.
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Capítulo 18
Era sexta de manhã, antes do passeio, e eu já estava fazendo tudo errado. Eu devia chegar à escola atrasado, como tinham me dito para fazer, mas agora eu já estava
muito atrasado, tanto que talvez já tivesse perdido o ônibus.
Ai, meu Deus, se eu realmente perder esse ônibus, eles vão me matar! Talvez até
literalmente. Por favor, por favor, Pedro, chegue na hora!
Eu corro a plenos pulmões rua abaixo.
Depois de alguns segundos, já posso ver a escola no fim da quadra... e o ônibus! Ainda está lá.
Suspiro, aliviado, e continuo correndo; agradecido de, pelo menos, não estar com a mochila pesando nas costas, como estive das outras vezes em que tive que ir correndo para a escola.
Se bem que, é, eu não tinha a mochila, mas dessa vez eu também não estava atrasado para a aula; estava atrasado para ajudar uma gangue a matar uma menina.
Na verdade, acho que preferia a mochila.
Quando cheguei à escola, fui rapidamente falar com um professor qualquer; mostrei meu papelzinho de pagamento do passeio e entrei no ônibus. E bem na hora: todos os lugares estavam preenchidos, exceto o que ficava ao lado da "Annandressa" – nome pelo qual eu gosto de chamá-la agora - exatamente como Rodrigo tinha previsto.
Fingi correr os olhos por todos os lugares algumas vezes, parecendo meio preocupado, para fazê-la acreditar que não tinha muita intenção de me sentar com ela. Depois, escondi meu medo e nervosismo atrás de uma máscara de timidez, e me sentei ao seu lado.
- Oi. – Ela disse rapidamente, com uma voz simpática; algo completamente inesperado para mim, que sabia quem ela era de verdade.
- Ei, olha, é você! – Tentei parecer casual. – Anna, não é?
- É. – Foi só o que ela disse.
Ficamos uns segundos em silêncio, enquanto o ônibus começava a andar. E então, uma cabeça surgiu do banco da frente.
- Ei, Pedro! - Era Samanta, a senhorita-animação, sendo a criaturinha pulante e feliz de sempre, com aquele sorriso pulante e feliz de sempre no rosto.
Na verdade, eu gosto da Sam. Ela é gente boa. Mas agora eu realmente não estava no clima de agüentar a alegria de líder-de-torcida dela. Tentei me acalmar, parecer normal. Acho que consegui.
– Eu achava que você não vinha mais. – Ela disse, por fim.
- O carro deu problema no caminho. Eu e meu pai demos um jeito logo, mas aí eu cheguei atrasado. – Menti.
Até porque, eu nem venho de carro pra escola. São só uns 10 minutos de caminhada, então eu venho a pé mesmo; assim como tinha vindo hoje.
- Você mexe com carros? – Ela perguntou, animada como sempre.
- Só um pouco. Na verdade, eu só ajudei o meu pai, não fiz nada de importante.
Então, não sei porque, olhei para a Annandressa. Para minha surpresa, a expressão dela era quase assustada. Na verdade, bem espantada mesmo. Se eu não estivesse tão nervoso, talvez tivesse até rido.
- Mas e aí, esse museu. – Ela disse de repente, mudando de assunto – Algum de vocês já foi lá?
- Eu não, mas o Pedro já, não é? – Samanta emendou rapidamente, antes que eu pudesse dizer o contrário.
Eu não sei bem porque ela disse isso – primeiro porque eu
nunca fui ao museu, e segundo porque, mesmo que eu tivesse, como é que
ela ia saber? – mas fico agradecido de ter dito. Eu estava prestes a negar, dizer a verdade; mas, quando Samanta me interrompeu, eu de repente me lembrei de que meus pais supostamente trabalhavam lá, então a resposta devia ser sim.
Mais uma vez, decidi por soltar uma mentira:
- Algumas vezes, na verdade. Minha mãe dá aula de História na faculdade, e às vezes ela vai lá pra ajudar em algumas pesquisas do museu, ela fala com o diretor e com o pessoal que trabalha lá, e tudo mais.
E dessa vez, foi uma mentira nua e crua, sem fundamento absolutamente nenhum. Quero dizer, minha mãe morreu logo depois que eu nasci... e eu não sei nem porquê eu disse que ela era a professora, e não o meu pai. De verdade, não sei. Foi simplesmente algo que saiu na hora do nervosismo.
Porque, claro, contar mentiras sobre sua falecida mãe é uma ótima idéia quando já se está à beira de um colapso.
Talvez fosse melhor mudar de assunto.
- Sabia que eles têm um centro de pesquisa? – Emendei, lembrando-me de já ter lido alguma reportagem sobre o avançado centro de pesquisas do Museu (acho que era algo sobre ser pioneiro no Brasil, algo assim), e esperando que fosse verdade. – Só que não podem entrar visitantes, como nós; só pessoas como minha mãe. Mas eu já fui lá umas duas ou três vezes.
- Nossa, que legal! – Samanta comentou, prontamente – Eu a-m-o História. Deve ser super legal ser filho da sua mãe.
Uma pequena pontada de dor. Escondendo-a sob um sorriso de orgulho, respondi:
- É, é sim.
Mais uma vez, percebi que a Annandressa estava assustada, olhando fixamente para Samanta; eu sei que ela é meio feliz, mas o espanto da minha companheira de assento era um pouco além do normal. Será que tinha alguma coisa a ver com viver rodeada de pessoas como o Rodrigo e o Paulo? Ou será que ela estava só fingindo? Mas... por que ela fingiria espanto?
Fiquei perdido em pensamentos por dois segundos, confuso, até que uma voz me trouxe de volta à realidade.
- Sam, senta aqui um pouco... – Era Isadora, puxando a amiga de volta para baixo.
Olhei para a garota ao meu lado. De repente, percebi que ela estava corando, envergonhada. Olhando para a janela, me evitando...
envergonhada!
Por que isso? Que tipo de traficante de armas perigosa ela era, afinal? Quero dizer, ela obviamente estava com vergonha porque Samanta se fora e agora éramos só eu e ela na conversa; só que isso não era coisa de se esperar de uma criminosa como Andressa devia ser, mas de uma jovem tímida que não tem a capacidade de se relacionar normalmente com o sexo oposto, como... como a Anna devia ser.
Só que ela não estava fingindo. Não dá para falsificar bochechas vermelhas de vergonha... ou dá?
Não, eu acho que não. Ninguém atua bem o suficiente ao ponto de ser capaz de mandar as veias das próprias bochechas expandirem, ou seja lá o que acontece quando a gente cora. É simplesmente algo impossível de controlar.
O que quer dizer que ela estava com vergonha mesmo.
E foi quando eu percebi isso que comecei a pensar que, talvez, a Annandressa fosse mais Anna do que eu imaginava, afinal...
Ficamos num silêncio bastante desconfortável por alguns segundos, até que eu me lembrei de um assunto que podia valer por enquanto, pelo menos pra jogar conversa fora.
- Então... você é de Brasília, não é? – perguntei.
Ela respirou fundo, voltando seu olhar para mim.
- É, sou sim. – Disse, monotonamente.
- Eu nunca estive lá. – Continuei, a então tive uma idéia – E, me desculpa, mas também não quero. – Adicionei.
Eu pensei que, se toda aquela história era falsa, a parte de ser brasiliense devia ser também, não é? Então, ela teria que
fingir estar aborrecida com o meu comentário, porque na verdade ele não surtiria efeito nenhum.
Se eu apenas conseguisse perceber algum erro, algum escorregãozinho que provasse que ela estava mentindo, eu ficaria mais aliviado; porque, até agora, ela estava sendo a mais perfeita e completa Anna, e eu já estava começando a duvidar da palavra de Rodrigo... e da minha própria memória também, a propósito.
Quero dizer, aquela menina não podia ser a Andressa que me descreveram, simplesmente não podia!... E talvez ela não fosse.
De verdade, tudo o que eu precisava era saber que ela estava mentindo, só um pouquinho. Só para tirar isso da cabeça. Só um escorregãozinho.
- Por quê? – Ela disse, convincentemente tentando não mostrar qualquer raiva.
O que era exatamente o que uma pessoa que
está com raiva faria.
Decidi apelar.
- Bom, eu não tenho nada contra a cidade em si. Mas ficar bem ao lado do centro político, morar ali naqueles prédios que dão vista para a casa do presidente... eu sei que provavelmente a casa dele é mais afastada que isso, mas ainda assim... eu não conseguiria.
E então, as bochechas rosas de embaraço se tornaram vermelho vivo, pura raiva. Ela olhou para o lado por um segundo, mordendo o canto do lábio, respirando fundo, e então soltou um "Ah" quieto, rosnado. Como sempre, convincentemente.
Depois disso, ficamos em silêncio por tanto tempo que ficou claro que a conversa acabara ali. E mais uma vez, veio o silêncio constrangedor - ela olhando pela janela, eu olhando para ela.
Com o passar do tempo, ela pareceu se acalmar; as bochechas voltaram ao seu tom normal e os dentes soltaram o lábio. Apenas os olhos continuavam distantes, concentrados em não olhar para mim.
E então, avistei o Museu, a algumas poucas quadras de distância. Imediatamente, a turma toda começou a se animar, apontar, comentar sobre o tamanho dele, mas a Annandressa parecia não ter percebido. Então, quieto, apontei:
- Já estamos chegando.
Ela olhou primeiro para mim, confusa, e depois para o museu. Foi então que seus olhos se arregalaram e seu queixo caiu, espanto de volta ao rosto enquanto ela admirava a construção que agora estava bem na nossa frente; assim como eu fiz também, tenho que admitir.
Não demorou muito, e o ônibus já havia parado e já estávamos descendo; ela tentando ficar junta das amigas, eu tentando ficar junto dela. Como a raiva parecia já ter ido por completo, achei que eu não seria um incômodo assim tão grande – e tinha também o fato de que eu
tinha que ficar com ela para...
Para levá-la direto para a armadilha. Certo. Era para isso que eu estava lá, não era? Era para isso que eu tinha me preparado tanto, certo?
Então, por que de repente isso tudo parecia tão errado – quer dizer,
mais errado do que deveria parecer? Eu já não gostava da idéia de atacar alguém - mas agora era pior, era como atacar uma pessoa inocente.
Ela não era inocente. Não era. Era uma assassina, e eu tinha que me lembrar disso.
No começo disso tudo, eu estava nervoso, com medo; mas agora, mal passados 20 minutos, eu já estava com remorso.
Quero dizer, era só olhar para ela! Ela tinha o rosto de um anjo; tanto no requisito beleza
como no pureza. Fazer qualquer mal a ela parecia ser tão ruim quanto fazer mal a um bebê, ou a um cachorrinho.
Mas não era. Não era!
Ela era uma assassina. Cruel. Um monstro.
Um monstro, Pedro. O tipo de coisa que a gente ataca, sim, e que deve prender. Que é certo machucar.
O que me leva a... Qual era mesmo o passo número um, depois que chegássemos ao museu?
Ah! As meninas.
- Ei, Anna, olha só isso!... – Eu disse logo, apontando para um quadro.
Ela olhou para o lado, e eu comecei a falar qualquer baboseira, o que eu pudesse inventar sobre o quadro para prender a atenção dela. Com o canto do olho, vi Paulo e um outro garoto entrando em ação. Não tive que falar por dois minutos; Sam e Isa já tinham desaparecido.
De verdade, eu me sinto mal por elas. Mas elas vão ficar bem. Só vão ter que agüentar ficar presas por alguns minutos... não é tão cruel assim, é? É o tipo de preço que pessoas inocentes podem pagar. Eu acho.
Continuei andando corredor abaixo com a Annandressa, tentando conversar, e mentindo sobre as histórias das relíquias sempre que necessário para manter essa conversa. Não demorou muito, e ela percebeu a falta das amigas; mas também não demorou muito depois disso para ela desistir de procurá-las. Foi fácil convencê-la de que provavelmente estavam bem.
Também percebi que, apesar de perdermos a companhia de Samanta e Isadora, havíamos faturado a companhia de um Paulo e um Aquele-Outro-Menino. Eles estavam tentando se manter discretos, mas estava bem claro que estavam nos seguindo, de olho em nós.
Olhei para Annandressa, com medo de que ela tivesse percebido – o que poderia pôr tudo a perder – mas ela parecia estar nada além de fascinada pelo que eu dizia, de certa forma.
Mas... a verdadeira poderosa, esperta e ágil Andressa já não deveria ter percebido a presença de dois membros de sua antiga gangue ali, colados na gente? Quão esperta ela era, afinal?
Mais uma vez, minhas dúvidas em relação à real identidade da garota ao meu lado cresceram.
Eu não podia continuar com aquilo. Era incerto demais, e eu podia estar prestes a cometer um enorme erro. Eu precisava ter certeza.
E foi bem na hora em que nossos perseguidores sumiram que eu tive uma idéia.
Próximo capítulo
Capítulo 19
- O que você está fazendo?!
- Abrindo a porta. – Respondi, confuso; achei que já tinha ficado meio óbvio.
- Eu sei. Esse é o problema! – Ela gritou num sussurro, prontamente.
- Por quê? Ah, você não achou que eu queria te mostrar um
corredor, né? Eu vou te mostrar uma coisa aqui dessa sala.
Me virei de volta para a porta, tentando arrombá-la. Eu tinha que fazer isso sutilmente, sem que ela percebesse. Mas não seria tão difícil, a tranca era bem ruim.
- Tudo bem, então. – Ela disse, nervosa, sem parecer ter muita certeza do que estava dizendo.
Finalmente, abri a porta. Eu não fazia idéia de com o quê me depararia agora, mas esperava que fosse algo útil. Para mantê-la segura deles por um tempo, pelo menos; e para que eu pudesse conversar melhor, em particular, e decidir de uma vez por todas se ela era ou não a criminosa que um dia quisera me matar.
Tateei em busca de um interruptor, curiosidade tomando conta de mim. Eu tivera a sorte de esbarrar na porta onde estava escrito "Centro de Pesquisas", e agora o que esperava por nós dentro da sala realmente parecia promissor.
Liguei as luzes. De repente, ambos os nossos queixos e ombros caíram, uma pequena dança sincronizada. Mas eu rapidamente me recompus; eu estava impressionado, mas, de acordo com minha pequena história, eu já tinha estado ali dezenas de vezes, então espanto não era exatamente uma reação a se esperar de mim.
Tentando parecer casual, andei até a mesa central, onde havia uma série de caixas fechadas, mas não lacradas, e comecei a abri-las.
Mais uma vez, eu não tinha idéia do que me esperava, mas decidi continuar interpretando. Na primeira caixa, não tinha nada que parecesse interessante; na segunda também não. Depois de cerca de uns dois minutos procurando, eu finalmente achei algo que valia a pena pegar.
Colares - dezenas de colares de pérolas dentro de caixinhas enfeitadas. Até mesmo eu, homem, tinha que admitir que eram muito bonitos.
Achei que – se ela não fosse uma assassina de sangue frio, pelo menos – ela fosse gostar.
Apesar de não saber quão antigos, delicados ou valiosos eram aqueles colares, eu peguei um punhado entre as minhas mãos e ergui por sobre as caixas para que ela pudesse ver.
Ela ainda estava colada ao lado da porta, examinando tudo. Parecia tão meiga, tão inocente assim... Principalmente depois que viu o que eu tinha nas mãos, quando seu queixo caiu mais uma vez. Ela deixou um pequeno sorriso tingir o canto da sua boca, e ficou fitando, vidrada, encantada, muda.
De repente, eu me senti muito feliz. Mesmo em meio a todo aquele estresse, ver aquela carinha toda maravilhada dela, sabendo que eu a tinha causado, me deixou muito satisfeito comigo mesmo.
Quero dizer, não do jeito que está parecendo. Mas do jeito que a gente se sente bem quando cata lixo do chão e joga na lixeira, ou quando deixa uma criança ficar com a última – mais conhecida como a mais preciosa - balinha do nosso pacote.
Ficamos ambos quietos por um bom tempo, até que ela quebrou o silêncio.
- São... muito bonitos. Mas eles...?
Rapidamente, mais uma vez naquela manhã, eu inventei uma mentira qualquer.
- São colares que foram dados às mulheres da alta sociedade brasileira, em uma festa secreta para comemorar a criação de Brasília.
Brasília. Ah, a palavra mágica para fazê-la se interessar.
- Sério? Que legal. Eu nem sabia disso.
- É que não foi nada de mais, só uma festinha que o JK deu. E o... brinde, acho que se pode chamar assim, foi esse colar, e uns anéis para os homens. Mas é tudo falso. Não valiam nada.
Mais uma vez, eu não sabia do que estava falando. Aqueles colares podiam muito bem ser preciosíssimas relíquias gregas, da deusa dos enfeites, ou qualquer coisa assim - claro que não faria muito sentido algo assim num museu especializado em História do Brasil, mas mesmo assim. Mexer neles podia não ser uma idéia muito boa.
O que me levou a mais uma idéia para a minha mentirinha. Uma idéia desnecessária, mas que podia dar mais credibilidade à história.
- Se bem que, como até ano passado os historiadores pensavam que só existiam 10 desses, valeram muito por um bom tempo. Mas na verdade tem algumas centenas. Foi uma festa e tanto. Se bem que muitas mulheres levaram colares extras para toda a família... mas ainda assim.
- É. – Foi só o que ela disse, ainda sorrindo.
Olhei para ela. Cada vez mais eu tinha certeza de que o nome dela era Anna, e somente Anna. Andressa era apenas uma outra garota que, por uma coincidência quase impossível, era idêntica à garota na minha frente agora; mas que não era ela. Andressa estava à solta por aí, fazendo sabe-se lá o que.
E Anna era a pessoa parada agora, ainda escorada na porta, olhando para os colares nas minhas mãos.
Era a única explicação que fazia sentido.
Ela continuava quieta, o olhar distante. De repente, percebi que ela não iria sair nunca daquela porta, a menos que eu a lembrasse de entrar.
- Então, vai vir aqui ou não?
Sem dizer nenhuma palavra, com nada além de um olhar de "Ah, é!", ela veio e se posicionou ao meu lado. Como eu havia previsto, a caixinha dos colares também a impressionou, e logo ela estava brincando com o veludo e com as delicadas peças redondas dentro dela.
- Nossa. – Ela sussurrou, absorta com a caixinha e seus colares.
- Pois é.
E então, uma idéia me veio à mente; e, antes que eu pudesse passá-la pelo filtro da razão, eu disse:
- Então, você quer um?
E, de repente, era tarde demais. Eu já tinha dito.
- Como assim? – Ela perguntou, sem prestar muita atenção.
Era minha chance de recuar, soltar um "nada, não" qualquer, mas como a boa pessoa sensata que eu sou, eu continuei a falar.
- Quer um colar? Pra ficar pra você. Parece que você gostou.
Ela me encarou, os olhos arregalados.
- Como assim?! Eu não posso pegar um!
É claro que você não pode pegar um! Viu, Pedro, é assim que uma pessoa com juízo reage à idéia de roubar propriedade do museu.
Mas, quando eu olhei para ela ali, tão encantada... acabou saindo. E agora eu teria que permanecer firme com isso, não importasse quantas mentiras eu tivesse que dizer.
Afinal, isso poderia nos dar mais um tempo extra, não é? E quanto mais tempo longe de Rodrigo e sua gangue, melhor.
- Claro que pode. – Eu comecei - Não ouviu o que eu disse? São falsos, só tem uns 40 anos de existência e existem aos montes. Não valem tanto a ponto de alguém se importar se eu te der um. Na verdade, meu pai deu um pra minha mãe, sem pedir pra ninguém, e ela amou...
Mais uma vez, envolvi minha mãe na história. Simplesmente porque eu sou idiota a esse ponto. E ainda por cima fiz uma comparação com meus pais... tipo, um
casal!
Tive que dar uma pequena parada e me recompor antes de continuar.
- Mas, bem, o importante é que, quando a direção do museu soube, não ligou. E eu
pedi permissão. Então, sem problemas.
Ela então pegou um colar, examinando-o. Um sorriso ainda maior surgiu em seu rosto, e eu não pude fazer nada além de sorrir também.
- Tudo bem, então. Obrigada. – Ela disse, acreditando em mim.
- De nada.
E então, mais uma idéia me veio à cabeça. Para nos manter lá seguros por mais tempo, é claro. Já estava parecendo a hora de ir embora de novo, e eu ficaria lá com ela por quanto tempo desse.
Por causa da gangue. É claro.
- Quer que eu coloque em você?
De repente, o sorriso dela desapareceu.
- Não, não precisa.
Não precisa? Por que não?
Será que ela só gostou do colar porque ele pode ser valioso? Será que ela não acreditou na minha história, e sabe que são pérolas de verdade, e pretende vender por muito dinheiro? Porque na verdade ela é a Andressa?
Naquela hora, eu percebi que eu tinha que me decidir logo. Eu a tinha levado para lá para ter certeza, não era? Então, agora era a hora. Entregar ou não entregar. Eis a questão.
Eu estava fazendo tudo muito sem pensar; logo teríamos que sair dali, e aí o quê?
O que quer que eu fizesse nos minutos seguintes podia tanto custar a vida de uma jovem, meiga e inocente garota, ou libertar uma horrível assassina.
Não era uma coisa muito alegre na qual se pensar.
– Eu amei, de verdade – Ela acabou dizendo, provavelmente achando que minha preocupação era simplesmente devido ao fato de ela não querer colocar o colar – Mas... não acho que teria coragem de usar.
Me prendi à nova informação. Podia ser decisiva.
- Por quê?
- É bonito demais. – Ela deu de ombros.
-
É bonito demais? Pensei que bonito era bom.
- E é, para a maioria das garotas. Eu só não gosto de chamar muita atenção. Não tenho coragem de usar coisas que fariam as pessoas olharem para mim, mesmo que seja porque acharam que ficou legal. Prefiro passar despercebida.
E então, o alívio. A certeza.
Não tinha a menor chance daquela garota matar pessoas. Simplesmente não tinha. De repente, mesmo que por causa de um detalhe tão bobo, eu tinha certeza absoluta.
E agora eu já sabia o que fazer: salvá-la.
- Ah, sim, claro. – Respondi, quase tremendo de tanto alívio - Não tem problema. Eu entendo... faz sentido. De verdade.
Mas eu mal estava ouvindo minhas próprias palavras; estava começando a planejar os próximos minutos das nossas vidas. Não sei o que eu fiz ou o que ela fez então; só sei que estava completamente imerso em pensamentos.
Primeiro, nós sairíamos dali. Então, eu a levaria para perto do grupo, com os professores e todas aquelas pessoas olhando, onde ela ficaria segura. E então, eu iria atrás deles.
Eu sabia onde encontrar Rodrigo. O quartinho. Eu iria até lá, e explicaria o que estava acontecendo. Mostraria para ele como ele estava enganado, como tudo não passava de uma enorme coincidência. E se ele se recusasse a cancelar o ataque, eu simplesmente teria que dar uma de Rambo.
Ou chamar a polícia. O que fosse mais conveniente.
Me virei de volta para ela, pronto para começar.
- Acho melhor a gente ir embora agora. Não estamos cometendo nenhuma infração, mas não estou com saco pra sair explicando tudo se algum professor desavisado achar que estamos fugindo.
Ela pareceu se concentrar bastante em cada palavra minha, um pouco além do normal. Mas eu estava muito nervoso e assustado com o que estava prestes a fazer para me perguntar o porquê.
- Mas nós
estamos fugindo. Mais ou menos. – Ela argumentou.
- Não estamos, não; eu tenho permissão do pessoal do museu para vir aqui. Só estava com preguiça de ir atrás dos professores e falar com eles. De qualquer jeito, temos que ir agora. Guarde o colar em algum lugar.
- Tudo bem.
Ela abriu a bolsa e, com muito cuidado, guardou o colar. Mais tarde, eu teria que explicar tudo a ela e pedir que ela devolvesse aquilo, mas agora eu precisava que ela continuasse sem saber e simplesmente voltasse para o grupo, inocentemente.
Saí da sala, desliguei a luz e fechei a porta, com Anna logo atrás de mim. Andamos apressados pelo corredor escuro, e depois por alguns corredores do museu, até alcançarmos nosso grupo.
Nenhum professor ou guia tinha percebido nossa pequena fuga, e nós nos juntamos ao grupo sem problema algum.
- Operação bem-sucedida. – Eu disse, ofegante por causa do estresse e da corrida até ali – Ninguém percebeu.
- Viva nós. – Ela brincou.
- Viva nós. – Respondi, me enfiando no meio da multidão e sumindo de perto dela.
Comecei a olhar em volta, procurando por qualquer sinal de Paulo ou daquele outro garoto. Se não encontrasse nenhum deles, eu iria direto para o quartinho, falar com Rodrigo.
Mas esse plano acabou não dando muito certo.
Porque assim que me afastei um pouco mais, vi Paulo atrás de mim, com o canto do olho, segurando um pau e pronto para atacar.
Só deu tempo de pensar "Mas que droga, de novo não!", antes de eu cair no chão mais uma vez, inconsciente.
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Capítulo 20
De repente, um cheiro horrível de desinfetante me invadiu, me fazendo acordar. Lentamente, abri os olhos, e vi uma coisa que realmente me surpreendeu.
Havia um vulto na minha frente; cabelos compridos, meio cheinho, e cujos pés esfregavam alguma coisa debaixo do meu nariz. A escuridão era quase completa, mas logo meus olhos se adaptaram e eu reconheci a forma que me trouxera de volta, colocando um vidro cheio e aberto daquele desinfetante de banheiro na minha cara.
- Samanta? – Minha voz parecia um pouco rouca.
- Mm-hm. – Ela respondeu, mas eu quase não ouvi.
Demorei um pouco para perceber que era porque havia um pedaço sujo de pano cobrindo-lhe a boca.
Olhei para os lados, e descobri que estávamos em uma salinha bem pequena, parecida com aquela para qual eu estava me dirigindo na hora em que decidira ir falar com Rodrigo. Um simples quartinho de limpeza.
Perguntei-me por que cargas d'água um museu precisaria de dois quartinhos assim, mas logo esse pensamento se foi; havia mais uma pessoa conosco, sentada no cantinho.
- E Isadora. – Completei.
A garota no canto apenas fez que sim com a cabeça. Sua boca também estava coberta, e ela não podia falar.
Por alguma razão, eu podia. Ninguém tinha
me amordaçado; mas isso não fazia tanta diferença, porque minhas mãos estavam amarradas nas costas e eu sabia que gritar não ia adiantar (eu tinha uma idéia de onde estávamos, e era longe demais da civilização) – e, mesmo que alguém ouvisse, isso poderia apenas nos causar mais problemas.
Tentei me levantar, mas uma pontada de dor me veio à cabeça, me fazendo cair de novo. Ele tinha acertado bem em cima da nuca, e agora estava doendo pra caramba. Fiquei muito aliviado ao lembrar que as meninas não tinham tido que levar uma pancada também.
E foi então que eu me lembrei de uma pequena coisa: da Anna. Ela ainda podia estar correndo grande perigo, e nós – ou melhor, eu era a única pessoa que sabia e podia impedir.
Nós tínhamos que dar um jeito de sair dali, para podermos ir atrás dela. E eu ia precisar da ajuda das meninas.
Olhei para as duas, e rapidamente apontei o óbvio.
- Temos que sair daqui. Agora.
As duas pareceram meio assustadas, mas acabaram acenando com a cabeça, concordando.
- Vocês sabem por que estão aqui? – Eu perguntei, sondando o quanto de tudo aquilo elas sabiam.
Elas balançaram a cabeça. Os olhos, arregalados, eram suficientes para mostrar como elas estavam completamente confusas e assustadas. Elas não sabiam de nada.
Mas agora não dava tempo de explicar tudo, e eu teria que ir com o básico.
- Eles querem a Anna. Sabe, a novata? É claro que sabem. Pois então, eles estão tentando matá-la.
De repente, o espanto das duas cresceu ainda mais, e eu quase pude ouvir um abafado "O quê?!" vindo de Samanta. Isadora parecia estar beirando o estado de choque.
- Eles acham que ela é uma criminosa aí, inimiga deles, alguma coisa assim. – Expliquei – Mas ela não é. Eles vão pegar ela agora e vão fazer sabe-se lá o quê, mas eu posso garantir que ela não vai sair viva. Nós temos que fazer alguma coisa.
Mais uma vez, Samanta tentou falar. Depois de alguns segundos, consegui captar a palavra "quem". Ela queria saber quem eram
eles.
- Rodrigo, Paulo, e mais uns caras que a gente não conhece. São uma gangue, eu acho. Traficantes mesmo, barra pesada.
Pude ver que ainda havia uma pergunta nos olhos das duas. E o que é que nós tínhamos a ver com isso?
Tentei resumir, na esperança de que todos estaríamos vivos quando tudo acabasse, para que eu pudesse explicar melhor os fatos para aquelas meninas tão completamente inocentes.
- Eles pediram pra eu ajudar. E eu aceitei.
Choque. Cada vez mais choque nos rostos das duas.
- Quero dizer, eles me convenceram que ela era mesmo perigosa. E meio que me ameaçaram, também. Mas eles estavam errados, e quando eu me dei conta disso, desisti de cooperar. Foi aí que eles me prenderam. E vocês, foi só pra não me atrapalharem. Sabe como é, olhando para ela.
Respirei fundo. Eu estava demorando demais com aquilo tudo. Agora não era hora de explicações; era hora de agir.
- Mas isso não importa. – Eu disse, de uma vez, mais para mim que para elas. – A gente pode conversar depois. Agora, o que a gente tem mesmo que fazer é sair daqui. Vocês podem me ajudar a descobrir um jeito de fazer isso? Eu confesso que não tenho a mínima idéia.
Mais uma vez, elas acenaram. Tinham entendido a gravidade da questão. Uma vida estava em risco; se ficássemos lá, acabaríamos sendo libertados em algum momento, e voltaríamos para nossas vidas normais e seguras. Bom, talvez
eu não, porque eles provavelmente estavam com muita raiva mesmo de mim. Mas as meninas, com certeza.
O único problema era que, se a gente ficasse, a Anna podia acabar morrendo. Nós éramos os únicos que sabíamos.
Tentei ficar de pé de novo, dessa vez tentando agüentar a dor aguda na minha nuca. Olhei em volta, procurando desesperado por qualquer coisa que pudesse ser útil; o primeiro passo seria nos livramos da fita crepe nos punhos.
Logo as duas perceberam o que eu estava fazendo e se levantaram também. Ficamos procurando nas prateleiras, atrás de vassouras, em cada canto; só o que precisávamos era de algo que pudesse ser afiado.
Eu já estava quase achando que não teria jeito quando percebi que o sapato da Isa não era um tênis, como da maioria dos outros alunos, mas uma sandália discreta enfeitada com duas florzinhas de metal cada uma; florzinhas cujas pétalas eram convenientemente bastante compridas e afiadas.
- Isa, sua sandália! – Eu quase gritei.
Ela olhou com medo para o pé, provavelmente achando que tinha algum bicho ou algo assim, mas logo entendeu o que eu quis dizer.
Com um pouco de ajuda minha e da Sam – você não imagina como é difícil fazer as coisas com as mãos nas costas! – ela finalmente conseguiu tirar um sapato. Rapidamente, Samanta o pegou e começou a raspar as pétalas da florzinha contra a fita que prendia meus punhos.
Não demorou dois minutos, e eu estava livre. Deixando o sapato de lado, tirei as fitas das duas e desamarrei os panos de suas bocas.
- Você. – Samanta disse, assim que se viu livre daquele pano sujo – Nos deve uma senhora explicação. Agora não, mas não pense que eu vou esquecer. Ok?
Ela apontou o dedo no meu nariz, deixando bem claro que ela estava falando sério.
- Claro. Não se preocupe.
- Gente. – Isadora interrompeu. – E agora? Como é que a gente sai daqui?
- Bom, a gente podia descobrir um jeito super inteligente e incrível de escapar. – Eu disse, sorrindo – Ooou, eu posso arrombar a porta.
Peguei uma vassoura com cabo de metal, e elas logo entenderam o recado. Se ninguém ia ouvir nossos gritos de socorro, por que ouviriam o barulho de alguém arrombando a porta? Além do quê, a porta estava trancada, mas se eu simplesmente fizesse um buraco no meio dela, isso não seria problema.
As duas rapidamente recuaram, tentando me dar o máximo possível de espaço naquele quartinho minúsculo. Respirei fundo, coloquei a vassoura em posição de ataque, e ataquei.
Uma, duas, três batidas. A madeira continuava firme, mas parecia estar começando a ceder. Quatro, cinco, seis.
Depois de algum tempo fazendo isso – e, confesso, depois que Samanta começou a me ajudar com outra vassoura – acabamos conseguindo quebrar a porta. Isadora rapidamente se prontificou a ajudar retirando os últimos pedaços com a mão, e logo nós três estávamos livres.
Eu saí primeiro, olhando para os lados. Estava tudo vazio; na nossa frente ia um longo corredor escuro, cinza, fedendo a desinfetante também. Mais para frente, dava pra ver as portas dos banheiros dos funcionários. Lindo.
Corremos em silêncio pelo longo corredor, até que chegamos e passamos pela última porta. Como eu esperava, agora estávamos em um outro corredor; um corredor cheio de quadros, cujo final dava para o Centro de Pesquisas. Olhei por um segundo para o Centro, me perguntando como a Anna estava agora – sabe como é, viva, inconsciente ou morta – e então olhei para o lado oposto do corredor. Dava pra ver o Museu em todo o seu esplendor naquela ponta, cheio de pivetes andando pra lá e pra cá, e logo eu, Samanta e Isadora estávamos correndo em direção a ele.
De repente, estávamos em meio às pessoas novamente. Isso me fez sentir um pouco melhor, mas pude ver o alívio explícito no rosto das duas meninas: agora estávamos seguros.
Mas ainda não tinha terminado.
Olhei para todos os lados, sabendo que havia uma chance de ela ainda estar perfeitamente segura, acompanhando o grupo. Mas aquele obviamente não era o nosso grupo, e logo eu estava correndo de novo. Sem perguntar nada, as meninas me seguiram.
Foi só então que eu comecei a pensar de verdade no que eu ia fazer agora. Só ir falar com Rodrigo não seria suficiente; minha opinião obviamente já não valia mais nada para ele. Nenhum deles me ouviria.
Eu ia ter que apelar. Mas não sabia exatamente
como.
- Posso perguntar para onde estamos indo? – Isadora disse de repente, olhando nervosa para mim.
- Estamos procurando nossa turma. Talvez a Anna ainda esteja lá, e nada tenha acontecido.
- Mas e se... e se a gente não achar ela? – Samanta parecia bastante preocupada.
- Então a gente avisa alguém, ué! – Isadora disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Porque, na verdade, era mesmo. Não sei, não sei
mesmo porque eu não tinha pensado nisso. Eu estava achando que ia ter que resolver tudo sozinho!
É pra isso que serve a polícia, não é? Tudo o que eu tinha que fazer era contar, rapidamente, o que eu sabia, e deixar nas mãos dos profissionais. Se fôssemos rápidos, talvez ainda desse para pegá-los no quartinho de limpeza de fora, quem sabe?
De repente, encontramos o nosso grupo. Ainda com alguma esperança, procurei por ela; mas não conseguia encontrá-la em lugar nenhum. Tudo o que eu via era um pequeno escarcéu que uma menina fazia, aparentemente porque tinham cuspido chiclete no cabelo dela, e ela não se importava se já tinham tirado o chiclete e limpado a sujeira, ela ia processar a escola toda se o culpado não se pronunciasse.
- Ela não está aqui. – Samanta repetiu o que todos já havíamos pensado, a voz tingida de puro terror.
- Você tem alguma idéia de onde ela pode estar? – Isadora, justo a que parecia que ia ter um colapso, agora era a única conseguindo pensar direito.
Ela devia ser só claustrofóbica, sei lá.
- Tenho. Mais ou menos.
- Então, vai lá. Ta vendo, ali tem um mundo de adulto com aquela menina do chiclete. A gente tem que contar tudo pra eles, agora!
- Certo. – Respondi, já correndo em direção aos professores e arquitetando a forma mais rápida e completa de relatar o que estava acontecendo.
Dentro de dois ou três minutos, já tínhamos separado dois grupos de busca e alertado todos os guardas do museu – através de walkie-talkies, é claro – sobre o problema. Não demorou muito para recebermos uma ligação de quem estava mais perto do quartinho de limpeza que eu mencionara, dizendo que não havia ninguém lá dentro.
Eles já tinham ido embora. Com ela.
Desesperado, deixei o grupo sozinho, e fui correndo em direção ao quartinho; ele era a minha última esperança, e eu
tinha que ver por mim mesmo.
Só que, no meio do caminho, eu acabei vendo dois jovens correndo rua abaixo, e não foi difícil reconhecer quem eram.
Não dava tempo de voltar para chamar alguém, e eu não tinha nenhum walkie-talkie; então, naquele momento de desespero, eu não consegui raciocinar muito bem e só o que eu fiz foi começar a segui-los. Eles viraram na primeira esquina que tinha e foram direto para uma caminhonete estacionada em um canto escuro. Ao lado da caminhonete, alguns adolescentes ainda estavam tentando colocar um grande saco em forma de gente dentro da garupa quando os dois últimos amigos – Paulo e Aquele Outro Cara – chegaram e subiram no carro também.
Para minha sorte, ninguém foi na garupa junto com Anna; mesmo ficando bastante apertados dentro do carro, nenhum deles pareceu querer ir com ela.
Quando o motor demorou um pouco para pegar, eu corri e subi na garupa também. Eles nem perceberam nada.
A primeira coisa em que pensei era em checar se o corpo ao meu lado respirava ou não; se não estivesse, eu mesmo podia acabar parando de respirar também.
Cuidadosamente, tentando não fazer barulho nem nenhum movimento brusco, eu desamarrei a abertura do saco e olhei para dentro.
O rosto de anjo dormia, mas estava vivo. Suspirei, alívio mais uma vez tomando conta de todo o meu corpo. Ainda havia esperança.
Com muita pena, amarrei o saco de novo, e me escondi embaixo de uns panos que estavam jogados de qualquer jeito no canto da caminhonete. Agora, eu tinha apenas que esperar, e pensar.
Pra começar, o que é que eu ia fazer quando aquele carro parasse? Dar uma de super-herói e derrotar todos eles com meu kung-fu supremo?
A idéia de chamar ajuda ainda parecia ser a melhor, mas cada vez mais impossível. Eu estava com meu celular, mas não podia me arriscar a usá-lo, pelo menos não agora. Eles podiam me ouvir, e então nós dois estaríamos mortos.
Nós meio que já estávamos, mas eu não queria piorar a situação.
Então, decidi que a primeira coisa que eu faria quando a caminhonete parasse seria pular para fora da garupa o mais rápida e quietamente possível, e me esconder embaixo do carro. Isso provavelmente exigiria um pouco de kung-fu de super-herói, mas era o melhor que eu podia pensar na hora. Depois, quando eles a pegassem e a levassem para longe, eu me esconderia no lugar mais afastado possível e chamaria a polícia.
E então, enquanto a ajuda não chegasse, eu ficaria de olho no que estava acontecendo com Anna, e, se por algum terrível acaso eu visse que a ajuda ia chegar tarde demais, eu improvisaria.
Por enquanto, era o melhor que eu podia fazer.
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Capítulo 21
A escuridão era quase completa, tanto por fora como por dentro. Eu tentava abrir os olhos para ter certeza, mas parecia uma missão impossível - minha cabeça estava três vezes mais pesada que o normal, e meus olhos se recusavam a obedecer ao comando que meu cérebro mandava. Na verdade, era mais como se meu cérebro não quisesse nem mesmo mandar o comando; era como se todo o meu corpo estivesse em greve contra a minha vontade.
Mas parecia não haver mesmo nenhuma luz em seja lá onde eu estava. Mesmo quando estamos de olhos fechados, conseguimos ver quanta luz há lá fora. E não havia nenhuma. Eu tinha quase certeza.
De repente, eu senti algo se pressionando contra o meu braço; de início foi difícil identificar, mas acabei por perceber que parecia ser o braço de outra pessoa. Eu devia estar sentada ao lado de alguém.
Aos poucos, eu fui voltando à minha consciência. Os olhos ainda se recusavam a abrir, mas eu estava começando a ter uma noção melhor da minha posição e dos meus sentidos, e meu cérebro parecia estar começando a pensar direito.
E então, comecei a perceber os cheiros.
Ar úmido. Madeira velha. Pó. Muito, mas muito pó mesmo. E sangue.
Procurei mentalmente em meu corpo por qualquer lugar que estivesse doendo; obviamente, encontrei vários, em especial minha cabeça, mas nada que parecesse estar sangrando. Só a dor de quem ficou na mesma posição por tempo demais.
Raciocinei que seja lá quem fosse que estivesse do meu lado devia estar em uma condição pior que a minha, machucado ao ponto de ter sangrado.
O que me levou a me perguntar: e qual
era a minha condição? Onde é que eu estava, afinal de contas?
Mais uma vez, tentei abrir os olhos. Com um pouco de esforço, acabei conseguindo; eu já estava quase totalmente acordada.
Olhei à minha volta, mas, como eu tinha previsto, estava escuro demais para ver muito bem. Mas pude perceber que eu estava em alguma espécie de celeiro, algo como um enorme galpão de madeira. As quatro longas paredes deixavam entrar, aqui e ali, algum filete de luz por entre as tábuas, só o suficiente para que pudesse ter uma noção do lugar.
Antes que eu pudesse olhar para o lado e checar quem era a minha companhia machucada, uma voz soou rouca dentro do enorme galpão.
- Anna? Você ta acordada?
Tentei responder, mas não consegui encontrar minha voz. Fiz que sim com a cabeça.
A forma ao meu lado pareceu sorrir.
- E você está bem?
Dessa vez, eu não tinha certeza de como responder. Obviamente, eu estava mal sim, muito obrigada; mas ele, o estranho ao meu lado, parecia estar ainda pior. Além do fato de que, naquelas condições, "estar bem" podia não significar tanto quanto normalmente. Podia significar só "sim, eu estou viva, e também não estou morrendo. De forma direta, pelo menos".
Mais uma vez, acenei que sim.
- Que bom. – Ele disse.
Tossi algumas vezes, tentando alcançar minha voz. Por fim, acabei conseguindo formar umas duas palavras:
- Quem... você?
- Ah, desculpe. Ta meio escuro mesmo. É o Pedro. – Ele sorriu, e de repente eu me senti idiota por não ter reconhecido a voz dele antes – E eu estou aqui pra te levar de volta. Eu vou fazer isso, não se preocupe. Eu prometo.
Ele parecia estar falando mais consigo mesmo do que comigo, como se tentasse convencer a si próprio disso. O que não era um bom sinal; se ele tinha medo de não conseguir sair dali, é porque as coisas não estavam muito bem.
Com algum esforço, comecei a me lembrar dos fatos que tinham me levado até ali. O museu, a salinha. Eu estava lembrando... e a última coisa era de cair no chão, inconsciente, e de de repente estar aqui.
É, mesmo sem o medo de Pedro, acabei concluindo que as chances de as coisas
não estarem muito mal eram bem pequenas, mesmo.
- Onde é que a gente está? – Perguntei, a voz ainda mais rouca que a dele.
- Numa fazenda. Abandonada, eu acho. Foi pra cá que eles me trouxeram quando... – Ele então deu uma pausa, parecendo se arrepender – Uma vez. Eles te trouxeram aqui na garupa de uma caminhonete, e eu vim junto. Prestei atenção no caminho todo, e sei exatamente onde a gente está.
- E é ruim?
- Bem ruim. Foram uns quarenta minutos pra chegar aqui.
- Não dá pra gente fugir estando tão longe assim! Eles têm um carro, não é? Iam acabar nos alcançando.
- Eu sei, eu sei. Mas olha, eu tenho um plano.
Ele respirou fundo, olhando para os pés. Estavam amarrados com fita crepe, assim como as suas mãos atrás das costas, e assim como as
minhas mãos e pés. Percebi que ele realmente não estava muito seguro de que encontraria um jeito.
Ele ficou quieto por um instante, e eu acabei apressando-o.
- E então?
- Eu chamei a polícia.
- O quê? Sério mesmo? – A alegria estava bastante explícita em minha voz, mas ele acabou me interrompendo antes que eu ficasse animada demais.
- Mas eles vão demorar muito pra chegar aqui. Olha, quando a caminhonete foi se aproximando do galpão, eu acabei reconhecendo ele.
- Reconhecendo? – Interrompi.
- Longa história. Sem tempo pra contar.
- Certo, claro. Continue.
Ele respirou fundo, mais uma vez, tentando reformular sua frase.
- Eu vi que era para cá que eles estavam te trazendo. Nenhum deles sabia que eu estava na garupa, então, assim que o carro começou a ir mais devagar, eu pulei para fora dele e entrei no mato. Eu segui vocês por alguns segundos, só para ter certeza de que o galpão era mesmo o destino deles. Então, quando a caminhonete parou, eu fui correndo para o lugar mais escondido mais próximo e liguei para a polícia. Contei tudo o que estava acontecendo e dei o endereço. Eles me disseram que estariam aqui o mais rápido possível, mas foi o que eu disse: eles levam no mínimo meia hora pra chegar aqui.
- E quanto tempo faz que você ligou?
- Uns dez minutos. – Ele respondeu, um sorriso amarelo nos lábios.
Levei alguns segundos, mas acabei juntando as peças e percebi que ainda faltava uma.
- Certo. Mas como foi que você veio parar aqui? Você não estava livre, lá no mato?
- Bom, eu... eu meio que vim pra cá depois de chamar a polícia. Eu sabia que eles iam demorar, e pensei que, se alguma coisa acontecesse e eles chegassem tarde demais, e eu estivesse estado bem ao lado, podendo ajudar...
Engoli em seco.
- E... aconteceu?
Ele acabou deixando uma risada nervosa sair.
- Aí é que está: não aconteceu nada! Eles te amarraram e te colocaram aqui dentro, e depois foram pra casinha que fica aqui do lado e começaram a conversar. Eu achei que eles estavam só esperando você acordar, mas aí me ocorreu que eles podiam estar se reunindo antes pra decidir... bem...
como exatamente eles iam, sabe como é. Te matar.
Agora, era a minha vez de fitar os pés. Eu estava ficando cada vez mais assustada; aquilo só parecia ficar pior e pior a cada instante!
- Me aproximei pra poder ouvir a conversa. – Pedro continuou – Mas eles me viram. Me prenderam também e me jogaram aqui. Agora eu não sei o que está acontecendo ou o que eles vão fazer. Faz uns cinco minutos que eu to aqui, e ninguém apareceu ainda ou disse qualquer coisa, enquanto você estava desmaiada.
Então, a gente estava ali só esperando a morte, sem nem ao menos saber como ou quando ela ia chegar? Mas que ótimo.
De repente, me ocorreu uma coisa.
- E você acha que eles sabem que a polícia está a caminho?
- Não, com certeza. – Ele sorriu – Eu escondi meu celular no mato antes de chegar mais perto. Eles devem achar que eu estava incomunicável, de qualquer jeito.
- Bem, isso é um bom sinal.
- É, eu acho que sim.
Depois, ficamos ambos em silêncio, pensando. Eu estava sendo otimista demais. Não era um bom sinal coisa nenhuma; significava, claro, que eles tinham uma desvantagem, achavam que estavam completamente no controle. Só que, bem, eles meio que estavam
sim no controle. O único detalhe é que esse quadro estava com os minutos contados, mas podia muito bem ser um tempo mais que suficiente para eles.
Olhei para Pedro, assustada.
- E agora? – Perguntei. – O que a gente faz?
- Sai daqui. Eu não sei muito bem como, mas a gente tem que sair daqui antes que alguém apareça, e sem ninguém perceber. A gente se esconde no mato e espera a ajuda chegar.
- Parece bom pra mim. Mas como a gente faz isso?
- Não sei. – Ele disse, olhando de um lado para o outro, os olhos arregalados de medo também – Peraí. Estou pensando. Eu tirei a Sam e a Isa daquele quartinho, e vou tirar a gente daqui também.
Antes mesmo que eu pudesse perguntar que história de quartinho era aquela, um barulho chamou minha atenção. Vinha da direção da porta do galpão. Algo como uma chave se mexendo na tranca.
Eu e Pedro viramos os rostos imediatamente um do outro para a porta. Como estávamos escorados na enorme parede dos fundos, a porta agora se abria bem na nossa frente, e a luz que entrava machucava meus olhos. E então, alguém entrou, a voz ecoando naquele lugar imenso.
- Vai tirar, hein, Pedro? E por quê? De verdade, eu te pergunto:
por quê você está fazendo isso? Por acaso não sabe de quem estamos tratando aqui? – Rodrigo disse, olhando para mim, os olhos banhados de ódio.
- Você está enganado. – A voz de Pedro, usada mais alta pela primeira vez até então, também ecoou até a porta, onde nosso visitante estava parado – Ela não é quem vocês pensam que é. É tudo um enorme mal-entendido.
- E você acha mesmo que a conhece melhor do que
eu? – Rodrigo riu. – Eu acho que sou capaz de reconhecer a garota que tentou me matar tantas vezes quando a vejo.
Tentou matar? O Rodrigo?
Quem era essa Andressa, afinal de contas? Como é que alguém se atreveria a ameaçar um cara como ele? Eu só me
parecia – aparentemente – com uma inimiga dele, e já estava aqui, pronta para morrer. Ela devia ser doida, só pode.
- Mas você se enganou dessa vez. – Pedro respondeu – É sério. Essa aqui
não é a Andressa. Eu tenho certeza.
Rodrigo olhou do Pedro para mim, rindo baixinho.
- Então, você conseguiu mesmo convencê-lo, não? Pelo menos
isso você fez. Até agora parece que tudo o que você tem feito foi implorar pela sua vida. Quando é que você vai parar de fazer sua personagem, hein? Eu
já sei que é você. Sério mesmo.
Fiquei muda. Não sabia como responder.
- Mas, - ele continuou – pelo menos você se tocou da armadilha. Eu estava mesmo achando que você ia. Sorte nossa que mesmo assim você caiu nela.
Olhei para ele e para Pedro, confusa, mas começando a juntar os fatos. Pedro parecia saber do que ele estava falando mais do que devia... e agora, seu olhar era de culpa total.
- Armadilha? – Perguntei, desconfiada.
- Claro. A de mandarmos o pivete aí pra te pegar. Sabe como é, fingir ser seu amigo e te levar direto para nós. É claro que a gente sabia que você não se importava com amigos, mas tinha que manter a...
- Como é? – Interrompi, voltando os olhos para o garoto ao meu lado. – Você estava...
ajudando eles?! Você
fingiu?
- Bom, eu... eles disseram que... eu tinha
certeza que...
- Que o quê, eu era essa Andressa? – Agora eu estava com raiva mesmo. – Até
você? E de onde é que você a conhece, pra começo de conversa? E por que iria ajudar esse povo a
matar ela? O que foi que ela te fez?
- Eles me ameaçaram!
- Ah, claro. E ter concordado só fez te ajudar, não é? Você está
super seguro agora!
Eu não conseguia acreditar naquilo. Não podia.
Tudo era uma mentira. Quer dizer, claro, eu mal conhecia o Pedro, mas ainda assim... ele parecia ser um cara legal, mas ele estava tentando
me matar. Só isso!
Não dá pra ficar numa boa com uma pessoa que fingiu gostar de você só pra levar pra uma armadilha, mesmo que ele ou ela achasse que você era uma outra pessoa. Quero, dizer,
quem faz isso? Mesmo que eu
fosse a Andressa, não era uma coisa muito gentil de se fazer.
- Não que isso não seja extremamente tocante. – Rodrigo interrompeu – Mas eu tenho que ir agora. Só vim aqui pra me despedir.
Olhei imediatamente para ele, e Pedro fez o mesmo.
- De... despedir? – Ele gaguejou.
- Bom, é, sim. É claro que, se
você mudar de idéia e decidir se juntar a nós de novo, nós ficaríamos mais que felizes em te soltar. Você poderia ser bem útil.
Pedro olhou para mim, confuso. Eu não conseguia acreditar naquilo.
E então, de repente, certeza tomou conta de seu rosto.
- Claro. – Ele voltou seus olhos para Rodrigo, um meio-sorriso no rosto – Você tem razão, não há nenhum mal-entendido. E qualquer coisa é melhor do que morrer aqui, por causa de uma pessoa como ela.
E então, ele se levantou. Rodrigo parecia surpreso, mas acabou tirando um canivete do bolso e cortando a fita crepe dos punhos de Pedro.
Logo os dois tinham ido, e eu estava sozinha; éramos só eu, minha raiva, e meus pensamentos.
Tudo agora era a mais profunda escuridão. Por fora, e por dentro.
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Capítulo 22
Os minutos passavam. Eu estava cada vez mais assustada, mais desesperada.
Ele tinha ido embora. Tinha me deixado. Eu estava sozinha.
Eu tentava com toda a minha força soltar minhas mãos, mas era inútil. O máximo que eu podia fazer era esperar que seja lá o que estivessem fazendo demorasse, e a polícia chegasse primeiro.
Se bem que, agora, Pedro estava com eles. Ele, pelo visto, se convencera também de que eu era essa Andressa, e agora estava ajudando eles do lado de lá. Provavelmente já tinha contado que a polícia estava a caminho.
Estou falando sério, se depois que a gente morre a gente continua aqui, tipo em espírito ou sei lá o que, eu juro que vou atrás dessa menina. Vou assombrá-la pro resto da vida. Isso é tudo culpa dela.
Por que,
por que eu tinha que ter nascido tão parecida – ou, pelo menos, eu deduzi que devia ser parecida – com uma criminosa procurada? Já é extremamente raro duas pessoas que não são da mesma família se parecerem ao ponto de serem confundidas uma com a outra, mas
isso? Isso já era demais. Era inacreditável.
E eu nem conseguia entender direito o que estava acontecendo. Como, afinal, o Pedro conhecia essa menina? E o que diabos foi que ela
fez? Sério mesmo!
Isso tudo era injusto, muito injusto. E o pior era que, talvez, ela
merecesse tudo o que eu estava passando. Eu não conseguia imaginar que uma pessoa pudesse ser tão horrível assim, mas o que é que eu sabia? Talvez ela devesse ser parada, de seja lá o que fizesse.
Então, além de eu morrer por razão nenhuma,
ela continuaria a solta.
Tinha que ter um jeito de eu parar tudo aquilo. Tinha que ter algo que eu pudesse
fazer.
Olhei em volta, desesperada por alguma solução, qualquer uma. Pelo menos pra eu poder tirar as fitas das minhas mãos; elas estavam incomodando pra caramba!
Tentei me levantar, andar pelo galpão à procura de algo que pudesse me ajudar. Depois de alguns segundos tentando, acabei conseguindo ficar de pé. Não era muito útil, já que meus pés também estavam atados, mas era melhor que nada.
Comecei a pular em direção a um montinho de tralha que estava perto de mim, na esperança de encontrar algo afiado.
Quando cheguei mais perto, mal consegui acreditar na minha sorte: tinha, entre um monte de outras ferramentas, uma comprida tesoura de jardinagem ali – aquela coisa podia cortar quase tudo!
Por um segundo, passou na minha mente a idéia de que, é, quase tudo; tudo inclusive o peito de alguém. Imaginei Rodrigo segurando a tesoura, vindo na minha direção; mas logo chacoalhei a imagem para fora da minha mente. Não era hora de pensar naquilo.
Me agachei perto do montinho, numa tentativa de pegar a tesoura. Mas era muito difícil; minhas mãos e pés estavam atados, e as mãos estavam atrás das costas. Pensei em como era irônico o fato de eu precisar da tesoura para me livrar e, ao mesmo tempo, não poder pegá-la porque estava amarrada.
Mais uma vez, não era hora de pensar naquilo. Eu tinha que me concentrar.
Primeiro, eu percebi que, se eu estivesse com as mãos para frente, mesmo amarradas, seria bem mais fácil pegar a tesoura. E então, não sei como, eu coloquei minhas mãos na minha frente. Eu me abaixei até encostar as mãos bem atrás dos meus pés, sentei, e então passei as mãos por baixo dos calcanhares, e de repente elas estavam na minha frente.
De novo, não sei como consegui. É impossível, a menos que você seja uma daquelas pessoas de circo que parecem ser feitas de borracha. Deve ter sido a adrenalina, sei lá.
Mas o fato é que eu consegui. Peguei um lado da tesoura com a ponta dos dedos, e o outro com a boca. Assim, com muita dificuldade, acabei conseguindo soltar meus pés. Era um alívio simplesmente enorme, mas eu ainda não tinha terminado. Agora, segurando um dos lados entre os pés – e depois de fazer alguns cortes nos dedos, tenho que confessar – também consegui soltar as mãos.
Completamente livre, me levantei, esticando pernas e braços, checando se estavam todos bem. Fora aquela dorzinha de ficar muito tempo parada, e a ardência dos novos cortes em minhas mãos, e a dor aguda na minha cabeça, eu parecia estar bem.
Agora, eu tinha que sair dali. Eu ainda estava seguindo o plano de Pedro: sair e me esconder. Se bem que...
ele sabia do plano, não sabia? Ele podia muito bem deixar os outros a par.
É, talvez fosse melhor sair e
correr, o máximo que eu pudesse.
Primeiro, sem muitas esperanças, corri em direção à porta. Obviamente, estava trancada. Olhei em volta, procurando por alguma coisa, qualquer coisa, que pudesse servir como saída. Mas não havia nenhum buraco naquelas paredes além da porta e das rachaduras por onde entrava a luz.
Comecei a perder esperança. Olhei para o teto: nada, também. Quer dizer, não havia chance de eu alcançar o
teto, mas quem sabe?
E então me veio a idéia de quebrar a parede. Ela parecia muito firme para ser quebrada, mas era tudo o que eu podia pensar. Fui correndo para o outro lado do galpão, nos fundos, onde havia algumas pedras no chão – o que me deixou um pouco tonta, já que eu ainda estava tão fraca – e peguei a maior que encontrei. Com toda a minha pouca força, taquei a pedrona na parede.
Nada.
Pensei que talvez o problema fosse apenas que aquela pedra era grande demais, e por isso, mesmo ela sendo capaz de quebrar muito mais que as outras,
eu não fora capaz de jogá-la com a força necessária.
Peguei as pedrinhas menores e as joguei com toda a força possível, uma depois da outra. Eu estava começando a ver pontinhos pretos, sentindo que ia desmaiar, e a parede também não parecia sofrer nenhum dano fora riscos na tinta – ou verniz? -, mas eu não parei. Já tinha perdido noção da razão; estava desesperada, concentrada, louca. Não
louca louca; mas é, louca.
De repente, um cheiro novo e estranho me tirou do meu transe. Olhei para a direção do cheiro, voltando à consciência rapidamente. Não demorou muito, e eu o reconheci. Era fumaça.
No cantinho oposto ao que eu estava, bem na junção entre a parede do fundo – a que eu estava tentando quebrar – e a que ficava do outro lado, havia fogo. Fogo na parede de madeira de um enorme galpão de madeira. Dentro do qual eu estava presa.
Olhei pra todos os lados, procurando qualquer solução. Mas não havia nenhuma. Tinha acabado. Realmente, percebi que não havia mais esperança.
Caí no chão, derrotada. Estava cansada demais, não agüentava mais. Estava exausta demais até mesmo para chorar, para lembrar de minha família, ou de como eles iriam receber a notícia. Não me importei com o fato de que eu jamais veria Brasília de novo, ou minhas amigas de infância, ou qualquer outra pessoa, aliás. Não liguei tanto nem para o fato de que eu ia morrer. Estava cansada demais para isso.
Olhei mais uma vez para o fogo que se alastrava rapidamente, ferozmente. Já tinha consumido do chão ao teto do canto onde começara, e tomado quase toda a parede dos fundos, da qual eu estava perigosamente perto.
Olhei bem, absorvendo aquela última imagem. Como o fogo era bonito! Destruidor, devastador. Mas tão belo. Tão grande, tão poderoso.
E então, quando eu estava prestes a fechar os olhos, um barulho ensurdecedor tomou conta do galpão. Assustada e de repente acordada, me sentei por instinto, e logo percebi que o lugar estava começando a desmoronar. Com as paredes em chamas, o teto estava começando a cair; e o que eu tinha na minha frente agora era um belo pedaço retorcido de uma das telhas de metal do teto, se deformando por causa do calor.
Fiquei um pouco surpresa com o teto caindo tão cedo. Fazia o que, um minuto desde que o incêndio começara? Dois com certeza não era. Não era tempo o suficiente para as paredes já estarem caindo e levando telhas consigo, ou era?
... Espera aí. As paredes estavam
caindo?
Começando a sentir uma pontada de esperança de novo, fiquei de pé rapidamente, tentando ver o que havia atrás do enorme pedaço de telha na minha frente. Mais uma vez, aquilo tomou um pouco além do que eu tinha de energia, e eu senti que ia desmaiar de novo, mas não me importei. Porque, dessa vez, o que eu estava vendo era simplesmente maravilhoso demais.
Do lado de lá da telha, um bom pedaço da parede que uma vez a sustentara estava agora esparramada pelo chão, em vários pedaços de madeira quebrados e em chamas. No meio da enorme parede dos fundos, havia agora um também enorme buraco, bem do lado onde o incêndio havia começado.
E, atrás do buraco, do lado de fora, banhado pela cegante luz do sol – que nem se comparava à luz pesada do fogo de um incêndio – e segurando uma comprida barra de metal, estava a figura de uma pessoa.
A polícia, enfim! Tinham chegado a tempo!
- Vem rápido! – Era o grito do policial, do lado de lá de todo o fogo. – Vai ficar muito ruim por aqui. Você vai se queimar um pouco, mas tem que vir agora ou vai ser tarde demais!
A voz era estranhamente familiar, mas eu mal a conseguia ouvir com todo aquele estrondo que as labaredas faziam. Mas ele tinha razão: o fogo já tinha tomado quase totalmente as quatro paredes, o calor beirava o insuportável e o oxigênio estava começando a rarear.
Olhei assustada para o caminho que me separava do buraco; era bem pequeno, mas estava cheio de lascas flamejantes da parede, sem falar na telha de metal.
Continuei congelada no lugar, tentando encontrar coragem e forças para sair dali. Eu sabia que queimar um pouco os pés era bem melhor do que morrer, mas estava difícil convencê-los disso.
- Vamos! – A voz tentou de novo, me apressando. Percebi de relance que já tinha jogado a barra de metal (que, deduzi, ele devia ter usado para quebrar a parede, pois a estava segurando com um pano enrolado nas mãos para evitar o calor e, bem, a parede estava quebrada) no chão.
Olhei bem para a figura que me chamava, mas não consegui distinguir seu rosto. O fogo nas bordas do buraco não me deixavam ver muito do que havia do lado de lá. Mas ele parecia ser meio novo demais para ser da polícia.
Eu teria ficado mais nesse assunto se pudesse, pensando no meu estranho salvador, mas uma baforada de calor na cara me lembrou da urgência da situação. E então, sem pensar duas vezes – porque eu sabia que, se pensasse, mudaria de idéia – comecei a correr.
Consegui raciocinar o suficiente para desviar da telha de metal, mas acabei correndo sem pensar por cima das tábuas em chamas no chão. A dor e o calor eram horríveis, mas tentei não prestar atenção a eles, e continuei correndo.
Em menos de cinco segundos, mas num tempo que pareceu levar horas, eu estava fora do galpão. Agora, meu corpo todo doía
mesmo, daquele incômodo de ficar parada às minhas recém-adquiridas queimaduras. Mas não tive tempo nem de analisar onde doía mais ou quão mal eu estava, porque a figura que quebrara a parede já estava se enfiando dentro do mato de novo, e eu, sem pensar, comecei a segui-lo.
Ficamos correndo mata adentro, sem parar. Tudo o que eu mais queria no mundo todo era deitar, ali na grama mesmo, e ficar deitada. Mas eu não podia: o suposto policial corria a plenos pulmões na minha frente, e, se eu parasse por um segundo, podia perdê-lo de vista.
Então, eu continuava correndo.
É claro que eu já sabia que muito provavelmente não tinha sido salva pela polícia. Que tipo de policial sairia correndo daquele jeito? Que eu soubesse, o Pedro tinha chamado toda uma equipe, não um cara só. Não havia razão para fugir se haviam mais do seu time ali do lado, e se todos – inclusive você – estavam armados.
Mas não consegui levar meu raciocínio muito além disso. Mais tarde, me lembrando, eu me sentiria uma completa idiota por não ter reconhecido de cara quem tinha me tirado do incêndio. Mas agora eu estava cansada demais para pensar; na verdade, cansada era eufemismo.
Eu estava exausta. Morrendo. Literalmente, morrendo de exaustão. Não sabia de onde meu corpo tirava a energia que usava para mandar as pernas correrem tanto.
É claro que eu havia dormido por um bom tempo e acordara a menos de meia hora, então estar tão cansada era meio improvável. Talvez fosse só exaustão psicológica, pensei; e, por isso, apesar de como eu me
sentia cansada, na verdade meu corpo ainda tinha bastante energia armazenada para correr.
Mas, mais uma vez, não levei o pensamento adiante. Exaustão psicológica pode não parar as pernas, mas com certeza pára o cérebro da gente. Tudo em que eu conseguia me concentrar agora era em não tropeçar. E em não perder a pessoa na minha frente de vista também, é claro.
E foi assim, minuto após minuto, pensando desde a "policialidade" do meu salvador até as razões cósmicas e mentais para o meu cansaço, ao mesmo tempo em que eu percebia que não conseguia pensar com clareza, que a gente sumiu no meio das árvores.
Olhei para trás uma vez, curiosa, e percebi que não dava mais para ver o galpão, nem nenhuma outra parte da fazenda. Só árvores altas e juntas para todos os lados, plantadas num chão meio pantanoso, fedido, nojento, onde nossos pés começavam a se enterrar cada vez mais. E os insetos, é claro. Centenas, milhares de insetos por toda parte.
Ah, o mangue cearense. Que lugar maravilhoso para se estar.
De repente, aquele que ia na minha frente parou. Tínhamos chegado à beira de uma coisa-lago-pântano, e agora não dava mais para continuar. Além do fato de que já estávamos bem longe, e que levaria um bom tempo para qualquer um nos achar, então não precisávamos continuar correndo, de qualquer jeito.
- Acho que já está bom. – Ele disse, parando de correr, a voz competindo com a respiração acelerada.
Eu, meio longe, ainda não conseguia enxergá-lo muito bem, mas com certeza ouvi o que disse.
Extremamente aliviada, parei de correr. Sem pensar, dei mais uns dois passos em direção à árvore mais próxima, e me agarrei a ela. Para a minha sorte, era uma daquelas árvores grossas e retorcidas, como as do meu querido Cerrado, e não mais uma das mil e uma palmeiras que agora ocupavam cada canto do maguezal.
Abracei o galho mais baixo e mais horizontal da árvore, deitando a cabeça nele. Já tinha esquecido do que me levara até ali, ou do fato de que eu não estava sozinha.
Eu estava deitando. Finalmente, estava
parando. Automaticamente, me acomodei no galho, de um jeito que eu podia facilmente pegar no sono sem cair no chão. Agora, éramos só eu e a árvore no mundo todo.
Antes de fechar os olhos (só um pouquinho, prometi. Eu não ia dormir), olhei em volta, e tive que confessar que a vista era linda. Apesar do cheiro horrível, dos insetos e de um chão não muito legal de se pisar, o mangue era um lugar lindo, com a coisa-lago-pântano no meio rodeada de palmeiras altíssimas, com os pássaros brancos voando por cima. Cheguei até a ver um caranguejinho passar na minha frente quando estava me aproximando daquela abençoada árvore, segundos atrás.
E então, sem pensar, passei os olhos pela pessoa que me trouxera até ali. Pela primeira vez, ele estava de frente para mim (sem nenhum fogo no caminho, pelo menos), sentado contra uma palmeira mais a frente. Foi então que eu finalmente o reconheci.
Mas nem mesmo a onda de ódio e pavor que tomou conta de mim de repente conseguiu impedir que meus olhos se fechassem mais uma vez. Antes de voltar à completa escuridão com a qual tudo aquilo começara, entretanto, eu ainda consegui ouvir um ruído distante, bem ao longe. Algo como... tiros.
Sim, em algum lugar, estava havendo um tiroteio
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Capítulo 23
Branco. De repente, por mais estranho que possa parecer, tudo era branco.
Uma luz forte entrava nos meus olhos, me forçando de volta à consciência. Eu ainda não conseguia abrir os olhos, mas já estava acordando.
O cheiro que entrava pelas minhas narinas era de esterilização, e de luva de dentista. O ar parecia mais seco, mas frio, mais saudável e desagradável. Eu sei o que você está pensando: mais seco e frio não é saudável. Mas num lugar quente e úmido como Dunas, pode acreditar que é. Só que, como eu disse, não é nada agradável.
Ao fundo havia o som de uma TV ligada, e de gente conversando baixinho. Reconheci três vozes de adulto: meu pai, minha mãe, e uma desconhecida, que era quem falava mais. Meus pais, quando diziam alguma coisa, soavam preocupados.
Antes mesmo de abrir os olhos, eu já tinha deduzido onde estava. Não era nada como o mangue onde eu tinha dormido, ou como o galpão onde eu acordara da última vez.
Abri os olhos, e vi que estava certa: eu estava num hospital.
Num hospital! Sabe o que isso quer dizer? Tudo deu certo, no final das contas! A polícia deve ter chegado e me resgatado, e me trazido para cá. Minha situação provavelmente não era das melhores, já que eu estava toda entubada e tomando soro, mas pelo menos eu estava de volta à civilização, onde havia adultos para tomar conta do problema. O que, sinceramente, era um alívio enorme.
De verdade, no momento em que reconheci Pedro naquela árvore, eu tive certeza de que...
Peraí. O Pedro. Ele estava lá também. No mangue, onde nenhum policial podia nos achar; pelo menos não rápido o suficiente para que ele não tivesse tempo de fazer alguma coisa.
Foi então que meu cérebro, finalmente funcionando de novo, começou a raciocinar.
Por que, afinal de contas, ele me tirou daquele galpão? Ele não tinha mudado de idéia? Será que ele mudara de volta, e decidira me salvar mesmo?
E... e aquele tiroteio que eu ouvi? O que significava? Era a polícia contra a gangue do Rodrigo? Provavelmente sim, mas eu também não podia ter certeza.
E,
por que, afinal, o galpão pegou fogo? Será que foi... proposital?
De repente, me senti uma completa idiota por nem sequer ter me perguntado isso antes. Quando o incêndio começou, eu só me preocupei em sair dele viva, e nem pensei que os incêndios acontecem
por uma razão. E agora, essa razão parecia bem clara para mim.
Foi o jeito que eles escolheram de me matar. Simples assim. Logo antes, o Rodrigo não tinha passado lá para "se despedir"? Era porque ele estava prestes a botar fogo em tudo. Me matar de calor, ou de asfixia, ou esmagada embaixo de um pedaço queimado do teto de metal. Essa era a idéia, basicamente.
Eu sabia que eles eram cruéis, mas nem tanto!
Ninguém merece uma morte tão horrível assim. Quero dizer... ninguém, exceto talvez a pessoa que eles
queriam matar.
O que me levou a mais uma dúvida: e a Andressa? Quem era, por que queriam matá-la?
Qual era o problema dela, afinal?
E eles? Fugiram, foram presos? Ou... morreram? Se eles tivessem morrido, eu me sentiria muito mal, mesmo. Desse jeito, eles também seriam vítimas desse mal-entendido, muito mais do que eu. Claro que eles também eram muito mais
culpados do que eu, mas mesmo assim...
Decidi, de uma vez, parar de pensar naquelas coisas. Eu não ia conseguir respostas agora, e ficar me perguntando estava dando dor de cabeça. Decidi, ao invés de tentar entender o que acontecera, avaliar o que estava acontecendo agora.
Olhei em minha volta, pela primeira vez prestando atenção. Eu estava em um quarto de hospital, é claro, e também tinha toda uma aparelhagem médica ao meu lado, ligada a mim de uma forma quase assustadora. Olhando bem para aqueles equipamentos, comecei a me perguntar se eu não estava pior do que pensava.
Percebi também que havia uma pequena televisão na parede. Estava ligada no jornal da Globo, evidentemente, como qualquer outra boa televisão de área pública.
De um dos meus lados, do lado onde estava a aparelhagem, havia uma parede branca, bem perto da minha cama, sem janelas e com uma poltronazinha no canto. Do outro lado, havia uma cortina e, atrás dela, pelo pouco que eu podia ver, uma porta que dava para o corredor. A cortina provavelmente era uma divisória entre a minha cama e uma outra que, deduzi, devia estar naquele quarto comigo. Antes que eu começasse a pensar em quem podia estar ali, vi meus pais na porta, conversando com uma médica.
Tossi algumas vezes, limpando a garganta. Depois, chamei o mais alto que pude:
- Mãe?
De início, ninguém pareceu ouvir. Tentei de novo, mais forte ainda:
- Mãe??
Dessa vez, as três cabeças viraram juntas. O alívio de meus pais ficou bastante visível imediatamente.
- Você acordou! – Minha mãe respondeu.
De repente, mais uma dúvida me ocorreu.
- Quanto tempo eu dormi?
- Umas onze horas. Nada além do normal. – Meu pai disse, sorrindo, piadista como sempre.
- Como você está se sentindo? – Minha mãe passava os dedos na minha cabeça, toda maternal. Como sempre.
- Melhor. – Tossi – O que aconteceu?
- Eu é que te pergunto. – A médica falou, meio que se intrometendo. – Você tem várias queimaduras, músculos inchados, cortes nas mãos que estavam infeccionados quando você chegou aqui, e temos várias razões para achar que a base do seu crânio está um pouco rachada.
Por instinto, passei a mão atrás da cabeça, perto da nuca. Tinha um calombo enorme ali, e doeu pra caramba quando eu encostei.
Vendo meu espanto, a médica deu um meio-sorriso afável, tentando me acalmar.
- Você vai ficar bem, não se preocupe. Não é nada que não dê para curar. O seu próprio corpo, com o tempo, pode dar um jeito nisso tudo. Nós só vamos acelerar o processo um pouquinho.
Acenei com a cabeça.
- Então. – Meu pai perguntou, puxando a poltrona mais para perto e sentando do meu lado. – O que foi que aconteceu com você?
Tossi mais uma vez, tentando me sentar. Doeu um pouco, mas eu tinha me cansado de ficar deitada, além de que é meio esquisito conversar com as pessoas deitada numa maca.
- Longa história. – Eu disse, com a voz cansada. Eles entenderam que eu não estava muito a fim de relatar os detalhes ainda – Vocês realmente não sabem o que foi?
- Bom, - Minha mãe começou – nós ficamos sabendo assim que você sumiu do passeio. Fomos direto para lá, mas ninguém conseguia te achar. Nem você, nem aquele outro menino, né, amor? Tinha um outro que tinha sumido também.
- Tinha. Foi o que disse para a polícia onde eles estavam.
- Ah, é! Claro.
- O Pedro? – Deduzi.
- Esse mesmo.
Minha mãe continuou:
- Bom, o fato é que nós ficamos desesperados, querida. – Ela disse, segurando a minha mão. De repente, fiquei muito mal pelos meus pais. Não tinha pensado em como tudo isso devia tê-los afetados. – Mas uma meia hora depois que a gente chegou no museu, um cara da polícia disse que o... Pedro, né?
- É.
- É, o Pedro. Ele tinha ligado e dito para onde eles tinham te levado. E onde
ele tava também, é claro. Ele não explicou nada, só deu o endereço, disse para virem logo e virem armados. Eu percebi que alguns policiais acharam que tudo não passava de uma brincadeira adolescente idiota, mas graças a Deus eles foram correndo. Disseram para mim e pro seu pai que era melhor a gente ficar. A gente ficou, porque era a polícia, e você não desobedece a polícia, mas...
- Uns cinco minutos depois, - Meu pai interrompeu – alguém lembrou que devíamos chamar a ambulância. Então, fomos juntos com os paramédicos. Quando a gente chegou lá, a polícia já tinha prendido todo mundo e você e o Pedro estavam deitados num canto, desmaiados. Os médicos então trouxeram vocês para cá.
Numa fração de segundo, dezenas de perguntas ecoaram na minha mente de uma vez só. Mas decidi por perguntar uma:
- E o Pedro está aqui também?
- Sim, nós o levamos direto para a emergência. – A médica respondeu – Ele estava em condições piores que as suas. Temos quase certeza de que uma bala passou raspando em seu braço direito.
Fiquei chocada com aquilo. Uma bala? Mas ele nem estava... sangrando? Mas que besteira a minha, ele estava sangrando! Como é que eu tinha me esquecido tão completamente daquilo?
- E como é que ele está agora?
- Bem melhor. Está se recuperando. Também não sofreu nada incurável. Vai ficar com uma cicatriz no braço, mas vai sobreviver...
Respirei fundo, aliviada. E então, uma coisa me ocorreu.
- Peraí... Ele... Você disse que nós... nós estávamos desmaiados lá na fazenda, quando vocês chegaram?
- É. – Meu pai disse, sem entender. – A polícia disse que não tinha visto no começo, mas isso é porque eles estavam meio ocupados com o tiroteio. Assim que eles prenderam todo mundo, perceberam vocês dois caídos do lado do galpão.
- Mas... a gente não caiu do lado do galpão. Eu lembro quando o tiroteio começou. A gente tava no meio da mata, que foi onde eu desmaiei.
A médica sorriu, começando a entender o que tinha acontecido.
- Então acho que você pode considerar esse Pedro um herói, menina. Ele deve ter te carregado de volta.
Um herói?
Sim, um herói. Ela estava certa. Apesar ter feito alguma idiotices, acho que tudo foi de boa intenção. Quando Rodrigo lhe deu uma oportunidade de sair, ele a usou, mas não porque tinha mudado de idéia. É claro que ele não mudara de idéia! Ele estava fingindo. Para poder me tirar dali mais tarde.
Ele era um herói.
- E onde ele está? – Perguntei para a médica.
- A dois quartos de distância, nesse corredor. Pensamos que talvez vocês gostassem de ficar no mesmo quarto, como sobreviventes da mesma guerra – Ela riu – Mas é proibido pelo hospital ter duas pessoas do mesmo sexo dividindo um quarto, a menos em casos de extrema necessidade.
Pensei na possibilidade de Pedro estar do lado de lá da cortina. Apesar de eu querer muito vê-lo agora, achei que realmente não gostaria de dividir um quarto com um garoto. Não mesmo. Era uma opção muito sábia a do hospital.
- Mas, – A médica continuou – uma das meninas da sua sala acabou se machucando feio enquanto te procurava naquele museu. Ela tropeçou e bateu a cabeça forte no chão, além de quebrar um braço. Foi realmente um azar enorme. Mas pelo menos você acabou não ficando sozinha.
- O quê? – Como assim, eu não tinha ficado sozinha?
Não consegui entender muito bem o que a médica (cujo nome, por acaso, ainda não me tinha sido dado) queria dizer, até que ela abriu a cortina, revelando ninguém menos que Yasmin na cama ao lado.
Agora ela estava dormindo, mas ainda dava para sentir a alegria saltitante que radiava daquele corpinho tão pequeno. Meu Deus, em tão pouco tempo, eu já tinha até esquecido da existência daquela menina! E, pelo visto, também tinha esquecido de que eu não gostava
tanto assim dela, porque vê-la ali me fez me sentir muito bem, mesmo.
Mas logo eu me esqueci dela, porque uma nova cara aparecia na porta.
A médica se levantou imediatamente.
- Pedro! Você acordou também! E... o que está fazendo em pé?
Olhei para ele, sem saber se sorria ou chorava. Estava super feliz de vê-lo ali também, mas o estado em que ele estava me assustou um pouco. Estava com o braço direito todo enfaixado e um suporte para soro seguindo-o, conectado ao outro braço; além disso, estava cheio de machucadinhos por todo o corpo e olheiras enormes embaixo dos olhos.
Eu sabia que ele estava pior do que eu, mas por um segundo fiquei com medo de como
eu devia estar. Eu também não devia estar com uma aparência muito atraente, agora.
Ajeitei a postura e peguei o cabelo, tentando domá-lo um pouco.
- Oi. – Sorri.
- Oi. – Ele sorriu também.
Meu pai imediatamente se levantou da poltrona, oferecendo o lugar para o novo enfermo do quarto. Não pude deixar de notar que ele, sutilmente, puxou a poltrona um pouco mais para longe da minha cama. Pedro podia estar machucado e ter salvo a minha vida, mas ainda era um garoto, e você sabe como pais são com os garotos.
A médica decidiu que era hora de continuar a conversa com meus pais.
- Bom, senhor Frederico, dona Júlia, vamos deixar esses dois conversarem um pouquinho, sim? – Ela disse, puxando-os de volta para o corredor. Depois, ela se virou para nós, pouco antes de fechar a porta: - E vocês, podem ir se preparando que a polícia vai vir aqui logo, falar com vocês. Eles estão precisando muito saber o que aconteceu, exatamente, e nenhum dos presos quer dizer nada.
Nós dois acenamos com a cabeça, e logo estávamos sozinhos. Quer dizer, exceto pela Yasmin dormindo ali do lado.
- Então. Só acordou agora? – Perguntei.
- Foi. Você?
- Foi.
Ficamos em silêncio por um tempo, até que Pedro criou coragem para falar o que parecia estar lhe incomodando.
- Olha, eu preciso dizer uma coisa. Por favor, não interrompa. Só deixa eu terminar.
Acenei que sim.
- Eu preciso me desculpar, Anna. Pelo que eu fiz, no museu e no galpão. Quero dizer, no museu, eu tava ajudando eles, mas é que eu pensei... você sabe. Mas logo eu vi que não era verdade. No galpão, quando ele me disse que eu ainda podia sair, e eu aceitei... eu não tinha mudado de lado, de verdade! Eu vi nos seus olhos que você...
- Eu sei. – Sorri, quebrando a regra de "não interromper" – No começo eu realmente achei que você tinha mudado de idéia. Mas eu já entendi. Você saiu para ter uma chance de tirar a gente dali.
Ele sorriu mais ainda também, aliviado.
- Foi, sim.
- Mas como você conseguiu?
- Bom... assim que eles... bem, você sabe... incendiaram o galpão. – Ele parou, olhando para as mãos – Eu percebi que teria que agir rápido. Por isso, contei para eles que a polícia estava a caminho, e que a gente provavelmente devia ir embora. Eles começaram a brigar, se deviam ficar e lutar ou se deviam ir embora. Fiquei meio surpreso ao ver que só o Rodrigo quis ir embora... quero dizer, lutar contra a polícia é meio que uma idiotice. Mas foi o que aconteceu. No meio da briga, eu me afastei de mansinho e fui te ajudar a sair. Mas logo que o Rodrigo pegou o carro e se mandou, eu percebi que...
- Peraí! – Interrompi de novo – Ele foi embora? Não foi preso?
- Não. Ele foi o único que fugiu.
- A polícia já sabe?
- Bom, contando que quando eles nos acharam a gente tava inconsciente, e ninguém da gangue disse nada, e a gente acabou de acordar, eu acho que não.
- Temos que contar agora!
- A gente vai. A médica disse que eles estão vindo agora, não disse?
- Certo. – Parei, respirando fundo. Estava meio difícil digerir tanta coisa de uma vez só – Então ta. Nossa, quando eles chegarem aqui, nós vamos ter muita coisa pra falar, não é?
- É, acho que sim. – Ele disse, no mesmo tom de pré-cansaço que eu. Aquilo provavelmente não ia ser muito divertido.
- Então, que tal a gente conversar sobre outra coisa, por enquanto? – Sugeri.
- Ok.
Ele olhou para o lado, encarando o gesso no braço da Yasmin. Pensei que era sobre ela que ele ia falar, quando de repente abriu a boca, mas o que saiu foi bem mais inesperado.
- Ei, quais você acha que são as chances deu conseguir meu celular de volta? Acabei esquecendo ele no mato.
Epílogo
Epílogo
Ainda está sendo codificado
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Sabe como é, link-me, links que recomendo, contador, awards... nada que eu esteja com paciência para fazer hoje. Talvez amanhã.